GOVERNABILIDADE E MEDIAÇÕES
NAS SOCIEDADES DA INFORMAÇÃO
3. GOVERNABILIDADE DO RISCO, TECNOLOGIA E INFOR MAÇÃO
Na perspetiva das teorias da sociedade do risco (Beck, 1992; Beck
et al., 2000; Giddens, 1991, 1999), os mecanismos de controlo social e
de gestão da confiança pública acionados pelo Estado estão muito depen- dentes de dois vetores: (i) da acumulação, informatização e manuseamento de quantidades massivas de dados sobre os cidadãos; (ii) de desenvolvi- mentos tecnológicos e científicos aplicáveis ao sistema de justiça criminal. Nesta secção discutiremos cada uma dessas dimensões das práticas estatais de governabilidade das populações e do risco da criminalidade.
O final do século XX trouxe o desenvolvimento tecnológico na área da vigilância em quatro campos fundamentais (Graham, 1998): redes interconectadas de partilha de informação; o poder de processar, manu- sear, transmitir e armazenar dados; a transformação de computadores em aparelhos de visualização, simulação e processamento de dados; e o surgimento das tecnologias de localização geográfica em tempo real, como o Global Positioning System GPS. Estas tecnologias aceleraram uma reconfiguração dos mecanismos clássicos de controlo da ordem pública e da criminalidade por parte do Estado. De acordo com vários autores (ver, por exemplo, Haggerty e Ericson, 2000; Van der Ploeg, 2003; Lyon,
2002; Lyon, 2004; Aas, 2004), trata-se de enraizar o conhecimento construído sobre as populações num tipo de linguagem traduzível e legível por máquinas (Dodge e Kitchin, 2004) e transmissível em padrões de informação que se organizam em “pacotes” mobilizáveis por diversos agentes de controlo social, como as instituições de investigação criminal. Um dos casos mais reconhecíveis pelo cidadão comum será a implemen- tação e expansão da videovigilância tanto em espaços de acesso restrito como em espaços abertos e públicos, com o intuito de registar imagens para posterior identificação (Hempel e Töpfer, 2009); poderíamos incluir aqui também tecnologias de geolocalização (GPS) ou de identificação biométrica (impressão digital, perfil de DNA).
Observa-se uma tendência para reunir o conhecimento produzido sobre os cidadãos em dados “objetiváveis”, passíveis de armazenamento em grandes bases de dados. De acordo com Aas (2004, 2006), criam-se assim “condições de virtualidade” que decompõem o indivíduo em algo identificável com certeza e precisão (“este perfil pertence à pessoa X e não à pessoa Y”), independentemente da sua presença. A pessoa é assim reescrita virtualmente, numa produção de “cultura-à-distância” que des- creve uma nova forma de identidade que pressupõe que o corpo é uma fonte de ordem. Dispensa-se desta forma o contributo pessoal do sujeito observado, já que o seu testemunho subjetivo passa a ser visto como uma fonte de incerteza e erro (principalmente face à certeza produzida pela tecnologia com recurso ao corpo). Deparamo-nos portanto com um novo tipo de identidade: uma “individualidade somática” que restringe as possibilidades de participação cidadã à contribuição certeira da infor- mação providenciada pelos corpos e dissecada pela tecnologia.
Neste sentido, o poder manifesta-se de forma “molecularizada” (Rabi- now e Rose 2003 apud Raman e Tutton 2009), ou seja, procurando a circunscrição e autorresponsabilização do indivíduo, aparentemente des- pido da influência do contexto social, representado pelo elemento iden- tificante armazenado em bases de dados. Trata-se de informação “des- provida de narrativa” (Aas 2004), onde noções como “raça”, classe social ou género são entendidas como meros indicadores subjetivos pelos pro- fissionais forenses que manuseiam a informação (por exemplo, os dados que são obtidos do indivíduo no momento de colheita de amostra bio-
lógica no âmbito de uma investigação criminal), que não interferem significativamente na identidade da pessoa, na medida em que a sua identificação ‘objetiva’ estará já, à partida, assegurada no código biológico (para uma crítica a esta postura nas ciências forenses, ver Duster, 2006).
Esta “nova ontologia do corpo” está evidenciada no debate sobre as bases de dados genéticos para fins de investigação criminal e a distinção entre “DNA codificante” e “DNA não codificante” (Van der Ploeg, 2003): teoriza-se que apenas parte da cadeia de genes que caracteriza a molécula de DNA é ativa na codificação das características que garantem o desen- volvimento e funcionamento normal do corpo humano; o resto da molé- cula será composto por DNA-lixo, genes que não são utilizados. Apenas o chamado “DNA não codificante” é utilizado na criação do perfil para inserção nas bases de dados genéticos com finalidades de identificação criminal (1). Isto acontece em concordância com um princípio de preser-
vação do direito à privacidade que está intimamente enraizado na confi- guração do corpo em informação, aqui dividida em graus de relevância (codificante vs. não codificante). Emerge, então, o direito a uma privaci- dade que já não surge ligada à intrusão no corpo do indivíduo, mas sim à intrusão do Estado na informação “guardada” no código genético.
O controlo e gestão da informação têm centralizado o debate sobre as novas formas de concetualizar direitos e garantias fundamentais do cidadão. Esta relação entre governabilidade e cidadania é mobilizada, sobretudo da parte das ciências sociais e humanas, para a reflexão crítica em torno de novas configurações de cidadania e de participação pública (Rose, 2000; Lyon, 2002; Hert, 2005). Como refere Rose (2000), veri- ficamos que os processos sociais de reprodução de mecanismos de desi- gualdade e de diferenciação social surgem cada vez mais mediados pelo controlo tecnológico e reforçados por uma cultura securitária. São prá-
(1) O princípio de que o perfil de DNA deduzido é inócuo, no entanto, é falso,
pelo menos em termos absolutos, como vemos no comentário de Cole (2007a). Argumenta-se, no entanto, que o seu valor informativo é mínimo e irrelevante do ponto de vista da identificação pessoal, já que estima-se que apenas perto de 1,2% do genoma é “codificante” (Niu e Jang, 2013), servindo a grande parte do genoma funções bioquímicas (ENCODE, 2012).
ticas que validam, quotidianamente, a correta participação cidadã através de processos tecnológicos de “securitização da identidade” — nos quais se incluem as tecnologias de vigilância e de verificação/confirmação de identidades. Ao mesmo tempo, uma camada de cidadãos, por infortú- nio, origem ou pelo seu comportamento, são excluídos enquanto “não-cidadãos”, “cidadãos falhados” ou “anti-cidadãos”, na medida em que são diferenciados no acesso a essas tecnologias: passaportes, cartas de condução ou cartões bancários delimitam e controlam, pela criação de códigos individuais de legitimação, uma nova geografia urbana. Fala- mos, portanto, de uma reformulação da governabilidade de populações a partir do controlo dos fluxos de informação e da gestão de circuitos de inclusão e exclusão, fundamentada no cálculo e na previsão do risco, apontando a investigação criminal para a pesquisa em bases de dados que circunscrevem “suspeitos estatísticos” determinados pela probabili- dade de uma correspondência de perfis (Cole e Lynch, 2006).
A informação sobre os cidadãos — ou em particular, sobre determi- nadas populações consideradas de risco — é estruturada e organizada de forma a poder ser interpretada e devidamente aplicada de acordo com uma determinada moldura legal e em coerência com o dispositivo buro- crático do Estado e com os acordos internacionais de cooperação entre países. Exemplo disso é o chamado Tratado de Prüm de 2005, um acordo internacional entre sete países da UE, entretanto incorporado como dis- posição legal europeia em 2008 (Decisão 2008/615/JHA de 23 de Junho; ver Walsch, 2008, que retrata o Tratado de Prüm como uma extensão dos pressupostos do acordo de Schengen) e cujas obrigações se alargarão a todos os países da UE. Segundo o Tratado de Prüm, os países compro- metem-se a partilhar informação sobre veículos, perfis de DNA e impres- sões digitais (pressupondo, portanto, a construção dos três tipos de bases de dados nacionais em países que ainda não as têm), de forma a contribuir para uma maior eficácia no combate ao crime e ao terrorismo perante a abertura da mobilidade entre as fronteiras dos países.
O Tratado de Prüm e subsequente decisão integram-se num conjunto de redes integradas de partilha e gestão de dados (tais como o Schengen
Information System, o Eurodac e o Visa Information System, sistemas de
— ver Broeders, 2007) que expandem e fortalecem as novas tecnologias de vigilância de forma a acomodar as exigências governamentais, tendo em conta a crescente exigência de liberdade na mobilidade das populações e dos mercados. A partilha de dados aparece então como o foco de um conjunto de políticas que, ao mesmo tempo, incrementam a incidência do dispositivo governamental sobre a vida das pessoas e das populações e obrigam a novas disposições legais e pactos internacionais que regulem a circulação e uso dessa informação. A título de exemplo, poderíamos incluir aqui a Diretiva de Retenção de Dados 2006/24/EC da Comissão Europeia, que estende e regulamenta o armazenamento de informação de telecomunicações potencialmente identificativa, como transferências bancárias, registos de chamadas/SMS ou logins no email, com o objetivo de combater o crime internacional e o terrorismo (Maras, 2012).
Os avanços legislativos ao nível europeu são apresentados como uma solução que garante não só o aumento da eficácia na pesquisa criminal e no combate ao terrorismo, mas que também procura uma maior pro- teção e segurança dos cidadãos. Este “casamento entre segurança e liberdade” configura a segurança como “direito fundamental” (Gonçalves e Gameiro, 2012) e encontra legitimação no discurso político, que tende a veicular a ideia que as bases de dados forenses para identificação cri- minal constituem uma ferramenta poderosa para “apanhar criminosos”, o que justifica a compressão dos direitos individuais em nome do bem coletivo (i.e. a segurança dos cidadãos) (Williams, 2010), conforme iremos discutir na próxima secção deste texto.