CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 A Internet, as Organizações e a Sociedade
2.1.1 Governança da Internet
Numa abordagem institucionalista, Goldsmith e Wu (2006) defendem a visão internacionalista para a Governança da Internet: a de uma instituição global para trabalhar em conjunto e regular certos aspectos da Internet, como a difamação, pornografia, direitos de autor e proteção do consumidor.
A formulação dos debates sobre Governança da Internet faz com que a aplicação de uma abordagem interdisciplinar seja indispensável: estratégias jurídicas, considerações econômicas e teorias sociológicas são tidas em conta na elaboração das diretrizes políticas regentes da Internet (GETSCHKO, 2008; KURBALIJA, 2016). A Figura 7 apresenta o roadmap da governança da Internet, com todos os seus 51 temas. No primeiro Fórum Global sobre Governança da Internet que ocorreu em Nova Iorque, assim disse Kofi Annan na abertura do evento, em 24 de março de 2004:
Em apenas poucos anos, a Internet revolucionou o comércio, a saúde, a educação e certamente a própria estrutura da comunicação e do intercâmbio humano. Além disso, o seu potencial é muito maior do que o que vimos no tempo relativamente curto desde a sua criação. Ao administrar, promover e proteger a sua presença em nossas vidas, nós devemos ser tão criativos quanto aqueles que a inventaram. É claro, coloca-se uma necessidade de governança, mas isso não significa obrigatoriamente que tenha de ser feito ao modo tradicional, para algo que é tão diferente (KURBALIJA, 2016, p.14).
Figura 7: Roadmap da Governança da Internet
No Brasil, o Comitê Gestor da Internet (CGI.Br) foi criado pela Portaria Interministerial nº 147, de 31 de maio de 1995. Em 3 de setembro de 2003, foi alterada pelo Decreto Presidencial nº 4.829 para realizar a interação e coordenação de todas as iniciativas de serviços Internet no Brasil, visando a promover a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados (CGI. 2017).
E-readiness, ou prontidão eletrônica, refere-se à capacidade e ao estado de preparação de
um país para participar do mundo eletrônico. O estado de maturidade é comumente medido pela infraestrutura de tecnologias de informação e comunicação do país (TIC) e pela capacidade do governo e dos cidadãos de utilizar os impactos positivos das TIC para o desenvolvimento sustentável. O Índice de Desenvolvimento de TIC (IDI) é um índice publicado pela União Internacional das Telecomunicações das Nações Unidas (UIT), com base em indicadores de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) internacionalmente acordados. Trata-se de uma ferramenta para comparar os indicadores mais importantes para medir a sociedade da informação. O IDI é uma ferramenta padrão que os governos, operadores, agências de desenvolvimento, pesquisadores e outros atores utilizam para medir a cisão digital3 e comparar o desempenho das
TIC dentro e entre países. O Índice de Desenvolvimento das TIC é baseado em 11 indicadores de TIC, agrupados em três clusters: acesso, uso e habilidades (ITU, 2016). Em 2016, o Brasil ocupou o 63º lugar. A Figura 8 ilustra o Brasil.
O Índice de Prontidão em Rede do Fórum Econômico Mundial (NRI – Network Readiness
Index), também conhecido como Readiness da tecnologia, mede a propensão para que os países
explorem as oportunidades oferecidas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). É publicado em colaboração com o INSEAD, como parte do Relatório anual de Tecnologia da Informação Global (GITR). Este relatório é considerado a avaliação mais autorizada e abrangente de como as TIC afetam a competitividade e o bem-estar das nações.
3 Cisão ou divisão digital compreende a separação entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento,
O índice foi desenvolvido originalmente pelo Grupo de Tecnologia da Informação, o qual trabalhou no Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard até 2002. Este busca entender melhor o impacto das TIC na competitividade das nações e é composto por três componentes: (1) o ambiente para as TIC oferecido por um determinado país ou comunidade (ambiente de mercado, político, regulatório e de infraestrutura), (2) a prontidão dos principais
stakeholders do país (indivíduos, empresas e governos) para usar as TIC, e (3) o uso das TIC entre
esses stakeholders (WORLD ECONOMIC FORUM, 2016).
De acordo com o índice, em 2016, o Brasil ocupou a 72ª colocação, revertendo parcialmente a forte tendência descendente dos últimos anos. A adoção e uso das TIC por parte dos indivíduos e da comunidade empresarial é considerada adequada e apoiada por uma boa acessibilidade - em particular, conexões de internet de banda larga fixas baratas (14ª posição). O Brasil faz grandes avanços em termos de melhorar o uso individual este ano, escalando cinco lugares para o 57º lugar, uma conquista considerável, dado que outros países também estão movendo-se rapidamente na adoção individual.
No entanto, a prontidão em rede no país continua a ser retida por um ambiente regulatório fraco. O ambiente de negócios e inovação também é classificado como um dos mais fracos do mundo (124º lugar), com disponibilidade de capital de risco e aquisição de tecnologia do governo em queda. O apoio governamental da agenda de TIC é considerado fraco e a comunidade empresarial vê o governo como incapaz de entregar em termos de incorporação de tecnologias digitais em sua estratégia geral (121º lugar), bem como na promoção direta das TIC (122º lugar) (WORLD ECONOMIC FORUM, 2016). A Figura 9 presenta o gráfico relativo ao país.
Figura 8: O Brasil no relatório de E-readiness do Fórum Econômico Mundial (2016)
Figura 9: Brasil ICT Development Index 2016
Fonte: ITU União Internacional das Telecomunicações das Nações Unidas (2016).
Há uma discussão sobre o quanto deve ou não a Internet ser regulamentada, se os instrumentos tradicionais do direito são válidos para a Internet. Neste caso, a Internet seria mais um meio de comunicação, como a todos os outros. E existe a abordagem neocibernética, que
defende que a Internet carece de regulamentação própria por ser algo inédito, maior do que as mídias tradicionais (KURBALIJA, 2016). Em quaisquer dos casos, o processo de elaborar sobre questões legais e consequências sociais sobre desenvolvimentos tecnológicos vem invariavelmente depois da inovação tecnológica ela mesma, e isto também se aplica à Internet (DERTOUZOS, 1997; KURBALIJA, 2016; ZUFFO, 2004).