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O governo Dilma Rousseff

No documento ANÁLISE DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA (páginas 32-35)

4. O poder e a elite brasileira no governo do PT (2003-2014)

4.4. O governo Dilma Rousseff

Na política brasileira internacional o que se viu a partir de 2011 foi a redução da pró-atividade externa em comparação a politica do governo Lula. Embora, Dilma Rousseff ao assumir em 2011 enfatizou que em seu mandato daria continuidade a política de autonomia e inserção internacional iniciado no governo Lula (PINTO, 2016). O que não se confirmou, dado que havia uma diferença crucial entre Lula e Dilma, a importância que cada um depositava nas relações internacionais do Brasil e postura da diplomacia presidencial que cada um exerceu em que Lula assumiu muito mais a figura diplomática do que Dilma (CORNETET, 2014).

A eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República provocou mudanças nas correntes de pensamento que prevaleciam no Itamaraty. A corrente de viés mais desenvolvimentista (autonomista) continuou na chefia de cargos principais do ministério das Relações Internacionais, enquanto o grupo pró-integração perdeu força de decisão, de forma que, embora fossem mantidas as linhas gerais de política externa consolidadas no governo Lula – como a atuação do Brasil em foros multilaterais representando os países do Sul e o foco na integração sul-americana –, não se observou atuação do governo com elemento de equilíbrio e nem vontade política para o entorno regional (SARAIVA, 2013).

No governo Dilma manteve-se a América do Sul em evidência, mas deixou de ser prioridade. Neste período, o governo se dividiu entre iniciativas mais voltadas ao

plano global e questões de cunho doméstico em detrimento da política externa.

Evidenciando uma considerável perda de força na diplomacia presidencial, em comparação ao governo Lula, em função da preferência do governo Dilma pela esfera doméstica e também pela falta de coordenação com os formuladores de política exterior do Itamaraty, no mesmo período, começou a ser observado certo esvaziamento e até desprestígio em comparação ao governo Lula (LEÃO, 2016).

Cornetet (2014) evidencia a desaparecimento de uma política externa mais

“altiva e ativa” instituída no governo Lula, e a crescimento de uma política mais

“reativa”, como exemplificada pela suspensão do Paraguai do Mercosul e da demissão do ministro das Relações Exteriores – Antônio Patriota –, no começo do governo Dilma. Essa perda da altivez e de atividade da política exterior também foi destacada por Casarões (2015), que realçou ainda, a adoção atitudes mais tática, desse governo, em sua maioria defensiva.

De acordo com Cervo e Lessa (2014), a transição do governo Lula para Dilma representou um visível declínio da política externa brasileira. Os autores consideraram um aviltamento relativo da diplomacia do país, que outrora havia ascendido à condição de potência emergente e, agora sofria com as dificuldades de diálogo com os Estados, na esfera internacional. Para Miranda e Ribeiro (2015), a tendência declinante se tornou visível na ausência de soluções do governo para os problemas econômicos que cresciam e se avolumavam, como a queda do Produto Interno Bruto – PIB, o processo de retrocesso da industrialização e redução das exportações brasileiras.

O claro recuo da diplomacia conduzida por Dilma se deve aos aspectos basilares como o desgaste da capacidade de articulação com os agentes prioritários da política externa brasileira, agravada por sucessivos embaraços diplomáticos. De forma que, a projeção do Brasil na esfera internacional foi extremamente prejudicada pela falta de sintonia entre a presidente Dilma – com sua postura pragmática e centralizadora – e o Itamaraty (SENHORAS, 2013). Neste período, a agenda brasileira para a integração da América do Sul, especialmente no que se refere à pretensão de liderança na região, estaria em crise, haja vista a resistência deste governo em assumir o papel de financiador do projeto de regionalização (BELÉM LOPES, 2013).

Em termos de comparação, mesmo que predominou aspectos de continuidade no discurso dos dois governos do PT, observou-se a preferência por

‘caminhos distintos’ no tocante a política externa de Dilma, a exemplo de sua procura por melhorar as relações com os EUA (SOUZA; SANTOS, 2014). No entanto, a tentativa inicial de maior aproximação com os EUA, terminou em um grande fracasso, com a divulgação da realizadas de operações de espionagem por órgão de inteligência do governo dos EUA, nas comunicações telefônicas e eletrônicas de cidadãos, empresas e instituições brasileiros (MIRANDA; RIBEIRO, 2015).

O incidente da espionagem levou o governo Dilma a buscar o apoio de outros Estados, inclusive dos países vizinhos na América do Sul, como pressuposto de defesa da liberdade e da soberania dessas nações. Inclusive, ressaltando os méritos dos distintos blocos de integração regional, principalmente em referência à proteção da estabilidade política, da cooperação econômica e da autonomia (MIRANDA;

RIBEIRO, 2015).

Saraiva (2014) relata que, a busca pelo assento permanente do Conselho de Segurança da ONU, que ocupou destaque no governo de Lula, embora não tenha sido deixada de lado, perdeu impulso. O Fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) teve seu foco de ação reduzido ao tema, apesar do discurso que defendia a participação de seus membros no Conselho. O BRICS, embora tenha avançado um pouco no período em se tratando das articulações em fóruns multilaterais (especialmente para questões de segurança), não teceu uma posição conjunta de apoio à inserção permanente do Brasil no Conselho de Segurança, faltou conquistar o apoio da Rússia e China, para tal.

Dilma priorizou aperfeiçoar laços mais burocráticos e institucionais com parceiros estabelecidos, de forma que essas ações contribuíram para a continuidade de políticas iniciadas por Lula. Como exemplo destas ações, pode ser citado, o esforço de diálogo com os BRICS, e a posterior criação do chamado Banco de Desenvolvimento dos BRICS77 em 2014 (CORNETET, 2014).

A inclusão da África do Sul ao então BRIC restringiu as áreas de atuação do IBAS, provocando uma sobreposição de agendas que fortaleceu o primeiro mecanismo em detrimento do segundo. A diplomacia nacional considerou prioritárias as intervenções nas agendas do BRICS, ao passo que as iniciativas do IBAS restringiram-se ao Fundo IBAS e à interação entre as organizações da sociedade civil (SARAIVA, 2014). Ainda segundo a autora o foco principal e renovado da política de Dilma, foi à atuação do Brasil no BRICS. Nas cúpulas, diversos acordos

foram assinados, mesmo que mantivesse uma baixa institucionalidade. O campo em que o BRICS mais avançou foi o financeiro, com a criação de um banco, consolidado na cúpula de 2014, para o financiamento de infraestrutura de países do bloco, em conjunto com mecanismos de cooperação entre os bancos de desenvolvimento em cada país. E a criação de um fundo de apoio aos membros do bloco com dificuldades financeiras.

Na visão de autores como Cervo e Lessa (2014) e Neves (2011), faltou à diplomacia de Dilma Rousseff e um aguçado sentido de adaptação e atualização de seu antecessor, o que se refletiria em algumas continuidades, porém, acabaram retidas por um efeito de inatividade.

Apesar da diferença existente entre ambos, segundo Pinto (2016), quando se analisa o papel da política internacional brasileira no período (2003-2014) início do século XXI observa-se claramente a predisposição do Estado em assumir o papel de liderança no sistema internacional, porém, de forma nova e autêntica, para não reproduzir os padrões clássicos de imposição de poder, mas por outro lado, tentando construir uma opção viável de poder que considerasse a limitação de recursos de poder que o Brasil e os países do Sul possuem e a criação de um novo paradigma de interdependência que atendesse os interesses dos países em desenvolvimento no âmbito internacional.

No documento ANÁLISE DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA (páginas 32-35)