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CAPÍTULO 3: INTERPRETAÇÃO DAS INFORMAÇÕES PRODUZIDAS

3.1 ANÁLISE CURRICULAR: DETERMINANTES POLÍTICO-PEDAGÓGICOS EM

3.1.2 A Grade Curricular do Curso de LCN da UFBA

A grade curricular que compõe o curso de LCN da UFBA é constituída por um conjunto de componentes curriculares disponibilizados por 11 departamentos (ou unidades acadêmicas) diferentes da universidade (Arquitetura; Letras; Instituto de Ciências da Saúde; Biologia; Química; Matemática; Geografia; Física; Nutrição; Farmácia e a Faculdade de Educação). O curso possui um total de 41 disciplinas (37 obrigatórias e 4 optativas), além do espaço destinado às atividades complementares, que contabilizam uma carga horária total de 3311 horas distribuídas pelo tempo mínimo de 7 semestres de curso (Anexo 1) e que já contempla as 3200 horas mínimas de trabalho acadêmico exigidas pela Resolução CNE/CP2/2015 de 1º de julho de 2015.

De forma geral, mesmo já apresentando pontos de consonância com as orientações estabelecidas pela referida Resolução do CNE de 2015, similarmente ao que foi observado no PPC do curso, tanto a grade curricular (junto à disposição de seus componentes curriculares) como as ementas, que representam as disciplinas desta licenciatura, possuem ainda alguns impasses quanto à sua organização como um curso de formação docente que necessita “conduzir o(a) egresso(a) [...] à integração e interdisciplinaridade curricular, dando significado e relevância aos conhecimentos e vivência da realidade social e cultural” (BRASIL, 2015, p. 06).

As dificuldades identificadas são compostas por algumas adequações ainda necessárias e que vêm sendo discutidas no processo de reformulação curricular do curso diante das orientações nacionais para formação inicial do professor e também referentes ao contexto de integração curricular entre as diferentes áreas que compõem o curso. Dentre as citadas adequações estão:

a) a reorganização do tempo mínimo de 3,5 anos para a conclusão do curso precisa ser alterada para os 8 semestres (4 anos) estabelecidos pelas diretrizes nacionais (BRASIL, 2015).

b) a ausência de “400 horas de prática como componente curricular, distribuídas ao longo do processo formativo” (BRASIL, 2015, p. 11) que deveriam ser implementadas (em cada semestre) como um componente curricular

responsável por integralizar os saberes apreendidos até o momento, revertendo-os em atividades práticas para a formação e atuação docente. Além das adequações às orientações nacionais, a grade curricular do curso de LCN da UFBA possui ainda algumas dissonâncias quanto ao nível de integração dos seus componentes curriculares ao longo dos semestres. Em síntese, trazendo o referencial de integração curricular para a perspectiva do materialismo interdisciplinar que prevê uma ação coletiva entre diferentes profissionais de distintos campos do saber em prol de uma aprendizagem final emancipatória (HORKHEIMER, 2000), os componentes curriculares do curso possuem, a partir da análise de seus planos de disciplinas (UFBA, 2009), distanciamentos tanto em nível horizontal (entre disciplinas do semestre) como também em nível vertical (entre disciplinas de diferentes semestres).

Estas lacunas identificadas ressoam, inclusive, entre disciplinas da própria unidade acadêmica que apresentam em seus conteúdos programáticos aprofundamentos teóricos específicos de seu campo do conhecimento, ignorando a adaptação necessária para a formação de um profissional de ensino que atuará com estudantes na faixa etária média entre 11 até 15 anos de idade (Ensino Fundamental II) ao invés de estudantes do Ensino Médio, etapa de atuação específica dos egressos das demais licenciaturas, como a de Biologia ou de Física.

Outro ponto importante (talvez o mais emblemático) sobre a grade curricular, a ser ressaltado, refere-se ao número de 11 unidades acadêmicas que compõem a organização do curso (Figura 2). Esta organização, como já foi descrita na análise do PPC, sustenta-se na concepção de um possível diálogo entre os distintos campos do conhecimento como uma forma de evitar a fragmentação dos saberes apresentados ao longo da licenciatura.

Entretanto, o que é percebido, neste momento, em nível da análise documental dos dispositivos curriculares que orientam a LCN da UFBA é que existem alguns pequenos grupos de disciplinas, principalmente as alocadas na Faculdade de Educação (relacionadas diretamente com pressupostos pedagógicos para a formação do professor de Ciências Naturais) que possuem uma construção linear de seus programas de ensino, baseados em um fio condutor que se propõe em desenvolver discussões teórico-práticas ligadas à realidade múltipla do professor,

fator, desta forma, importante para a aprendizagem integradora do licenciando. Neste sentido, Fazenda (2011) endossa esta discussão acerca destas construções curriculares lineares afirmando que tais objetos não passam de orientações regidas em uma formação,

[...] fragmentada, produto de um currículo linear pré-fixado, em que não se

coloca a possibilidadede estudar uma adequação à realidade, a não ser em

algumas matérias específicas. Apesar de pretender-se que haja um inter-

relacionamentodisciplinar no que se refere à formação tanto de professores

quanto de pedagogos, não se observa uma orientação para a efetivação

dessa formação. Desde que não existe uma orientação efetiva para a

interdisciplinaridade no que se refere aoscursos de formação de professores.

(FAZENDA, 2011, p. 143-144)

Por outro lado, as disciplinas responsáveis pelos conhecimentos específicos das áreas que constituem as Ciências Naturais apresentam entre si diferenças profundas quanto aos conteúdos propostos, mostrando que o diálogo sugerido entre os diferentes campos do saber que sustentam esta licenciatura ou se faz ausente ou incapaz, ao nível desta análise documental, de proporcionar aos licenciandos as ligações culturais, sociais, políticas e científicas esperadas neste campo interdisciplinar do conhecimento. Estas dificuldades levam o licenciando a transitar, no mesmo semestre, por cinco ou até seis unidades acadêmicas distintas que, sim, proporcionam saberes distintos, mas em níveis de aprofundamento teórico-prático destoantes.

Desta forma, como apontado por Avigo et al. (2008), mesmo compreendendo a necessidade desta licenciatura em transitar por diversos campos do saber para contemplar os conhecimentos importantes na atuação do professor de Ciências Naturais, questiona-se se é prudente submeter os estudantes a vagarem por tantos contextos político-educacionais dentro da Universidade sem um fio condutor formativo evidente entre eles. Talvez a resposta para esta indagação esteja contida nos próprios exemplos presentes em outras licenciaturas sediadas na UFBA. Dentre elas, a Licenciatura em Química (Anexo 2) configura-se como um dos cursos de formação docente presentes na instituição que vem buscando se adequar, já a algum tempo, às novas exigências contemporâneas para a atuação docente.

É fato que ambas as licenciaturas possuem histórias e contextos formativos distintos, mas é inegável (e necessário) observar as experiências outras para ressignificar dilemas que dificultam o processo de ensino-aprendizagem do curso,

principalmente por se tratar de uma licenciatura que já possui componentes curriculares que contemplam a carga horária de 400 horas práticas ao longo dos semestres, que reúne as suas unidades acadêmicas integrantes em apenas 5 institutos (Química, Matemática, Física, Letras e a Faculdade de Educação) e que reorganizou o seu componente curricular Estágio Supervisionado, diluindo-o em 4 disciplinas de práxis pedagógicas. Tal ponto também ainda ausente na grade curricular da LCN da UFBA que unifica as 400 horas de estágio em apenas um único componente curricular no último semestre letivo, isolando este momento crucial na formação docente (responsável entre tantas outras demandas pelo período da regência de uma sala de aula) em apenas um curto espaço de tempo.

Figura 2 – Fluxograma da Grade Curricular do Curso de LCN da UFBA

Fonte: Adaptado de UFBA (2009).

Desta forma, as necessidades e todo o conjunto de dificuldades em nível curricular do curso de LCN da UFBA ainda são muitas, elevando assim o número de obstáculos de ordem política (quanto às determinações dispostas no PPC do curso) e pedagógica (quanto a organização teórico-prática dos componentes curriculares) para a adoção, ao longo do curso, não apenas de um formação interdisciplinar (a nível prático, teórico e dialógico) do professor de Ciências Naturais, mas que seja significativa ao ponto de contemplar as exigências mínimas contidas nas Diretrizes

Nacionais (BRASIL, 2015). Portanto, é preciso que as limitações curriculares sejam repensadas, em meio ao processo de reformulação acadêmica que o curso vem passando, compreendendo tanto as urgências político-pedagógicas como também as necessidades de ordem social, quanto aos anseios dos sujeitos integrantes das diferentes instâncias acadêmicas que compõem o curso.

3.2 ENTREVISTAS: DETERMINANTES SOCIAIS A PARTIR DOS RELATOS DOS