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4. Aspectos linguísticos

4.1. Ortografia

4.1.2. Grafemas consonânticos

Entre os restantes grafemas consonânticos damos especial destaque aos que no seu uso se distanciam da norma ortográfica actual:

Fonema oclusivo bilabial sonoro /b/ <b> e <bb>

O fonema oclusivo bilabial sonoro /b/ é representado na Escola Nova, à semelhança do que acontece actualmente, por <b> quer em início quer em interior de forma. Há, todavia, quatro vocábulos em que o fonema é grafado por <bb>: abbade; abbrevaituras, abbreviar e abbadia(s).

<c>, <q>, <k>, <cc> e <ch>

O fonema oclusivo velar surdo /k/ surge representado pelos grafemas c, cc, q, k, e ainda por ch.

O grafema <c> é usado antes das vogais a, o, e, u. Já o grafema <q> surge sempre com u posposto. Existe, no entanto, um caso de grafia qn − ciqnateo (p.207).

O uso do símbolo K ocorre, geralmente, na transcrição de topónimos estrangeiros. Surgem representados com <k>:

a) em início de forma – Kamalucos, que coocorre com Kalmucos, Koubunos; Kian; Kameschatka, que coocorre com Kamischatha; Kabrata; Kepulsa; Kendal; Ken; Kent; Kenner; Kensi; Kiahn; Kirman; Kicaw; Kersey; Konisberg; Kyrios; Kecio.

b) em interior de forma – Pikin que coocorre com Pekin; Peke, Oakban; Tokai; Taikosama; Roskil; Duckingham, que coocorre com Buckingham; e também Valkembourg; Ostiakos; Usbekos; Diarbenkin; Turkestan; Samarkand; Makeran; Nankin; Chekian; Pekeli; Fokien; Salomiki; Gerkesi; Xikeko; Carapalpaks.

c) em final de forma – Quebek; Pembrook; Suffolok; Berck; Warwinck; Calemback; Crapack; Munick; York, que cooccore com Yorc; Norfolk; Brunswick; Mark; Lubeck; Diarbeck; Terkey; Bark; Tergowisck; Jaick.

(com quatro ocorrências); ecclesiasticos; occupo; occupaõ; occupe(m); occulto; occultassem; occasionar; occidente; occidental; occorreo; peccar; peccaõ; peccado(s); peccador(es); secca(r); succede; succinto; successor.

Grupo <ff>

O fonema fricativo labiodental surdo /f/ tem representação gráfica através de f, ff e ph. Grafam-se com duplo f – affecto; affastados; affligir; differente; offerecida; officina; soffrer; soffrido; offender; offendido; offendas; offererce(r); offerecerá; effeito(s); offertorio; soffrestes; offusque; ineffavel.

Como já verificámos, existem também alguns vocábulos que se grafam com ph. Trata-se de topónimos estrangeiros: Niphon; Philipolis; Phililepevílli; Westphalia; Sophia e Zutphen. Neste aspecto o autor propõe uma simplificação da grafia, considerando “que os nomes Gregos, que se escrevem com ph,”68 devem simplificar-se em f, apropriando-os à Língua Portuguesa.

Fonema oclusivo velar sonoro /g/

Quanto à representação do fonema oclusivo velar sonoro /g/ utiliza-se, em Escola

Nova, a grafia g antes das vogais – a, o, e u. Como explica o autor na parte alusiva à

“pronunciaçaõ de algumas letras”:

“Antes de a, o, u, com a sua propria pronuncia: v.g. Gato, gota, gula; e antes de e, e i, com a sua impropria: v.g. gente, gigante; e para que esta impropria seja propria, se lhe pospoem o u, liquido: v.g. guerra, guita.” 69

Assim, à semelhança do que sucede actualmente, o g procedido de e ou de i tem o valor da palatal sonora [g]: Genebra, passagens, gigante, dirigida.

Noutro contexto, e quando seguido da vogal velar u, apresenta o dígrafo gu, como se pode verificar pelos exemplos: guerra e guita.

Para além das situações já mencionadas, o fonema oclusivo velar sonoro ocorre ainda em início de forma na grafia de gloria, grande, gregos, grega e grãos. Registam-se apenas duas diferenças entre as formas usadas por Ameno no seu manual escolar e as que empregamos hoje em dia, sendo estas: signal e aggravo, com uma e cinco ocorrências, respectivamente.

Símbolo <h>

O h é um símbolo etimológico, ou seja, está presente em palavras cujo étimo

latino já o possuía. Nesta situação, e em início de forma, deparamo-nos com vários vocábulos que, actualmente, continuam a escrever-se com este grafema: hóstia; hábil; habita; hastes; habitou; heresias; humano; humanidade; homem; honestos; hoje; hora; honra e ainda em formas do verbo haver – hei, ha, ha-de, haõ e havia.

Surge ainda na representação de formas correspondentes a determinantes artigos indefinidos – hum, huma, huns e humas.

Aparece também na forma representativa da terceira pessoa do singular do verbo ser, no presente do indicativo – he e ainda no gerúndio do verbo haver – hindo, com uma única ocorrência.

Ocorre em posição interior, entre grafemas vocálicos, para marcar o hiato, como sucede em – cahir e sahir e, para além destas formas no infinitivo, surgem ainda outras formas da conjugação destes verbos: sahe (forma representativa da terceira pessoa do singular do verbo sair, no presente do indicativo); sahirá (forma representativa da terceira pessoa do singular do verbo sair, no futuro do indicativo); sahiraõ (forma representativa da terceira pessoa do plural do verbo sair, no futuro do indicativo).

Em posição interior a ocorrência de h verifica-se também nas formas de memória etimológica grega, associada a c, nomeadamente, em christã, christaõ, como já tivemos oportunidade de explicar, e ainda a t em methodo, rethorica, entre outros exemplos, que oportunamente abordaremos.

Para além destes exemplos é ainda de salientar alguns casos em que se regista a sua ocorrência depois do prefixo “des” – deshonesta, deshonestos e deshonestamente.

Fonema lateral alveolar sonoro /l/

O fonema lateral alveolar sonoro /l/ surge representado na Escola Nova através de <l> e <ll>, a consoante dupla ocorre apenas em posição medial e é de natureza etimológica:

alla − Falla(r); fallando; juntallas; Tassalla; alle −Allega; cavalleiros; fallemos; valles; Galles; alli − Alliada; Galliza; Balliages; Callioubec;

allo − Arevallo; vassallos; mudallo;

ella − Ella(s); della(s); nella(s); aquella; janella; Brusselas; Castella; Estella; Rochella; Ribadesella; Compostella; bella(s); cautella;

elle − Elle(s); delle(s); aquelle; àquelles; accellerar; nelle; Chatelleraut; Vercelle; Belley; Mellecran;

elli − Intelligivel, intelligencia;

ello − Appello; bello; Barcellos; Castella; castello; libello; cotovellos; cabello; marmellos; pello; martéllo;

illa − Villa(s); Chincilla; Villajoiosa; Lilla; Brilla; Villamaior; Povilla; ylla − Syllabas; monosyllabo;

illi − Humillimo; facillimo; illicito; Damvillier; illu − Illustre; Aurilluc;

olla − Colla; collado; escolla(s); Hollanda; hollandez(eses); olle − Folle; collegiadas;

ollo − Collocar.

No caso de ênclise, com os pronomes pessoais o/os e a/as, na forma “lo”e “la(s)”, nas formas verbais em que ocorre, está, actualmente, sempre separado da forma verbal por hífen na ligação base.

Neste manual, porém, encontram-se apenas duas formas em que o pronome aparece aglutinado com a forma verbal, apresentando duplo l: juntallas e mudallo, com um ocorrência, respectivamente. Estes são os únicos casos em que o autor justapõe o pronome átono à forma verbal, sem qualquer sinalização de hífen.

Fonema oclusivo bilabial sonoro nasal /m/

O fonema oclusivo bilabial sonoro nasal /m/ surge representado pelo grafema <m> simples ou composto, apresentando este último um número considerável de ocorrências: communica; communicaçaõ; communhaõ; communga(r); commettidos; comemttem; commettemos; commedidos; commua; commummente; commutar; commercio; grammatica; grammatical; immortal; immensos; immediato; immediatas; summo; summamente.

Fonema oclusivo alveolar sonoro nasal /n/ e /nn/

À semelhança do que sucede no exemplo anterior, também o fonema oclusivo alveolar sonoro nasal é representado graficamente em Escola Nova por <n> ou <nn>. Ocorre na forma geminada em: Anna; anno; annal; Annis; annexos; annular; Guinnee; innocente; innovar; Jannina; Marenne; penna; Rennes; Valenciennes; Vianna; Vienna.

Fonema oclusivo bilabial surdo /p/

O fonema oclusivo bilabial surdo /p/ apresenta-se frequentemente grafado em <pp>: appello; appettite; apparece; applicar; applicarem; applicação; opprimido/a; suppor; supposto; supplemento; mappa; opponho; Filippe; Fillippinas.

Vibrante simples e múltipla R duplo

No que respeita à vibrante não há muito a acrescentar, uma vez que se verifica a observância das regras que actualmente vigoram no Português padrão. Citamos alguns exemplos: arriscar; corrompendo; concorrem; corrompemos; corruptas; corrompaõ; corrupçoens; concorrendo; correspondendo; correspondiaõ; guerra; terra; irracional; incorruptos; carregamos; jarro.

Não existem casos de vibrante múltipla em início ou final de palavra, como adverte o autor:

“Adverti porém, que nem no principio, nem no fim da dicçaõ dobrareis a letra, escrevendo llança, rramo, por lança, ramo; e fezz, mezz; por fez, mez; e depois da consoante, escrevendo honrra, por honra.”70

Fonema fricativo ápico-alveolar surdo

<s, c, ç, ss e sc>

O fonema fricativo ápico-alveolar surdo [s] surge, por via da regra, representado por -ss-: passos; assim; isso; vosso; purissima, entre outros exemplos.

Já a realização gráfica da fricativa palatal sonora [z] flutua entre -s- e -z-, nos seguintes exemplos: casa/caza; cousa/couza; visinho/vizinho, com apenas uma

desoito, com seis e uma ocorrência. Nesta oscilação gráfica entre s e z em posição medial vocálica, o uso alternado dos grafemas corresponde a uma mesma actualização fónica.

O símbolo z ocorre no manual setecentista em lexemas onde actualmente se escreve s: dezejarás; cortezia; meza; peza; pezada; pezos; escuzado; pozesse; improvizo; vizitar e Luiz.

Grafam-se igualmente com z alguns nomes terminados em -es (ês): holandezes; francezes; portuguezes e inglezes.

O símbolo ç surge com valor de [s], em posição inicial: descanço e çumo, com uma ocorrência. Verifica-se ainda a existência de lexemas cuja grafia oscila apenas entre s e ç, como é o caso de esperansa/esperança, com uma e seis ocorrências, respectivamente. No entanto, à excepção destes exemplos, o autor diferencia o uso de s e ç, como demonstra na explicação que nos apresenta:

“A letra c, antes de e, e i, se pronuncia como s: v.g. cerco, circulo; porém antes de a, o, u, se pronunciará como q: v.g. capa, copo, cubo; e se applicarem deste modo ç, se pronunciará como s: v.g. graça, moço, çumo.”71

Com efeito, çumo é o único exemplo em que ç surge em posição inicial. Os restantes casos de grafia de c e de ç obedecem às regras explicitadas pelo autor. Regista- se apenas um único exemplo da flutuação entre ç e c: jurisdicçoens (com três ocorrências) e jurisdiçoens (com uma ocorrência).

A grafia <sc> é usada num contexto que hoje não se constata – sicencia (com quatro ocorrências) e sciencias (com três ocorrências).

O fonema oclusivo linguodental surdo /t/

O fonema oclusivo linguodental surdo /t/ surge graficamente representado por <t> simples ou duplo e ainda por <th>. O t duplo tem ocorrência abundante, mas exclusivamente em contexto medial intervocálico, como podemos verificar nas formas a seguir apresentadas: accometter; attençaõ; attender; attendendo; appettite; commettidas; commettem; commettemos; emitte; fraquette; fraquetta; mette(r); mettendo; permitte; primittivas; promettemos; promette e sette.

O th está presente em:

a) Substantivos – authores; authoridade; arithemetica; catholica; catholicos; cathecismo; cithara; orthografia; orthodoxa; parenthesis; methodo; thesouro; thezoura; theologaes; athlantico (com duas ocorrências) que flutua entre a forma atlantico (com uma ocorrência);

b) Antropónimos – Matheus; Thomasia; Thomé; Balthasar;

c) Topónimos – Athenas; Bethune; Bothinhas; Cathâo; Corintho; Carthagena; Dronthem; Ethiopia; Ethna; Lithuania; Thebas; Thomar; Thierri; Menthould; Thionville; Pithivier; Monthrisson; Thessalica; Thessalonica; Nith; Kamischatta; Pathomos; Forth; Isthmo; Nazareth; Theset.

Símbolos <v> e <u>

Na transcrição do fonema fricativo labiodental sonoro /v/ recorre-se sempre ao grafema v. Na verdade, o autor distingue as letras ramistas, usando sempre v e V com valor consonântico e u e U com valor vocálico.