2.5. Autores e obras publicados
2.5.3. Intenções do autor e estratégias discursivas
O prólogo é o espaço eleito pelos autores para estabelecer um primeiro contacto com o público leitor, apresentar as intenções, os objectivos do seu trabalho e rebater possíveis críticas.
O nosso autor também não constitui excepção à regra e faz do seu prolegómeno, nome criteriosamente seleccionado para o seu prólogo, uma vez que se trata de uma apresentação expositiva, de dimensão considerável, com cinco páginas, o palco privilegiado para clarificar os seus intentos, dirigindo-se a um público selecto e procurando escudar-se das críticas de que suspeita vir a ser alvo. Com efeito, este texto de apresentação, escrito para elucidar o leitor e aliciar a sua atenção para a obra em questão, para além de funcionar como um espaço de defesa, revela um autor consciente dos gostos do público leitor, que antevê o desagrado que a sua obra iria suscitar para alguns, a reprovação e/ou desvalorização que desencadearia noutros:
“Sim; porque os Zoilos33, huns dizem, que o Diccionario he mui pobre de vocabulos:
outros, que muitas significações saõ improprias: estes, que a dicçaõ ainda tem outras accepções, de que naõ faz mençaõ o Diccionario: aquelles finalmente, que he destituido das frazes da propria Lingua.”
Consciente do desagrado que a sua obra poderia suscitar nos potenciais leitores, o autor manifesta uma necessidade premente de rebater possíveis críticas que lhe pudessem dirigir e de justificar quais os seus intentos com a elaboração do Dicionário. Utiliza, para tal, um discurso argumentativo, por vezes de feição polemizante, para clarificar os seus objectivos, a directriz dos seus intentos, esboroando quaisquer dúvidas ou críticas que teimassem em persistir.
Assim, faz uma reflexão sobre o trabalho inerente à elaboração desta obra, anotando os problemas/dificuldades que lhe são subjacentes. Considera, que apesar de estas obras de carácter metalinguístico serem “de menos credito para os seus Authores”, é a elas que os defeitos são imputados. Estas e outras críticas constituem o motivo por que muitos desistem de produzir este género de obras e outros não as chegam a realizar. O autor sabia que os dicionários, à semelhança do que acontece nos tempos
modernos, eram alvo de críticas ferozes34 que poderiam esmorecer os ânimos de
qualquer um e demover-lhes os intentos. Porém, como anuncia a conjunção adversativa “mas”, não foi isto que sucedeu ao autor de Escola Nova que, com este dicionário, pretendeu prestar um serviço público, uma vez que preteriu, como ele próprio afirma:
“ao amor proprio o amor publico da Naçaõ, á qual offereço meu trabalho, para lhe fomentar o descanço”
É em nome da Nação, mas não, como veremos, entendida no sentido lato, que se propôs desenvolver este trabalho, para lhe proporcionar conhecimento, um conhecimento que se afiguraria cómodo, sem requerer grande esforço, nem dispêndio desnecessário de tempo. Isto só seria possível devido à pequena extensão do dicionário e aos rigorosos critérios a que se atendeu na sua elaboração.
Uma das grandes virtudes desta obra reside na sua brevidade, essa mesma brevidade que foi cultivada pelo autor, que seleccionou as formas que suscitam mais dificuldade, de modo a satisfazer as necessidades e o interesse do público a que se destina; não um público qualquer, mas um público selecto – os Doutos, dando-lhes a conhecer “os vocabulos mais castigados (…) já para examinarem com menor difficuldade as genuinas significações de alguns vocabulos menos vulgares”. O objectivo do seu trabalho consistiu em contribuir para que o público-alvo da sua obra, os Doutos, conseguisse suprir algumas dificuldades e aperfeiçoar as suas competências.
Assim, para satisfazer os seus intentos, organizou um dicionário de pequena dimensão, formato in octavo, com trezentas e onze páginas, que contempla um total de seis mil entradas, aproximadamente. A primeira parte é destinada à ortografia que lhe pareceu ser mais correcta; a acentuação é também um dos aspectos que aqui são contemplados, pois dá a “conhecer o verdadeiro modo com que se deve pronunciar-se os vocábulos”. Já as últimas quinze páginas estão consagradas a uma breve compilação dos «Proverbios vernáculos ou Adagios do proprio Idioma».
Depois de fazer referência a estes aspectos, e novamente na tentativa de rebater opiniões menos favoráveis, como quem pretende justificar-se, o autor retoma a sua estratégia de defesa, com afirmações bem sustentadas. Assim, refere que apesar de o seu dicionário ser monolingue, e de não ser tão copioso como os demais dicionários bilingues, merece, pelo menos, o reconhecimento de singular. Acrescenta ainda que também ele poderia ter optado por organizar um dicionário, baseando-se noutros já existentes, mas isto angariar-lhe-ia o epíteto de temerário ou de desvanecido e não era
essa a sua intenção. Por isso, resolveu levar a cabo este trabalho, no qual procurou atender a rigorosos critérios, regendo-se pelos seus conhecimentos linguísticos.
O quadro a seguir apresentado sistematiza a argumentação utilizada pelo autor que se desenrola, fundamentalmente, em quatro momentos:
1) Antevisão de críticas a) “o Diccionario he mui pobre de vocábulos”; b) “muitas significações saõ impróprias”;
c) “dicçaõ ainda tem outras accepções, de que naõ faz mençaõ”;
d) “destituído das frazes da propria Língua”. 2) Argumentos de defesa:
2.1) Qualidades do Dicionário
a) “deve preferir ao amor proprio o amor publico da Naçaõ”;
a)“fomenta o descanço”; b) “abbreviado Alphabeto”;
c) “sem o dispendio de mais tempo encontre os que muitos ignoraõ”;
d) “Orthografia, que me pareceo mais correcta”;
e) “notarás os accentos, que daõ a conhecer o verdadeiro modo com que deve pronunciar-se os vocábulos”;
f) “Proverbios vernaculos, ou os Adagios do proprio Idioma, joias as mais preciosas”.
3) Consolidação dos argumentos de defesa
Dualidade de atitudes na recepção do dicionário:
a) “ se julgares util o meu trabalho, suppoem, que trabalhei para ti”;
b)“quando por todos os lados te seja displicente este Livrinho, trata de fazer outro melhor para utilidade do publico”.
A partir da sistematização da sequência discursiva utilizada pelo autor, constatámos que o mesmo optou pela contenção de palavras e por uma postura defensiva, moderada, mas devidamente sustentada. Se contrastarmos, por exemplo, com o prólogo do Compendio de ortografia de Monte Carmelo, verificamos que os termos que utilizou para se referir às opiniões alheias são acutilantes, ao passo que o autor do
Dicionário Exegético adoptou uma postura mais serena e uma linguagem mais neutral e
isenta sem, no entanto, deixar de evidenciar o seu ponto de vista e de defender a sua perspectiva. Talvez fosse este um dos grandes méritos do autor, o saber falar, o saber dizer e defender-se, mas sempre de forma moderada. Repare-se que há um momento neste prólogo em que parece manifestar uma certa intolerância, quando refere:
“(…) quando por todos te seja displicente este Livrinho, trata de fazer outro melhor para utilidade do publico;”
Contudo, esta intervenção mais austera é logo interrompida pela postura humilde, de rendição que o autor assume – “eu louvarei o teu zelo, admirarei a tua facundia, e lançarei no alto már as cinzas dos meus escritos” – prontificando-se a reconhecer os trabalhos que sejam dignos de mérito e a banir a sua obra. Pensamos que este prólogo constitui um exemplo elucidativo do modo como o autor se expunha, com argúcia e moderação. Moderação esta que, possivelmente, lhe permitiu usufruir de uma certa estabilidade e protecção, pois, como se explica que um cristão-novo tenha alcançado notabilidade e atingido um cargo de destaque na sociedade?