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Gramsci e Freire: a ética da organicidade

Em carta escrita na prisão para o filho Délio, “certamente no ano de 1937”, segundo Monasta (2010), Gramsci assim se expressa:

[...] Penso que gosta da História, como também eu gostava quando tinha a sua idade, porque diz respeito aos homens em sua existência e tudo o que diz respeito aos homens em sua vida, quanto mais homens seja possível, todos os homens do mundo enquanto se unam entre si e trabalhem e lutem e melhorem a si mesmos, não pode senão nos agradar mais do que qualquer outra coisa. Mas, será assim? (GRAMSCI apud MONASTA, 2010)

O estudioso italiano não produziu obra que tivesse a ética como tema, mas está subjacente às suas reflexões sobre política e sobre educação, uma coerência ética. A predileção pela História não se justifica pela subjetividade de um diletante, mas pelo compromisso de quem quer compreender os homens ‘em sua existência’ e todos os homens ‘enquanto se unam entre si e trabalhem e lutem e melhorem a si mesmos’. Depreende-se do trecho citado, que para Gramsci a educação não se faz apenas na escola e não se faz sem um sentido de práxis humana: ancorado na história, na reflexão teórica e na existência presente. União, trabalho e luta são, para Gramsci, elementos constitutivos da história que, investigada e compreendida por uma perspectiva crítica, torna-se elemento da práxis. Emerge daí,

implícita, uma concepção de ética enquanto orientação para uma prática orgânica. Como em Freire, cujas teses apresentam inequívoca convergência com o pensador italiano:

A relação de organicidade a que nos referimos implica na posição cada vez mais conscientemente crítica do homem diante de seu contexto para que nele possa interferir. [...]

Da mesma forma, a organicidade do processo educativo implica na sua integração com as condições do tempo e do espaço a que se aplica para que possa alterar ou modificar essas mesmas condições. Sem esta integração o processo se faz inorgânico, superposto e inoperante.” (FREIRE, 1959, p. 9) Observa-se em Gramsci um envolvimento direto com o seu objeto, uma relação de “paixão”. Max Weber é um teórico racionalista; desenvolve suas teses com base na relação entre meios e fins, justificando a realidade presente pelo domínio das relações de produção capitalistas, mas considerando as especificidades histórico-culturais. Utiliza a história, não como argumento para a possibilidade de transformação das relações e da condição humana, mas como cenário para a construção dos tipos ideais, que interagem com as forças predominantes de cada país. Sua análise sobre a relação entre os funcionários públicos, a política e o Estado burocrático, levada à realidade escolar, coloca os gestores em uma posição muito rígida de cumpridores de tarefas. O pensador italiano, ao contrário, desenvolve suas reflexões pela perspectiva da mudança, no sentido do socialismo. A história, para ele, é palco de trabalho e de luta, onde atuam homens, como sujeitos coletivos. E todos os que executam um trabalho a partir da elaboração de um conhecimento específico são intelectuais, mesmo que apresentem diferentes níveis de competência.

Para Gramsci, em todos os campos e ambientes de trabalho há intelectuais; eles não estão apenas nas universidades ou institutos de pesquisa. Gestores e docentes, portanto, são intelectuais. O ser intelectual, contudo, não se constitui pelo saber, em si, mas pela possibilidade de levar ao outro o seu conhecimento. A organicidade consiste no compartilhamento de saberes, e na aplicação de conhecimentos com base na avaliação crítica das necessidades e objetivos, em cada ambiente de trabalho.

Como exemplo concreto de um trabalho intelectual orgânico, o pensador italiano relata a experiência de “certas redações de revistas, que funcionam ao mesmo tempo como redação e como círculo de cultura” (1982, p. 120). Discussões e críticas, em espaços coletivos de deliberação, permitem que a avaliação e a atuação de cada ‘especialista’ ganhe amplitude e se realize organicamente, aprimorando o trabalho individual e o resultado do grupo. Essa análise o autor utiliza na defesa da escola unitária, na qual se realizaria um processo de educação humanista, tornando apto o educando, e futuro profissional, a prosseguir nos estudos e no trabalho de maneira consciente e autônoma.

Em relação ao diretor e ao coordenador pedagógico das unidades da rede pública estadual, qual a possibilidade de serem, de fato, intelectuais orgânicos? Como já se afirmou, é este um pressuposto ético do trabalho gestor. É moralmente correto considerar a diversidade que caracteriza o universo escolar, nos aspectos políticos-ideológicos, socioeconômicos e culturais. Isso é ética. Para tanto, é necessário desenvolver uma peculiar sensibilidade, capaz de compreender a realidade e as possibilidades que emergem das diferentes narrativas de vida e de trabalho, em sua forma e conteúdo, de funcionários, docentes, alunos e familiares. Tudo converte em novos conhecimentos e abre caminho para uma ética da organicidade.

A diversidade deve ser objeto e fundamento de uma cultura educativa que compreenda todos os sujeitos da comunidade escolar em três dimensões do humano: o universal, o particular e o diverso. O universal diz respeito à condição de humanidade e à imanência de valores que preservam a vida e as relações humanas: o respeito, por si e pelo outro, a responsabilidade, pelas condições objetivas de existência individual e coletiva, e a solidariedade. O particular refere-se aos desejos e planos para a realização pessoal. O diverso corresponde ao espaço-tempo da existência em que um sujeito, individual ou coletivo, se reconhece diferente do outro. O outro, como eu, é manifestação diversa, pela história e pela cultura, de uma mesma humanidade. Como diz Freire (1997, p.65): “É na prática de experimentarmos as diferenças que nos descobrimos como eus e tus”. Em outras palavras: é pela sensibilidade em relação à cultura do outro que construímos uma consciência da diversidade, que é a base para uma relação de respeito e de valorização entre sujeitos de campos sociais e culturais diversos. Pela superação da racionalidade formal que norteia as práticas escolares, será possível entender que a escola é um organismo vivo e dinâmico, que não se equilibra segundo processos naturais, mas está em permanente tensão, porque nele convivem diferentes culturas. Convicções particulares ou de grupo são questionadas todo o tempo, e apenas um trabalho fundamentado na ética da organicidade compreenderá que se trata de um processo dialético que busca a transformação.

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