• Nenhum resultado encontrado

GREVES ATÍPICAS CONSIDERADAS LÍCITAS

No documento Publicação - revista20_trt13.pdf (páginas 108-111)

GREVE ATÍPICA: novos contornos factuais à autotutela laboral

4 MODALIDADES DE GREVE ATÍPICA

4.1 GREVES ATÍPICAS CONSIDERADAS LÍCITAS

4.1.1 Greve intermitente

Enquadrada como greve de maior prejuízo sob a alegação do desequilíbrio entre a lesão causada à empresa e o exercício do direito de greve (FREDIANI, 2001), esta modalidade de parede consiste na paralisação do labor por curtos lapsos temporais, mas realizados repetidamente (LEITE, 1994), provocando a ondulação do exercício da atividade seguido por outro período de abstenção.

Em relação à greve intermitente, há doutrina que reconhece por exacerbado o prejuízo tido por desnecessariamente provocado, assinalando que “enquanto a greve regular dá lugar a um prejuízo proporcional às reivindicações e conflitos prévios, essa organização do movimento é destinada a fazer crescer o volume de prejuízo” injustamente (LIRA, 2001, p. 72), pelo que retira a legitimidade desse movimento, fundamento esse com o qual não podemos concordar, em face da inexistência de proibição legal a essa modalidade.

No mais, essa espécie de greve atípica causa perplexidade a Amorim & Souza (2004) em face da sua coordenada programação descontinuada, com o condão de surpreender o empregador, por não saber o momento exato em que a greve será deflagrada (por ser continuamente declarada e encerrada), atribuindo-lhe as denominações de bouchon ou sciopero a singhiozo.

A estas curtas interrupções coordenadamente sequenciadas (VAZ DE CARVALHO, 2005) é conferida a desestruturação organizativa da empresa pelo declínio da produção, enquadrando doutrinariamente esta modalidade atípica como passível de

artigo 6º, §3º da Lei de Greve: impossibilidade de obstrução do acesso ao trabalho, ameaçada e dano à propriedade/pessoa (VAZ DE CARVALHO, 2005), sendo as greves deflagradas no ABC Paulista, em 1970- 1980, marcadas pela característica da ocupação (VIANNA, 1986).

ser declarada abusiva (SILVA, 2011), em face da disparidade entre o dano causado e o prejuízo percebido, argumento com o qual não concordamos, consoante supra indicado, pelo que defendemos sua licitude e legitimidade.

Esta modalidade é apontada por parte da doutrina (LIRA, 2009) como legal e legítima, desde que balizada pelos requisitos prévios elencados na lei de greve (CERNOV, 2011), sendo assentado como posicionamento jurisprudencial, para fins de computação do período de não percepção do salário pelos grevistas, o cálculo dos momentos de interrupção do trabalho acrescidos dos períodos em que há impossibilidade na execução da atividade em face das interrupções, reconhecendo por lícita a greve desencadeada nos moldes da intermitência; ou seja, considera-se o período efetivo do movimento (das pausas programadas e do retorno disponibilizado).

4.1.2 Greve setorizada, rotativa ou em rodízio

Nesta modalidade, também indicada por tournante (VAZ DE CARVALHO, 2005), sciopero a scachiera (XAVIER, 1996) ou por tabuleiro (LIRA, 2009), a parede é articulada paulatina e sucessivamente em turnos selecionados, sendo a paralisação eclodida por setor e de modo rotativo, a fim de que com essa programação estruturada da greve intercalada (CERNOV, 2011), os demais setores ainda não paralisados percam a cadência e fiquem impedidos de efetivamente laborar em face da obstinação ao corrente andamento da esteira empresarial, sendo destacada como uma “réplica do trabalho parcelar” (SILVA, 2011, p. 52).

Contudo, apesar do tensionamento e das ponderações suscitadas, que a apontam como uma dinâmica grevista de efeito continuado (VIANNA, 1986), a parede setorizada é bem analisada pela doutrina, que não costuma enquadra-la por ilegítima ou abusiva, apesar de ser vislumbrada como uma modalidade da greve de maior prejuízo (RAMALHO, 1994), ao recear a possibilidade deste movimento “tomar proporções relevantes quando se tratar de produção em série” (FREDIANI, 2001, p. 63).

4.1.3 Greve trombose ou de estrangulamento

Na greve trombose, também conhecida como nevrálgica, seletiva ou tampão, há a paralisação estratégica de apenas um setor da empresa, permanecendo os trabalhadores dos demais departamentos em disposição ao labor. No entanto, o efeito prático pretendido com essa parede é a impossibilidade em continuar a atividade, com a

suspensão estratégica do âmbito principal, o setor-chave da empresa, cuja inatividade afetaria o andamento de todo o estabelecimento, implicando em sua interrupção quase que total (SILVA, 2011), inserida, por esta razão, no grupo doutrinário das greves de maior prejuízo (RAMALHO, 1994).

Esse tipo de greve é criticado pela doutrina em face do alto dano ocasionado ao empregador versus o reduzido prejuízo sofrido pelos grevistas, como se estes devessem também padecer com mais perdas econômicas com o exercício deste constitucional direito de resistência, remetendo ao argumento que julgamos por equivocado e juridicamente não balizado de análise categórica da greve pelo viés da extensão do dano provocado.

Ainda assim, é considerada lícita pela doutrina e pela jurisprudência, destarte a intolerância envolta, comportando divergência em relação à questão da remuneração: enquanto há uma vertente que considera por paralisação todo o período cadenciado do movimento (RAMALHO, 1994), refletindo, assim, no desconto global (relativo ao período) e geral (abrangendo todos os favorecidos), envolvendo os trabalhadores do setor estrategicamente paralisado e os dos demais setores beneficiados pela greve; ao passo em que outra linha direciona o desconto salarial apenas para trabalhadores declaradamente em greve (FERNANDES, 2013), isentando quaisquer outros amparados com a ação grevista, mas que não tenham declarado adesão a esta.

4.1.4 Greve retroativa

A greve retroativa é deflagrada no momento da percepção de lucros pela empresa por serviço laboral anteriormente prestado, sendo articulada sua eclosão a esse estratégico momento por comportar a situação de maior perda econômica ao empregador, ilustrado pela doutrina como exemplo a colheita de safra agrícola ou a estreia de espetáculo artístico (MARTINEZ, 2013).

Particularmente a essa modalidade ponderamos algumas ressalvas. Entendemos acertado o planejamento sindical sobre os contornos desenvolvidos pela greve, o dano intencionado à empresa e o cálculo da pressão necessária a ser exercida para efetivação desse direito. A articulação entre os trabalhadores não nos parece danosa, muito pelo contrário, decorre da real necessidade de organização coletiva para promoção e defesa de interesses comuns.

No entanto, o intencionado com a greve retroativa parece ser além do necessário para que a desorganização produtiva da empresa, com a paralisação, surta

efeitos aos trabalhadores, podendo desencadear danos lesivos além dos imperiosos e previstos legalmente ao atendimento das reivindicações dessa luta laboral, pelo que, na análise do caso em concreto, podemos vislumbrar como acertado o enquadramento desse movimento como abusivo.

Embasamos nossa compreensão sobre a possibilidade de perceber abusividade na greve retroativa na doutrina de Ramalho (1994, p. 48), quando informa que “a paralisação acarreta a inutilização do trabalho anteriormente prestado e retribuído, mas cujo retorno lucrativo o empregador esperava obter no momento em que a greve tem lugar”, apesar de, a priori, ser lícita (se balizado pelos requisitos prévios de validade).

4.2 GREVES ATÍPICAS CONSIDERADAS ILÍCITAS OU ALHEIAS AO CONCEITO

No documento Publicação - revista20_trt13.pdf (páginas 108-111)

Outline

Documentos relacionados