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Grupo de Congada de 1953

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A foto acima registra os dançadores, os festeiros e os foliões na chegada à cidade depois de um giro de nove dias pelas fazendas. A festa é de 1953, acontecida na casa do senhor Joaquim Ferreira e esposa. Na foto, o casal está no centro (o casal em que o homem está vestindo um terno de cor escura e uma capa). A foto foi tirada na porta da casa do festeiro com todas as pessoas que faziam parte do congo dessa época. Os detalhes da imagem mostram que os homens têm na mão instrumentos e usam uniforme padronizado com saias por cima da calça (lembrando a vestimenta afro) e penacho (reminiscência dos enfeites afros ressignificados no adorno indígena) na cabeça (que o senhor Jovercino chama de quepe); as mulheres usam saias rodadas e coroas na cabeça. O grupo dos homens se separa do grupo das mulheres, como ocorre ainda hoje na dança. As crianças também se agrupam separadamente (com o casal) assim como os velhos (em segundo plano, no canto direito). Há três violões no grupo. Uma figura feminina e outra masculina juntas se sobressaem à direita, canto da foto: roupas bem cuidadas e mais ricas, com coroas maiores na cabeça ( rei e rainha ou filhos do festeiro ou vizinhos abastados ou o capitão da festa e esposa?). O estandarte ocupa o centro da foto. A ideologia do espaço e das vestimentas revela a organização e a hierarquia dos valores da folia que, de uma forma ou de outra, ainda se conservam em algumas congadas (não necessariamente na de Caiapônia): capas e vestimentas especiais para os casais, crianças

protegidas (ou família protegida), festa de negros (que transparecia nas roupas masculinas e femininas), história, etc.

O cenário de fundo – vegetação frondosa – reitera a festa sempre acontecida ao ar livre, nos pátios, como usavam desfrutar os negros das senzalas o seu momento de lazer na igreja.

Na organização da festa, além dos festeiros que emprestavam suas casas para receber os foliões, havia também o envolvimento de pessoas da comunidade, devotos da santa e os dançadores da congada. Dentre esses, um grupo de homens montados percorria as fazendas levando a bandeira de Nossa Senhora do Rosário em busca de suprimentos e donativos para a festa.

Os foliões eram recebidos pelos moradores, que reuniam vizinhos e devotos para a reza do terço junto da bandeira que trazia a imagem da santa. Os donos da casa e os demais devotos faziam doações de mantimentos que, ao final da festa, eram recolhidos para a ceia e para os leilões. Desses mantimentos, era retirado o suficiente para a refeição, servida para todos, e os outros donativos eram colocados como prenda. Muitas pessoas faziam promessas de doar prendas ou arrematá-las para contribuir com a festa. Essa prática vem de encontro ao que Santos (2011) afirma acerca da devoção:

Na dinâmica do catolicismo popular está presente de forma vigorosa a promessa como forte ligação com o santo da devoção. A devoção ao santo implica buscar junto a ele os seus favores, enquanto o promesseiro se compromete em homenageá- lo com uma festa, novena e com o levantamento da bandeira, uma vez que foi atendido. Segundo Oliveira (1985), ser atendido pelo santo significa que o promesseiro se encontra em estado de graça. (SANTOS, 2011: 57)

Essa devoção acabava por contribuir para a permanência da tradição, vez que as promessas eram feitas incluindo os diferentes ritos da congada: para cumpri-las, o folião girava durante os nove dias, doava prendas (mantimentos, criação, e dinheiro), que mantinham a obrigatoriedade da realização da festa final com os leilões, ou simplesmente acompanhava a congada. O senhor Jovercino tornou-se general da congada para cumprir uma promessa feita pela mãe para a cura de uma doença. Ao receber a graça, tomou a frente da festa, o que referencia que o imaginário criado é um forte agente para a fidelidade às práticas. O senhor Jovercino, ao saber da promessa, diz que “sonhou que nossa Senhora do Rosário queria que ele atendesse ao pedido da mãe e ficasse à frente da festa enquanto vida ele tivesse”.

Assim, só os agentes da festa têm a preponderância de pronunciar sobre seus ritos, por trazerem na memória ou nas lembranças do que ouviram de seus pais, tios e de outros o imaginário em torno dos acontecimentos, solidificando a memória presente.

Uma característica da festa desse tempo é configurar-se na interação entre o rural e o urbano, com homens travestidos de “personagens”, bem vestidos, com capas, instrumentos musicais, montados em cavalos e muita devoção a Nossa Senhora do Rosário, um dos principais motores da festa, cuja imagem estampada na bandeira aponta a religiosidade como centro. Esses homens eram os dançadores do congo que saíam da cidade e peregrinavam pelas fazendas da região, sensibilizando a comunidade ao mesmo tempo em que mantendo a tradição originada na Festa do Congo.

A narrativa sobre esse tempo da congada faz parte da memória dos congadeiros que contam da vivência dos pais nas festas de folia. Epaminondas, aos 71 anos de idade, diz: “Comecei a brincar na congada com 19 anos, mas meu pai contava que a festa completava com uma folia. Ele e meus tios participavam, saíam para as fazendas em cavalos, levando a imagem de Nossa Senhora do Rosário”. (Epaminondas Benedito da Costa. Entrevista, Caiapônia, outubro de 2010).

O senhor Jovercino e o senhor Sabará também contam sobre a festa de Folia de Nossa Senhora do Rosário, falando da participação dos pais. Nesse sentido, trazem uma memória bastante semelhante à dos que descrevem esse rito.

Meu pai conta que, por volta de 1950, ele participou da folia de Nossa Senhora do Rosário aqui na região de Caiapônia. A andança era formada somente por homens que carregavam uma bandeira da nossa santa, os instrumentos (violão, viola, caixa pandeiro e reco-reco) guiados por um que comandava chamado de alferes54. Meu pai fazia parte do grupo tocando caixa. (Jovercino Monteiro Silva. Entrevista, Caiapônia, outubro de 2010).

A inclusão dos rituais da folia na festa da congada pode ser entendida como estratégias para fortalecer a festa levando-a para o meio rural, uma vez que a folia percorria esse espaço. Desse modo a reprodução e interação da linguagem do ritual na congada possibilitavam maiores recursos para a preservação da festa que passava por crises nesse momento. Essa reprodução dos rituais da folia na congada, a mistura entre as duas festas tradicionais está bem retratada na foto 18 em que os foliões estão representados com lenços no pescoço e usam

54 Alferes é palavra usada para definir uma posição dos militares ou forças armadas que define uma hierarquia.

instrumentos da congada. Eles cantavam as músicas da folia louvando Nossa Senhora do Rosário e dançavam a dança do congo. Como já mencionado anteriormente, esses foliões depois de percorrer as fazendas faziam a chegada na cidade com as danças.

Na fala do senhor Sabará nota-se outro aspecto importante da festa de folia como as tradições e preservações entre os grupos familiares. Esse costume de manter a tradição das festas populares entre as famílias sempre se fez presente na sociedade brasileira principalmente no meio rural, lugar em que as células familiares iam além do parentesco.

Compostos de famílias nucleares de diversos níveis, ligadas entre si por laços de parentescos, de alianças, de compadrio, de afeição, de solidariedade, de proteção; as famílias extensas estabeleciam também laços de colaboração e de alianças, compondo assim grandes blocos de parentelas ou de linhagens. (QUEIROZ, 1971:67)

Essa relação constituída de parentesco foi importante na preservação da congada comprovada pela existência de membros que são descendentes das primeiras famílias que iniciaram a festa no município de Caiapônia.

Foto 18 -Indicado pela seta, pai do senhor Jovercino (Edimundo Domingos Monteiro).

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