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O GRUPO DE TRABALHO INTERMINISTERIAL (GTI) E O DOCUMENTO “SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO”

CAPÍTULO 4 GOVERNABILIDADE, ESTRUTURA SOCIAL NA FRONTEIRA E

4.2. O GRUPO DE TRABALHO INTERMINISTERIAL (GTI) E O DOCUMENTO “SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO”

No pensamento geopolítico brasileiro a Amazônia sempre esteve presente como preocupação estatal para os policy making. Constatou-se de modo explícito no resgate histórico da presença militar que os geopolíticos intensificaram, no século XX, o exame dos elementos essenciais que conformam a realidade socioeconômica. Era preciso agir rápido no sentido de criar as condições para reduzir os ilícitos na fronteira política. O advento do PCN demonstra que a crise de governabilidade, bem como as complexas relações Estado e sociedade na Transição do regime político não afetaram a capacidade governativa do governo e do Estado de formularem e implantarem um projeto de natureza político-militar para defesa da Amazônia.

O Governo Federal decidiu nomear uma comissão para estudar a região com o objetivo, dentre outros, de realizar um diagnóstico social da área.80 Formou-se então o GTI que integra especialistas (sociólogos, engenheiros agrônomos, geógrafos) de diversas áreas do conhecimento e de vários órgãos da administração federal. MINTER (Ministério do Interior), SEPLAN (Secretaria de Planejamento), Ministérios militares e a SG da PR, assim como outros órgãos da administração com atuação na Amazônia.81 Todos jungidos à problemática da segurança e do desenvolvimento. Objetivo fulcral do estudo foi levantar subsídios para políticas governamentais na área a fim de superar os entraves ao desenvolvimento e a integração ao contexto nacional. No relatório de 37 páginas apresentado ao CSN em dezembro de 1985, o GTI propõe um plano com detalhamento de investimentos financeiros e uma programação minuciosa acerca da implementação de suas ações para o quinqüênio de 86- 90. O documento foi aprovado pelo Presidente da República através da EM n° 770 em 19/12/1985.

Em seu relatório, os autores, supervisionados pelo General Rubens Bayma Denis coordenador GTI, militar que exercia interlocução entre a caserna e o governo e que chefiava Casa Militar da PR, assim como acumulava também a presidência da SG do CSN, órgão

80 A pesquisa não identifica a exata data em que os trabalhos do GTI começaram, nem qual o documento da PR

que instituiu a Comissão, muito menos os critérios para a sua composição.

81 A SG da PR – órgão de assessoramento direto do Presidente da República e do CSN (hoje, o CSN intitula-se

CDN – Conselho de Defesa Nacional, derivada da Constituição de 1988) - desenvolve atividades relacionadas aos assuntos estratégicos, elaboração de estudos que versam sobre elaboração, coordenação e controle de

consultivo e deliberativo criado pela ditadura militar a fim de cooperar com aquele sobre questões que envolviam ameaças à soberania nacional, ou seja, guerra e ameaça da integridade nacional entre outros temas; no documento, portanto, mostram que se trata de 14% do território nacional e 24% da Amazônia Legal, com uma pequena população circunscrita às capitais dos Estados e Território (à época), sobretudo, uma área onde estão localizadas ricas reservas minerais em TIs.

A fronteira política com a Colômbia era teatro de operações das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) tornando-a fonte permanente de tensão com a possibilidade de transformar-se num conflito de grandes proporções. Além disso, no lado brasileiro, o estudo conclui que existe uma ameaça Yanomami.

Alegava-se que essa etnia estaria preste a proclamar-se num Estado independente. Dessa forma, no âmbito das reflexões, recomenda-se a não demarcação das TIs, em faixas de fronteiras (consideradas demasiadamente extensas pelos defensores dos povos indígenas – militantes políticos e pesquisadores), isto é, a Faixa de 150 km de uso exclusivo da segurança nacional, áreas próximas às cidades, áreas cortadas pelas estradas federais e, finalmente, áreas cortadas pelos rios. Este foi e é o aspecto mais criticado por aqueles que levantam a bandeira da preservação dos grupos indígenas e do conhecimento tradicional dessa etnia.82

Em conseqüência, definiu-se, inicialmente, como área pertencente ao Projeto, de acordo com o quadro 6, os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Iauaretê, Querari, São Joaquim, Cucuí, Maturacá, Içana, Tabatinga, Ipiranga, Vila Bittencourt e Alto Traíra, no Estado do Amazonas, e em Roraima os seguintes municípios: a capital Boa Vista, Normandia, Bonfim e Serra do Sol. No Estado do Pará foram selecionados, no diagnóstico dos especialistas da comissão, somente o município de Tiriós e os municípios do Oiapoque e Clevelândia do Norte, no Amapá.

planos, programa e projetos estratégicos. Em 1990, com a criação da SAE, parte das funções e dos objetivos da SG foi incorporada pelo novo órgão.

82 Segundo o que consta na MP (Medida Provisória) n 2.186-16, de 23/08/2001, que regulamenta dispositivos

sobre a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), conhecimento tradicional associado é “uma informação ou prática individual ou coletiva de comunidade indígena ou de comunidade local, com valor real ou potencial, associado ao patrimônio genético”.

Quadro 6

Relação dos Municípios Inicialmente Definidos como Área de Atuação do PCN (1985)

MUNICÍPIO UNIDADE DA FEDERAÇÃO

São Gabriel da Cachoeria, Iauaretê, Querari, São Joaquim, Cucuí, Maturacá, Içana, Tabatinga, Ipiranga, Vila Bittencourt e Alto-Traíra

Amazonas

Boa Vista, Normandia, Bonfim e Serra do Sol Roraima

Tiriós Pará

Oiapoque e Clevelândia do Norte Amapá

Fonte: BRASIL. Governo Federal. SG/CSN. Segurança e desenvolvimento na região ao norte das

Calhas dos rios Solimões e Amazonas. Projeto Calha Norte. Brasília: 1985. Mimeografado.

Fez-se o levantamento das carências das populações locais e dos fatores internos e externos que dificultavam o desenvolvimento. Detectaram as falhas e deficiências na proteção do vasto território e procurou-se firmar as diretrizes que orientariam a atuação estatal através de um conjunto de ações.

Todo o trâmite do documento circulou em segredo de Estado. As razões para isso constam no próprio documento: “Sob o aspecto da confidencialidade, cabe explicitar que a prioridade governamental, sendo acordada à „Calha Norte‟, poderia vir a suscitar tanto expectativas domésticas exageradas, quanto temores infundados nos países limítrofes”. (SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO, 1985, p.2) Essa forma sigilosa de elaboração e aprovação, 1985-6, gerou um conjunto de críticas provenientes dos mais variados setores da sociedade: cientistas, ecologistas e indigenistas. Para estes, o Projeto é um problema na medida em que se assemelha a todos os outros grandes empreendimentos estatais já formulados e implantados na Amazônia, e que, na ânsia do progresso gerou efeitos sociais e ambientais perversos. Portanto, contestá-lo significa ao mesmo tempo proteger as minorias étnicas e o meio ambiente, haja vista que o raciocínio que os move atende a uma modernização capitalista conservadora, tanto na sua dimensão militar quanto social.

O GTI, no diagnóstico da realidade social da Amazônia, sugeriu a existência de três territórios diferenciados: a Faixa de Fronteira, a “hinterland” (núcleo da região) e a zona ribeirinha. Para cada área propôs-se um programa específico: - Programa de Faixa de Fronteira; - Programa do Núcleo Regional ou “Interiorano” e – Programa das zonas ribeirinhas. No esforço da integração aconselhou que a coordenação ficasse a cabo do PDA (Plano de Desenvolvimento da Amazônia), de responsabilidade do MINTER. Quanto ao aspecto relacionado às “necessidades imediatas”, o relatório propôs oito ações. Sendo as

quatro primeiras inseridas na lógica da segurança nacional. São elas: 1) incremento das relações bilaterais, 2) aumento da presença militar na área, 3) intensificação das campanhas de recuperação dos marcos limítrofes, 4) definição de uma política indigenista apropriada à região, 5) ampliação da infra-estrutura viária, aceleração de produção de energia elétrica, a interiorização de pólos de desenvolvimento econômico e a ampliação da oferta de serviços sociais básicos. Na concepção do Projeto para cada uma das ações sugere-se um Projeto Especial. Cada Ministério envolvido ficaria responsável em tomar as medidas administrativas visando alcançar os objetivos.

A implantação dos Projetos Especiais com previsão de início para 1986 e término em 1990, com valor no montante de Cr$ 628.892 milhões, destina-se a diversas áreas.

Para os proponentes do Relatório era preciso promover uma estratégia a ser desenvolvida para Faixa de Fronteira, priorizando 1) as áreas dos índios Yanomami, Surucucu, Auarís e Ericó; 2) área do Alto Rio Negro (figura 6), na fronteira política com a Colômbia e a Venezuela, conhecida como “Cabeça de Cachorro”, entendida como área prioritária do contrabando, do narcotráfico e a mineração ilegal (São Gabriel da Cachoeira, Iauaretê, Querari, São Joaquim, Cucuí, Matucará e Içana); 3) área de Roraima, na fronteira política com a Venezuela e República Cooperativista da Guiana, região com forte penetração migratória (Boa Vista, BV8, Normandia, Bonfim e Serra do Sol); 4) área do Alto Solimões- AM, fronteira política com a Colômbia (Tabatinga, Ipiranga, Vila Bittencourt e Alto-Traíra); 5) área do Tumucumaque-AP, fronteira política com a Guiana Francesa (Macapá, Oiapoque e Clevelândia do Norte). Para as relações bilaterais, o Projeto previa a melhora da presença brasileira desde que fosse compatível com a política pacifista com os países “vizinhos”. Basicamente, os projetos versariam sobre a) revisão da legislação de comércio, b) atividades de cooperação técnica, c) revitalização de mecanismos do TCA (Tratado de Cooperação Amazônica), d) reforço da cooperação internacional no combate ao narcotráfico e, por último, promoção de estudos para novas ligações rodoviárias a fim de reforçar a rede consular.

Figura 7

Croquí do Médio Rio Negro

As instituições federais com atuação na região seriam encarregadas de execução, conforme o caso, juntamente com as estaduais como previra o Projeto. Por exemplo, a FUNAI seria responsável pela política indigenista junto aos Yanomami, particularmente, no Estado de Roraima onde se localizam problemas relacionados à “esquemas de comércio fronteiriço”. (SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO, 1985, p.7)

Destaque foi dado ao TCA. Nele via-se a oportunidade do Brasil estreitar suas relações bilaterais com os países fronteiriços. O governo estava interessado em criar um canal de negociação e cooperação no âmbito das relações internacionais que nos aproximasse desses países considerados estratégicos. Mas, em 1985, avaliou-se que o TCA, em conformidade com o Relatório, apresentara resultados pífios. A principal razão apontada seria a crise provocada pela recessão econômica que atingiu os países membros no início da década de oitenta. Mesmo assim, o Brasil acreditava ser possível fortalecê-lo com o PCN. Por isso, envida esforços no sentido de examinar a possibilidade de priorizá-lo enquanto instrumento desenvolvimentista na Amazônia no âmbito da cooperação transnacional. Em suma, o TCA pretende atuar na área da hidrologia, climatologia, cooperação científica e tecnológica, comunicação e transporte rodoviário. Para a consecução desses e outros objetivos o projeto

estipula um montante próximo a um milhão de dólares para financiar as atividades funcionais e políticas no âmbito do Tratado.83

Outro ponto a mencionar remete à discussão dos ilícitos. O Relatório descreve com acuidade os problemas relativos a contrabando e plantação de Epadu. O cultivo e comercialização dessa droga estariam vivificando extensa área na fronteira política. A atenção para esse problema era estratégica. Dado o volume de dinheiro movimentado pelos narcotraficantes em áreas geográficas fora do controle do “poder nacional”,84 traria graves

conseqüências tanto para a sociedade brasileira no que se refere aos efeitos deletérios de seu consumo, quanto pela possibilidade de que qualquer aporte financeiro poderia resultar no efeito perverso do desvio para a lucrativa cultura da Epadu.

Mais do que esses aspectos, as ligações rodoviárias são consideradas de inegável valor para a cooperação internacional. Para tanto se destaca o asfaltamento da estrada que liga Boa Vista ao marco BV-8. Em janeiro de 1982, Brasil e Guiana firmaram um acordo para a construção de uma ponte internacional sobre o Rio Tacatu, com 230 Km de extensão, ligando Bonfim (RR-Brasil) e Lethem (Guiana), objetivando facilitar o tráfego e o intercâmbio comercial na região fronteiriça. (SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO, 1985, p.12) Outro projeto inclui a construção de uma outra ponte sobre o mesmo rio, no trecho que liga Lethem-Mabura Hill. Outro projeto especial de relevância estabelecido no prognóstico do GTI é o que pretende aumentar a presença militar na fronteira política. O objetivo é

(...) fortalecer a Expressão Militar do Poder Nacional na Faixa de Fronteira e em suas vias de acesso, cabendo à Marinha intensificar atividades relativas à segurança da navegação, controle das embarcações e seu policiamento, bem como os Serviços de Patrulha Costeira Fluvial; do Exército a ocupação física dos pontos sensíveis na Faixa de Fronteira, vigiando-a e guardando as vias naturais de acesso ao território nacional; à Aeronáutica a manutenção de uma infra-estrutura aeronáutica, que lhe possibilite o adequado apoio e a preservação da soberania do espaço aéreo nos pontos sensíveis de interesse na Faixa de Fronteiras. (SEGURANÇA E DESENVOLVIMENTO, 1985, p. 14)

83 Em novembro de 2002, na 7a Reunião dos Chanceleres do Tratado, realizada na Bolívia, se decidiu criar a

OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), institucionalizando-o e definido Brasília como sede permanente, eliminando as secretarias pró-tempore. Atualmente a organização é dirigida pela equatoriana Rosalia Arteaga, cujo mandato vai até maio de 2007, prorrogável por mais três anos.

84 Poder Nacional no entendimento dos ideólogos da DSN, é para URÁN (1987, p.185) “(...) a expressão

integrada dos meios de todo tipo (políticos, psicossociais, econômicos e militares) dos quais dispõe efetivamente a nação num momento dado para promover internamente e no plano internacional a obtenção e a salvaguarda dos objetivos nacionais, apesar dos antagonismos internos e externos, existentes e presumidos.”

Por fim, justifica-se esse Projeto argumentando que fatores econômicos, políticos e sociais põem em risco a soberania brasileira e a integridade do patrimônio nacional. Não explicita, entretanto, quais seriam esses fatores. Mas, percebe-se subrepticiamente que são o contrabando, o narcotráfico, o cultivo das drogas e a miséria de sua população amoldada aos grupos guerrilheiros e susceptíveis aos fluxos migratórios. Chama a atenção o fato de uma estranha referência ao combate ao trânsito de estrangeiros como uma atividade da alçada do Projeto. Por fim, demonstra, por outro lado, a amplitude a ser alcançada pela presença estatal. Quais são os instrumentos institucionais-legais que disciplinavam a atuação estatal na área da segurança nacional?