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A REBELIÃO DAS ELITES

1.6 GRUPO FARROUPILHA

O Farroupilha foi fundado pelo coronel da reserva Aécio Kauffman Colombo da Silva, em Porto Alegre, em 1º de julho de 1992. Em 1964, como capitão, Silva era

45 GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 1ª ed. 2002b, p.425. 46 GASPARI, Elio, A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 1ª ed. 2004, p.480.

47 ANTÔNIO Bandeira, oficial da "linha dura". Jornal do Commercio, Recife, 9 de abril de 1998, disponível em

http://www2.uol.com.br/JC/_1998/0904/po0904i.htm acesso em 5 de março de 2008, as 15:51h.

48 GRUPO ARAUCÁRIA, 2º manifesto, Ombro a Ombro, julho de 1993, p.4.

49 GRUPO militar vê iminência de explosão. Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1993. p.4.Op. Cit.

comandante do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado em Porto Alegre. Mesmo julgando “uma irresponsabilidade o ato do então presidente da república”, o comício da central feito por Jango, procurou manter-se legalista “porque havia uma ordem de comando”. Anos antes, em 1961, viajou 12 horas de carro para alertar João Goulart sobre uma ameaça de atentado. Participou do esquema de informações montado pelo general Osvino Ferreira Alves, braço-direito de Goulart e um dos responsáveis pelo dispositivo militar do governo. Com o golpe, foi cassado50.

Anos depois, trabalhou no GBOEx, o Grêmio Beneficente de Oficiais do Exército, uma das maiores empresas do ramo no país. Com a onda de privatizações no inicio da década de 1990, um dos temores dos oficiais é que esta instituição fosse afetada. Com a aparição destes grupos, Silva aproveitou para promover o GBOEX no meio militar, destinando verba publicitária os jornais correspondentes.

Em um pequeno artigo, o Farroupilha mostra o motivo de sua fundação:

“A criação deste grupo busca organizar, dirigir e somar esforços e boas intenções para evitar o caos de uma sociedade perplexa com a situação de calamidade ética e moral que assola a nossa nação”.

Nos artigos disponíveis, não há um discurso anticomunista. No final de 1993, quando eram discutidas as reformas constitucionais, entre elas a da Previdência, um manifesto do Farroupilha alertava aos militares sobre as conseqüências da entrada de fundos de pensão estrangeiros no país.

“O problema, no entanto, não é só dos militares. Quando se fala em privatizar a previdência, fala-se para todos os brasileiros. Pretendem que parte da Previdência seja operada por fundos de pensão. Ninguém tem o direito de, por ingênuo, julgar que estes fundos são geridos, apenas, por interesses nacionais.(...) Teremos, portanto, pela desnacionalização da Previdência como um todo, não como militares, mas como brasileiros, que por profissão se preocupam, amam e juram defender esta pátria. (...) Manter a aposentadoria dos brasileiros dentro do Brasil é questão de sobrevivência. Esta, não podemos perder.

Porto Alegre, 14 de outubro de 199351

Há, como nos outros grupos, uma insatisfação com o estado de coisas, e cuja origem muitas vezes passa pelos corredores do Congresso Nacional. Em 1993, no dia 22 de outubro, eles publicaram o seguinte manifesto:

50 De acordo com o entrevistado, participavam da “seção de informações” o tenente-coronel Osório, o coronel

João Guerreiro Britto, o general Assis Brasil e o coronel Oswaldo Nunes.

51 GRUPO FARROUPILHA, Revisão da Constituição Federal de 1988. Porto Alegre, 14 de outubro de 1993.

“Militares da reserva e companheiros civis situados no Rio Grande do Sul identificados sob a legenda Grupo Farroupilha, lavramos este documento, a fim de que se declare pública nossa frontal discordância diante do rumo para aonde a Pátria está sendo arrastada, debaixo de escândalos e descalabros promovidos por uma, a estas alturas, consabida súcia, atuante em setores fundamentais da vida nacional. Estupefata e estarrecida a Nação assiste, impotente, a obscena agressão as mais altas instituições do país. É que, a exemplo dos ataques marginais às casas bancárias, uma pandilha, despudoradamente se movimenta no Congresso Nacional e, mãos armadas, pela certeza da impunidade, agride, em proveito próprio, a burra parlamentar estabelecendo canais subterrâneos de uma impressionante sucção do patrimônio público em seu favor. Tanto quanto nas estruturas do Poder como no tocante ao enriquecimento da parceria, na generalidade do peculato e do negócio sujo, referida gente cabe nos padrões subversivos sem ideologia, que se move entre o deboche e a derrocada da ordem civil. (...) Companheiros. O inimigo está aí, diante de nossos olhos, fixando as suas posições e avaliando as possibilidades das nossas reações. Estamos diante de adversário implacável e que não dará quartel ao povo brasileiro. Urge, portanto, que se não permita lograr êxito nesta investida que tem, como objetivo final, jogar ao lixo a ideia de nacionalidade organizada e proba. Companheiros vamos varrer o entulho e restituir a higiene ao corpo da República. Porto Alegre, 22 de outubro de 1993.52”

Nesta época, a imagem da Câmara estava desgastada devido ao escândalo do Orçamento. Cinco dias antes da carta do Farroupilha, a revista Veja havia publicado uma entrevista com o economista José Carlos Alves dos Santos no qual ele denunciou o envolvimento de parlamentares, ministros e ex-ministros, governadores e empreiteiras no esquema de corrupção da Comissão do Orçamento. Três dias depois, o economista relataria à recém-instaurada CPI do Orçamento que 40 parlamentares do Congresso, quatro ex- ministros, dois ministros e três governadores estariam envolvidos no esquema. 53 Diante de tantas acusações, o discurso do Farroupilha com o chamamento “para restituir a higiene ao corpo da República” não dá uma direção clara de como será varrido o entulho: através do apoio a um mecanismo institucional ou por alguma solução mais radical. Pela leitura dos artigos disponíveis deste grupo, a primeira hipótese seria a mais provável.