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2 MEMÓRIA

COMUNICADO DO FRONT

2.6 PRELO FARDADO

2.6.4 GRUPO TERNUMA

O tratamento que o governo Fernando Henrique Cardoso deu à questão dos desaparecidos - inclui-se aí o pagamento de indenizações –, e que a mídia dispensou às novas versões acerca de episódios da guerrilha, serviu como mote para que alguns militares da reserva, indignados com o tratamento dado aos ex-militantes de esquerda, se reunissem em todo o Brasil. O Ternuma se constituiu como parte deste esforço para difundir a outra versão.

Numa seção especial do portal denominada Revanchismo, há uma série de quinze artigos sobre a luta armada. Dois deles versam em defesa do brigadeiro Burnier – oficial que participou ativamente do golpe e que mais tarde foi acusado pelo capitão Sérgio Macaco de ter preparado um plano para explodir o gasômetro do Rio de Janeiro:

Esta é a base factual do chamado "Caso PARASAR"179. Nessa linha de

comportamento que configurava transgressão disciplinar, o capitão intendente, por motivos que objetivamente se ignoram mas que se pode imaginar, licitamente, tivessem bases pessoais, ideológicas e políticas, passou a promover sub-reptícia campanha contra o brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, um dos mais prestigiosos militares da FAB, chefe de família modelar, profissional de sólida reputação, democrata provado, anticomunista convicto e um dos articuladores da Revolução de 1964.180

178 Apesar do Exército adotar o termo Revolução, não há, entre a reserva, uma unanimidade sobre a

nomenclatura. Alguns a consideram contra-revolução. Partem do pressuposto que já estava em marcha uma revolução comunista no Brasil.

179 O Parasar é a tropa de elite da Aeronáutica, responsável por entre outras operações, salvamento e resgate. O

nome SAR vem da sigla inglesa Save and Rescue.

180 TERNUMA. Revanchismo. Texto disponível em http://www.ternuma.com.br/revanche.htm#BRIGADEIRO,

Cabe lembrar que João Paulo Burnier, além de ter conspirado para o golpe de 1964, havia participado da revolta de Aragarças, em Goiás, cinco anos antes. Com o tenente- coronel Haroldo Veloso, ele seqüestrou uma aeronave da empresa Panair. Os rebeldes conseguiram três aviões C-47 Douglas, do Rio de Janeiro, e um Beechcraft, que partiu de Belo Horizonte, em direção à cidade goiana. Lá, iniciaram a rebelião. O plano era bombardear o palácio do Catete, então sede do governo federal.181 Mesmo com este histórico de quebra de disciplina, o Ternuma imputa ao acusador de Burnier “um comportamento que configurava transgressão disciplinar”.

Outro artigo que aparece na seção Revanchismo é em defesa do coronel Ustra. Eles iniciam assim a argumentação:

A mídia tem procurado mostrar o período revolucionário como sendo o período do arbítrio, da violência, do desrespeito aos direitos dos cidadãos. Ataques pessoais são feitos àqueles que trabalharam e lutaram contra o terrorismo, tachando-os de torturadores e de assassinos. Apresenta testemunhos duvidosos, feitos por pessoas impregnadas de revanchismo. Numa posição de desforra, a esquerda revolucionária e jornalistas tendenciosos estão permanentemente atacando, de forma implacável e impiedosa, aqueles que combateram o terrorismo. Tentam e, com muita freqüência conseguem, que sejam destituídos de cargos e funções, prejudicando suas carreiras e tirando o sossego e a tranqüilidade de suas famílias. As denúncias não são checadas, os dados não são averiguados e a imprensa, sob o amparo de não ser obrigada a divulgar a fonte nem ser responsabilizada, publica o que quer. Quando os acusados provam a sua inocência, eles silenciam e não voltam ao assunto. Em recente pesquisa, as Forças Armadas foram consideradas como os órgãos de maior credibilidade no País. Tornou-se, portanto, necessário, minar esta credibilidade. Daí a existência permanente desses ataques. 182

Note-se que neste discurso do Ternuma um dos objetivos da esquerda é destruir as Forças Armadas. Na construção desta suposta conspiração, a rivalidade entre esquerda e direita dá lugar à rivalidade entre esquerda e Forças Armadas. Um outro aspecto desta narrativa vem da ideia de tempo empregada, no qual em um continuum haveria a existente “permanência desses ataques”. O texto prossegue:

A esquerda aguardava, ansiosamente, por uma boa oportunidade para denegrir a imagem do Exército Brasileiro, através do homem que, no período crítico do terrorismo, comandara o DOI/2ª/II Exército, em São Paulo, o então Major

181 Para os insurgentes, o governo era corrupto e estava comprometido com o comunismo internacional. A

revolta durou 36 horas, e os seus líderes fugiram para os países vizinhos. Mais tarde, seriam anistiados pelo governo e inclusive participariam do regime militar. FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CPDOC) Revolta de Aragarças. Disponível em

http://www.cpdoc.fgv.br/nav_jk/htm/o_Brasil_de_JK/Revolta_de_aragarcas.asp, acesso em 25 de março, às 21h.

182 TERNUMA. Revanchismo. Texto disponível em http://www.ternuma.com.br/revanche.htm#CORONEL,

Carlos Alberto Brilhante Ustra. Afinal, após os quatro anos de seu comando, o terrorismo, em São Paulo, chegou praticamente ao fim.(...) A esquerda começou, então, avidamente, a montar a farsa para tentar desmoralizar, lá em Montevidéu, o nosso Adido do Exército. A então deputada Bete Mendes foi a escolhida para ser o pivô da campanha contra o Exército Brasileiro, na pessoa do Coronel Ustra. Ela estivera presa no DOI de São Paulo, tinha imunidades parlamentares, era uma artista, e, certamente, representaria bem o papel de vítima torturada, na farsa que se armava.(...) No primeiro capítulo a artista principal, Bete Mendes, banhada em lágrimas, reúne a imprensa e, numa entrevista coletiva, narra o quanto sofreu, ao ver o seu “torturador” perfilado entre as autoridades, no momento em que a comitiva as cumprimentava, após a chegada no aeroporto de Carrasco. Disse ter tido um choque ao reencontrar o homem que a torturara, 14 anos atrás, mas que mesmo assim, como boa heroína de novela, estendeu-lhe a mão, tendo o Coronel agradecido pela maneira educada como o tratou. No segundo capítulo, já empolgada pelo seu melhor desempenho como artista vítima de tortura, em entrevista exclusiva à Revista Veja, de 21/08/85, disse que quando esteve presa no DOI, “o corpo de um amigo, morto a pancadas, foi-lhe mostrado, estendido numa maca, para desequilibrá-la emocionalmente”. “Tudo isto era dirigido por ele, garante a deputada”. No terceiro capítulo ela continua desempenhando com louvor o seu papel na farsa da esquerda. Em resposta à atitude do Ministro do Exército, General Leônidas Pires Gonçalves, que defendeu o Coronel Ustra e impediu que o mesmo fosse exonerado de suas funções, Bete Mendes escreveu-lhe uma carta, divulgando-a para a imprensa. Esta carta, entre outras acusações, continha uma denúncia terrível: “e aqueles inocentes como eu, cujos corpos eu vi, e que estão nas listas de desaparecidos?” E assim, cada vez mais acrescentando mentiras, Bete Mendes vai alcançando os maiores índices de audiência de sua carreira de artista. Mas, o que Bete Mendes e os autores desta novela não esperavam era a reação do Cel Ustra,que escreveu o livro “Rompendo o Silêncio”. Nele, Ustra desmente a então deputada em todos os pontos de sua denúncia, a chama de mentirosa e de farsante. (...) Boa artista, vez ou outra faz papéis secundários que jamais terão a audiência de seu brilhante desempenho artístico, ao interpretar o papel de heroína política, em 1985. 183

2.6.5 GRUPO GUARARAPES

Embora em seu site predomine mais artigos com fundo político, o Guararapes também participa do processo de construção da memória. Um dos livretos do grupo, intitulado Ontem e Hoje, foi distribuído em agosto de 2008, em um seminário184 no Clube Militar. A capa mostra dois uniformes de artes marciais. O da esquerda, abaixo da palavra ontem, está marcado por elipses cobrindo pontos vitais, sugerindo os locais onde ‘o lutador’ foi atingido. O segundo quimono, virado de costas, mais à direita, abaixo da palavra hoje, tem apenas um quadrado desenhado. Dentro da figura sobressai uma faca enterrada. Com 68 páginas, o livreto trata praticamente de dois temas: as obras realizadas pelos militares no regime e a defesa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de ter sido torturador no DOI- CODI. A introdução do livro traduz bem o ressentimento com a sociedade:

183 Idem

Ontem e Hoje

Ontem, NÓS enfrentamo-LOS de frente (sic), expondo corajosa e lealmente o nosso próprio corpo para defesa de uma democracia com responsabilidade.

Hoje, ELES nos injuriam e nos difamam, além de tentarem covardemente nos apunhalar pelas costas ou de atingir mortalmente qualquer parte do nosso corpo sob o manto de um falso ambiente democrático. Na covardia DELES vê-se quanto fel se mistura com o prazer da vingança! No revanchismo DELES, a violência tende a mudar-se em fraude, a fraude em maledicência, a maledicência em suspeição, a suspeição em desconfiança, para tudo desaguar em terrorismo político.185

O primeiro capítulo traz uma lista das realizações do regime militar, no qual eles se referem como “a maior revolução industrial do século XX”186, obras estas que impediram, segundo eles, “a implantação de uma FARC no Brasil”.

O segundo capítulo é escrito pelo próprio Ustra, que utiliza artigos de jornais e documentos do Exército, para se defender das acusações. Ele prepara um longo histórico onde mostra que:

- o objetivo da esquerda era implantar uma ditadura e não trazer de volta João Goulart ao poder;

- as ações da luta armada tinham o apoio de Cuba;

- as organizações clandestinas atuavam com extrema violência; - o AI-5 foi uma resposta à escalada da violência;

- os agentes da segurança interna agiam por espírito de cumprimento da missão e não por sujeição a empresários;

- os presos políticos foram submetidos aos ritos legais; - o Exército reconheceu seus serviços;

- os revanchistas perderam a guerra, mas escreveram a história.

Ele finaliza escrevendo que se os chefes militares que criaram a estrutura do DOI – CODI estivessem vivos, não o deixariam só, “nesta hora em que os revanchistas de plantão, por vingança, querem colocar-me em julgamento”187.

Ao final do livreto, o Guararapes endossa a conclusão de Ustra e propõe um desafio aos generais de ontem e hoje, “ter como dever a atitude e a coragem de defender aqueles que cumprem o seu dever.”188

185 GRUPO GUARARAPES, Ontem e Hoje , 2008, p.3. 186 GRUPO GUARARAPES, Ontem e Hoje, 2008, p.9. 187 Idem.p.66.