3. A SECA E O PODER DO ESTADO: AS POLÍTICAS HÍDRICAS DE COMBATE À
3.5. GTDN E A SUDENE: UMA PROPOSTA DESENVOLVIMENTISTA
Com as constatações e diagnósticos de agravamento da crise regional, foi criado o GTDN, cujos estudos e recomendações foram realizados sob a liderança do economista Celso Furtado. O grupo tinha como principais objetivos identificar, a partir de estudos socioeconômicos, as desigualdades sociais e regionais, como também analisar a ineficiência das ações do poder público no combate às secas. Esses estudos serviriam no futuro como um fundamental alicerce para a criação de uma nova política de desenvolvimento, designada com a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, em 1959 (FURTADO, 1959).
Merece registro o fato de que a criação do GTDN foi fruto de diversos conflitos, bem como de pressões por parte da sociedade civil organizada, com destaque para a pressão realizada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que no ano de 1956 realizou a 1ª Conferência dos Bispos do Nordeste, sendo o tema central das discussões, a busca de soluções para o desenvolvimento e integração do Nordeste (COSTA, 2003).
Para Costa, partindo de uma ótica desenvolvimentista, o semiárido nesse período necessitava de organizações e atores sociais capazes de estruturar sua economia, motivando uma mentalidade empresarial moderna. Era imprescindível constituir novas instituições para impulsionar o desenvolvimento de empreendimentos industriais e agropecuários, como alternativa às tradicionais formas de exploração econômica e do atraso na industrialização.
As ações de combate à seca eram vistas nas grandes obras hídricas, através de órgãos de planejamento regional. Inicialmente através de projetos de açudagem e irrigação, por meio do Dnocs e, posteriormente pela própria SUDENE, através de uma proposta mais racional no uso dos recursos naturais e financeiros nos projetos de irrigação, contudo, sem deixar de planejar ações voltadas para o desenvolvimento da região Nordeste através de “novas” tecnologias. (DINIZ, 2007; GALINDO, 2008).
Conforme Castro (1968), tratava-se de uma iniciativa do Governo para rebateras fortes críticas sobre as desigualdades sociais na região. A pressão contra o governo teve origem na emergência de ações sob o desígnio de novos atores na política regional, como as ligas camponesas e sindicatos rurais, além das manifestações por parte das autoridades eclesiásticas e parte da elite que buscavam novos rumos para a região:
O clero nordestino, conhecedor das misérias da região, da revolta do seu povo e temeroso em face, de um lado do desprestígio político da Igreja junto às massas e, de outro lado, que essas massas debandassem para rumos perigosos, começou a organizar sua ação social de mais profundidade do que a da caridade do tipo paternalista (CASTRO, 1968, p. 209).
Cohn (1978) assevera que a Sudene foi uma medida de urgência para garantir a segurança nacional, uma vez que “[...] o desenvolvimento do Nordeste se torna necessário para a manutenção do padrão de integração do sistema político e social nacional” (p. 64).
Nesse sentido, as ações intervencionistas do Estado passariam das obras de irrigação e açudagem para um aproveitamento mais racional dos recursos. Uma nova propositura que se expressava no GTDN e a prática ocorreria na SUDENE na forma de uma “Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste”:
Por mais importante que venha a ser a contribuição da grande açudagem e da irrigação para aumentar a resistência econômica da região, é perfeitamente claro que os benefícios dessas obras estarão circunscritos a uma fração das terras semiáridas do Nordeste. Infelizmente não é possível substituir a atual economia da região semiárida por outra com base na grande açudagem e irrigação. As possibilidades reais dessa última são limitadas, e ainda mais limitadas se pensamos no seu custo real. A questão básica continuará a ser como adaptar a economia às condições do meio físico. Em outras palavras, aproximar-se do tipo de organização econômica mais viável na região semiárida, partindo dos recursos tecnológicos acessíveis hoje em dia. Esta questão suscita, entretanto, outra de grande significação: que quantidade de mão-de-obra poderá absorver essa economia, sem comprometer seriamente sua resistência ao impacto ocasional das secas?
A reorganização da unidade econômica da região semiárida, objetivando elevar seu nível de produtividade terá necessariamente de basear-se muito mais numa utilização racional dos recursos naturais e muito menos na utilização intensiva de mão-de-obra barata. Como a pecuária constitui a principal fonte de renda, do ponto de vista do empresário, a questão básica está em elevar os rendimentos desse setor. Ora, nos anos comuns e muito mais nos secos, durante os longos períodos de estiagens, observa-se séria perda de peso no gado, consequência da falta de pastos ou forragem adequada. Existe, hoje, óbvia sobrecarga de gado, que somente uma melhoria nas pastagens ou uma redução do rebanho poderão corrigir (GTDN, 1967, p. 73).
Segundo Campos (2004), a Sudene também foi idealizada como uma ferramenta institucional para reduzir as disparidades que a modernização do centro-sul impunha naquela época. O plano de ações inicial do órgão defendia a promoção da região semiárida do Nordeste através de políticas de apoio à industrialização, ao invés da economia agroexportadora, fomentando assim a tentativa de arquitetar a criação de um novo polo dinâmico alicerçado em atividades industriais.
Entretanto, a Sudene, fruto de embates sociopolíticos no Nordeste, representava um acordo entre diversas peças do tabuleiro diante da procura de uma solução mais incisiva para à região. O plano de ações proposto pelo GTDN se transformou na base das premissas defendidas pela Sudene, que representavam o sentido desenvolvimentista da Política do governo de Kubistchek, na medida em que significava as interações econômicas contidas no Plano de Metas (COHN,1978). Mas, boa parte das ações provenientes desse órgão, ou seja, recursos públicos, eram repassados para os grandes latifundiários que fazem parte do capital espoliativo da região.
Mas, conforme Oliveira (1981) o golpe militar de 1964 foi um fator que influenciou de forma decisiva as ações da Sudene. Devido ao cenário de transformações na esfera política, a centralização do poder contribuiu para a diminuição da autonomia institucional da autarquia.
Para o autor, com as propostas de desenvolvimento econômico, social e político propostas pela ditadura militar, a Sudene perderia espaço nas ações voltadas para as políticas regionais, redução das desigualdades sociais e a questão relacionada a escassez hídrica da
região. A abertura econômica do pais para o capital internacional estaria como principal prioridade.
Por sua vez, os problemas no semiárido brasileiro, em particular no Nordeste, aumentariam naquela época, como a redução de salários, subemprego e desemprego, à saúde pública e na educação. Os elementos de dominação e dependência da política continuavam a influenciar as famílias rurais e os números de latifundiários aumentava cada vez mais (CARVALHO, 1988)
Já na década de 70, segundo o autor, diversos programas e projetos sociais foram desenvolvidos no semiárido. Nesse período, por exemplo, o Governo Federal solicitou ao Instituto de Pesquisa Econômica aplicada – IPEA a elaboração do Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste, o Polonordeste. Lançado oficialmente em 1974, o plano tinha como principal objetivo tornar mais dinâmicos e modernos os modelos de administração e o agronegócio na Região. Essas ações foram financiadas pelo Banco Mundial.
3.6. PROGRAMAS E PROJETOS SOCIAIS PARA O SEMIÁRIDO DA DÉCADA DE