• Nenhum resultado encontrado

2. SECA, CHUVA E COLONIZAÇÃO: PRESSUPOSTOS HISTÓRICOS DO

2.1 O SEMIÁRIDO E OS SEUS CONFLITOS: O PROCESSO DE OCUPAÇÃO

Na visão de Carvalho (1988), definir o semiárido implica, certamente, mais do que em outras regiões do Brasil, colocar limites que não são apenas geográficos. Nos sentidos dessa região vão implícitos os fatores sócio históricos, idiossincráticos e, por que não, políticos, que transcendem as questões climáticas. Para tanto, a região deve ser vista através de um prisma balizado em atribuições simbólicas construídas historicamente, ao invés de unidades de pensamentos geográficas.

Porém, por que a necessidade de definir os grupos humanos que participaram da ocupação dos territórios? Seja qual for a sociedade humana, ela é detentora de uma vertente ambiental no qual materializa sua existência e que, sobretudo, apresenta uma espécie de simbiose entre os espaços naturais e os indivíduos que os ocupam.

Como resultado dessa simbiose, reconhecemos que os diversos ambientes naturais passam por processos de apropriação específicos, que são influenciados pelos aspectos tecnológicos, relações sociais e representações simbólicas, refletidos por meio dos comportamentos partilhados pelos membros de um grupo social.

Sem basear-se em qualquer forma de determinismo ambiental, para Etchevarne (2000), os distintos processos de apropriação da natureza são respectivos a cada sociedade e em uma temporalidade especifica, as formas ou padrões de ocupação de um mesmo espaço são variados, bem como o uso dos recursos naturais disponíveis no meio ambiente. Os processos sociais estão demarcados historicamente por essa interatividade seres humanos/natureza. Feitas estas ressalvas, convém passarmos à anunciada caracterização da ocupação do semiárido brasileiro. No tocante ao processo histórico de ocupação e povoamento do semiárido brasileiro, a natureza encontrada apresentava particularidades divergentes das que haviam sido encontradas no litoral úmido, não se configurando – ao menos inicialmente – como lócus de cobiça dos colonizadores (CASTRO, 2003a).

Para o mesmo autor, a natureza do semiárido foi classificada por muitos observadores como improdutiva, hostil e marcada pela fome da população. A demora para a ocupação do espaço da região por mais de um século após a chegada dos portugueses e o início da colonização, deveu-se à falta de interesse da empresa colonial em ocupar uma terra que não produzia tantas riquezas quanto a Zona da Mata.

Até então, com os interesses econômicos centrados na produção açucareira no litoral, tinham sido ocupadas apenas algumas faixas curtas de terras do Agreste, na área de transição entre a Zona da Mata e o Sertão, com a implantação de algumas fazendas para fornecimento de gado de corte e de tração para os engenhos. Além do desinteresse econômico, a ocupação da área de domínio do semiárido foi obstada pela resistência dos povos indígenas e pela aspereza do ambiente, à qual não estavam os colonizadores europeus familiarizados (AMADO, 1995).

Conforme Medeiros Filho (1988), além das secas terem sido interpretadas como um obstáculo para o projeto de colonização, os povos nativos da região, ao contrário, apresentavam o nomadismo como principal característica de seu modelo de vida. A população indígena se organizava para aproveitar os recursos naturais disponíveis.

Segundo Amado (1995), as áreas secas do sertão nordestino, de Pernambuco ao Ceará, constituíam domínio dos povos indígenas até a primeira metade do século XVII. A partir desse período, o processo de ocupação da área de domínio do Semiárido esteve relacionado a três movimentos ou acontecimentos históricos.

1. a ocupação de áreas do Agreste com a policultura e a pecuária para abastecer a região açucareira;

2. as expedições de exploração em busca de minerais preciosos nas margens do Rio São Francisco, abrindo as veredas do Sertão nordestino para a atividade pecuária;

3. o movimento de fuga de colonizadores do litoral para o Sertão durante o período da ocupação holandesa (1624 a 1654).

No que concerne ao primeiro movimento de ocupação do semiárido, os aspectos ligados ao estágio inicial do complexo açucareiro no período colonial são analisados. Mesmo durante as fortes crises de produção, segundo Furtado (1980), a empresa açucareira influenciou de forma decisiva no ordenamento social da região. O autor definiu a manutenção do setor açucareiro como um dos alicerces do que ele chamava de “complexo econômico nordestino”, o qual era formado pela economia açucareira, pecuária do Agreste e Sertão.

Mesmo apresentando uma base econômica especializada na produção de açúcar, esse “complexo econômico” sustentava em seu entorno um subsistema que era formado por atividades econômicas condicionadas ao setor açucareiro, mas com particularidades distintas. Tratava-se, na visão de Furtado, de uma espécie de “subsistema satélite”, mas que era essencial para os avanços da economia açucareira.

A exploração dos Rios São Francisco e Paraíba, como caminhos para as entradas e bandeiras, representou o segundo movimento de ocupação do semiárido, cuja finalidade foi a de viabilizar a ocupação dos territórios do Sertão da Bahia, de Pernambuco e do Piauí, bem como iniciar a ocupação de áreas de criação de gado e dos primeiros núcleos sociais.

A produção nos latifúndios na época, basicamente, era voltada para a subsistência e a pequena criação. A propósito, Andrade (1980) ressaltava que os latifúndios da região eram maiores do que o próprio território de Portugal.

O terceiro movimento de ocupação da região do semiárido deu-se a partir da colonização dos sertões do Rio Grande Norte e Paraíba pelos holandeses como uma alternativa de evasão dos conflitos contra os Portugueses no litoral. Tratou-se de uma migração de colonizadores com seus escravos para o sertão. Como descrito por Alves (1982), a partir desse deslocamento dos

criadores de gados, escravos e pessoas da família, iniciou-se a ocupação das terras secas, vales e alguns rios.

A consolidação da ocupação ocorreu apenas no final do século XVIII com o aniquilamento dos povos indígenas e, sobretudo, pelo avanço da pecuária extensiva que necessitava de grandes áreas de terras para se transformar na principal atividade produtiva dos latifúndios. A violência foi a principal arma dos colonizadores para ocupar essas terras e colocar os seus rebanhos, resultando em um verdadeiro genocídio contra as tribos indígenas. Essas áreas foram ocupadas pelos colonizadores, que instalaram as fazendas de gado, resultando em um aumento populacional e maior exploração da terra (ALVES, 1982).

O mesmo autor ressalta que a população indígena não foi totalmente exterminada, uma vez que a região também foi palco de um processo de miscigenação. As pequenas parcelas de indígenas que sobreviveram às guerras, colaboraram para o crescimento vegetativo das populações mestiças e para a materialização do processo de ocupação do Semiárido, já que eram mais adaptados com a rigidez do clima e da vegetação e com o nomadismo dos animais.

Entretanto, a seca começou a ser tratada como um grave problema apenas no século XVIII, logo após a fixação da população branca nos sertões. As secas passaram a entrar de forma permanente nos relatos históricos, enfatizando a calamidade da fome e acusando os prejuízos dos colonizadores e das fazendas de gado.

O êxodo do Nordeste para as regiões Sudeste, Norte e Centro-Oeste foi um dos primeiros movimentos da população para fugir do flagelo da seca. Segundo Alves (1982), a migração para outras regiões do país tem início no final do século XVII, com o fluxo migratório para as áreas de mineração de Minas Gerais, abandonando os currais e despovoando os engenhos.

Para o mesmo autor, nesse período, a corte portuguesa passa a referir-se às secas como o principal motivo das perdas econômicas pela população branca e fazendas de gado. As primeiras críticas foram direcionadas para a falta de alimentos, que na visão dos lusitanos era resultado da ociosidade dos moradores das fazendas da região que não trabalhavam nas lavouras, mas apenas atuavam na pecuária. A agricultura tinha um papel secundário diante das atividades pastoris, restando apenas as atividades voltadas para subsistência nas roças que, muitas vezes eram dificultadas pela falta de acessibilidade à terra e, sobretudo a escassez de mão de obra para a lavoura.

Segundo Macedo e Menezes (1970), o combate à violência na região árida era outra preocupação que ganhava espaço nessa época. Durante os longos e penosos períodos de estiagem, os primeiros saques foram realizados nas fazendas pela população e escravos

esfomeados. A história das secas sempre foi acompanhada por conflitos e saques às vilas como uma forma de se opor às condições sociais, econômicas e ambientais resultantes das crises climáticas.

Para dirimir o cenário conflituoso, os governantes ordenaram o envio de conjuntos de militares chamados de “bando”, “[...] a fim de dar combate aos ‘gentios de corso’ e aos grupos de vadios e ladrões que infestavam o interior dos seus domínios, principalmente nas crises climáticas” (ALVES, 1982, p. 41). Embora as ações tivessem sido concentradas para o combate dos saques aos sítios e armazéns, os governos provinciais articularam medidas que forçavam a formação de povoamentos com os retirantes das secas, considerados vagabundos e salteadores. Após o fim da colonização lusitana, durante o primeiro reinado, as ações governamentais assistenciais às vítimas do flagelo da seca foram mantidas, ou seja, o auxilio proveniente do poder público apenas chegava após persistentes pedidos das províncias, relatando quadros trágicos de miséria e morte nos sertões. A distribuição de alimentos (feijão, farinha e milho) prosseguiu até o período regencial, quando o Ministro do Império autorizou a liberação de recursos para perfuração de poços, em 1833. Algumas novidades do período são relatadas por Gustavo Maia Gomes (2001, p. 87):

[...] o aparecimento da figura do açude (e o prêmio oficial à sua construção por particulares), como instrumento para atenuação dos efeitos das secas (1832). A (imediata!) transposição do São Francisco, ainda com outro nome, mandada estudar pelo rei D. João VI ou proposta, na Câmara, pelo deputado cearense Tristão de Alencar Araripe também era uma ideia nova.