4.2 A Global Task Force (GTF)
4.2.2 GTF e Habitat III
Por meio da Global Task Force a CGLU esteve na linha de frente como representante dos governos locais no processo preparatório para a terceira Habitat, que foi mais intenso e decisivo durante os dois anos que antecederam a conferência.
A primeira conferência preparatória (PrepCom1) foi realizada em setembro de 2014, em Nova York. Nessa ocasião, a Global Task Force enfatizou a importância de se articular os resultados da Habitat III com a agenda pós-2015 e sugeriu algumas temáticas centrais que não poderiam deixar de ser abarcadas pela Nova Agenda Urbana (NAU): i. coesão territorial; ii. governança local e multi-nível; iii. cidadãos no centro da governança; iv. cultura como um condutor e impulsionador do desenvolvimento sustentável; iv. inovação, economia local e desenvolvimento social; v. mudança climática e promoção da resiliência; vi. financiamento adequado no nível territorial; vii. participação organizada e viii. aprendizado peer-to-peer e cooperação descentralizada.
Importa aqui destacar, a partir desses pontos, que a GTF busca sempre chamar a atenção para a questão da subsidiariedade entre os diferentes níveis de governo, levando em
consideração a necessidade de uma clara definição das atribuições dos governos locais, bem como um financiamento justo e suficiente desses níveis de governo, que tem mais responsabilidades acumuladas, mas pouca transferência de investimento por parte dos governos nacionais, tendo então que arcar com problemas de ordem orçamentária, o que gera impactos negativos na qualidade de vida de seus cidadãos. A autonomização dos governos locais deve vir então acompanhada de maior financiamento.
A GTF também participou da segunda PrepCom, realizada em abril de 2015 em Nairobi. Nessa conferência, a rede buscou relembrar o consenso estabelecido pela Habitat II, que reconheceu a importância e o papel dos governos locais no processo pela elaboração e cumprimento da agenda urbana. A GTF faz então um apelo para que os Estados-membros “recuperem o espírito de Istambul” para intensificar sua cooperação com governos locais. Também traz algumas propostas para que sejam consideradas à Nova Agenda Urbana.
Em primeiro lugar, a “participação e empoderamento comunitário” principalmente no que diz respeito à inclusão de todas as esferas de governo e da sociedade civil na construção da agenda, pensando em um novo conceito de cidade, entendida como um bem coletivo comum. E em segundo lugar, a GTF também chamou atenção aos meios de implementação da NAU, que devem caminhar junto aos instrumentos de localização dos ODS bem como com a questão do financiamento. Nessa ocasião, a GTF ainda se comprometeu a organizar a Segunda Assembleia Mundial de Governos Locais e Regionais, que seria a segunda edição herdeira da Assembleia realizada durante a Habitat II, promovida, na época, pelo Comitê Gestor de Autoridades Locais da Habitat II.
Nesse contexto da PrepCom2, também é importante lembrar a criação da General Assembly for Partners (GAP), uma plataforma de parceria de stakeholders que visava incidir no processo da Habitat III e na implementação da NAU. A plataforma reúne mais de mil stakeholders. A GAP conseguiu criar uma relação próxima tanto com o Bureau Executivo Preparatório da Conferência como com o seu secretariado. A experiência bem-sucedida desse tipo de engajamento multi-setorial foi reconhecida pelas ONU que concedeu lugares para os representantes da GAP durante as Plenárias da Habitat III, que eram consideradas as principais instâncias de decisão e discussão da conferência. A GAP é constituída por 16 Partner Constituent Groups que são temáticos. Cada grupo é composto por organizações da sociedade civil, acadêmicos, redes, entre outros. Além da GTF que participa da plataforma, um dos 16 grupos específicos da GAP é sobre Autoridades Locais e Sub-nacionais, presidido
por Emilia Saiz, representante da CGLU, demonstrando que a rede estava também muito inserida nessa articulação.
Em maio de 2015, a GTF divulgou as sete políticas basilares defendidas pela rede e que seriam seu foco de ação no processo preparatório à Conferência: i. tornar os governos locais e regionais mais fortes e accountables para promover desenvolvimento inclusivo e sustentável; ii. explorar o planejamento estratégico para garantir a visão do desenvolvimento de cidades e assentamentos humanos; iii. renovar o contrato social, colocando o direito à cidade no centro da Nova Agenda Urbana; iv. destravar o potencial dos territórios em promover o desenvolvimento econômico sustentável local, políticas ambientais e proteger nosso planeta; v. repensar sistemas de financiamento local para tornar as cidades sustentáveis; vi. melhorar as capacidades dos governos locais e regionais em gestão de riscos e crises e vii. promover o espírito de solidariedade pela cooperação descentralizada.
Em maio de 2016, após a divulgação do draft zero da Nova Agenda Urbana, ocorreu em Nova York audiências informais do secretariado da conferência com aproximadamente 120 representantes de governos locais (HABITAT III SECRETARIAT; INTERNATIONAL INSTITUTE FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT, 2016). Essa agenda foi prevista pela resolução A/70/210 da Assembleia Geral aprovada em dezembro de 2015. A resolução enfatiza a importância do envolvimento dos governos locais no processo preparatório da Habitat III. Esse documento, contudo, apesar de reconhecer a participação dos governos locais nas deliberações da conferência, indica que essa participação ocorre sem direito a voto.
Na ocasião das audiências informais também ocorreu em Nova York a primeira sessão da Segunda Assembleia Mundial de Governos Locais e Regionais. A sessão de Nova York foi a primeira de três – a segunda seria realizada em Bogotá em outubro de 2016 e a terceira em Quito, durante a própria Habitat III.
Dentre as recomendações realizadas pelos governos locais em Nova York destaca-se o papel das regiões metropolitanas, cidades pequenas e médias e zonas rurais na Nova Agenda Urbana; o impacto das migrações nas cidades; o papel da cultura no desenvolvimento sustentável; o direito à cidade; a necessidade de fortalecimento das finanças municipais – sugerindo a criação de um Observatório Global de Finanças Locais -; a relação entre a NAU e os ODS – com ênfase na implementação e monitoramento do ODS 11 -; o potencial transformativo da descentralização e a democracia local.
Dentre as recomendações relacionadas à governança, a GTF demandou um status específico para governos locais e autoridades sub-nacionais, ou seja, um status que não fosse apenas de “observador”, mas que permitisse uma participação mais ativa desses atores tanto durante a Habitat III como dentro do sistema ONU como um todo. Além disso, a GTF também sugeriu a criação de um Painel Internacional Multisetorial sobre Urbanização Sustentável de forma a promover a colaboração de múltiplos atores em relação à temática.
A GTF ainda participou de encontros informais intergovernamentais realizados com a sociedade civil em junho de 2016, também em Nova York. Após esses encontros, uma versão revisada do draft zero foi divulgada. Em julho, um draft consolidado da Nova Agenda Urbana foi oficialmente lançado pela ONU e discutido durante a terceira PrepCom que ocorreu em Surabaya (Indonésia).
Durante o encontro na Indonésia, a GTF chamou atenção para quatro pontos que considerava não estar suficientemente contemplados na versão consolidada da Nova Agenda Urbana: i. a questão da renovação do contrato social, que pela rede seria realizada por meio do direito à cidade – que já aparecia na redação desta versão NAU; ii. a questão dos desafios de financiamento da nova agenda urbana; iii. a questão da sustentabilidade no planejamento urbano e, por fim, iv. a questão da renovação da governança, que implica uma mudança de paradigma em direção à governança multi-nível. Esses quatro pontos (direito à cidade, financiamento, sustentabilidade e governança multi-nível) essencialmente resumem o que foi a base do advocacy da GTF para a Habitat III.
Após a PrepCom3, uma nova versão da Nova Agenda Urbana foi divulgada. Essa versão foi discutida na última negociação informal intergovernamental realizada em setembro de 2016, em Nova York. Essa última rodada de negociações resultou na última versão da NAU definida então antes da realização da própria Habitat III em si. Assim, percebe-se a importância da participação e incidência da GTF durante o processo preparatório da Habitat, processo esse que foi estratégico para a articulação do conteúdo que constaria na NAU e que foi apenas formalmente aprovado em Quito.
Ainda antes de Quito, também foi realizado o 5º Congresso Mundial da CGLU e a Cúpula Mundial de Líderes Locais e Regionais, sob o tema “Vozes Locais para um Mundo melhor”. A Cúpula, que contou com a participação de 3500 delegados, de mais de 110
países107, teve quatro resultados fundamentais: i. a Agenda Global dos Governos Locais e Regionais para o Século 21; ii. o 4º Relatório Mundial sobre a Democracia Local e Descentralização (GOLD IV)108; iii. as declarações de Bogotá com os principais resultados da Cúpula e iv. as recomendações principais dos Governos Locais e Regionais para Habitat III.
Esse Congresso resultou na Declaração/Compromisso de Bogotá e Agenda de Ação, focado na ação em três níveis de governo: i. no nível local, a realização da Nova Agenda Urbana; ii. no nível nacional, o estabelecimento de novo sistema de governança multinível; iii. no nível internacional, o papel dos governos locais e regionais na mesa de negociação. Durante o evento em Bogotá, conforme já indicado, também foi realizada a segunda sessão da Segunda Assembleia Mundial de Governos Locais e Regionais.
No dia 16 de outubro, já em Quito, foi realizada a terceira sessão da Segunda Assembleia Mundial de Governos Locais e Regionais, organizada pela GTF e pela GAP109. Esse foi o espaço oficial no qual governos locais e regionais puderam fazer suas considerações e recomendações sobre a NAU, aprovando uma declaração conjunta. Além da Assembleia, a GTF e a GAP também organizaram durante a Habitat III uma mesa redonda sobre autoridades locais e sub-nacionais, com representantes de redes de cidades e seções da própria CGLU. A mesa teve como objetivo discutir ferramentas de implementação e monitoramento da NAU por governos locais.
Conforme então verificado ao longo desta linha cronológica de eventos preparatórios, declarações e recomendações, a GTF, encabeçada pela CGLU, esteve muito presente durante o processo que antecedeu a Habitat III. Assim, a GTF reconheceu que seu trabalho de advocacy foi significante para que avanços considerados relevantes aparecessem no documento final da NAU. Entre esses avanços: i. a própria menção da importância do papel dos governos locais na implementação da Agenda; ii. a inclusão do direito à cidade no documento (que será melhor abordado adiante); iii. a inclusão do princípio da subsidiariedade e do reconhecimento da descentralização fiscal, política e administrativa; iv. o
107 Boletim nº 09 do V Congresso Mundial da CGLU e a Cúpula Mundial de Líderes Locais e Regionais. Disponível em: https://us6.campaign-archive.com/?u=25355587cd2a5feffe092c002&id=1f3426c14e. Acesso em 29 de julho de 2018.
108 O Relatório é produzido a cada três anos como fruto do Observatório Global sobre Democracia Local e Descentralização (parte do secretariado global da CGLU).
109
Dentre as prefeitas e prefeitos presentes na Assembleia pode-se citar Ada Colau (Barcelona), Daniel Martínez (Montevideo), Denis Coderre (Montreal), Horácio Rodríguez Larreta (Buenos Aires), Jan Van Zanen (Utrecht), Kadir Topbas (Istambul), Khalifa Sall (Dakar), Marcio Araujo de Lacerda (Belo Horizonte), Michael Müller (Berlim), Mohamed Sadiki (Rabat), Mohammad Bagher Ghalibaf (Teerã), Tri Rismaharini (Surabaya), entre outros.
comprometimento dos Estados-membros com uma política participativa; v. o encorajamento das interações urbano-rural e de uma abordagem integrada entre o urbano e o território; vi. o fortalecimento de capacidades para a implementação de uma abordagem de governança multi- nível; vii. o reconhecimento da NAU para a implementação dos ODS; entre outros (UNITED CITIES AND LOCAL GOVERNMENTS, 2016ª).
Finalmente, segundo o relatório “Our Habitat III Achievements”, a Global Task Force não cessaria sua atuação pós-Habitat III, e continuaria trabalhando em rede para o monitoramento da NAU e dos ODS:
The Conference in Quito was by no means the end of local and regional governments’ Habitat III Journey. Our constituency sees the New Urban Agenda as the lynchpin of all of the other major international agendas adopted over recent years. The Paris Climate Agreement, the Sustainable Development Goals, the Sendai Framework… all will depend on the successful implementation of the New Urban Agenda in cities and territories for their achievement110 (GLOBAL TASK FORCE OF LOCAL AND REGIONAL GOVERNMENTS FOR POST-2015 DEVELOPMENT AGENDA TOWARDS HABITAT III, 2017, p. 38).
4.3 Sobre a Comissão de Inclusão Social, Democracia Participativa e Direitos