É possível verificar, a partir de tudo que foi exposto anteriormente, grande capilaridade e alcance internacional da CGLU, bem como sua forte incidência política nas mesas de negociação internacional. Contudo, para se ter um panorama dos impactos da existência da CGLU e de sua Comissão de Inclusão Social, Democracia Participativa e Direitos Humanos, faz-se também necessário levantar suas limitações e dificuldades de atuação.
4.4.1 Da CGLU
Em relação ao funcionamento da CGLU como rede internacional de cidades – o que também poderia, de certa forma, se aplicar a outras redes de forma geral – uma das entrevistadas da PMSP, Anita Gea Martinez Stefani, explica que, devido à natureza das cidades do mundo, é difícil conseguir comparar as competências e o papel das cidades - o que não diria respeito apenas as diferenças de tamanho entre cada uma delas, mas também as diferenças de responsabilidades. Sobre isso, ela faz uma comparação com os Estados-nação ao dizer que há um pacto, uma “estrutura-padrão” em que é possível identificar um Estado- nacional e, assim, todos teriam o mesmo status e se identificariam como iguais. Contudo, isso não ocorre em relação às cidades já que não há um consenso sobre o que é de fato “cidade”.
Em relação especificamente ao funcionamento da CGLU, tem-se confirmado a partir de tudo o que foi exposto nesta pesquisa, que, de fato, ela se propõe a ser uma rede que dá voz
e visibilidade internacional aos governos locais. A própria auto-intitulação de a “ONU das Cidades” já demonstra que ela quer ser um espaço de representação e articulação política internacional, tal como a ONU é para os Estados-nacionais. Nesse sentido, o entrevistado Nelson Saule destaca que a criação da CGLU se deu dentro do próprio processo da Habitat II da Organização das Nações Unidas, ou seja, o estabelecimento da CGLU tem relação direta com o que ele chamou de “família ONU”.
Assim, os entrevistados parecem convergir em suas contribuições na avaliação de que a CGLU se propõe a - e de fato consegue - desempenhar um papel destacado justamente no que diz respeito a essa articulação política internacional – inclusive devido à abertura, de certa forma, já consolidada que possui dentro do Sistema ONU - como já demonstrado por meio, por exemplo, da atuação dentro da UNACLA e com assento, mesmo que de observador, nas principais instâncias de discussão da organização. Em relação a isso, Tayara Calina, entrevistada da PMSP, ressalta que quando outras redes menores (como o ICLEI) querem levar seus posicionamentos às grandes conferências internacionais do clima (como a COP), elas “batem na porta” da CGLU.
Contudo, apesar do alto nível de inserção na arena internacional, a atuação da CGLU ainda parece carecer de instrumentos que produzam resultados práticos e concretos no nível local. Nesse sentido, a segunda entrevistada da CGLU chama a atenção para dificuldade da “cadeia de transmissão para o território”, ou seja, de conseguir permeabilizar os elementos apreendidos internacionalmente para a prática cotidiana da política pública – questão essa central nessa dissertação.
Em relação a isso, no que diz respeito à cooperação técnica descentralizada em si – o que em tese a CGLU também se propõe a fazer segundo seus objetivos e projetos de cooperação mais pontuais – a rede não consegue ser tão efetiva. De acordo com a primeira entrevistada da rede, a CGLU ajuda de fato a “criar o marco político para que haja a cooperação descentralizada”, mas a própria rede em si não leva a projetos de cooperação. Anita Stefani, da SMRIF ainda complementa dizendo que, em geral, redes genéricas – como a CGLU - normalmente têm baixo grau de cooperação técnica: “é o dilema da generalização e especificação”.
Assim, Tayara Calina, da SMRIF, faz uma analogia da CGLU com a figura do Secretário-Geral da ONU, e não com as agências, que já desempenhariam uma função mais técnica. Ela ainda compara a atuação da CGLU com redes de clima, como o próprio ICLEI (já
citado aqui anteriormente) e a C40, que seriam redes temáticas e mais técnicas e que conseguiriam efetivamente gerar produtos da cooperação técnica (como cartilhas, capacitações, compartilhamento de tecnologia, etc). Assim, para ela, as contribuições que a CGLU consegue dar são menos quantificáveis, já que se concentram mais no nível político. Ainda em relação a isso, ela também afirma que o que é concretamente produzido nos encontros da rede normalmente seriam “cartas curtas, de consensos óbvios”.
Dessa forma, a partir do que fora analisado anteriormente, infere-se que apesar de se reconhecer que a CGLU tem realizado esforços para a cooperação descentralizada, ela ainda o faz de maneira secundária. A grande atuação da rede ainda parece estar centrada no papel de advocacy nas negociações internacionais e na afirmação de seu papel como representante legítimo das vozes dos governos locais – o que também é de fato importante e necessário para a conjuntura global atual. As iniciativas de cooperação, contudo, ainda são pontuais e carecem de monitoramento e acompanhamento que consigam indicar seu real impacto na política pública das cidades-membro. A rede participa e organiza eventos, produz relatórios e banco de dados de experiências, mas não se sabe o que isso gera de produto concreto nas cidades, remetendo à questão da dificuldade da “cadeia de transmissão para o território” mencionado por uma das entrevistadas da rede.
4.4.2 Da CISDPDH
Já em relação às dificuldades de atuação da própria CISDPDH, na primeira entrevista com representante da CGLU, foi levantada a questão de que trabalhar com governos locais que mudam a cada período curto de tempo também seria um grande desafio. Essa questão, já levantada durante este capítulo e no capítulo 2 dessa dissertação, aparece em outras redes de cidades que não tem um staff fixo e que de fato dependem da atuação ativa das cidades- membro para realizar atividades. Essa dificuldade, contudo, apareceu como uma questão central na CISDPDH, mesmo que esta tenha funcionários e consiga desenvolver seu trabalho de forma relativamente independente das cidades-membro. A questão é que a mudança de governo também impacta na mudança de parceiros políticos – e, consequentemente financeiros - que a CIDSPDH possui para promover suas atividades.
Em relação às atividades da comissão, a primeira entrevistada da rede demonstra um olhar crítico à realização de seminários. Ela não nega as contribuições da realização desses
eventos, mas ressalta que podem ser um pouco “superficiais”, já que não há seguimento do que foi acordado nesses espaços. Essa crítica também apareceu no capítulo 2, em relação à cooperação ser limitada à realização apenas de eventos pontuais e como isso poderia efetivamente produzir resultados concretos. Assim, por vezes, os representantes locais podem afirmar compromissos durante esses eventos, mas não há garantia se o que fora acordado por meio de declarações será de fato respeitado localmente. A realização de eventos é importante para a troca de experiências, visibilidade internacional de boas práticas e fortalecimento de movimentos de mobilização internacional, contudo, não é suficiente para se garantir a cooperação descentralizada.
O próprio Observatório de Cidades Inclusivas, que poderia contribuir com a cooperação descentralizada, também teria suas limitações. Sobre isso, a mesma entrevistada faz algumas ponderações ao dizer que, apesar de as políticas terem sido sistematizadas, pelo Observatório não há nenhum trabalho específico com os governos locais em relação a isso. Essa mesma crítica - mencionada ao longo desse capítulo – se relaciona à falta de um projeto permanente de monitoramento de políticas públicas (tal como foi realizado pontualmente com a Prefeitura de Bogotá). Ainda sobre o Observatório, a entrevistada também sugere que a ferramenta precisa “ter mais vida”, lembrando que a mudança das administrações locais exige que o banco de experiências seja frequentemente atualizado (o que não parece ocorrer nesta plataforma).
A primeira entrevistada da rede também aponta os obstáculos de se trabalhar especificamente com a temática de direitos humanos dentro da CGLU. Para ela, defender direitos humanos não é apenas intercambiar boas práticas, mas de fato defender politicamente a pauta - inclusive dentro da rede. E é justamente em sensibilizar as figuras políticas, garantir o enfoque de direitos humanos nas políticas públicas, que se concentra o desafio. A segunda entrevistada da CGLU também confirmou essa questão ao tratar do trabalho de mobilização pelo direito à cidade dentro da própria rede.
Em algum sentido, a dificuldade apontada pelas entrevistadas era algo comumente sentido na própria Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) – que será tratada no próximo capítulo. Rogério Sottili, primeiro secretário da SMDHC, reiterava a importância – e dificuldade - da disputa simbólica que deveria ser feita diariamente em São
Paulo em torno de valores de direitos humanos123. Semelhante a essa colocação, a primeira
entrevistada da CGLU ressalta a relevância do que ela chama de “a pedagogia dos direitos humanos”, algo que ela diz ser bem executado na cidade de Gwangju (Coréia do Sul).
Assim, é possível destacar duas principais dificuldades de atuação da comissão: i. a falta de engajamento político e financeiro das cidades-membro, o que prejudica a militância das pautas com as quais a CISDPDH trabalha e ii. a dificuldade de se promover os direitos humanos de maneira ampla, o que envolve sensibilização interna e externa.
A primeira questão está diretamente relacionada à orientação ideológica das cidades, sensível à alternância de poder, bem como às próprias limitações da CISDPDH para conseguir atrair mais cidades engajadas com sua pauta. Conforme já mencionado, algumas poucas cidades específicas (sobretudo europeias e latino-americanas) acabaram se tornando protagonistas políticas e financeiras da comissão. Cabe aqui também se perguntar as demais cidades conseguem de fato perceber o “valor-agregado” que pode ser obtido com a participação ativa na comissão – e da própria rede em si.
Já o segundo ponto, diz respeito às dificuldades de militância com a pauta em si, já que direitos humanos não é algo dado, é um construído. Conceitos como o direito à cidade, conforme abordado, não são um consenso, sendo necessário realizar essa “disputa simbólica”, conforme mencionado por Sottili. Para essa disputa são necessários atores políticos fortes e motivados que consigam (e queiram) de fato encabeçar esse discurso e prática centrada em direitos e então volta-se ao primeiro ponto, mostrando que as duas dificuldades estão diretamente interligadas.
Tendo em vista essa série de questionamentos – seja em relação à CGLU como com a sua comissão – que se buscará entender, por meio de um estudo de caso de uma cidade específica, como essas dificuldades, limitações e impactos ocorreram na sua participação e interação com a rede. O próximo capítulo abordará então a relação da CGLU/CISDPDH com a Prefeitura de São Paulo, durante uma gestão que estabeleceu uma secretaria municipal específica para trabalhar com direitos humanos.
123 REDE BRASIL ATUAL. Com novos centros de educação, prefeitura quer acabar com 'cultura de violência' em SP. 2014. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2014/04/prefeitura-lanca-centros-de- educacao-em-direitos-humanos-para-mudar-cultura-de-violencia-em-sp-3632.html. Acesso em: 11 de julho de 2018.
5 ATUAÇÃO VIA REDE DE CIDADES NA PAUTA DE DIREITOS HUMANOS: O CASO DA CIDADE DE SÃO PAULO NA REDE CIDADES E GOVERNOS LOCAIS UNIDOS (CGLU) 2013-2016