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Guarabira: entrada e passagem do Brejo Paraibano

2. A RAINHA DO BREJO PARAIBANO: sujeitos lugar e práticas culturais

2.1 Guarabira: entrada e passagem do Brejo Paraibano

Guarabira é uma cidade localizada geograficamente na microrregião do Piemonte da Borborema a 98 km de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba. Fundada com o nome de Vila da Independência nos anos trinta do século XIX, transformou-se aos poucos em um pólo comercial e social da região. (CAMELO, 1999).

Em sua obra, Itinerário Histórico de Guarabira, Camelo (1999) sugere que o espaço no qual atualmente Guarabira está localizada surgiu como uma porta de entrada e passagem das riquezas do Brejo paraibano.

Situada nos primeiros contrafortes da Borborema e contornando o rio e a lagoa entre montes, a vila da independência crescia naqueles anos na década de 80 do século passado. Da caatinga – brotando, entre juás, palmatórias e macambiras – surgia, nativo, a seiva que lhe dava vigor ao corpo; algodão. Riquezas começaram a surgir da noite para o dia: erguem-se casarões e sótãos na rua da Matriz e nas ruas ao redor delas. O trem de passageiros e cargas cortava a cidade, trazendo progresso ao comércio local e de toda a região polarizada pelo município de Guarabira (CAMELO, 1999.p.69).

Entre os anos de 1930 e 1940, a cidade possuía uma linha férrea que mantinha um trecho de ligação com o Estado do Rio Grande do Norte e a região portuária do Recife, no Estado de Pernambuco. Nesse período, Guarabira mantinha-se como entreposto comercial desses estados que possibilitavam o contato do município com outras cidades do interior do Nordeste, como Nova Cruz, no Estado do Rio Grande do Norte, com a qual era estabelecido um comércio de trocas de diversos produtos.

Guarabira foi um ponto de passagem criado, entre outros meios, pela existência do trem de carga e passageiro que diariamente chegavam à cidade. Esse meio de transporte transformou a cidade em um eixo de aglutinação e proporcionou um fluxo de mercadoria e pessoas oriundas de várias regiões do país e do mundo.

O historiador Persinaldo dos Santos, guarabirense que atualmente é diretor da 2ª Regional de Ensino e na época da realização do Programa Escola do Rádio era secretário municipal de educação, evidencia na sua fala a complexidade desse momento histórico quando cita, em seu depoimento, a história da chegada do egípcio que trouxe a primeira bola de futebol para o Município.

[...] o homem que trouxe a primeira bola para Guarabira era um egipício que estava fugindo dos terremotos [...] chegou no Brasil e se tornou técnico nas minas em Minas Gerais [...] Guarabira era a passagem, passava por aqui este trem [...] este egípcio veio nesse trem, ficou aqui e trouxe uma bola de futebol. Dizem, não sei se é folclore, que quando ele bateu a bola no chão todo mundo correu pensando que era uma bomba...

Histórias pitorescas como essa, guardam em si fragmentos de processos históricos dos quais não se encontra registros oficiais, mas , podem sugerir, que a localização estratégica de Guarabira também contribuiu na sua constituição de referência para as outras cidades, que como ela, estão situadas na microrregião do Piemonte da Borborema, bem como para aquelas que pertencem a microrregião do Brejo.

Mesmo que o trem tenha diminuído seu papel de fazer transitar pessoas e mercadorias, chegando nos dias de hoje a uma extinção do uso desse meio, o comércio continuou seu processo de expansão. Esse fato é caracterizado pala criação dos grandes armazéns de estivas que até a década de setenta abasteciam as cidades vizinhas através da comercialização de produtos produzidos na zona rural trazidos pelos agricultores para serem vendidos na cidade e pela compra de mercadorias produzidas no meio urbano pelas comunidades rurais.

Essa comercialização acontecia nas feiras livres duas vezes por semana: na quarta-feira e no sábado. Na quarta-feira, acontecia a Feira do Sertanejo, onde os sertanejos comercializavam os produtos que traziam do Sertão como queijo, manteiga, ovos de galinha de capoeira, carvão, caroá, sisal, e compravam produtos industrializados como aguardente, rapadura, charque, açúcar e outros

gêneros. No sábado, a feira era de menor porte e não contava com a presença das mercadorias trazidas da zona rural.

Na Feira do Sertanejo ainda se encontrava a presença das tradições populares relacionadas à produção cultural na área da poesia através do folheto de cordel e do verso criado pelos repentistas que comercializavam os folhetos e faziam apresentações durante o período de realização da feira.

Segundo o depoimento do senhor José Paulo, funcionário da secretaria de cultura, a década de oitenta representou a decadência desse comércio de rua, no qual além da comercialização de mercadorias do meio rural e urbano, era comercializados os produtos agrícolas produzidos pelas cidades vizinhas como Pilãosinho, produtor de bananas e Cuitegi de laranjas.

As frutas chegavam na terça a noite e na quarta eram vendidas para os sertanejos. Com a criação da rodovia do Anel do Brejo ficou mais fácil se chegar a outros centros, inclusive a capital do Estado. Hoje se gasta uma hora e trinta minutos para chegar a João Pessoa e uma hora e quarenta para chegar a Campina Grande que abastece muitas regiões do Sertão com verduras e frutas vindas do CEASA. (depoimento do Sr. José Paulo)

Através desse depoimento pode-se perceber o crescimento da região interferindo no cotidiano da cidade que, mesmo mantendo a existência da feira livre duas vezes por semana, esta se caracteriza de forma diferente. Hoje é organizada no sábado uma feira de grande porte com produtos diversificados e na quarta-feira não existe mais a Feira do Sertanejo, e sim uma feira de pequeno porte na qual algumas tradições, como a venda de folhetos de cordel ainda é mantida.

Uma rua da feira realizada na quarta-feira

Atualmente o comércio de Guarabira organiza-se a partir de uma nova configuração: mantem-se a tradição de um comércio de rua, representado pelas bancas de ambulantes espalhadas pela rua do antigo mercado, convivendo com magazines que comercializam produtos industrializados.

O abastecimento à cidades vizinhas ainda permanece, mas, caracteriza-se pela busca e fornecimento de outros produtos. A polarização comercial é um elemento cultural que permanece ao longo da história da cidade como um forte símbolo de representação de sua constituição enquanto Rainha do Brejo.