2.5 Irreversibilidade do tempo, longa duração e ―terceiros não incluídos‖
2.6.1 Guerreiro Ramos e a teoria da dependência
Consciente das profundas rupturas epistemológicas e metodologias que a obra de Guerreiro Ramos representava em relação à tradição sociológica e filosófica ocidental, o jovem Theotonio dos Santos escreve, em 1958, sobre ―a redução sociológica‖, o seguinte: ―A teoria da sociedade brasileira e a redução sociológica abrem-nos, assim, o caminho para uma teoria do mundo, do passado, do presente e
do futuro, para uma nova concepção do espaço e do tempo‖. Isto é, não se trata, apenas de uma nova interpretação sociológica, se não de uma matriz analítica que sugere novas elaborações epistemológicas e filosóficas.
Dos Santos distingue três níveis de análise na obra de Guerreiro Ramos, através dos quais realiza uma interpretação marxista da redução sociológica e a dinâmica teórica que ela desenvolve:
1. O nível da subestrutura, que corresponde à realidade brasileira e que vai conduzir a uma teoria da sociedade brasileira;
2. O nível da estrutura, que se refere à estruturação da sociologia brasileira construída a partir da subestrutura e que constituiria um Tratado Brasileiro de Sociologia, e
3. O nível da superestrutura que conduz a uma ideologia e um projeto daquela realidade através de uma nova filosofia baseada em uma razão sociológica. A sociedade brasileira é concebida como um todo estruturado em evolução. A práxis de sociólogo, através da redução sociológica como atitude metódica, consiste em utilizar os conceitos importados como subsidiários de uma sociologia nacional. Este processo transforma o próprio sociólogo e dá uma dimensão inteiramente diversa a seu trabalho. Como esta não é uma mera atitude existencial, se não que implica uma criação teórica transformadora da própria teoria e da realidade, as conseqüências deste processo sociológico são imprevisíveis. Assim, para Dos Santos, o significado de estrutura social brasileira no pensamento de Guerreiro Ramos, é a fonte do raciocínio filosófico e sociológico, mas ao mesmo tempo, é parte integrante do raciocínio que ela condiciona. Trata-se do reconhecimento, mas também, de uma afirmação própria a partir da análise de Guerreiro Ramos, da relação dialética entre estrutura e superestrutura, e seu mutuo condicionamento. Processo teórico complexo que o marxismo ortodoxo hegemônico, até fins dos anos cinqüenta, abandona sistematicamente.
A matriz analítica proposta por Guerreiro Ramos em A redução sociológica e a recuperação que muito cedo realiza Dos Santos do potencial transformador desta obra, fazem parte de um momento mais amplo de rediscussão das bases teórico- metodológicas das ciências sociais latino-americanas, que levará a questionar radicalmente as limitações da ciência social dominante, criando condições para a emergência de interpretações teóricas que incorporem as particularidades da realidade social na região para desenvolver uma interpretação própria da América
Latina como construção histórica e social específica no marco um movimento histórico universal e planetário.
Neste artigo adiantado, o jovem sociólogo deixa clara sua pretensão, ―um tanto ambiciosa‖ como ele mesmo assinala, de ampliar as perspectivas abertas por A redução sociológica, a partir das linhas básicas que está discute. Dos Santos reconhece na obra de Guerreiro grandes possibilidades interpretativas e teóricas que têm conseqüências implícitas ainda não desenvolvidas, como explica a continuação: ―É uma inteira revolução no pensamento humano que está por trás da obra de Guerreiro Ramos, e se ainda ele não assumiu esta atitude revolucionária no campo do pensamento teórico é porque tarefas mais urgentes convocam o pensamento brasileiro, tarefas que só depois de realizadas permitirão uma estruturação tão ampla‖71
. Continua o autor: ―Em que se apoiaria esta teoria do mundo que incorpora o pensamento ocidental à perspectiva brasileira? Se Guerreiro Ramos não elaborou ainda esta teoria, já possui o instrumento da análise que conduz a ela e que ele chama de razão sociológica‖.
Theotonio Dos Santos assumirá explicitamente o compromisso teórico de aprofundar e reelaborar aquilo que Guerreiro Ramos deixa pendente ou apenas sugerido:
A razão sociológica é uma ideia fecunda a ser desenvolvida e que tal vez possa servir de base a uma teoria do mundo do ponto de vista brasileiro e dos países periféricos (...). A ideia de uma nova metafísica apoiada numa crença da posição privilegiada do Brasil e de outros países periféricos no mundo é ainda uma intuição implícita na obra de Guerreiro Ramos. Se ele ainda não a desenvolveu, não cabe a nós fazê-lo, pelo menos por enquanto (o sublinhado é nosso), (DOS SANTOS, 1958, p. 195).
Esta tarefa será realizada anos mais tarde, quando, a partir da segunda metade da década de 1960, Dos Santos, junto a outros intelectuais, principalmente latino-americanos, se dedicará a formular a teoria da dependência como um novo marco teórico e interpretativo da realidade latino-americana e do capitalismo mundial como movimento histórico universal a partir da perspectiva dos países periférico ou dependentes. A corrente marxista da teoria da dependência, que Dos Santos forja em estreita colaboração com Ruy Mauro Marini e Vania Bambirra, vai recuperar o pensamento de Guerreiro Ramos, colocando no centro da discussão as particularidades da América Latina como elementos para construir uma teoria do
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SANTOS, Theotonio Junior. Perspectivas da redução sociológica. Em: Diário de Noticias, 14 de setembro de 1958.
capitalismo dependente, integrado a economia mundial e parte do desenvolvimento universal do capitalismo contemporâneo. Universal e particular, universal e nacional, são dimensões teóricas que adquirem assim, uma nova interpretação dialética. Esta visão dialética da teoria da dependência é uma postura do marxismo revolucionário que surge depois, e ao calor, da Revolução Cubana na América Latina? Certamente, mas é, também, e particularmente no caso da corrente marxista da teoria da dependência, uma influência fecunda do mestre baiano. A recuperação do pensamento de Guerreiro Ramos, como toda elaboração teórica, é um processo extremamente complexo, de negação e afirmação, de rupturas e continuidades, de apropriação e reelaborarão.
Da mesma forma que as críticas mordazes que A redução sociológica suscitou em sua época por parte do pensamento conservador brasileiro, a teoria marxista da dependência enfrentou, e continua enfrentando, seu correlato cerco de ferro na academia brasileira. É algo que, a partir da pressão dos movimentos sociais organizados, e seus instrumentos de formação e difusão, estas elaborações teóricas colocam novamente no debate político e intelectual. A conjuntura política brasileira, que se abre depois das eleições presidenciais de 2010, coloca novos desafios políticos e teóricos: a rediscussão de desenvolvimento como projeto histórico; a recuperação da soberania em todas suas dimensões; a reelaboração de uma consciência coletiva crítica e as novas subjetividades que emergem neste contexto, inclusive a própria visão feminina do mundo e da política; a integração regional como projeto histórico que recupera o espírito bolivariano de luta anticolonial e anti-imperialista.
Estes elementos esta influindo profundamente na emergência de uma nova consciência crítica, mas também, na configuração de uma nova base material da sociedade brasileira. Certamente, estão se produzindo mudanças importantes na academia, que não pode continuar ignorando ou tornando invisível uma tradição teórica que oferece importante marco interpretativo para uma compreensão mais profunda e pertinente da complexidade e múltipla dimensão da conjuntura brasileira contemporânea. Seguramente viveremos mudanças importantes na universidade e na estrutura de pesquisa social e de produção de conhecimento em todos os níveis.