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Há dois caminhos complementares que podem ser seguidos

Primeiro, precisamos encontrar formas sustentáveis de produzir alimento saudável e assegurar que seja amplamente acessível, principalmente em termos econômicos, além de valorizado no mercado. E precisamos reconhecer e combater o real inimigo:

alimentos ultraprocessados. Talvez ainda não saibamos a definição exata de dietas saudáveis. Mas, em relação a esse tipo de alimento artificial – para o qual nem mesmo consigamos identificar os ingredientes – podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que ele não é saudável, nem sustentável. Nesse contexto, qualquer aborda-gem nova, como a classificação NOVA elaborada pelo Professor Carlos Monteiro do Departamento de Nutrição da USP1, irá atrair críticas injustificadas: é o preço que se paga por ser o primeiro a propor uma nova política.

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https://archive.wphna.org/wp-content/uploads/2016/01/WN-2016-7-1-3-28-38-Monteiro-Cannon-Levy-Capítulo 12 Olhando para o futuro: o Fome Zero como parte do desafio dos sistemas alimentares

Segundo, as informações têm um papel chave a desempenhar. Se os governos resolvem alertar as populações sobre os danos que esses alimentos podem provo-car para nossa saúde, e também a interferir nos seus preços, essa parte da batalha estará ganha. Refiro-me à taxação de alimentos de baixa qualidade e à rotulagem nutricional facilmente entendível na parte da frente das embalagens.

Como já foi dito, não existe uma solução isolada ou rápida para enfrentar a obe-sidade. Entretanto, há algumas fontes de inspiração que nos podem guiar na direção certa.

O Comitê de Segurança Alimentar (CFS) da FAO está elaborando um conjunto de Diretrizes Voluntárias para regular os sistemas alimentares. Fico feliz em ver que essa iniciativa está ganhando força, após a 2ª Conferência Internacional sobre Nutrição (ICN2) em 2014 (FAO e OMS, 2014).

Mas, precisamos ir além de simples diretrizes. Precisamos desenvolver uma conven-ção global sobre sistemas alimentares sustentáveis que garantam dietas saudáveis para todos, possivelmente de acordo com um modelo inspirado pelo marco contra o tabaco. Está na hora dos governos estabelecerem um conjunto de regras e normas obrigatórias para a promoção de alimento saudável e nutritivo. A adoção de reco-mendações técnicas para calorias e para o consumo de sal e açúcar, por exemplo, conforme estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma medida importante, porém está longe de ser suficiente para conter o avanço implacável da obesidade e do sobrepeso.

Um acordo sobre a regulação global de alimento saudável teria de ser implementa-do em várias etapas e exigiria articulação criteriosa. Os países precisam estabelecer suas normas nacionais para dietas saudáveis, com base nas recomendações já esta-belecidas pela FAO e a OMS. Existem também as dimensões regionais e locais da alimentação saudável, que é, em parte, cultural.

Um novo marco da alimentação saudável e contra a obesidade terá que se basear nas iniciativas nacionais bem-sucedidas a fim de consertar as falhas de nossos sistemas alimentares. O desafio hoje é melhorar o ambiente alimentar fazendo com que dietas saudáveis sejam mais acessíveis e baratas, principalmente para os grupos mais vulneráveis.

Os sistemas alimentares desempenham um papel importante em todas as formas de desnutrição. Entretanto, o papel que desempenham em relação à crise de sobrepeso e obesidade talvez ainda não seja plenamente entendido, principalmente naqueles países que até recentemente têm se esforçado a combater a fome e a desnutrição.

A prevenção da obesidade requer ação multisetorial. Abaixo seguem alguns exem-plos de como os governos estão transformando seus sistemas alimentares.

› Normas alimentares: À luz das epidemias de obesidade e sobrepeso, as famílias e os indivíduos necessitam do apoio de normas nutricionais nacionais estabelecidos pelos governos. Normas para o teor de açúcar em refrigerantes estão sendo aplicadas no Brasil e no México. Gorduras trans foram proibidas no Canadá e na Argentina.

› Rotulagem de alimentos: Também em relação à regulação e padronização de substâncias nocivas, políticas de rotulagem de alimentos foram adotadas de forma bem-sucedida em países como Chile (Ministerio de Salúd, 2019) e Uruguai. Nesses casos, produtos com alto teor de açúcar, sal ou óleos saturados são identificados com diversos tipos de avisos. Uma tarja preta na parte da frente da embalagem é normalmente a melhor forma de indicar as restrições do alimento. O modelo “semáforo” (usando as cores vermelho, amarelo e verde) frequentemente implica uma interpretação mais subjetiva.

› Marketing de alimentos: A restrição de anúncios de produtos

ultraprocessados focados em crianças, como cereais, chocolates, biscoitos doces, doces e outros produtos contendo alto teores de sal e açúcar, está sendo discutida em diversos parlamentos nacionais e câmaras municipais, e já está em vigor desde fevereiro de 2019 na cidade de Londres. Surgiu na esteira de exemplos de experiências bem-sucedidas com armas de brinquedo e tabaco, cujos consumos foram significativamente reduzidos após a regulação dos anúncios (Mayor of London Office, 2018).

› Alimento nas escolas: Diversos países conseguiram adotar programas de merenda escolar baseados em produtos hortifrutigranjeiros, adquiridos principalmente de agricultores familiares, como no Brasil e Moçambique.

As crianças que recebem alimentos nutritivos aumentaram substancialmente sua capacidade de prevenir o sobrepeso e a obesidade (FAO,2018).

› Governança alimentar: Os países podem criar agências alimentares interministeriais e independentes, com a participação de atores não-governamentais (sociedade civil, setor privado, academia), para lidar como os aspectos multidisciplinares do alimento (saúde, trabalho, agricultura, desenvolvimento, economia e cultura). A Suécia e o Canadá são bons exemplos de como se pode construir uma agência alimentar nacional.

A adoção de normas globais de alimento saudável poderá também abrir o caminho para a regulação do comércio do alimento, uma das principais causas de obesidade e sobrepeso em países que dependem de produtos alimentícios processados e pre-viamente embalados. Muitas nações não produzem alimento suficiente localmen-te, devido à falta ou insuficiência de recursos naturais, ou ao fato de que priorizam atividades mais lucrativas (como o setor de turismo no Caribe).

Capítulo 12 Olhando para o futuro: o Fome Zero como parte do desafio dos sistemas alimentares

Esse tipo de regulação irá ajudar a Organização Mundial do Comércio (OMC) a negociar regras para a comercialização de produtos saudáveis. Embora não seja seu objetivo original, a OMC está numa posição privilegiada para poder traduzir as normas da alimentação saudável, conforme definido pelos países com o apoio da FAO e da OMS, em regras para o comércio global de alimentos saudáveis.

Embora tenha havido avanços significativos em relação à erradicação da fome, há muito ainda por fazer, e só será possível se a comunidade internacional trabalhar em conjunto.

Espero que esta publicação e as experiências contidas nela sirvam de apoio a todos os interessados em assegurar um mundo onde todos tenham acesso aos alimentos seguros e nutritivos que precisam.

Referências

FAO & WHO. 2014. Conference Outcome Document: Rome Declaration on Nutrition. Second International Conference on Nutrition. Rome, FAO. (dispo-nível também em: http://www.fao.org/3/a-ml542e.pdf).

FAO, IFAD & WFP. 2019. Healthy diets vital for progress in Lao PDR, say UN food agencies. Rome, FAO. http://www.fao.org/news/story/en/item/1194522/icode/

FAO, IFAD, UNICEF, WFP & WHO. 2019. The State of Food Security and

Nutrition in the World 2019: Safeguarding against economic slowdowns and downturns Rome, FAO.

FAO. 2017. Latin America and the Caribbean without Hunger 2025 Initiative.

In: Program of Brazil–FAO International Cooperation. Rome, FAO. http://www.

fao.org/ in-action/program-brazil-fao/projects/iniciative-without-hunger/en/

FAO. 2018. Década de Ação em Nutrição: compromissos do Brasil. Brasília, DF.

(disponível também em: http://www.fao.org/3/ca2787pt/CA2787PT.pdf/) Graziano da Silva, J., Del Grossi, M., de França, C.G., eds. 2013. The Fome Zero

(Zero Hunger Program): the Brazilian Experience. Brasília, DF.

LAO. 2018. Taxation of Sugary Drinks. California, USA. (disponível também em: https://lao. ca.gov/Publications/Report/3903).

Mayor of London Office. 2018. Mayor confirms ban on junk food advertising on transport network. London, UK. (disponí-vel em: https://www.london.gov.uk/ press-releases/mayoral/

ban-on-junk-food-advertising-on-transport-network-0).

Ministerio de Salud. 2019. Ley de Alimentos: Manual de Etiquetado

Nutricional. Santiago, Chile. (disponível também em: https://www.minsal.

cl/ ley-de-alimentos-manual-etiquetado-nutricional/) Zero Hunger Challenge (ZHC). 2012. ZHC

[online].[ci-ted 17 July 2019]. www.un.org/ zerohunger/content/

challenge-hunger-can-be-eliminated-our-lifetimes

JOSÉ GRAZIANO DA SILVA

contribuiu com mais de 30 anos de conhecimento acadêmico, profissional e político sobre questões relacionadas à segurança alimentar, nutrição e

desenvolvimento rural. Em particular, como Diretor-Geral da FAO, de 2012 a 2019, ele implementou a experiência oriunda do programa Fome Zero no Brasil, que ele conceitualizou e mais tarde liderou enquanto servia como Ministro Extraordinário da Segurança Alimentar e do Combate à Fome durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

No Brasil

José Graziano da Silva coordenou, em 2001, o desenvolvimento do programa Fome Zero – um compo-nente central da campanha de Lula para a presidência do país – e em janeiro de 2003, foi nomeado para o gabinete com a missão de implementá-lo.

O programa Fome Zero introduziu um novo modelo de desenvolvimento focado na erradicação da fome e na busca da inclusão social, conectando políticas macroeconômicas, sociais e industriais. Isso acel-erou em muito o progresso na redução da fome: entre 2000 – 2002 e 2005 – 2007, a desnutrição crônica no Brasil diminuiu de mais de 10% para menos de 5%, caindo a uma taxa 2,5 vezes mais rápida do que na década anterior. Como resultado, o país cumpriu os objetivos da Cúpula Mundial da Alimentação e do primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio. Em 2014, o Brasil foi removido do mapa da fome da FAO e foi considerado o primeiro país em desenvolvimento a ter erradicado a fome.

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