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Híbrido e/ou Heterogéneo?

O HÍBRIDO E AS SUAS MANIFESTAÇÕES – AS FORMAS

ENTRE A PALAVRA E A COISA

I. 1 O QUE QUER DIZER HÍBRIDO?

I.1.3. Híbrido e/ou Heterogéneo?

Fixemos o factor motor dos objectos de cruzamento. O híbrido, o mestiço e, também, o monstro têm subjacente o heterogéneo, a diversidade de elementos que desde a sua origem, como acontece com o embrião, resultam da fusão de outras origens que, por sua vez, remetem, cada qual, para ainda outras, num processo contínuo cuja génese é, muitas vezes, difícil de precisar, mas a que não se escapa. Como refere Nouss: “para a biologia, o nascimento é heterogénese, para o mito ou a religião, a criação é heterogénese” (2001, p. 289). Na Origem, quer com isto dizer o autor, o uno tem origem no plural, seja através da fusão entre óvulo e espermatozóide, seja através da fusão do sopro divino com a matéria terrestre.

Pensado desta forma o híbrido ganha para além da representação negativa, de monstruosidade ou de contra-natura, onde “o inverso da vida não era a morte, mas o monstruoso” (Papadogeorgi, 1995, p. 167), uma outra representação. Adquire uma representação positiva, um sinónimo de vida, porque está essencialmente na base da reprodução. Um dos campos de aplicação deste conceito nesta sua valoração positiva foi a agricultura, onde o híbrido surgiu, essencialmente, em função de um saber prático que se ligou a noções de “melhoramento” das espécies e “utilidade”. Numa análise do conceito nesse campo específico, Peny Papadogeorgi precisa esse valor referindo que enquanto para um ecologista não há seres nocivos ou úteis, para o agricultor há: os cruzamentos, através da heterosis (fenómeno que traduz o maior vigor na primeira geração de híbridos porque quebram o efeito do inbreeding, ou depressão sanguínea) surgem na agricultura ligados a um saber prático com a intenção de aumentar a produtividade/rentabilidade, a sua resistência e a produção de novas variedades.

O conceito ganha assim um estatuto ambíguo de “desvalorização- valorização” que é traduzido pela progressiva superação de uma representação negativa por uma representação positiva cada vez que o híbrido é útil, vigoroso, rentável.

A evolução do conceito de um saber meramente prático para um saber teórico desligou-se, no entanto, desse “obstáculo da utilidade” (Bachelard, citado por Papadogeorgi, 1995), de uma valoração positiva ou negativa. Gregor Mendel, figura fundamental para a compreensão do híbrido enquanto expressão do heterogéneo com as suas “Pesquisas sobre os Híbridos Vegetais” (1866)25, é disso exemplo. Apesar da sua proximidade à horticultura teve nessa prática um outro objectivo: o de utilizar os híbridos como meio para analisar a transmissão de certos caracteres.

Tendo iniciado cruzamentos com uma cultura de ervilheiras de diferentes tipos, Mendel observou recorrências nesse processo através

25 Ver site http://www.esp.org/foundations/genetics/classical/gm-65.pdf. Ver também a

da restrição de caracteres fáceis de identificar e duas formas bem distintas, como por exemplo, a cor — verde ou amarela, o aspecto das ervilhas — rugosas ou lisas, o comprimento do caule — comprido ou curto, etc. Através dos resultados das suas experiências para a transmissão de um carácter único (mono-hibridismo) constatou que os híbridos da primeira geração se assemelhavam nesse carácter a um dos seus progenitores, sendo o outro anulado. A continuação da pesquisa nas segundas gerações permitiu-lhe perceber a existência de caracteres dominantes e caracteres recessivos (que ficavam escondidos na primeira geração, mas voltavam nas gerações seguintes) e, ainda, a existência de casos de dominância incompleta que geravam híbridos que não exibiam caracteres de um dos progenitores, mas um carácter intermédio entre ambos.

Estas suas conclusões vieram a estar na origem das leis de hereditariedade um século mais tarde quando redescobertas mais ou menos simultaneamente por volta de 1900 por autores como De Vries, Correns e Tschermak, ainda que como referem alguns autores (Morange, 1999) o seu objectivo não fosse descobrir essas leis mas as regras que presidiam à formação e à estabilidade dos híbridos, temática em voga no séc. XIX, e que tinha por base o problema geral da estabilidade das espécies, da sua capacidade (limitada) de se transformarem no seio de um mundo. Com Mendel, no entanto, o híbrido deixou de ser considerado como um organismo “global” para ser considerado como um “organismo- mosaico”, com caracteres individualizáveis, que podem separar-se e recombinar-se.

Essa imagem do “organismo-mosaico” veio permitir uma progressiva desconstrução do híbrido, como algo excepcional para algo natural à evolução, sendo que se verificou que há diferentes tipos de híbridos. Um híbrido pode, deste modo, resultar de um processo de cruzamento entre indivíduos diferindo por um par de caracteres — mono- híbrido — ou por dois ou mais pares de caracteres — di-híbrido, tri- híbrido, poli-híbrido e, ainda pertencer a espécies (tipos, etc.) de géneros diferentes, a espécies do mesmo género, a subespécies ou a variedades

da mesma espécie, ganhando conforme o caso a designação de híbrido intergenérico, interespecífico, intersubespecífico ou intervarietal.

Esta evidência levou a que a genética viesse mesmo enunciar que através da reprodução e do material genético “todos os indivíduos são híbridos”. Como é referido no Dictionnaire des Sciences, dirigido por Michael Serres (1997) “o conjunto dos cromossomas, o Genoma, presente em cada óvulo ou espermatozóide é pois um compósito híbrido de combinações (…) herdadas dos progenitores. A fusão dos núcleos do óvulo e do espermatozóide na fecundação produz assim um novo indivíduo com o genoma duplamente híbrido e original, no sentido que ele é formado por dois jogos completos de instruções que resultam do encadeamento genético dos caracteres herdados das gerações precedentes através dos gâmetas dos seus progenitores” (Serres, ob.

cit., p. 443). Assim, “nos cromossomas, é o ADN que assegura ao

mesmo tempo a perenidade do material genético e a sua evolução ao longo do tempo” (idem).

O processo de hibridação passa, portanto, a ser visto como uma função importante no incremento da variedade genética (número de combinações de genes diferentes) entre uma espécie, que é necessária para que a evolução ocorra. Acima de tudo um processo que se naturaliza através de fenómenos intencionais e que advoga a sua fertilidade.

CAPÍTULO II