6. A DOMINAÇÃO DO ESTADO PARA ALÉM DA VIOLÊNCIA E DA COERÇÃO.
7.2 HABITUS E CONSENSO: O PAPEL DA MÍDIA E A CENTRALIDADE DO
Ainda que se reconheça a relação da mídia em relação ao golpe militar como dicotômica, isto é, favorável à ascensão dos militares, mas contrária à repressão e à violação de direitos humanos, a mídia possui, enquanto aparelho privado de hegemonia, um papel fundamental na construção de consenso e habitus em relação ao Movimento de Três Passos.
Primeiramente, cabe retomar a ideia de inimigo interno postulada por Marini (1978). Em suma, para o autor, o Estado latino-americano nesse período caracteriza-se como um Estado de contrainsurgência devido ao contexto internacional no qual se insere. Nessa perspectiva, há uma centralidade do Exército na conformação do Estado e, em relação ao Exército, há um deslocamento da perspectiva externa de proteção e defesa nacional à
perspectiva da existência de uma ameaça interna a ser neutralizada. Nesse sentido, as ações de contrainsurgência do Exército não se caracterizaram como repressões a inimigos internacionais, mas sim contra uma parcela da população que foi publicamente definida como inimiga. Nessa perspectiva, retoma-se a afirmação de Silva (2016): “O inimigo, afônico, é definido e execrado publicamente” (SILVA, 2016, p. 47, grifos meus).
Deste modo, ainda que declare que tenha se mantido contrária à repressão e à violência do regime militar brasileiro, a mídia brasileira teve um papel fundamental na definição e execração do “inimigo interno” que devia ser combatido pelo Exército. Deste modo, o Movimento de Três Passos é um exemplo histórico micro que nos permite identificar com clareza o papel da mídia na construção de consenso acerca da necessidade e legitimidade da ditadura militar brasileira. E, em última instância, na legitimação da violência e da repressão do regime militar, tendo em vista que colaborou na execração pública daqueles que se opuseram à tão comemorada “revolução de 1964”.
Deste modo, as reportagens da Folha de São Paulo e do Correio do Povo, evidenciam a influência da mídia enquanto aparelho privado de hegemonia na construção de consenso sobre a caracterização do primeiro movimento insurgente armado contra a ditadura militar brasileira. Sendo assim, por meio da afirmação de desordem, personalização e incapacidade de atuação, a mídia construiu publicamente na sociedade a caracterização dos insurgentes
como mercenários, baderneiros, insurretos, subversivos e rebeldes62, ou seja, como inimigos.
Sendo os insurgentes socialmente legitimados e definidos enquanto inimigos, o Estado de contrainsurgência usufruiu de um terreno fértil para o estabelecimento de políticas repressivas. Deste modo, o conceito de opinião pública, tanto em Bourdieu (1981), quanto em Gramsci (2000), nos permite identificar como o Estado logrou construir um consenso “preventivo” acerca da necessidade de ações repressivas e violentas, possibilitando a legitimação de tais políticas. Deste modo, o contexto de Três Passos, uma vez mais, nos permite identificar em âmbito micro, a ação do Estado na construção de consenso sobre a violência da ditadura militar, tendo em vista que, por meio da veiculação de uma caracterização específica do Movimento, logrou-se prender e, como já demonstrado ao longo desta pesquisa, torturar os insurgentes de Três Passos. Sendo assim, o Estado de
62Como apresentado nas análises das referidas reportagens, todos os adjetivos aqui citados foram retirados dos jornais Correio do Povo e Folha de São Paulo.
contrainsurgência construiu consenso em relação à necessidade da coerção e, em última instância, logrou articular a manutenção da hegemonia.
Sendo assim, cabe-nos ainda indagar: em que medida a construção de consenso relaciona-se com a construção de um habitus específico? Para discorrer acerca da construção de habitus no contexto de Três Passos devem-se retomar os relatos publicados pelo Coojornal (1978) e a foto e descrição referentes à “falta de apoio popular”. Por habitus específico entende-se a reprodução e legitimação do consenso construído pelo Estado por meio dos aparelhos privados de hegemonia. Deste modo, busca-se correlacionar a construção de consenso em relação à repressão aos inimigos internos e às práticas sociais que reproduziram e legitimaram a referida construção de consenso.
Os relatos publicados no Coojornal (1978) afirmam que, na cidade de Foz do Iguaçu, onde Alberi e Osório chegaram para serem presos, formou-se um corredor de civis que escarravam nos insurgentes enquanto esses eram levados para dentro do Batalhão. A “comitiva do escarro”, como foi denominada pelo Coojornal, formou-se a partir de ordens de um capitão do Exército. Desse modo, percebe-se que o consenso acerca da caracterização dos insurgentes enquanto inimigos geraram práticas sociais violentas que foram produzidas, reproduzidas e legitimadas pela sociedade civil.
Do mesmo modo, em relação à imagem de camponeses auxiliando os militares nas buscas pelos insurgentes, após o conflito direto entre o Movimento e o Exército, nas proximidades de Capitão L. Marques, como apresentado por meio do documento “Faltou apoio popular” (ver: 5.2 “Faltou apoio popular”: Registro de camponeses), percebe-se a constituição e legitimação de práticas sociais específicas em relação ao Movimento de Três Passos. A cooperação com o Exército reforça não somente a ideia de que o Movimento falhou na tentativa de lograr apoio popular expressivo por meio da leitura do manifesto de convocação na rádio, mas também evidencia a ideia de que a caracterização dos insurgentes enquanto inimigos que deveriam ser neutralizados legitimou-se socialmente, isto é, estabeleceu-se enquanto consenso.
Nessa perspectiva, pode-se perceber como o Estado de contrainsurgência, por meio do consenso em relação à ideia de inimigo interno, logrou construir um ambiente propício ao estabelecimento de políticas repressivas e, ao mesmo tempo, conformou um habitus especifico, isto é, um habitus de contrainsurgência. Esse habitus de contrainsurgência se expressa na produção, reprodução e legitimação de práticas sociais violentas com o objetivo
de reprimir e castigar aqueles e aquelas que decidiram se opor ao regime militar brasileiro. A ideia de revolução de 1964, difundida pela mídia e pelo Exército, colaborou na legitimação de tais práticas sociais, tendo em vista que as (os) que se opunham ao regime militar, se opunham, portanto, aos “salvadores da democracia nacional”.
Sabe-se que o conceito de habitus em Bourdieu refere-se à produção e legitimação de práticas sociais específicas e, ao mesmo tempo, ao compartilhamento de valores e comportamentos que legitimem tais práticas. Deste modo, em nível macro, movimentos como
as “marchas da família com Deus pela liberdade”63
, expressam os valores aos quais uma parcela da sociedade civil brasileira se opôs naquele momento e, deste modo, por meio da oposição a determinadas ideias, é possível identificar os valores e comportamentos que eram socialmente legitimados e compartilhados por eles. Nesse sentido, em nível micro, a colaboração nas buscas pelos insurgentes e as comitivas de escarro, assemelham-se à marcha com Deus pela liberdade, no sentido de uma manifestação de valores compartilhados e legitimados socialmente durante aquele período específico.
Desta maneira, percebe-se como a mídia, ainda que tenha se oposto às práticas repressivas, colaborou na construção de uma caracterização específica acerca do Movimento, considerando-os, em última instância, inimigos internos que deveriam ser reprimidos. Dessa maneira, a mídia colaborou na formação de um habitus de contrainsurgência e, do mesmo modo, na formação de um ambiente político e social propicio ao estabelecimento da tortura e da violação de direitos humanos como políticas de Estado e como práticas corriqueiras.
Nesse sentido, retoma-se o debate acerca do Estado integral em Gramsci. Como destacado anteriormente nesta pesquisa, o conceito de sociedade civil e sociedade política de Gramsci, por vezes, são retomados como se fossem conceitos estáticos e bidimensionais, ou seja, como se a coerção estivesse alocada na sociedade política, enquanto o consenso fosse construído por meio da sociedade civil.
Contudo, como afirma Bianchi (2008), deve-se compreender que a sociedade civil “[...] mantém uma relação de unidade-distinção com a sociedade política” (BIANCHI, 2008, p. 183). Ou seja, não são duas dimensões conceituais isoladas e estáticas, isto é, são interdependentes e associam mutuamente a coerção e o consenso. Nesse sentido, percebe-se
63Uma série de marchas realizadas entre 19 de março e 8 de junho de 1964 ficou conhecida como as “marchas com Deus pela Liberdade” devido ao caráter de oposição dos manifestantes às propostas de reformas de base propostas por Goulart.
que a mídia, enquanto aparelho privado de hegemonia e, portanto, alocado na sociedade civil, opera na dimensão da construção de consenso, produzindo efeitos na dimensão da coerção na medida em que propicia um ambiente político de consolidação de práticas sociais de contrainsurgência e, do mesmo modo, na consolidação de políticas autoritárias.
Desta maneira, a concepção de Bianchi (2008) acerca da relação de unidade-distinção entre sociedade política e civil pode ser visualizada com maior clareza quando se analisa de forma pormenorizada o papel da mídia na construção de consenso em relação ao Movimento de Três Passos.
7.3 O HABITUS DE CONTRAINSURGÊNCIA E AS DITADURAS LATINO-