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1^2 Hannah Arendt, Origens do totalitarisBO, p 343.

No documento Uma introdução ao estudo do Leviatã (páginas 172-180)

Mo plano das doutrinas filosóficas, n3o é inconun ver a realidade totalitária associada à idéia de ‘totalidade ética" de Hegel, nas quanto a isto nSo estaaos capacitados a enitir qualquer opinião segura no Boaento, ne» pelo s íb, nei pelo não, sob pena de precipitação e preconceito. Mas fica o registro.

Inaceitável. "As condiçOes aine gua non do dominio total" sao "a transformação das classes em massas e a

concomitante eliminação da solidariedade grupai". Isto

porque o Estado totalitário pressupõe uma absoluta e intransigível homogeneidade social, o que só se pode obter quando, pela eliminação de todos os vínculos do indivíduo,

apaga-se-lhe a própria identidade e se o isola

completamente, de tal modo que sua existência só adquira sentido enquanto participante da única organização não clande-stina presente no universo de sua vida, o partido. Vejamos, por alto, \am exemplo de como isso foi possível na Eússla .stalinista a partir de 1930, aproximadamente.

Arendt relata que, mesmo após a Revolução de Outi^ro, Lênin dirigiu um país marcado pela diferenciação social, seguindo antes "seus instintos de estadista e não as suas convicções marxistas", parecendo "estar convencido de que só essa estratificação podia salvar a revolução". Foi Stálin, ao sucedê-lo, quem percebeu que "todas essas novas classes e nacionalidades barravam o [seu] caminho ... quando ... começou a preparar o país para o governo totalitário". Para tanto, precisava "produzir uma massa atomizada e

amorfa" 194^ q que realizou liquidando as classes

existentes, primeiro anulando o poder dos Soviets, depois

matando e deportando os proprietários de terras.

transformando operários em trabalhadores forçados e, finalmente, se desfazendo dos membros da própria burocracia que havia "ajudado a executar as medidas anteriores de extermínio" 195

"A atomizaçâo da massa na sociedade soviética foi conseguida pelo habilidoso uso de repetidos expurgos que invariavelmente precediam o verdadeiro extermínio de um grupo. A fim de destruir todas as conexões sociais e familiares, os expurgos eram conduzidos de modo a ameaçarem com o mesmo destino o acusado e todas as suas relações, desde meros conhecidos até os parentes e amigos íntimos. A

'culpa por associação' é uma invenção engenhosa e simples; logo que um homem é acusado, os seus antigos amigos se transformam nos mais amargos inimigos: para salvar a própria pele, ... corroboram provas inexistentes, a única maneira que encontram de demonstrarem a própria fidelidade" ao regime 196_

"Uma vez que o mérito é 'julgado pelo número de denúncias apresentadas contra os camaradas', é óbvio que a mais elementar cautela exige que se evitem, se possível, todos os contatos íntimos - não para evitar que outros descubram os pensamentos secretos, mas para eliminar, em caso quase certo de problemas futuros, a presença daqueles

195 Ibidei, p. 371. 196 Ibidea, p. 372/373.

que sejam obrigados, pelo perigo da própria vida, à necessidade de arruinar a de outrem. Em última análise, foi através do desenvolvimento desse artifício ... que os governantes bolchevistas conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada como nunca se viu antes" 197^ obtendo em troca uma "lealdade total".

Nâo compete aqui aprofundar o assunto. Quem tiver interesse poderá estudá-lo em toda a sua dolorosa inteireza no livro ao qual recorremos. Para nós, importa ressaltar o fato de que o Estado totalitário se caracteriza, entre outras coisas, pela erradicação "da existência de qualquer atividade autônoma que seja, mesmo que se trate de xadrez" 198, porque o indivíduo sob o domínio total não pode ter amor por coisa alguma, por nada que lhe possa dar a consciência de si mesmo como membro de um determinado grupo, posto que isto o ligaria a interesses específicos alheios ao domínio total. A supressSo das classes é o requisito fundamental que produz esse aniquilamento das identidades.

Thomas Hobbes nem à distância cogitou de uma sociedade desse tipo, isto é, sem classes, de homens

desprovidos de quaisquer laços e interesses comuns.

pressupostos do totalitarismo. No Leviatã, discorre sobre as corporações de mercadores (in Lev., Cap. XXII, p. 142),

197 íbiden, p. 373. 198 íbiden, p. 372.

refere-se a "escalOes do povo, isto é, tanto aos ricos e poderosos quanto às pessoas pobres e obscuras" ( in Lev., Cap. XXX, p. 205), reconhece o fato da desigualdade de bens entre os súditos (in Lev., XXX, p. 205) e o exercício privado de "toda a espécie de artes, como a navegação, a agricultura, a pesca e toda a espécie de manufatura" ( in Lev., Cap. XXX, p. 206). Seu modelo de Estado compreende uma típica sociedade de classes.

Mas há outras gritantes distinçOes. A principal delas no que diz respeito a um estudo comparativo com Hobbes consiste em que, por incrível que possa parecer, o Estado

totalitário nâo tem, como observa Hannah Arendt, uma

estrutura monolítica. Examinando as experiências soviética (com Stálin) e alemã (com Hitler), a escritora percebeu uma divisão entre "governo verdadeiro e governo ostensivo",

entre poder real e poder aparente, indicadora de um

"fenômeno mais complicado, definido como multiplicação de órgãos" 199. Vale a pena acompanhar o seguinte relato.

"0 habitante do Terceiro Reich de Hitler não apenas vivia sob a simultânea e freqüentemente contraditória autoridade de poderes rivais, tais como a administração estatal, o partido, a SA e a SS, como também nunca sabia ao

certo, e nunca se lhe dizia explicitamente, qual a

autoridade deveria considerar acima de todas as outras. Tinha de desenvolver uma espécie de sexto sentido para

saber, a cada momento, a quem devia obedecer e a quem devia ignorar./.../ Por outro lado, os que tinham de executar as ordens ... ficavam na mesma situação" 200

"Tecnicamente falando, o movimento dentro do aparato de domínio totalitário deriva a sua mobilidade do fato de que a liderança está continuamente transferindo o verdadeiro centro de poder, muitos vezes para outras organizações, mas sem dissolver e nem mesmo denunciar publicamente os grupos cuja autoridade foi eliminada./.../ A constante divisão, sempre alterada, entre a verdadeira autoridade secreta e a representação franca e ostensiva, fazia da verdadeira sede do poder um mistério por definição", até mesmo para os membros dos círculos governantes 201_

A finalidade desse rodízio consistia em evitar a introdução de vim elemento estabilidade nos comportamentos humanos, o que mais normalmente ocorre quando se está diante de vuna autoridade previsível. Mas isso contraria os fins do domínio total, porquanto a estabilidade pode propiciar o surgimento de um modo de vida baseado nas leis e nas instituições do país, quebrando a amorfia social planejada. Por isso, "entre todos esses departamentos", diz Arendt,

200 íbiden, p. 449. 201 íbiden, p. 450.

"nâo há nenhxoma hierarquia de poder ou de a\i€^ridade com base na lei; a única certeza é que eventualmente vun deles será escolhido [pelo Führer'\ para encarnar 'o desejo da liderança' " 202_

Voltando a Hobbes, como dizer que tivesse idealizado semelhante dissimulação? Toda a sua doutrina é erigida sob vim fundaimental princípio, o princípio da autoridade, uma autoridade tâo visível que se ergue na luz, jamais na escuridão. Uma autoridade monista e indivisível, é verdade, mas na qual a hierarquia dos órgãos do Estado está precisamente delimitada aos olhos de todos os súditos. Todo

o fundamento dessa autoridade reside justamente no

desesperado anseio de estabilidade social, a ser conseguida pelo direito, na lei cristalina que permite aos homens o conhecimento antecipado da justiça e da injustiça de suas ações.

Poder-se-ia tentar seguir além. Mas não é mais necessário. Na verdade, basta dizer, que nem mesmo a concepção hobbesiana de soberania cabe para o Estado

totalitário, que aspira ao governo mundial, à

universalidade, vale dizer, ao "domínio total", ao passo que o Leviatã nitidamente respeita as fronteiras nacionais, as outras soberanias temporais. Mas seja como for, mesmo diante

de eventuais e sempre válidas objeçOes, neste derradeiro tópico a intenção, como antes, nunca foi a de colocar pontos

finais. Que fique apenas a mensagem: "usar a palavra

totalitarismo com cautela". No mais, já é tarde, e nos alongamos muito além do que seria tolerável.

No documento Uma introdução ao estudo do Leviatã (páginas 172-180)