É fora de dúvida que a força do Leviatã impressiona e assusta. A muitos, mesmo repugna. Mas cabe perguntar contra quem Hobbes a dirige. Nenhuma investigação sobre suas reflexões políticas deveria prescindir de uma resposta a isso, e queremos acreditar que nenhuma crítica sem ela se sustentará. A vantagem de uma leitura histórica da filosofia política de Hobbes talvez esteja em ajudar a encontrá-la, mas, a rigor, isso nem mesmo seria preciso, porque ela está dentro do próprio Leviatã, por maior que tenha sido o esforço de Hobbes em associá-la a iima dedução racional sobre O homem na natureza. Correremos a seguir o risco de tentar essa resposta.
o
^ A soberania nâo é uma potência incontrastável que
Hobbes erige contra o cidadão apequenado, o "vulgo", ou seja, todos aqueles que compõem a grande maioria dos súditos. Estes, de qualquer modo, sempre estiveram e estarão inevitavelmente submetidos ao poder, seja de que tipo for e ainda que não o do Estado. Ao dar-lhes leis para que obedeçam cegamente, deles o soberano não estará roubando sjiada, porque não pode tirar uma liberdade que já não existe.
0 que se quer através de um poder absoluto e exclusivo é impedir que os homens estejam sujeitos a vários pretensos
poderes ao mesmo tempo, libertá-los de uma dominação
múltipla que leva ã calamidade da guerra e do atraso.
Hobbes nâo_ visa submeter quem já está submetido, mas sim aqueles que procuram submeter, não visa os sem poder, mas os com poder, não a base da pirâmide, mas os vértices. Em primeiro lugar, não é o cristão ou o crente amedrontado que Hobbes tem em mente, mas o clero que o amedronta para manter intacta sua influência e suas posses mundanas, num momento em que a ciência começa a desfazer os dogmas
religiosos. O que o Leviatã defende é a s o b e r a n i a contra a
s u p r e m a c i a , as l e i s contra o b c â n o n e s , a a u t o r i d a d e c i v i l
contra a autoridade espiritual 173_ Poder contra os
poderosos, nSo contra os fragilizados.
1^3
inverteaoB a seguinte frase de Hobbes: "Assi» coao houve doutores que
sustentaran que há três aleas no honei, taibén há aqueles que pensan que pode haver sais de una alaa
... nun Estado e levantaa a
supreaaeiacontra a
soberania,os
cãooneB,contra as
leis,a
autoridade espiritualcontra a
autoridade civil"(in Lev., Cap. XXIX, p. 196).
Numa passagem de exemplar clareza, Hobbes contrapOe "o poder dos espíritos invisíveis" e "o poder dos homens", chegando miesmo a admitir que o "primeiro seja o maior poder", (in Lev., Cap. XIV, p. 84), embora fraudulento. E observa: "Ora, se houver apenas \im reino, ou o civil, que é o poder do Estado, tem de estar subordinado ao espiritual, e entao não há nenhuma soberania exceto a espiritual; ou o
espiritual tem de estar subordinado ao temporal e então não
existe outra supremacia senão a temporal". E conclui: obedecer a dois senhores, "ambos os quais querem ver suas ordens cumpridas como leis", é impossível (in Lev., Cap. XXIX, p. 196).
No tempo de Hobbes, a instituição eclesiástica
exercia um tipo de influência na sociedade que é bem diferente da que conhecemos hoje. Ela queimava pessoas na fogueira dos tribunais da. Inquisição., Legislava, judicava e executava suas sentenças. E, para o filósofo, entre o Estado e a Igreja, ou as Igrejas, não pode haver vacilações: ele prefere o primeiro, porque "a autoridade civil", sendo mais visível, se ergue "na luz mais clara da razão natural", enquanto a espiritual se levanta "na escuridão", atuando sobre o espirito dos homens com a ameaça de sanções obscuras a ..serem ..aplicadas num. ''outro ,re_ino" ( in Lev., Cap. XXIX, p.
196).
parlamentares rebeldes que Hobbes volta o poder do Leviatã. Lideranças que financiaram e treinaram um segundo exército para um mesmo país e que sustentam a legitimidade de sua guerra ao rei na realização de um pacto com Deus a pretexto
de libertar o povo, pretendendo-o maior que o pacto
celebrado entre os homens. "E esta pretensão de um pacto com Deus é \ima mentira tão evidente, mesmo perante a própria consciência de quem tal pretende [Hobbes fala dos partidos revolucionários], que não constitui apenas um ato injusto, mas também um ato próprio de um caráter vil e inumano" (in Lev., Cap. XVIII, p. 108).
Mas Hobbes tem algo mais em vista. "Também existe às vezes num Estado vima doença que se assemelha à pleurisia, quando o tesouro do Estado, saindo do seu curso normal, se
concentra com demasiada abundância em um ou vários
indivíduos particulares, por meio de monopólios ou contratos de rendas públicas" (in Lev., Cap. XXIX, p. 198), poderes
pr i vado s que,__no_nascedouro do capitalismo de m_arcado-,-
querem controlar o Estado para mantê-lo a seu— aexvioa.. A tudo isto, acrescente-se o poder de fogo dos Estados vizinhos, que permanentementé, no início da era moderna, ameaçam à soberania no plano da geopolítica internacional, e também a herança medieval no que toca à forma pluralista de organizaçao social (ver Capítulo I, item Organização do poder na Idade Média).
Que Hobbes elevou o poder contra o poder, e na© contra o cidadão, é algo que emerge em definitivo do seguinte comentário, no qual se resume aquela resposta que vínhamos procurando: "Todos sabem que as oposiçoea a este tipo de doutrina (a doutrina do Leviata) resultam não tanto da dificuldade do ^ssunto como do interesse daqueles que devem aprendê-la. Os_-homens^^podeçp^sos dificilmente digerem algo que estabeleça um poder para refrear suas paixOes, e os homens sábios algo que descubra os seus erros, e que portanto diminua sua autoridade" ( in Lev., Cap. XXX, p.
201). Por certo, percebe-se agora qual a finalidade
primordial do seu absolutismo.