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CAPÍTULO I  A FILOSOFIA KANTINIANA DA PAZ

1.3 A Proposta À Paz Perpétua

1.3.6 Harmonia da Moral com a Política Segundo o Direito Público

Finalmente, no segundo apêndice Kant trata do acordo da política com a moral, segundo o conceito transcendental no direito público, visando demonstrar a compatibilidade progressiva entre seu projeto pacífico e o Direito.

A harmonia entre a política e a moral passa a existir quando se respeita o princípio da publicidade. Deve ser considerado injusto e ao contrário à moral como teoria do Direito aquilo que precisa ser ocultado para produzir seus efeitos desejados.

A existência da paz no mundo público comum, no reino dos fins descrito pela filosofia kantiana, depende do acesso aos direitos e da participação dos indivíduos nos assuntos que interessam à coletividade, sendo essencialmente essa a finalidade da publicidade, conforme observa Ricardo Ribeiro Terra:

A exigência da publicidade para efetivar-se a ação, para que os efeitos desejados se cumpram, desencadeia um processo de esclarecimento, de formação dos cidadãos e também dos governantes, que passam a agir segundo as idéias político-jurídicas tendo no fundamento da ação a noção da autonomia84.

Na concepção de Kant, uma pretensão jurídica deve apresentar-se com publicidade para ser compatível com a racionalidade e demonstrar sua legitimidade, caso contrário não passará de uma suposta pretensão jurídica, de uma falsidade, pois não há nenhuma justiça e nenhum Direito naquilo que não possa ser publicamente manifesto.

Partindo da fórmula negativa do direito público transcendental, segundo a qual “são injustas todas as ações que se referem ao direito de outros homens, cujas máximas não se harmonizem com a publicidade”85, Kant propõe outro princípio positivo do direito público transcendental, ou seja: “Todas as máximas que necessitam da publicidade (para não fracassarem no seu fim) concordam simultaneamente com o direito e a política.”86

Esses princípios não só se aplicam ao direito civil (interno), ao direito das gentes (externo) e ao direito cosmopolita, como são essenciais À Paz Perpétua, já que para se legitimar perante o reino dos fins, no qual todas as individualidades preservam-se mutuamente, a política necessita apresentar-se num espaço público suficientemente amplo para que possa interagir com todos os interesses envolvidos.

84Idem, p.229.

85KANT, Immanuel. Op.cit., p.165. 86Idem, p.170.

A necessidade de criação desse espaço público decorre da constatação de que a política somente pode apresentar-se de forma harmônica com a moral por meio da publicidade. Conforme observa Soraya Nour, isso tem fundamental importância no projeto pacífico kantiano, pois, mesmo à época havendo forte censura política e religiosa na Prússia, seus escritos da década de 1790 já desenvolviam a publicidade como um princípio de natureza jurídico-política que possibilitaria a construção da política pelo exercício público da razão, harmonizando-se com o Direito na organização interna e externa da sociedade87.

A primeira justifica de Kant para o princípio da publicidade está no que chama de direitos inalienáveis do povo contra o chefe de Estado, que, mesmo não sendo coercitivos, permitem tornar públicas as injustiças cometidas contra os cidadãos: “[...] ‘a liberdade de escrita (die Freiheit der Feder) o único paládio dos direitos do povo’, que pode expor suas dolências (gravamen) pela publicidade, cuja interdição impede o desenvolvimento do Esclarecimento (Aufklärung)”88.

Por outro lado, em Kant a publicidade também se justifica no fato da racionalidade humana não ser sinônimo de perfeição. Ao contrário, como a razão humana é falível, finita e sujeita a erro, cada indivíduo depende da razão do outro para pensar com retidão e a “imparcialidade é obtida pela consideração não de um ponto de vista mais elevado, mas do ponto de vista dos outros”, pois “considera que o alargamento do pensamento só é possível quando se considera o pensamento dos outros (...)”89.

Para Kant, a co-comunicação permite um modo de pensar alargado, em virtude da lógica da intenção participativa que só realizada num espaço público onde todos buscam atingir o esclarecimento e erradicar o erro. “Kant diz ainda: ‘Uma pedra de toque da verdade encontra-se em nós; a outra, fora de nós, isto é, na aprovação do outro [...]’ ”90.

Ora, uma ação ou uma máxima que não se concilia com o princípio da publicidade, que deve ser ocultada para ter êxito ou que provoca resistência se declarada publicamente, não pode ser justa. Se é a oposição do outro o referencial que permite reconhecer o que é justo e o que é injusto, se a política precisa se legitimar e “se os políticos, mesmo sem terem nenhum direito que justifique o que fazem, precisam reivindicar um direito para se legitimar diante do público”91, então somente por meio do princípio da publicidade e perante um espaço público

87NOUR, Soraya. Op.cit., p.70. 88Idem, p.74.

89Idem, p.78. 90Idem, p.82. 91Idem, p.103.

representativo da sociedade a política e os políticos podem legitimar e justificar suas posições atitudes.

Assim, Kant considera como lógica egoísta a razão que pensa por si própria e se recusa à comunicabilidade, enquanto que entende ser lógica pluralista a razão que se comunica. E para que a lógica pluralista tenha preponderância e possa vencer o estado de natureza, adverte que a comunidade dos sábios e dos filósofos deve institucionalizar-se e criar um espaço público para o exercício da razão comunicativa, único estádio onde é possível ter esperança na harmonização da política com a paz.

Se existe um dever e ao mesmo tempo uma esperança fundada de tornar efectivo o estado de um direito público, ainda que apenas numa aproximação que progride até ao infinito,/ então a paz perpétua, que se segue ao até agora falsamente chamados tratados de paz na realidade, armistícios), não é uma idéia vazia, mas uma tarefa que, pouco a pouco resolvida, se aproxima constantemente do seu fim (porque é de esperar que os tempos em que se produzem iguais progressos se tornem cada vez mais curtos)92.

Exposto o projeto pacífico kantiano À Paz Perpétua, a possibilidade de constatação de sua influência nas relações internacionais e da atualidade de seus elementos, não obstante o transcurso temporal de mais de duzentos anos, depende da compreensão das características da sociedade e do Estado de sua época e das transformações ocorridas desde então, sendo objeto do capítulo segundo a análise, ainda que breve, da transição da sociedade internacional moderna para a sociedade internacional contemporânea.

92KANT, Immanuel. Op.cit., p.171.

CAPÍTULO II

TRANSIÇÃO E CARACTERÍSTICAS DA SOCIEDADE INTERNACIONAL MODERNA E DA SOCIEDADE INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEA