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3 HATE SPEECH E FREE SPEECH

No documento ESTADO, SOCIEDADE E DIREITO (páginas 88-93)

Uma conceituação básica sobre o discurso do ódio é obtida através da ideia de que qualquer mensagem, conduta ou ação que transmita, incite ou promova o ódio, a discriminação, o preconceito ou a violência contra determinada pessoa ou coletividade, em virtude do exercício de seus direitos fundamentais como raça, religião, opção sexual, opinião política, entres outros, é considerado como um hate speech.

88 Há consenso internacional no sentido de que discursos de ódio devem ser proibidos por lei e estas leis não feririam o princípio de liberdade de expressão. 9

Este tipo de discurso, por mais inofensivo e ingênuo que pareça, pode causar danos psicológicos e até físico naqueles que são agredidos, podendo levar à diversos casos clínicos, como: depressão, stress, insônia e até mesmo ao suicídio.

É importante salientar que este tipo de dialética ocorre em diversas faixas etárias, podendo ocorrer inclusive na fase infantil, o conhecido bullying. Tal ação é capaz de traumatizar a infância e a livre formação educacional da criança ou menor como um indivíduo portador de direitos e garantias que se encontra em um estágio de construção e consolidação do seu caráter e personalidade.

Desta feita, a fim de afastar este tipo de conduta, o legislador brasileiro elaborou a Lei 13.185/2015 com o intuito de coibir a prática do bullying, ou melhor dizendo, da intimidação sistemática, conforme define o art. 1˚ da referida lei.

Art. 1o Fica instituído o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) em todo o território nacional.

§ 1o No contexto e para os fins desta Lei, considera-se intimidação sistemática (bullying) todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Sobre este tema, defendo a ideia de que os pais devem cumprir papel de fundamental importância na limitação das ações e expressões usadas por seus

9 SCHAUER, Frederick. The Exceptional First Amendment. Harvard: Harvard University Press, 2005. “Sobre estes tópicos próximos e interrelacionados, parece haver um forte consenso internacional de que princípios de liberdade de expressão são indiferentes ou irrelevantes quando o que se expressa é ódio religioso, racial, étnico, etc. Em contraste com esse consenso internacional de que várias formas de discurso de ódio devem ser proibidas pela lei e que essa proibição não gera nenhum conflito com o princípio de liberdade de expressão, os Estados Unidos estão firmemente comprometidos com a visão oposta.”

89 filhos, causadores do bullying. Sobretudo, pois compete a eles ensinar e educar seus filhos no sentido de respeitar as diferenças de opiniões existentes entre as pessoas, com a finalidade precípua de evitar que se menospreze ou diminua a outra criança.

Em suma, não podemos imaginar que haja um princípio absoluto que jamais será relativizado. Sendo assim, a ideia de que a liberdade de expressão deve ser limitada quando houver perigo de causar dano a outrem, sob a esteia de discriminação, ódio, preconceito e desrespeito deve ser amplamente difundida, como no exemplo da Lei que visa evitar a prática de bullying.

3.1 Exemplos no Brasil

O debate da eleição presidencial de 2014, por exemplo, trouxe à tona o discurso extremamente preconceituoso e inadequado do candidato à presidência da república, Levy Fidelix, que incitou o ódio ao manifestar seu repúdio à comunidade homossexual ao compará-los a pedófilos, gerou revolta e manifestações de repúdio nas redes sociais e na sociedade como um todo.

Nós como uma sociedade democrática, devemos perceber que as nossas palavras e atos podem causar certos impactos e consequências. Logo, devemos acatar a opção de não fazer uso desmedido da palavra, sob o fundamento de que temos liberdade de expressão de forma ampla e irrestrita, pois assim podemos cercear o direito à liberdade de outrem, que igualmente está amparado sob a égide dos mesmos princípios.

A grande verdade é que a nossa sociedade ainda é muito intolerante, e embora haja discursão acerca do preconceito de raça, cor, etc., a população segue obsoleta e individualista. Como resultado, vemos que por diversas vezes os interlocutores do discurso do ódio não reconhecem a dignidade e os direitos dos demais, extrapolando e se excedendo no uso do direito à liberdade da expressão.

Trago um dos exemplos paradigmáticos, que foi julgado no Supremo Tribunal Federal (STF). Trata-se do Habeas Corpus (HC) n. 82.424/RS que

90 basicamente demandou o posicionamento do STF sobre a seguinte temática: “os judeus seriam uma raça? ” Seria possível cometer o crime de racismo contra o povo judeu?

O referido HC abordou a seguinte narrativa de fatos:

[...] paciente o Sr. Siegfried Ellwanger, e baseava-se única e exclusivamente no fato de que judeus não se constituíam como raça e que, portanto, não era possível se cometer crime de racismo contra judeus. Além disso, o paciente explicitamente alegava que houvera cometido crime de “simples discriminação”, nas suas próprias palavras, e não de racismo. [...] 10

Este julgamento que inicialmente parecia ser algo simplório a ser dirimido, se tornou um julgamento histórico que delineou o que seria abrangido no conceito de raça, racismo, preconceito, liberdade e igualdade, etc., pois para José Emílio Medauar Ommati, “[...] ao contrário do que pensam nossos juristas e juízes, igualdade, liberdade de expressão e proibição da prática de racismo (discurso de ódio) não colidem e, portanto, não existem limitações externas a esses direitos. ”11

O referido autor elucida os principais votos dos ministros, proferidos neste caso e, conforme se verifica, o entendimento da Corte Magna foi no seguinte sentido:

[...] o papel do STF não é o de ser um guardião dos valores da sociedade brasileira, mas, como diz a própria Constituição de 1988, o guardião precípuo da Constituição, o que envolve entendê-la de maneira deontológica e não axiológica, reconhecendo o pluralismo de valores que perpassa a nossa sociedade. 12

[...] se a Constituição é formal e rígida é um instrumento de acoplamento estrutural entre o Direito e a Política, essa Constituição, através da ideia de Poder Constituinte Originário, que só pode ser democrático, permite a

10 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. p. 13.

11 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. p. 13.

12 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. p.6.

91 realização dos princípios da igualdade, liberdade e democracia.13

[...] uma Constituição só pode ser entendida corretamente como um projeto inacabado, passível de ser reapropriado pelas gerações futuras e, sendo um aprendizado histórico, a nossa Constituição é fruto e herdeira, não apenas do Holocausto e da imensa perversidade cometida contra os judeus, mas também das perversidades que praticamos historicamente contra negros, mulheres, homossexuais, e outras categorias de pessoas.14

Ainda segundo o autor:

[...] o sentido do termo “racismo” utilizado pela Constituição de 1988 e crucial para entendermos o sentido dos princípios da igualdade e liberdade no texto constitucional brasileiro, pois a vedação da prática de racismo constante em nossa Constituição é uma decorrência da ideia de igual consideração e respeito que o Estado tem que ter por todos os cidadãos.15

Dentre os principais votos proferidos no HC n. 82.424/RS, temos os que seguem: Ministro Moreira Alves, que se manifestou em um viés religioso ao dizer que o povo judeu não se reconhece como raça, mas sim um povo, votou pela concessão da ordem do HC, a favor do paciente; b) o Ministro Maurício Corrêa fez uso da Bíblia e de fatos históricos na tentativa de demonstrar a perseguição e discriminação que o povo judeu sofreu ao longo dos anos, denegando a ordem, mas sem embasamento jurídico concreto; c) o Ministro Gilmar Mendes entendeu pela prática do racismo e pela aplicabilidade do princípio da proporcionalidade, como um método de solução de conflito de princípios, o que restou violado no caso concreto; d) o Ministro Marco Aurélio, também baseou sua decisão no princípio da proporcionalidade, porém chegou a resultado diverso do Min. Gilmar, ao entender que não houve prática de racismo, ocorrendo a prescrição da pretensão punitiva, entre outros votos.

Voltando a realidade nacional, nas redes sociais é possível observar com frequência, a prática do uso indiscriminado do discurso de ódio, preconceito e

13 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012.

14 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. p. 9.

15 OMMATI, José Emílio Medauar. Liberdade de expressão e discurso de ódio na constituição de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. p. 16.

92 da discriminação, como se pode observar nos seguintes exemplos: a atriz Thaís Araújo, que por conta do seu cabelo afro descendente, sofreu discriminação nas redes sociais; o abuso e excesso de intolerância que permeou o cenário político no caso do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef; os políticos que foram eleitos, democraticamente, e que expressam seu repúdio ao homossexualismo, como o caso do Dep. Jair Bolsonaro, entre outros milhares de casos que ocorrem dia a dia, diante dos nossos olhos.

No documento ESTADO, SOCIEDADE E DIREITO (páginas 88-93)