O princípio da dignidade da pessoa humana irradia sobre diversos dispositivos constitucionais. Além disso, constitui como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Estabelece o artigo 1ª, inciso III, da Constituição Federal que “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamento: III- dignidade da pessoa humana.”3
A dignidade é essencialmente um atributo do ser humano, pelo simples fato de existir, é detentor de direitos fundamentais, inalienáveis e imprescritíveis. José Afonso da Silva leciona que Dignidade da pessoa humana é
3 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 11 abr. 2016,
102 um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida.4
Entre os bens mais precisos que homem tem a saúde é um que merece maio destaque. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, dispõe que ‘’toda pessoa tem direito a padrão de vida capaz de assegurar a si e sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis. ”5 Verifica-se que a saúde se relaciona como vários outros direitos.
3 DIREITO À SAÚDE
Estabelece no artigo 196 da Constituição Federal que “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.6
Dispõe, ainda, o artigo 2º da Lei 8.080/90 que ‘’A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”.7
Segundo o comando descrito no artigo 23, inciso II da CF/88 a competência acerca da saúde é de todos os entes federativos, ou seja, compete à União, Estados, Distrito Federal e Munícipios cuidar da saúde e assistência pública. A responsabilidade entre os entes federativos é solidária, todos são responsáveis pela defesa do direito fundamental à saúde.
Ingo Sarlet citando João Loureiro afirma que:
4 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 125.
5 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal Dos Direitos Humanos. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf >. Acesso em: 05 nov. 2016.
6 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 11 abr. 2016.
7 BRASIL. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Disponível em:
103 A saúde e um bem marcado pela interdependência com outros bens e direitos fundamentais, apresentado de tal sorte, “zonas de sobreposição com esferas que são autonomamente protegidas”, como é o caso da vida, integridade física e psíquica, privacidade, educação, ambiente, moradia, alimentação, dentre outros.8
A saúde representa um bem jurídico de grande valor, tendo em vista que sua característica é indissociável do direito à vida e dignidade da pessoa humana, fator importante que o diferencia dos demais direitos sociais motivo pela qual merece um maior destaque na proteção por parte do poder público.
Os serviços públicos de saúde, executado pelas ações do Poder Público, o Sistema Único de Saúde e uma rede regionalizada tendo sido organizada em diretrizes diferentes. Ademais, na óptica de Alexandre de Moraes, literalmente:
Ao Sistema Único de Saúde, além de outras atribuições, nos termos da lei, compete controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos.9
Ora, como a saúde é um direito fundamental de primeira dimensão, a nossa Lei Maior impôs um munus à Administração Pública para controlar, regulamentar e fiscalizar, mormente em virtude de sua relevância pública, os serviços e ações de saúde, quer de forma direta – por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), quer por terceiros, consoante art. 197 e 200, ambos da Carta Magna.
4 LEI 12.732/2012
Malgrado tamanha garantia inscrita no Ordenamento Jurídico, tem-se como realidade um verdadeiro transtorno público, porquanto a saúde pública convive com o caos, desleixo e em verdadeiro desrespeito com um direito humano fundamental da coletividade, sobretudo para os portadores de doenças graves, como no caso a neoplasia maligna (câncer).
8 SARLET, Ingo W. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 10. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011. p. 323.
104 É notório que o portador de neoplasia maligna não é um detentor de uma sentença de morte, porque, ao reverso da gestão pública, a medicina vem evoluindo, todavia, o acesso ao tratamento é o maior problema enfrentado pela população, especialmente a que depende, na íntegra, do Serviço Público de Saúde (SUS) quanto ao diagnóstico e tratamento do câncer.
Note-se que essa afirmativa não emerge do vazio, no entanto, do regramento da Lei n. 12.732/2012, que dispõe sobre o prazo inicial e tratamento necessário ao paciente diagnosticado com neoplasia.
Ora, se há uma ameaça ou até lesão a um direito, máxime, humano e fundamental, é imprescindível que o Poder Judiciário, por meio da prestação jurisdicional, supra o vazio e determine que o Poder Executivo cumpra a Lei nº. 12.732/2012, prestando o atendimento necessário e integral ao portador de neoplasia maligna, com amparo no direito humano e fundamental à saúde.