No ano de 1951 aportou no Rio de Janeiro uma família chinesa: Sr. Chi Ching Hai, pai de família, uma figura sisuda, com sua esposa Lee Wen e suas três filhas Mei Pu, Mong Ching e a pequena Mie Yuan. Fugindo da revolução comunista em 1948, a família deixa a china continental refugiando-se primeiro em Hong Kong num período de dois anos e, depois seguiram para o Brasil. Durante alguns meses, mulheres e crianças aguardam a definição dos chefes de família, que percorrem regiões brasileiras em busca do local ideal para fixar residência. Assim a família Wong escolhe a cidade de Curitiba para residir; porém o desembarque em Curitiba pode ter agradado aos pais e duas de suas filhas, mas a pequena Mie Yuan – agora chamada Helena Wong – sentiu imensa decepção53.
A pequena chinesinha Mie Yuan (1938 – 1990), cujo nome significa em português “Beira d’Água de Jardim”, nasceu em Pequim, China. Vítima de uma doença, hoje denominada paralisia infantil, Helena lutou a vida toda contra a moléstia, buscando apoio na pintura, como força para estar no mundo. Com cinco anos, foi submetida a uma imobilização total do corpo por um gesso ortopédico. Sua doença não era comum na China daquele tempo, portanto, desconhecida dos médicos. O fato de ficar imobilizada com o gesso resultou, mais tarde, na calcificação errônea dos ossos que estavam na fase de crescimento, e como consequência causou a artrite reumatoide54. Porém, nos longos períodos em que ficou imobilizada, começou a desenhar na superfície do gesso. Assim, iniciou-se na pintura, ainda na China, com o incentivo da mãe, fazendo cópias das estampas chinesas, para ocupar o tempo durante a internação à que se submeteu. Aos nove anos, em Xangai teve sua primeira formação artística com um velho mestre, na academia Arco-Íris Longo, que se baseou na pintura oriental tradicional e na técnica caligráfica, que irão acompanhar toda a sua produção posterior.
53 Texto construído a partir do depoimento de Shou Wen Alegretti à autora em 10 de Junho de 2008. 54 CAPISTRANO, Elaine Werneck. O expressionismo na obra de Helena Wong: décadas de 70 e
80. Monografia de especialização (Especialização em História da Arte) – Escola de Música e Belas Artes do Paraná – EMBAP, Curitiba, 1996.
Um ano mais tarde, em 1948, a família transferiu-se para Hong Kong, onde Helena teve seu primeiro contato com a arte ocidental (ver figura II - 1)55.
Chegando ao Brasil, em 1951, Helena aporta no Rio de Janeiro e se maravilha com a luminosidade do céu, a cor forte do sol e a lembrança de Hong Kong de onde partiu: os dois tinham mar, muitos edifícios, asfalto, carros, um movimento que a fascinava, porém ao chegar a Curitiba, em 1952, descobre a decepção pela cidadezinha acanhada: uma cidade provinciana, com típicos vendedores de rua que iam de casa em casa em carroças vendendo seus produtos, além de um bebedouro para cavalos em pleno centro da cidade56.
Curitiba na década de 1950, já estava em pleno desenvolvimento urbanístico. Fato este que o artista Synval Stocchero57 registrou nas diversas fotografias que fez
55 BAPTISTA, Christine M. V. Meio Século de Sensibilidade e Obstinação. Catálogo Museu de Arte
do Paraná. Curitiba, out. de 1990.
56 Texto construído a partir do depoimento de Estela Sandrini à autora em 15 de abril de 2008. 57 Synval Stocchero (1930
– 2008) nasceu na cidade de Itaperuçu no Paraná, mas, com 3 anos transferiu-se para Curitiba com a família. Aos 18 anos, quando passou a servir a Aeronáutica, apaixonou-se pelas fotografias aéreas. Stocchero subia no alto dos edifícios, em obras ou já finalizados para registrar panoramas urbanos, além de produzir fotografias do cotidiano, de carros passando, pessoas atravessando a rua ou eventos como uma parada militar e uma corrida de lambreta. O fotógrafo foi profissional de jornais por um curto período, no início da década de 50 e também fazia fotos de estúdio e publicitárias, seguindo assim a profissão de fotógrafo. (VECCHIO,
Figura II - 1
Paisagem (mesa no quintal) – 1949 - Helena Wong Aquarela s/papel, 0,28 x 0,36 cm
Acervo Mon.
da cidade entre as décadas de 1950 e 1960 até 2007, que foram exibidas na exposição “Curitiba na Mira do Fotógrafo” no Memorial de Curitiba em 2011. A exposição foi organizada pela diretoria do Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba. São 120 fotografias em que, Stocchero apresenta justamente essa metamorfose do processo da urbanização da capital do Paraná, desde o momento em que o campo e as carroças começaram a dividir seu espaço com grandes prédios e um grande número de carros, até sumirem por completo (ver figuras II - 2 e II - 3). Porém, ainda não chegava a ser o que Helena Wong entendia por cidade, tendo em vista, que suas últimas referências foram Hong Kong e Rio de Janeiro.
Annalice Del. Retratos da Cidade pelo Flâneur. Gazeta do Povo: Caderno G, Curitiba, 15/12/2010. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?id=1077675>. Acesso em: 28/10/2011).
Figura II - 2
Figura II - 3
Panorâmica da cidade de Curitiba – 1950 - Synval Stocchero - Fotografia Acervo: Fundação Cultural de Curitiba.
Fonte: <http://curitibaagora.com.br/?p=1743>.
Cotidiano de Curitiba – 1950/60 - Synval Stocchero - Fotografia Acervo: Fundação Cultural de Curitiba.
Mas, apesar de em um primeiro momento a cidade lhe despertar a angústia e o desespero, em todos os outros aprendeu a transformar o que parecia banal em arte, criando uma pintura que transcende a realidade e capturando, como ela mesma disse o “microcosmo” das coisas. Sobre essa adaptação ao exílio em outro país Helena comenta suas lembranças:
Guardo, sobretudo a solidão que a cidade me proporcionou e que me ajudou a despertar para determinadas percepções extra-sensoriais. Uma espécie de escuta do silêncio, com as árvores e a casa grande da Rua Tomazina funcionando como elemento indispensável à composição poética58.
Também, nesse período, passa a frequentar o ateliê Andersen, tendo aulas com Thorstein Andersen, onde começa a ter consciência pictórica da arte realista ocidental. Com ele teve um aprendizado formal e acadêmico (ver figura II - 4). Sabia do valor do aprendizado que conseguiu com o mestre: “(...). Fez-me começar da base, desde os sólidos geométricos, até a figura, aprendi muito com ele, era excelente.” Mas percebeu que precisava buscar outros meios de pintura: “Porém, me prendia muito (...) quando eu começava a espatular tintas grossas contrastantes nos rostos, ele não gostava muito...”59.
58 WONG. Apud. BAPTISTA, Christine M. V. Op. cit., p. 8. 59 Ibid, p. 7.
Figura II - 4
Retrato – 1956 - Helena Wong. Óleo s/ tela, 28 x 25 cm Acervo: Regina Casillo.
Quando esse aprendizado com Thorstein Andersen começa a sufocá-la, devido os limites que o mestre lhe impunha, Helena passa a frequentar o Círculo de Artes Plásticas do Paraná, entrando em contato com o pintor Alcy Xavier, que lhe mostrou uma arte mais livre, despertando em Helena um desejo de fazer uma arte mais pessoal, ou seja, descobriu que sua obra poderia ser um reflexo do seu interior ou do mundo a sua volta. Assim, liberta da fixação pelo modelo, rompe então com a arte acadêmica.
O artista e crítico de arte Fernando Velloso confirma dizendo que a obra de Helena Wong é “a afirmação de sua intenção primeira, a de nunca abdicar da liberdade de criar, sem limites, nem regras”60. Voltada para um trabalho mais
intimista, Helena Wong comenta sobre seu contato com Alcy Xavier: “(...) Ensinou- me que a arte é um encontro com a gente mesma e não um registro mecânico do objeto. Daí por diante comecei a pintar de todos os jeitos, coisas que até então não tivera coragem de fazer” 61. Nesse ponto de sua produção a artista começa um
período que será o grande auge em sua carreira - sua fase abstrata.
Desse momento, surgem algumas obras com linhas oblíquas, na busca de destruir o espaço pictórico, talvez sejam resquícios do legado das lições da fragmentação cubista visto com Alcy Xavier. Contudo, em algumas outras experiências abstratas, também desse início, nota-se uma inclinação informal, ou seja, uma distância com o rigor geométrico: pinceladas espessas, soltas e intensas em uma fluência unidirecional. Em 1961, participa do 18º Salão Paranaense de Belas Artes, e recebe o prêmio aquisição Associação Nacional do Paraná com a tela
Marinha62 (ver figura II - 5). Nessa obra Helena usa espátula e sua linha passa a ser
forma. Além do título, as particularidades da obra evidenciam a manifestação da artista em eleger o mundo exterior como sua principal ascendência.
Além da correspondência cromática identificada em Marinha, (onde possíveis céus e o mar são azuis e a areia permanece amarelada), a artista manipulou propriedades naturalistas aparentemente insondáveis. O aumento da largura das áreas definidas, próximas da porção inferior da tela juntamente com a aplicação de tons mais densos, configuram uma sensação de recuo perspectivo, determinando grosseiramente o ponto de vista mais próximo e o mais
60 VELLOSO, Fernando. Helena Wong: trajetória de uma paixão. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer,
2005, p. 1.
61 ARAÚJO. Apud. BAPTISTA, Christine M. V. Op. cit., p. 7. 62 Ibid,1990.
longínquo do espectador. (...) Helena Wong proporcionava uma vista panorâmica de uma construção geográfica imaginária63.
Helena Wong gostava de trabalhar em contato com a natureza, tanto que o quintal da sua casa na Rua Tomazina, tornou-se uma fonte de motivação para o desenvolvimento de seu aprendizado, tendo em vista que várias vezes o descreveu quando se referia a suas obras:
(...) tinha uma paisagem muito bonita. Pela manhã, adorava ver o orvalho caído no chão, espalhado pelo capim. Fascinava-me aquele brilho que o sol dá ao incidir sobre ele, a transparência que a luz provoca, a textura que resulta de cada folha, pedra ou bichinho qualquer... Procurei ampliar aquilo a fim de captar o microcosmo e o macrocosmo que existe em cada partícula. Daí a fase que a crítica considera abstrata, que veio da preocupação formal à lírica64.
Logo que se desligou do academismo de Thorstein Andersen e, com o contato com o grupo que frequentava a Cocaco65, percebeu que poderia ir além; poderia nas obras, a partir de agora, revelar o mundo visto através de seus olhos.
63 SILVA, Ana Paula França Carneiro. Abstração em Helena Wong
– 1960 à 1965. In. IV Fórum de Pesquisa Científica em Arte: Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Anais. Curitiba, 2006, p. 124.
64 BAPTISTA, Christine M. V. Op. cit., p. 5.
65 Em 1955 surge em Curitiba uma primeira Galeria de Arte preocupada com a arte dos jovens, é a
pequena “Galeria Cocaco”. Helena Wong passou, então a frequentar todas as tardes a Galeria que se tornou o lugar de encontro dos artistas da época.
Figura II - 5
Marinha – 1961 - Helena Wong. Óleo s/ tela, 59 x 80 cm
Acervo: Associação Comercial do Paraná. Fonte: Acervo fotográfico do Museu Oscar Niemeyer.
Nesse sentido a pintura de Helena Wong da fase abstrata liga-se ao abstracionismo lírico. Para Fernando Bini:
Eram os olhos de Helena que eram abstratos, e por isso ela encontrava no pequeno mundo do quintal de sua casa o modelo ideal para sua obra, tudo estava ali, era do seu interior que constituía seu mundo real e seu mundo de representação, pois ela transcendia o tema situado66.
Assim, aos poucos o gesto largo das primeiras obras abstratas transmuta-se num gesto fino, curto e dinâmico, mas cauteloso, que se ampliava ou se reduzia como se fossem hachuras, intensificando, ou melhor, dando vazão a orientalidade inerente à artista (ver figura II - 6). Sobre essas obras abstratas de Helena Wong, Eduardo Rocha Virmond acredita que:
As figuras vão diminuindo e desaparecendo até sumirem em um prisma imaginariamente microscópico. Em pequenos riscos, bosquejos sobre superfícies de extrema delicadeza, surgem esses múltiplos conflitos, que se desenrolam em cada centímetro quadrado do papel, da tela, até o esgotamento total67.
Quando na abstração desenvolve o desenho e a pintura monocromática, fica evidente a influência da arte oriental, que na china chamava-se de a “arte da
66 BINI, Fernando A. F. Helena Wong. Lendo Arte: MUVI museu virtual, 1997. Disponível em:
<http://www.muvi.advant.com.br/lendo_arte/bini/helena_wong.htm>. Acesso em 18 de setembro de 2007, p. 1.
67 VIRMOND, 1971. Apud BAPTISTA, Christine M. V. Op. cit., p. 21.
Figura II - 6
Desenho nº 2 – s/ data - Helena Wong Nanquim s/ papel, 72 x 100 cm
Acervo: MON.
caligrafia”68 aliada à pintura. O aprendizado realista que teve com Thorstein, não
interferiu ou destruiu seu aprendizado anterior, ao contrário, acentuou o valor simbólico e deu cor ao seu trabalho.
Desde a arte primitiva chinesa, seus poetas-pintores, como foram chamados os artistas chineses, sempre mostraram uma predileção pelas linhas curvas e sinuosas porque inseriam uma sensação de movimento em toda a pintura. Suas obras mesmo influenciadas pelo budismo, não tinham a finalidade de ensinar determinada doutrina, mas começaram a pintar com um espirito de reverência com a finalidade de desenvolver material para meditação profunda. Esses artistas mais devotos começaram a pintar montanhas e representar a água, suas paisagens não eram reais e não serviam para comparar com o mundo real. O que esses artistas procuravam era adquirir habilidade com o pincel para captar o espirito da paisagem. Para isso o pintor destinava um tempo longo para a meditação sobre o tema:
Via crescer as flores, uma a uma, no orvalho da manhã, durante o dia e ao crepúsculo, desde o botão à semente; estudava as diferentes espécies de árvores, as raízes, os troncos, as folhas, as transformações que sofriam no decorrer das estações. As montanhas, o voo das aves, a neve a cair, os pescadores e os bambus – tudo lhe servia de guia e de ensinamento.69
Nas imagens de algumas obras chinesas é comum encontrarmos formas indefinidas de picos de montanhas, nuvens, alguns vales com rochedos, sempre emergindo de uma brisa intensa e opaca que ajuda a deixar as formas indefinidas. Não há simetria, mas sim um comedimento na arte chinesa, “em sua deliberada limitação a um punhado de motivos simples da natureza”70.
Helena, mesmo tendo um período relativamente curto de contato com a arte chinesa, manteve vivo um espirito chinês, com um olhar atento a tudo e a todos. É muito provável que ela tenha dedicado seu tempo a momentos de introspecção e análise da natureza nos moldes chineses, pois em muitos relatos deixados em seu diário traz descrições quase poéticas das formas da natureza, ambientes e lugares que viu e viveu.
68 Durante a dinastia Han, portanto, a escrita ideográfica chinesa se desenvolveu autônoma, como
umas das belas artes e as primeiras classificações estéticas e estilísticas vão encontrar-se nas obras críticas sobre as técnicas de caligrafia. (OSBORNE, Harold. Estética e Teoria da Arte: Uma introdução histórica. São Paulo: Cultrix, 1968, p. 98).
69 UPJOHN, E. M. WINGERT, P. S. MAHLER, J. G. História Mundial da Arte: Oriente e Extremo
Oriente. v. 5. Lisboa: Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1974, p. 150-151.
70 GOMBRICH, Ernest H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos
Hoje é um dia quente. O pôr-do-sol é envolvido por espessa serração, somente um círculo lilás que caía, carregando gradualmente a cor. (...) O círculo alaranjado com tendência a tornar- se bordo, é a única forma de contornos nítidos, numa grama vestida de véu branco a tornar-se cinza gradualmente. O céu é árido, poeirento, pois o vento levanta a base das montanhas, um outro véu dourado cintilante constituído de mil e um corpinhos de pó...71
Nas pequenas, porém inúmeras descrições como esta, a artista analisa a paisagem, o ambiente ao seu redor. Seus diários foram escritos em Curitiba, e suas descrições nos remetem às sensações climáticas típicas da cidade o que nos possibilita a construção da imagem da própria cidade. Já no que diz respeito às suas obras a cidade não aparece, a artista mais disse do que mostrou. No entanto seus quadros falam das estações do ano, suas obras nos envolvem numa atmosfera natural, cinzenta e fria, e dessa conexão dos lugares descritos nos diários com a visibilidade das suas obras, encontramos aqui um lugar construído pela artista.
Em muitas de suas obras abstratas, podemos ver essa atmosfera da cidade de Curitiba, que Helena começou a descrever em seu diário. Seja pela simbologia da cor, ou pela delicadeza e suavidade do traço. Que mesmo dinâmico, desperta a ideia de silêncio e solidão. Na obra “O mundo visto através de uma folha” (ver figura II - 7) a artista guia nosso olhar a lugares desconhecidos, os matizes laranja esverdeados da obra nos lembram dos entardeceres da cidade, que nas combinações de linhas e cores ao centro contrastam com o restante da tela que parece calar na opacidade da tinta e na suavidade em que se mesclam. Não se trata de uma descrição da obra ou de se tentar forçar uma figuração, mas como o próprio título da obra sugere, é nos pequenos detalhes, muitas vezes em um detalhe, uma porta, um fragmento arquitetônico, uma folha da árvore, se encontra uma cidade toda.
Para Adalice Araújo, Helena Wong revela um mundo biomórfico, e afirma ainda:
Se aqui e ali desponta a tinta com uma sutileza e caricia que somente um artista chinês poderia fazê-lo; ao mesmo tempo, como ocidental, é cheia de amor pela matéria corpórea, que impregnada de voluptuosidade – por paradoxal que pareça – introduz o espectador num mundo iconográfico72.
71 Helena Wong em registro no diário pessoal, dia 31 de agosto de 1964. 72 ARAÚJO, Adalice. Abstrato. Caderno de Notícias, Curitiba, 05/10/1978, p. 5.
Novamente a imobilidade, apenas nas folhas um leve tremor brilhante; terra encharcada, sedosa, sensação de algo oculto, mil vidas em germinação cobertas
suavemente pelo véu de terras. Vida em germinação, abundância em prenúncio,
no trêmulo, molhada noite de verão. Cantam as rãs, grilos, início de uma nova
estação73.
A pintura chinesa desenvolveu-se sempre de olho no passado, estavam mais interessados em afirmar-se pela perícia que pela originalidade. Segundo Gombrich, com o passar dos tempos às pinceladas mais comuns, como a de uma haste de bambu, foram como que etiquetados, ou seja, apareciam recorrentemente em todas as obras chinesas e os artistas acabaram se inibindo e não confiando tanto na sua inspiração. No entanto, ao lado da técnica meticulosa, a temática das paisagens vaporosas com traços que dinamizam a pintura permaneceu durante anos, e ainda, tornou-se influência em outros países, como exemplo o Japão que teve sua arte desenvolvida “a partir da arte chinesa e prosseguira-se nesse rumo durante quase mil anos”74. Somente a partir do século XVIII, com as realizações da arte ocidental
que os japoneses se atreveram a explorar novos temas, como cenas da vida cotidiana, porém as bases da fatura continuavam as mesmas do método chinês.
Em resumo, o que importa da história da pintura oriental para esta pesquisa, são as qualidades da fatura e a exploração temática da paisagem que se perpetuou durante séculos: suas características distintas, no sentido de semelhança da realidade do mundo circundante e a ênfase dada às sensações e a minuciosidade do estudo de cada detalhe da obra. Pois, é nisso que encontramos uma aproximação com o trabalho de Helena Wong e confirmamos a permanência das características orientais, desde as cópias das estampas chinesas feita ainda na infância, que jamais foram deixadas de lado pela artista.
73 Helena Wong em registro no diário pessoal, dia 29 de Agosto de 1964. 74 GOMBRICH, Ernest. Op. cit., p. 525.
Figura II - 7
O mundo visto através de uma folha – 1965 - Helena Wong
Óleo s/ tela, 100 x 120 cm Acervo: Particular.
Fonte: Catálogo – Helena Wong: trajetória de uma paixão, p. 51, 2005.
Não é raro encontrar análises das obras chinesas, mesmo de períodos distintos, com descrições das sensações que a natureza, em suas nuances diárias, desperta mais do que da própria paisagem em si (ver figura II – 8):
Atmosfera de crepúsculo, de um dia que vai chegando ao fim, da necessidade de se apressar
antes que a bruma envolva tudo. (...). Uma sensação de frio e do silêncio do inverno, de um
mundo vestido de branco. (...). Folhas escurecidas pelo gelo, o atalho de uma brancura imaculada sugerem tranquilidade e isolamento75.
Muitas dessas descrições se aproximam dos textos de Helena como também de suas obras abstratas, que