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3. Agências e agentes

3.2 Os agentes

3.2.2 Heloísa Alberto Torres

influenciavam diretamente suas decisões. Gustavo Barroso e Lygia Martins Costa são alguns deles. Em seus anos trabalhando no Sphan, Lygia Martins Costa colaborou muito para o estudo desse acervo, devido a sua formação como museóloga e sua especialização em história da arte. Seu conhecimento subsidiou a constituição e o gerenciamento dessas coleções.

Intelectual, produziu conhecimento sobre o patrimônio que se pretendia científico e especializado. Desenvolveu metodologias de pesquisa nesses territórios, a partir de pesquisa bibliográfica, acesso a documentos inéditos e históricos e registros fotográficos.

Segundo relatórios da Biblioteca Virtual do MHN, a Organização Nacional do Icom teve destaque sob a presidência Rodrigo M. Franco de Andrade, principalmente pela elaboração de Estatutos, conseguiu incentivo do M.E.C para a filiação de instituições e técnicos brasileiros e a assinatura da revista da Unesco,

"Museum", planejou e organizou o Primeiro Congresso Nacional de Museus, "sob orientação e responsabilidade da atual presidenta, Profa. Heloísa Alberto Torres"

(RELATÓRIO, 1969, p. 110)56.

Durante os anos em que esteve na direção do Sphan, e posteriormente, o Iphan, dedicou sua vida pessoal a carreira pública. Rodrigo Melo Franco de Andrade veio a falecer no ano de 1969, sendo lembrado enquanto uma das mais notáveis personalidades da área cultural no Brasil.

que corroboram diretamente para o ingresso dessas mulheres nesse contexto.

Talvez elas tenham alcançado cargos inimagináveis por mulheres da época em decorrência de dividirem com esses intelectuais, o mesmo processo histórico-social, ou até mesmo por relações próximas de amizade. Privilegiadas ou não, teceram relações fortuitas pelos lugares em que passaram, realizando trabalhos cujo destaque se manteve até os dias atuais.

Heloísa Alberto Torres nasceu em uma família abastada do Rio de Janeiro.

Seu pai57 obteve destaque entre o final do século XIX e início do século XX, devido a seu posicionamento abolicionista e nacionalista, o que facilitou a entrada de Heloísa A. Torres no cenário intelectual. Adélia Miglievich (2015) não vê a origem familiar de Heloísa como o único fator que explique sua trajetória, visto que Heloísa A. Torres, empenhou-se muito durante os anos em que assumiu cargos públicos.

Heloísa Alberto Torres inicia suas atividades no MN com 22 anos. Ingressou como estagiária, no momento em que opta por estudar antropologia. Para tal, procurou o professor Edgard Roquette-Pinto, e iniciou seus estudos. Segundo Miglievich-Ribeiro (2015), "os laços entre o mestre e a discípula dez anos mais nova, foram se estreitando ao ponto de ela se tornar praticamente sua mão direita no dia a dia do Museu Nacional" (MIGLIEVICH-RIBEIRO, 2015, p. 48).

Dedicou anos de sua vida a esse museu. Roquette-Pinto, por sua vez, teve influência determinante para a formação intelectual da aluna, cujo entendimento, culminou na devoção pela causa indígena e na dedicação quase que exclusiva ao Museu Nacional e a preservação da cultura.

Na trajetória de Heloísa A. Torres apresentada por Adelia Ribeiro (2015), o ano de 1925 é um divisor de águas: Heloísa decide prestar o concurso para a vaga de professor substituto na seção cuja direção cabia a Roquette-Pinto. Foi aprovada por unanimidade, obtendo a primeira colocação. Foi então nomeada como professora da Divisão de Antropologia. Adelia Miglievich chama a atenção pelos recorrentes elogios feitos a primeira mulher a ingressar como professora naquela

57 Filha preferida de Alberto Torres, nasceu no bairro de Laranjeiras no Rio de Janeiro, em 17 de setembro de 1895. Alberto Torres ocupou cargos políticos, foi ministro da Justiça entre os anos de 1896 a 1898, assumiu a presidência do Estado do Rio de Janeiro em 1897, permanecendo até 1900.

Encerrou a carreira como ministro do Supremo Tribunal. Faleceu novo, com 51 anos em 1917. Ver tese de Adélia Miglievich-Ribeiro (2015). A trajetória de figura pública e intelectual de Alberto Torres inspirou diretamente Heloísa. Seu pai era conhecido por muitos dos intelectuais que mais tarde, vieram a dividir espaços com ela, como exemplo de Roquette-Pinto.

instituição. Os comentários da imprensa carioca, na maioria das vezes, atrelaram a figura de Heloísa Alberto Torres a de seu pai58.

Ainda segundo Adelia Miglievich-Ribeiro (2015) à medida em que Roquette-Pinto vai se afastando do museu para dedicar-se a assuntos ligados à educação no Brasil, cada vez mais, Heloísa A. Torres vai se envolvendo com as atividades institucionais, substituindo o professor muitas vezes. Nos anos 1926, iniciou suas viagens de campo. Viajou para São Paulo para estudar e verificar o estado dos sambaquis de Iguape, em 1927, continua sua expedição em Vespasiano, Minas Gerais, para examinar sítios arqueológicos. Dedicou-se principalmente aos estudos das cerâmica marajoara, cujos resultados foram apresentados e publicados em 1929. Participou do Conselho de Fiscalização criado em 1930. No ano seguinte, em 1931, assume a cadeira de professor-chefe da Seção de Antropologia e Etnografia do MN. Neste cargo, passou a fomentar e ministrar cursos de extensão universitária.

De 1935 a 1937, exerce função de vice-diretora de Alberto Betim Paes Leme. Por decisão da congregação, foi eleita mais uma vez, de forma unânime, para dar continuidade ao cargo na direção. Em 1938, é eleita diretora do museu, permanecendo até 1955.

Em 1953, Heloisa Alberto Torres saiu a campo para pesquisar as instituições museais no Brasil. Dessa pesquisa, originou-se a publicação Museums of Brazil. Foi presidente do Onicom, também por indicação de Rodrigo Melo Franco de Andrade, e posteriormente, do Icom. Anos depois, participou da formação de técnicos em museus. Destaco o ano de 1968, quando então diretor do MHN, Léo Fonseca e Silva lhe envia o anteprojeto para a regulamentação da profissão de museólogo.

Permaneceu no Sphan até 1967. Adelia Miglievich-Ribeiro destaca que não se sabe até que ponto a saída de Rodrigo M.F. impactou seu distanciamento da instituição (2015). Com 70 anos, Heloísa A. Torres parte para sua cidade de origem, Itaboraí- RJ, com sua irmã, onde residiu até falecer. Assídua e dedicada a questões ligadas à antropologia, ao patrimônio do Brasil e aos museus, Heloísa Alberto Torres marca a trajetória da museologia brasileira.

58 Os depoimentos também acentuam como ela era uma pessoa fina e elegante. Uma lady, cuja figura de autoridade destacava-se no cenário masculino.