3. Agências e agentes
3.2 Os agentes
3.2.1 Rodrigo Melo Franco de Andrade
Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898 - 1969) nasceu em Belo Horizonte em 17 de agosto de 1898, primogênito do casal Rodrigo Bretas de Andrade52 e Dália Melo Franco de Andrade. Iniciou sua carreira profissional como colaborador do jornal O Dia. Em 1926, torna-se redator-chefe da Revista do Brasil, que diante do comando de Rodrigo, publicou cerca de dez edições da Revista do Brasil, importante veículo de manifestação dos modernistas. Entretanto, sua atuação no então Sphan é que lhe confere protagonismo nas ações do Estado no campo da cultura.
Na fase experimental do Sphan, em 1936, Rodrigo Melo Franco de Andrade passa a ocupar cargo de presidente, o que se perpetua até 1967. Os 30 anos de atuação na instituição, demonstram quão devoto ele foi às causas ligadas ao patrimônio.
Iniciamos o tópico "Rodrigo Melo Franco de Andrade" com a citação de José Reginaldo S. Gonçalves em seu livro A Retórica da Perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil (2002) para destacar quão forte foi a identificação de Rodrigo M. F. Andrade com o Sphan53. Seus anos de permanência, marcaram o que alguns autores comumente chamam de "fase heroica"54 da instituição.
O discurso que se inaugurou no país decorria de dois aspectos: a convicção de que a política preservacionista tinha uma missão salvacionista, de conter o processo de perda que ameaçava o patrimônio da nação e a associação do patrimônio nacional ao patrimônio da humanidade
Se a percepção do processo da perda era a estratégia mais corrente nos discursos em defesa do patrimônio, ao concebê-lo integrado ao patrimônio comum de todos os povos, Rodrigo de Andrade sinalizava a disposição de incorporar os pressupostos disseminados no plano internacional, priorizando a integração do Brasil ao “concerto das nações” civilizadas (JULIÃO, 2008, p. 96).
Não obstante a atuação do Serviço do Patrimônio na capital federal, é em Minas Gerais que se projetam atividades museológicas mais relacionadas à concepção disseminada pela política preservacionista dos anos 1930 e 1940. O
52 Seu pai foi professor de Direito Criminal e procurador da República. A ascendência não nega a adoração a arte barroca, seu bisavô paterno, Rodrigo José Ferreira Bretas, primeiro biógrafo de Aleijadinho. Para mais informações: <http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/481/vida-e-obra-rodrigo-melo-franco-de-andrade-1898-%E2%80%93-1969>. Acessado em 31 de maio de 2018.
53 Segundo Gonçalves (2002), a vida pessoal de Rodrigo Melo Franco foi narrada por companheiros de trabalhos ou amigos como completamente dedicada ao Sphan e a as questões envolvendo o patrimônio brasileiro.
54 O autor da expressão "fase heroica" foi Luís Saia, braço direito de Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco na gestão do patrimônio em São Paulo.
primeiro empreendimento nesse sentido, ocorreu no Rio Grande do Sul, com o projeto do Museu das Missões, em 1938. Entretanto, a criação do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (1940); do Ouro, em Sabará (1945); do Diamante, em Diamantina (1954) demonstram um certo apreço pela região mineira.
Esses museus, por meio da seleção dos objetos que comporiam seus acervos, construíram um passado, uma herança histórica daquilo que os próprios gestores do patrimônio no período selecionaram como os primeiros indícios de civilização brasileira. Dessa maneira, a capital mineradora da colônia no século XVIII - a cidade de Ouro Preto - foi apontada como representante do passado e da civilização brasileira, quer por meio de suas manifestações artísticas, consistidas principalmente, no barroco, quer por seu complexo arquitetônico cujas "matrizes histórico-culturais que convinham ao desafio de produzir um patrimônio capaz de operar uma identidade nacional unificada, e ao mesmo tempo, credenciar o país a participar do ‘concerto das nações’ cultas" (JULIÃO, 2009, p. 153). As justificativas de Rodrigo Melo Franco eram favoráveis a "seu estado de origem era assinalar, assim como fizera com os bens arquitetônicos, caráter singular do patrimônio mineiro” (JULIÃO, 2009, p. 148), onde o legado histórico representava herança patrimonial, cujo valor ultrapassa interesses regionais, sendo considerado assim, patrimônio nacional.
A atuação de Rodrigo M. Franco de Andrade na defesa do patrimônio é evidente, mas em relação aos museus, também apresenta um nova prática museológica durante o Estado Novo
Categorias de objetos antes valorizadas caem no ostracismo e novas tipologias de acervos, assim como formas inéditas de exibi-los, comandam as experiências museais do Sphan. O privilégio dos saberes eruditos e antiquários, assim como o foco exclusivo no passado, cedem lugar ao interesse cognitivo e colecionista mais abrangente que se estende ao campo da arte e da estética. À paixão colecionadora pelas coisas antigas, típicas de antiquários e amadores, o Sphan, sob a direção de Rodrigo M. F.
de Andrade, buscou imprimir um caráter científico as coleções dos museus, assim como fez no trato de todo o patrimônio (JULIÃO, 2009, p. 145).
Para a execução deste trabalho, Rodrigo M. Franco55 recorreu a especialistas e colaboradores que pudessem orientá-lo. Esses peritos e artistas
55 A escolha dos objetos que compõem o acervo dos museus mineiros, foi quase o mesmo, pela singularidade e raridade. Eram vestígios do período colonial, cujo discurso pretendia abarcar e apresentar indícios da sociedade mineradora (JULIÃO, 2009).
influenciavam diretamente suas decisões. Gustavo Barroso e Lygia Martins Costa são alguns deles. Em seus anos trabalhando no Sphan, Lygia Martins Costa colaborou muito para o estudo desse acervo, devido a sua formação como museóloga e sua especialização em história da arte. Seu conhecimento subsidiou a constituição e o gerenciamento dessas coleções.
Intelectual, produziu conhecimento sobre o patrimônio que se pretendia científico e especializado. Desenvolveu metodologias de pesquisa nesses territórios, a partir de pesquisa bibliográfica, acesso a documentos inéditos e históricos e registros fotográficos.
Segundo relatórios da Biblioteca Virtual do MHN, a Organização Nacional do Icom teve destaque sob a presidência Rodrigo M. Franco de Andrade, principalmente pela elaboração de Estatutos, conseguiu incentivo do M.E.C para a filiação de instituições e técnicos brasileiros e a assinatura da revista da Unesco,
"Museum", planejou e organizou o Primeiro Congresso Nacional de Museus, "sob orientação e responsabilidade da atual presidenta, Profa. Heloísa Alberto Torres"
(RELATÓRIO, 1969, p. 110)56.
Durante os anos em que esteve na direção do Sphan, e posteriormente, o Iphan, dedicou sua vida pessoal a carreira pública. Rodrigo Melo Franco de Andrade veio a falecer no ano de 1969, sendo lembrado enquanto uma das mais notáveis personalidades da área cultural no Brasil.