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Herbert Blumer

No documento fernandacamposjunqueira (páginas 30-34)

1 O INTERACIONISMO SIMBÓLICO

1.5 Principais autores precursores

1.5.7 Herbert Blumer

Herbert Blumer foi aluno de Mead na Universidade de Chicago. Blumer é considerado o principal herdeiro e propagador das idéias interacionistas. As três premissas elaboradas pelo autor para caracterizar o Interacionismo Simbólico foram essenciais para a fundamentação básica e divulgação desta perspectiva teórica. O primeiro pressuposto estabelece que os seres humanos agem em relação ao mundo com base nos significados que tais coisas têm para ele. A segunda premissa afirma que tais significados são produtos da interação social na sociedade humana. E a terceira premissa considera que tais significados são modificados e manipulados através de um processo interpretativo, utilizado por cada indivíduo no trato com os elementos com que ele depara (BLUMER, 1980, p.119).

A perspectiva interacionista, defendida por Blumer, é a de que os significados proporcionados pelos elementos ao homem são extremamente fundamentais. Mead e Blumer afirmam que tais significados não são intrínsecos aos elementos que os contêm, nem são

partes naturais de sua estrutura objetiva. Ambos consideram que o significado é produzido a partir do processo de interação humana. De acordo com o autor:

Para um indivíduo, o significado de um elemento nasce da maneira como outras pessoas agem em relação a si no tocante ao elemento. Todas as suas ações preocupam-se em defini-lo para o indivíduo. Desta forma, o interacionismo simbólico considera os significados produtos sociais, criações elaboradas em e através das atividades humanas determinantes em seu processo interativo (BLUMER, 1980, p.121).

A interação simbólica é a interação que possibilita a atribuição de significados que caracterizam a sociedade humana. A utilização de tais significados por alguém, em plena ação, envolve um processo interpretativo. O indivíduo, dentro de um determinado contexto, seleciona, interpreta e transforma os significados sob o ponto de vista da situação em que se encontra. Nesse processo formativo os significados são utilizados e trabalhados, além de orientarem e determinarem as ações de cada um no âmbito da interação.

A respeito da natureza da sociedade humana, Blumer afirma que os agrupamentos humanos são construídos por seres em ação. Os grupos ou sociedades humanas existem em ação e devem ser considerados relativamente a essa ação. Neste sentido, a estrutura social, sob qualquer um dos seus aspectos, deve ser considerada a partir da derivação dos atos humanos, ou seja, da maneira pela qual os homens agem uns com os outros. Qualquer sistematização empírica social deve levar em consideração que a sociedade humana é constituída, basicamente, de pessoas que agem e interagem umas com as outras. Para se tornar empiricamente válida, a sistematização deve estar de acordo com a natureza da ação social do homem (BLUMER, 1980).

Discutindo os níveis interacionais elaborados anteriormente por Mead – conversação dos gestos e o uso de símbolos significantes –, Blumer denomina dois tipos de interação presentes no âmbito relacional: a interação não simbólica e a interação simbólica. Segundo o autor, a interação não simbólica ocorre quando se reage diretamente à ação de outra pessoa sem interpretá-la – por isso, pode ser mais observada em reações sob a forma de reflexos. Já a interação simbólica se refere à interpretação dos atos. Os universos acessíveis aos seres humanos e seus grupos compõem-se de objetos, que são produtos da interação simbólica. A natureza de qualquer objeto compreende o significado que possui para a pessoa para quem constitui o objeto. Tal significado determina a maneira pela qual ela enxerga o objeto, orientando sua interpretação e ação em relação ao mesmo.

O gesto possui significado tanto para quem o faz, como para quem o enxerga e o percebe. Quando o indivíduo assume o papel do outro, ele possibilita que sua intenção seja percebida. A mútua assunção de papéis é a condição primordial da comunicação efetiva de símbolos. “A coexistência grupal humana representa um complexo processo de definição recíproca sobre como proceder e de interpretação das mesmas; através desse sistema os seres humanos vêm adaptar suas atividades uns aos outros e a formar sua própria conduta pessoal” (BLUMER, 1980, p. 126). Neste sentido, existência em sociedade pressupõe um processo no qual as interações e objetos são constantentemente criados e transformados, alterando a vida e os atos humanos de acordo com as mudanças ocorridas em seu universo interacional e de objetos.

De acordo com Blumer, o self emerge do processo de interação social. Ele possibilita ao indivíduo ser objeto de suas próprias ações. Com o objetivo de tornar-se um objeto para si mesmo, o indivíduo deve colocar-se no papel do outro para ver a si próprio agindo. Isso faz com que nos enxerguemos através da maneira como os outros nos vêem ou nos definem. É isso o que diferencia os animais – organismos respondentes – dos seres humanos – organismos agentes – na perspectiva de Blumer. Na medida em que o homem é capaz de fazer indicações para si mesmo, ele pode interpretar o mundo a sua volta e construir um guia de ação (BLUMER, 1980, p. 131).

A perspectiva interacionista, neste sentido, se opõe a algumas concepções sociológicas estruturais que ignoram o processo de interação, através do qual o indivíduo manipula seu mundo e constitui sua ação. A ação é originária do processo de indicação e interpretação, que surgem nas diversas situações e interações do dia-a-dia. Deve-se penetrar no processo definidor do agente a fim de compreender seus atos. E isso se aplica igualmente à ação conjunta ou coletiva – “joint act”. Esse processo interativo verifica-se nas indicações recíprocas – e não individuais – realizadas pelos participantes, possibilitando o surgimento da ação coletiva. A ação conjunta possui um caráter distintivo que difere de cada uma das ações individuais e de sua mera agregação. Os indivíduos, por compartilharem de significados comuns preestabelecidos, sabem o que esperar dos atos dos participantes; por conseguinte, cada interagente é também capaz de orientar seu próprio comportamento através de tais significados; ou seja, a ação coletiva tem sempre que operar através de um processo de formação criativa, ao mesmo tempo em que utiliza esquemas de interpretação anteriores.

As instituições, por exemplo, representam uma rede que funciona a partir dos atos e comportamentos de indivíduos que definem a situação na qual são chamados a agir. Nesta

definição, os indivíduos reestruturam e elaboram seus planos de ação e utilizam alguns alicerces proporcionados pelas ações anteriores dos participantes. Nas palavras do autor:

Não obstante, quer se esteja relacionando com a família, com uma turma de rua, com uma empresa industrial ou com um partido político, deve-se considerar que as atividades da coletividade são formadas através de um processo de designação e interpretação (BLUMER, 1980, p. 137).

Outro aspecto fundamental na obra de Blumer diz respeito à critica elaborada pelo autor, direcionada principalmente aos representantes intelectuais do Interacionismo Simbólico. Meltzer et al. (1973, p.190) acreditam que este é o ponto fundamental de divergência entre as Escolas de Chicago e Iowa. Ambas as escolas aceitam os principais postulados do Interacionismo, mas discordam de alguns pressupostos e elaborações teóricas e práticas. De acordo com o autor, a primeira escola se caracteriza pela utilização de uma perspectiva mais humanista e não generalizante com relação aos estudos comportamentais humanos. Seu mais renomado expoente é Herbert Blumer. A segunda escola tem como figura central o autor Manford Kuhn e se caracteriza pela priorização de aspectos metodológicos e científicos mais rígidos, aptos a generalizações.

Blumer foi um dos primeiros teóricos interacionistas a se preocupar com a aplicação empírica e verificável acerca da conduta humana. Para o autor, o mundo empírico deveria ser sempre o ponto de partida para qualquer pesquisador. A realidade existe somente na experiência humana, estando disponível ao pesquisador através da forma como os indivíduos a enxergam. A interpretação da ação é extremamente importante para o interacionista simbólico. Ao contrário do que previa Kuhn, nenhuma indicação, enquanto derivada de variáveis rigidamente controladas, poderia captar os significados das ações que as pessoas realizam (MELTZER et al., 1973, p.190) ; (SKIDMORE, 1976, p. 300).

O teste de hipóteses e o emprego de procedimentos operacionais presentes nos desenvolvimentos científicos de Kunh não oferecia para Blumer nenhuma segurança de que tais premissas, dados e conceitos seriam válidos. Para o autor, a utilização de premissas dadas a priori não permitiria uma aproximação adequada e necessária a qualquer estudo ou investigação empírica. Esquemas metodológicos como estes não levariam em consideração toda riqueza presente na natureza do mundo investigado.

Para Blumer, um aspecto essencial é o sentimento que o ator experiencia em suas atividades cotidianas. A observação participante seria fundamental neste sentido, pois proporcionaria ao pesquisador a oportunidade de verificar a base dos significados dos

próprios atores que ele investiga. Somente através da íntima associação com os pesquisados poder-se-ia adentrar e conhecer seu mundo (MELTZER et al., 1977, p.58).

Blumer afirma que a utilização de conceitos seria importante na medida em que eles não fossem construídos rigidamente. Os “conceitos sensíveis”, propostos pelo autor, seriam princípios abstratos que chamariam a atenção das pessoas para seu ambiente, capacitando-as a captar os significados desenvolvidos nas situações. A interpretação dos eventos de uma pessoa deve ser considerada importante, sem haver uma predeterminação de idéias e variáveis que impulsionariam o ator a agir de uma forma ou de outra (SKIDMORE, 1976, p. 302).

O método legítimo de investigação sociológica, para Blumer, seria um processo flexível que possibilitaria o estudioso passar de uma a outra forma de investigação, adotar novas perspectivas de observação e tomar novas direções não pensadas até então. Vários são os procedimentos utilizados para alcançar essa aproximação e compreensão do mundo investigado: o trabalho de campo, a observação participante, a entrevista, a investigação da história de vida, avaliação de documentos, dentre outros. Todas estas estratégias são formas de compreender as organizações e suas relações sociais inerentes, destacando seu processo contínuo de construção e transformação. Os instrumentos de investigação metodológica devem tentar compreender o comportamento humano, que é sempre processual, emergente e dialógico entre impulsos e definições sociais. Dessa forma, seria possível compreender o mundo dos indivíduos, interpretando suas ações que criam e recriam o ambiente, além de esculpir seu universo de objetos, ao invés de enxergá-las como fruto das expectativas normativas da sociedade.

No documento fernandacamposjunqueira (páginas 30-34)