A Hermenêutica de Profundidade (HP) é um referencial metodológico construído nos alicerces da Tradição Hermenêutica dos filósofos hermeneutas do século XIX e XX, como Dilthey, Heidegger, Gadamer e Ricoeur, que oferece orientações metodológicas para os estudos das formas simbólicas em geral, proposto por John B. Thompson no livro Ideologia e cultura moderna (2011).
A HP segue a linha da tradição hermenêutica, que considera os estudos das formas simbólicas um problema de compreensão e interpretação.
Segundo Thompson(2011, p. 364-5):
[...] as formas simbólicas são construções significativas que são interpretadas e compreendidas pelas pessoas que as produzem e recebem, mas elas também são construções que são estruturadas de maneiras definidas e que estão inseridas em condições sociais e históricas específicas.
Por se tratar de construções significativas, segundo Thompson (2011, p. 363), podem assim ser compreendidas “através de entrevistas, observações participante, e outros tipos de pesquisa etnográficos é possível reconstruir as maneiras com que as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas nos vários contextos da vida social”.
Na investigação social, o objeto das investigações é, ele mesmo, um território pré-interpretado, e, nesse sentido, o mundo sócio-histórico não é apenas um campo
objeto que está ali para ser observado e analisado, mas é também um campo sujeito,
que é construído, em parte, por sujeitos que estão constantemente preocupados em compreender a si mesmo e aos outros e em interpretar falas e ações que acontecem ao redor. Por esse motivo “os sujeitos que constituem o campo-sujeito-objeto são, como os próprios analistas sociais, sujeitos capazes de compreender, de refletir e de agir fundamentados nessa compreensão e reflexão” (THOMPSON, 2011, p. 359).
O fato de as investigações sociais estarem ligadas a um campo objeto constituído por sujeitos capazes de compressão, reflexão e ação, inserido em tradições históricas, faz com que a experiência humana seja sempre histórica e que
as novas experiências estejam sempre associadas a resíduos históricos. Portanto, é importante compreender que esses resíduos simbólicos que incluem as tradições históricas podem ter características de uso específicos, que merecem análise posterior.
Segundo Thompson(2011), um erro fundamental cometido por pesquisadores é apartar a análise das formas simbólicas do contexto onde foram produzidas, pois isso significa negligenciar o contexto onde as pessoas interpretam, compreendem e produzem as formas simbólicas, desprezando assim uma condição hermenêutica fundamental.
Para Thompson(2011, p. 364):
[...] negligenciar esses contextos da vida cotidiana, e as maneiras como as pessoas situadas dentro delas interpretam e compreendem as formas simbólicas que elas produzem e recebem, é desprezar uma condição hermenêutica fundamental da pesquisa sócio-histórica, especificamente, que o campo-objeto de nossa investigação é também um campo sujeito em que as formas simbólicas são pré-interpretadas pelos sujeitos que constituem o campo.
Mas, além da interpretação da vida cotidiana, é necessário enfatizar outros aspectos das formas simbólicas, pois está é apenas um ponto de partida indispensável da análise. Para isso, é preciso engajar-se em outros tipos de análise que se enquadram dentro do referencial metodológico da HP, e a partir daí dar conta de como as formas simbólicas estão estruturadas
Para Thompson (2011), a HP é um referencial metodológico amplo que compreende três fases principais de dimensões analíticas distintas, descritas por ele como análise sócio-histórica, análise formal ou discursiva e interpretação/reinterpretação.
Em casa fase da HP é possível usar uma variedade de métodos, que serão mais ou menos apropriados, dependendo do objeto de análises e dos procedimentos adotados para cada pesquisa.
Segundo Thompson (2011, p. 369), a primeira fase do enfoque HP, descrito como análise sócio-histórica tem o objetivo de:
[...] reconstruir as condições e os contextos sócio-históricos de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, examinar as regras e convenções, as relações sociais e instituições, e a distribuição de poder, recursos e oportunidades em virtude das quais esses contextos constroem campos diferenciados e socialmente estruturados.
O autor distingui cinco aspectos básicos dos contextos sociais, sendo que cada um define um nível de análise distinto: situações espaço temporais; campos de interação; instituições sociais; estrutura social e meios técnicos de construção de mensagens e transmissão.
As situações espaço-temporais – espaço específico de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, onde cada indivíduo vai produzir, circular e receber as formas simbólicas dependendo o espaço que ocupa no campo social (THOMPSON, 2011).
Campos de interação – espaço de posições que determinam relações pessoais e as oportunidades acessíveis a ela, conforme a acumulação de capital cultural, simbólico ou financeiro como, diria Bourdieu (THOMPSON, 2011).
Instituições sociais – constituem um conjunto de regras e recursos relativamente estáveis e relações sociais por elas determinadas. As instituições estão situadas dentro de campos de interação diretamente relacionada às posições e trajetórias ali distribuídas (THOMPSON, 2011).
Estrutura social – conceito empregado para identificar as assimetrias e diferenças relativamente estáveis que caracterizam as instituições sociais e os campos de interação; ao analisar as estruturas sociais é possível identificar assimetrias, diferenças e divisões, além de envolver tentativas de estabelecer critérios, categorias e princípios que camuflam as diferenças e garantem o caráter durável (THOMPSON, 2011).
Meios técnicos de construção de mensagens e transmissão – uma vez que as formas simbólicas são intercambiadas entre as pessoas, elas precisam de um meio de transmissão, que pode ser: rádio, televisão, internet etc.
A segunda fase de análise da HP, descrita como análise formal ou discursiva, tem como finalidade básica analisar a organização interna das formas simbólicas, características estruturais, padrões, relações e forma como são produzidas, circuladas e recebidas nos campos sociais:
Formas simbólicas são produtos contextualizados e algo mais, pois elas são produtos que, em virtude de suas características estruturais, têm capacidade, e têm por objetivo, dizer alguma coisa sobre algo. É esse aspecto adicional e irredutível das formas simbólicas que exige um tipo diferente de análise, uma maneira diferente de olhar as formas simbólicas (THOMPSON, 2011, p. 369).
Segundo Thompson (2011), a análise formal ou discursiva é um empreendimento legítimo e indispensável, mas que se torna ilusório quando está fora do referencial da HP.
Assim como na análise sócio-histórica, existem várias maneiras de conduzir a análise formal ou discursiva. Entre os tipos de método mais amplamente conhecidos e mais empregados pode-se citar análise semiótica, da conversação, sintática, narrativa e argumentativa.
O método de análise das características estruturais das formas simbólicas, neste projeto será a Análise de Conteúdo (AC) proposta por Bardin (1977) e Rosemberg (1981).
A terceira e última fase da HP é a interpretação e reinterpretação. Enquanto a análise formal ou discursiva procede por meio de análise (quebra, desconstrução de padrões e efeitos que operam dentro das formas simbólicas), a interpretação/reinterpretação procede por síntese, ou seja, ela se propõe a construir criativamente possíveis significados:
A fase de interpretação é facilitada pelos métodos da análise formal ou discursiva, mas é distinta dela. Os métodos da análise discursiva procedem através da análise, eles quebram, dividem, desconstroem, procuram desvelar os padrões ou efeitos que constituem e que operam dentro de uma forma simbólica ou discursiva. A interpretação constrói sobre esta análise, como também sobre os resultados da análise sócio-histórica (THOMPSON, 2011, p. 375).
No processo de interpretação procura-se compreender o aspecto referencial das formas simbólicas (elas se referem a algo, dizem alguma coisa sobre algo). Este movimento de pensamento é um complemento necessário à análise formal ou discursiva, pois o processo de interpretação vai além dos métodos de análise sócio- histórica e de análise formal ou discursiva, pois transcende as contextualizações das formas simbólicas geralmente tratadas como produtos socialmente situados, assim “a interpretação da ideologia tem de assumir, então, uma tarefa dupla, a explicação criativa do significado e a demonstração sintética de como esse significado serve para estabelecer e sustentar relações de dominação” (THOMPSON, 2011, p. 380).
Seguindo o referencial metodológico da HP, apresenta-se no próximo capítulo a análise sócio-histórica, quando será efetuada uma revisão sustentada da bibliografia sobre as questões que caracterizam o contexto de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, que no caso dessa dissertação será a creche, a educação em
área rural e as famílias agrícolas que residem em área rural. Como fonte, levantaremos e estudaremos a bibliografia existente. As outras etapas serão apresentadas no Capítulo 4.
3 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO
Para facilitar a leitura desta dissertação, faz-se necessário explicitar alguns conceitos que serão utilizados: Educação Infantil, Educação do Campo e localização rural e urbana. No primeiro caso, a conceituação oficial de Educação Infantil provém da LDBEN (1996), que a define como primeira etapa da Educação Básica, oferecida em creche (para crianças de até 3 anos) e pré-escola (para crianças entre 4 e 5 anos e 11 meses), entendidas como estabelecimentos de ensino público ou privado. Ou seja, a expressão Educação Infantil, quando referida ao sistema educacional, tem conceituação própria e específica, não se referindo à educação não-formal destinada à população de crianças no geral, como aquela sob responsabilidade familiar ou oferecida em domicílio ou instituições não integradas ao sistema de ensino.
Conforme a Resolução nº 5/2009, que fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, o artigo 5º define:
[...] a Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, é oferecida em creches e pré-escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais não domésticos que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5 anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de ensino e submetidos a controle social.
§ 1º É dever do Estado garantir a oferta de Educação Infantil pública, gratuita e de qualidade, sem requisito de seleção.
No segundo caso, a conceituação se traduz em uma categoria político- pedagógica, a conceituação de Educação do Campo proposta na Resolução nº. 2, de 28 de abril de 2008 integra duas perspectivas: aquela da área de localização da população (populações rurais) e aquela dos grupos, povos ou comunidades que se demarcam identitariamente.
No terceiro caso (localização rural e urbana) a nomenclatura se refere à situação ou localização do domicílio, ou seja, é considera-se rural toda residência/estabelecimento fora do perímetro urbano.
A importância de explicitar esses termos se dá pelo fato que uma escola localizada em uma área urbana pode ser considerada uma escola do campo, mas nem sempre uma escola situada em uma área rural pode ser considerada uma escola do campo, a diferenciação se dá para “escolas com propostas curriculares próprias, como projetos político-pedagógico articulados e coerentes com os projetos de vida
dos povos; onde os trabalhadores do campo e os povos indígenas sejam protagonistas e não meros destinatários” (SILVA, 2002, p. 79).