3. O sujeito e o discurso
3.2 Heterogeneidades discursivas
A alteridade – a presença do “outro” em nosso discurso - é inconsciente a ponto do sujeito não conseguir perceber marcas que indiquem a presença deste outro no discurso que assume como seu. Fiorin enfatiza a importância da alteridade no discurso, assinalando:
“A alteridade é uma dimensão constitutiva do sentido. Não há identidade discursiva sem a presença do outro. Poderíamos até constituir o seguinte mote: fora da relação com o outro, não há sentido”. (FIORIN, 1994: 36).
Fiorin (2002) salienta que todos os discursos têm uma “função citativa” (expressão de Edward Lopes) em relação a outros discursos. Para a Análise do Discurso, o sujeito tem apenas a ilusão de controle sobre seu enunciado, ao se pensar capaz de fazer escolhas, ter intenções e tomar decisões no momento da fala. Segundo Jacqueline Authier-Revuz (1990), esta ilusão é necessária para o equilíbrio do eu, que, para a AD (baseada na Psicanálise freudiana) é descentrado, fendido, assujeitado pelo meio. Sua fala é produto inconsciente da fala do segmento ao qual está inserido.
Esta visão é fruto dos estudos de Michel Pêcheux sobre o sujeito. Baseado em trabalhos anteriores de Michel Foucault, de Mikhail Bakhtin e de Jacques Lacan, Pêcheux defendeu a polifonia como fundamento dos discursos. O trajeto de um discurso faz com que, no caminho, “arraste” com ele elementos de outros discursos, formando um discurso outro que já não é o mesmo formulado anteriormente, rico em várias vozes subliminares que tornam o discurso polifônico. A existência da polifonia é constitutiva dos discursos, onde fica registrada uma memória discursiva que traz uma carga de ideologia e história. Segundo Felippi:
“A idéia de polifonia, de Bakhtin, vem dos estudos desse autor sobre dialogismo, que decorre da interação verbal que se estabelece entre o enunciador e o enunciatário, no espaço do texto. É constitutivo da linguagem e de todo discurso. É a rede interativa que articula as vozes de um discurso (...). Os textos são dialógicos porque resultam do embate de muitas vozes sociais e podem produzir efeito de polifonia ou monofonia, esse quando o diálogo é mascarado e uma só voz faz-se ouvir (FELIPPI, 1999:
08).
A língua é o lugar em que o outro se estabelece mesmo sem que se possa sentir. Não há como produzir textos e sentidos sem a presença do outro. Ou seja, não existe monofonia, mas um discurso polifônico que se disfarça. Fiorin fala da simulação a que está submetido o discurso: ele finge ser do indivíduo, quando na verdade é um produto social de uma cadeia de discursos. Edward Lopes conclui:
“Combinando uma simulação com uma dissimulação, o discurso é
uma trapaça: ele simula ser meu para dissimular que é do outro” (LOPES, 1978: 100, apud FIORIN, 2002: 42).
Bakhtin foi precursor da idéia de que todo discurso tem a presença de um outro, de outras vozes que “falam” através dele e que o constituem. O dialogismo foi o ponto que Bakhtin defendeu como base para a formação do discurso e sua percepção como fundamento da heterogeneidade. A interação de várias enunciações, o diálogo, é a base de qualquer discurso: não há monofonia e a polifonia – a presença de várias vozes no discurso – pode não estar marcada, determinada, mas é constitutiva do discurso.
Fiorin observa que, ao tentarmos excluir o outro do nosso discurso – através da desqualificação e do desmerecimento que fazemos do seu discurso – usamos palavras presentes em ambos os enunciados, mas que não falam a mesma coisa. Como já dissemos, para Bakhtin (1992a) a palavra é neutra porque pode integrar e pertencer
a qualquer discurso, e seu sentido se adequa à função ideológica do enunciado no momento em que passa a ser usada pelo sujeito. Ou, como afirma Pêcheux, as palavras “mudam seu sentido de acordo com as posições de quem as usa” (PÊCHEUX
et al., 1979: 33, apud FAIRCLOUGH, 2001: 52). Segundo Authier-Revuz (1990), a
palavra é plena, carregada, atravessada pelos discursos que compuseram a formação social do sujeito, reproduzindo as teias que compõem esta formação. Possenti (2002) observa que “a significação depende dos discursos em que as palavras e enunciados ocorrem” e “que são certas palavras que fazem, em boa medida, com que textos sejam considerados racistas, machistas etc”. (POSSENTI, 2002: 41).
Segundo Dominique Maingueneau (1987), “todo discurso define sua identidade em relação ao outro. Isso quer dizer que o discurso apresenta uma heterogeneidade constitutiva” (MAINGUENEAU, 1987: 81-93, apud FIORIN, 1994: 33). Tanto Maingueneau como Jacqueline Authier-Revuz estudaram a heterogeneidade constitutiva dos discursos e a definiram metodologicamente em duas instâncias:
1. heterogeneidade constitutiva não-mostrada; 2. heterogeneidade constitutiva mostrada.
As heterogeneidades constitutivas inscrevem o outro no nosso discurso de modo evidente, marcado, mostrado, ou de modo não-mostrado, onde a inscrição do outro no discurso é implícita, “não localizável e não representável” (AUTHIER-REVUZ, 1990: 32). A heterogeneidade mostrada apresenta-se identificada no discurso. O outro é referido diretamente através de aspas, discurso indireto livre, imitação, ironia. Expressões como “segundo fulano”, “para fulano”, “como diz fulano” etc. marcam a heterogeneidade mostrada, apontando o momento em que o outro aparece, “fala” no discurso.
A heterogeneidade não-mostrada se afirma em sua constituição: em seu discurso, o sujeito enuncia a fala do outro de forma insconsciente e sem marcar explicitamente o momento do dizer alheio, uma vez que ele mesmo não se apercebe desta alteridade.
Maingueneau ressalta que “mesmo na ausência de qualquer marca de heterogeneidade mostrada, toda unidade de sentido, de qualquer tipo que seja, pode ser inscrita numa relação essencial com uma outra, a do ou dos discursos em relação às quais o discurso de que ela depende define sua identidade” (MAINGUENEAU, 1987: 88, apud FIORIN, 1994: 33). Jacqueline Authier-Revuz (1990) salienta que:
“Heterogeneidade constitutiva do discurso e heterogeneidade mostrada no discurso representam duas ordens de realidade diferentes: a dos processos reais de constituição dum discurso e a dos processos não menos reais, de representação, num discurso de sua constituição” AUTHIER-REVUZ, 1990: 32).