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POVOS INDÍGENAS EM PERNAMBUCO

5. O índio na mídia em Pernambuco: discurso e representação

5.1 Processo de Análise

5.1.1 Indicadores do discurso

Os indicadores do discurso são elementos que permitem a interpretação de um determinado discurso, ou seja, que dão realce para um tipo discursivo e que levam ao seu enquadramento em determinada(s) formação (ões) discursiva(s). Estes índices apontam também os tipos de fontes que falam no enunciado. No caso desta dissertação, estes indicadores são observados no discurso jornalístico, permitindo verificar que papéis assumem as fontes (ativo ou passivo) e o(s) tipo(s) de discurso(s) presentes no texto.

5.1.1.1 Verbos Introdutores de Opinião

Os verbos introdutores de opinião indicam que houve um ato de fala e marcam o limite onde se inicia o discurso citado (que vem em seguida ao verbo no texto, normalmente entre aspas, analisadas a seguir). A partir de Marcushi (1991) e de Maingueneau (2002), apresentamos categorias de uso de verbos introdutores de opinião, que ajudam a compreender os tipos de discurso existentes na imprensa. É importante ressaltar que o uso do discurso direto, que resulta na exposição do

Indicadores Do Discurso

Tipos

de Fonte Discurso Tipos de

Fonte Ativa Fonte Passiva Discurso do Poder ou Discurso Autoritário Discurso Popular ou Discurso Lúdico Discurso Polêmico

discurso relatado, tem como finalidade criar fidelidade em relação às palavras do outro, mostrar seriedade ao respeitar e destacar o enunciado alheio ou indicar que não se concorda com o discurso do outro, marcando-o conscientemente dentro do seu enunciado.

Marcushi afirma que os verbos introdutores de opinião funcionam como "parafraseantes sintéticos, pois resumem em uma só palavra o sentido geral do discurso a relatar" (MARCUSHI, 1991: 77). De acordo com Maingueneau (2002), uma característica importante é que estes verbos não são necessariamente verbos de fala, mas o fato de acompanharem o discurso direto os converte em introdutores de opinião. Há momentos no texto, porém, que os verbos introdutores são suprimidos por razões diversas que, no contexto, podem levar esta omissão a significações diferentes, somente analisáveis na materialidade do discurso:

• Verbos indicadores de posições oficiais e afirmações positivas - declarar, afirmar, comunicar, anunciar, informar, confirmar, assegurar.

• Verbos indicadores de força do argumento - frisar, ressaltar, sublinhar, acentuar, enfatizar, destacar, garantir;

• Verbos indicadores de emocionalidade circunstancial - desabafar, gritar, vociferar, esbravejar, apelar, ironizar;

• Verbos indicadores de provisoriedade do argumento - achar, julgar, acreditar, pensar, imaginar;

• Verbos organizadores de um momento argumentativo no conjunto do discurso - iniciar, prosseguir, introduzir, concluir, inferir, acrescentar, continuar, finalizar, explicar;

• Verbos indicadores de retomadas opositivas, organizadores dos aspectos conflituosos - comentar, reiterar, reafirmar, negar, discordar, temer, admitir, apartear, revidar, retrucar, responder, indagar, defender, reconhecer, reconsiderar, reagir;

• Verbos interpretativos do caráter ilocutivo do discurso referido - aconselhar, criticar, advertir, enaltecer, elogiar, prometer, condenar, censurar, desaprovar, incentivar, sugerir, exortar, admoestar;

• Verbos introdutores de opinião do discurso popular – contar, prosseguir, lembrar, confessar e, com mais freqüência, o verbo dizer;

Além dessa classificação, uma opinião pode ser expressa na imprensa através de: • Nominalizações de verbos (a declaração, o argumento, o elogio, a confirmação,

a denúncia), procedimento considerado mais incisivo. A nominalização, segundo Fairclough (2001), é a conversão de uma oração em um nominal ou nome (por exemplo, ao invés de se afirmar que “x criticou y”, coloca-se que “houve crítica contra y”). Para Fairclough, este recurso permite omitir o agente (o sujeito) da oração, tendo um aspecto “ideologicamente significativo”. Ele ressalta que “as nominalizações podem também envolver a omissão de outros participantes além dos agentes (...). A nominalização transforma processos e atividades em estados e objetos e ações concretas em abstratas” (FAIRCLOUGH, 2001: 227), o que confere ao recurso lingüístico importância cultural e ideológica;

• Mediante construções adverbiais que tentam dar neutralidade, mas que na verdade transferem a responsabilidade da opinião a quem a emite, como no caso da nominalização. É diferente quando antecede uma opinião que vem entre aspas. As expressões mais freqüentes são "segundo fulano", "de acordo com...", "na opinião de...", "para fulano", "a seu ver".

A classificação dos verbos e os recursos de nominalizações e construções adverbiais, porém, não é rígida, uma vez que, de acordo com a forma do discurso, o verbo adquire uma nova feição discursiva. O modo como estes recursos se apresentam no texto, na sua materialização, é que os transformam em indicativos para a análise do discurso e a tematização da mídia. A partir desta definição, poderemos verificar em que tipologia discursiva as comunidades indígenas se enquadram na imprensa.

Na sintaxe gramatical, a pontuação – especificamente o uso de aspas – está sendo considerada neste estudo em virtude de o jornalismo fazer uso quase sempre do discurso relatado. A finalidade da pontuação é de marcar, no texto escrito, as entonações e pausas da voz, separar palavras e expressões que se deseja destacar e mesmo eliminar o risco de ambigüidade. As aspas são usadas, entre outras situações, antes e depois de uma citação considerada textual, ou seja, quando se espera reproduzir as palavras, expressões, frases ou trechos da fala do outro. É a chamada “função citativa”, segundo Edward Lopes (LOPES, apud FIORIN, 2002: 41). Também se utilizam aspas para evidenciar conceitos ou expressões do discurso do outro ou do seu próprio discurso, dando ao termo aspeado um sentido particularizado. Usam-se ainda para destacar expressões populares, gírias, neologismos, palavras estrangeiras ou termos que consideramos não se adequar totalmente ao caso em que é empregado.

Segundo Maingueneau (2002), as aspas são usadas:

1. Para citar o discurso de outro dentro do discurso que assumimos como nosso, ou seja, para marcar a heterogeneidade no enunciado (discurso relatado);

2. Para indicar que as palavras ditas num dado enunciado não se adequam bem à realidade.

De acordo com Maingueneau (2002), o emprego das aspas, no primeiro caso, tem como objetivo distanciar o autor do fala relatada, pois muitas vezes o enunciador não concorda ou não quer misturar este dito com aquilo que ele assume como sua parte no discurso. Por outro lado, o jornalista muitas vezes marca o discurso do outro com intenção oposta: mostrar respeito à fala alheia, especialmente quando se trata de uma autoridade.

O primeiro caso é típico da imprensa, quando as aspas marcam as citações em discurso direto, precedido ou sucedido de verbos introdutores de opinião (já vistos anteriormente). É o também chamado discurso relatado, quando o jornalista cita entre aspas a fala da(s) fonte(s) de seu texto, buscando respeitar a forma original do que lhe foi dito. É, enfim, uma forma de dar evidência às palavras de uma fonte.

No segundo, de acordo com Maingueneau, o uso das aspas para destacar uma determinada palavra “delega ao co-enunciador a tarefa de compreender o motivo pelo qual está chamando assim sua atenção e abrindo uma brecha em seu próprio discurso (...). Muitas vezes, colocar uma unidade entre aspas significa transferir a responsabilidade de seu emprego a outra pessoa” (MAINGUENEAU, 2002: 161). Assim, muitas vezes o destaque feito pelas aspas recai sobre palavras restritas a grupos políticos, sociais ou a estereótipos e clichês.

É interessante salientar que, ao destacar com aspas uma expressão no enunciado, o enunciador pressupõe que o leitor fará uma interpretação dentro da mesma formação ideológica para que a leitura seja a que se pretende. Neste caso, é importante observar que o uso de aspas resulta numa transferência de responsabilidade do discurso relatado ao seu titular, ou seja, o jornalista deixa clara a origem da fala marcada no texto. Muitas vezes, a função das aspas é questionar o uso ou o sentido da palavra usada, muitas vezes numa posição de crítica em relação ao seu enunciador.

5.1.1.3 Marcas de Heterogeneidade

A heterogeneidade discursiva foi estudada no capítulo 3 deste trabalho. Normalmente, quando destacamos palavras ou expressões de outro em nosso discurso – especialmente entre aspas e sob a advertência de que se trata da uma fala citada através dos verbos introdutores de opinião – fazemos isso para dar relevo, destaque. Segundo Bakhtin, estes destaques “se acomodam aos matizes da atitude do autor – ironia, humor etc” (BAKHTIN, 1992: 163).

Como explicamos anteriormente, a heterogeneidade discursiva ocorre de modo marcado ou constitutivo. No primeiro caso, é o discurso direto, relatado, normalmente antecedido de verbos introdutores de opinião e entre aspas (como vimos no item anterior). A heterogeneidade constitutiva, porém, tem uma peculiaridade: existe no discurso, mas o autor adere ao discurso alheio de tal forma que ele passa a ser integrante de seu enunciado sem que se possa distinguir que parte dele é do enunciador e que parte é alheia a ele. Isso pode ocorrer tanto consciente como

inconscientemente por parte do autor do texto, ou seja, a heterogeneidade está em todo discurso, mesmo que seu autor não se aperceba dela.

Assim, o jornalista ao fazer seu texto, ora marca o discurso da fonte, ora absorve e assume parte do enunciado do outro como sendo seu, relatando-o de modo consciente ou não, uma vez que se encontra assujeitado como qualquer sujeito. As marcas da heterogeneidade podem ser vistas exatamente a partir dos indicadores citados anteriormente: os verbos introdutores de opinião e o uso de aspas em citações de expressões ou palavras isoladas. A heterogeneidade explica a formação discursiva a que pertence tanto o autor do texto jornalístico como as fontes citadas, uma vez que esta formação é marcada ideológica e historicamente em ambos.