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HIBRIDAÇÕES COLETIVAS

No documento Ebook Interdisciplinaridades (páginas 31-39)

Na oportunidade da mostra coletiva anu- al no Grupo de Pesquisa Arte e Design, em 2014, realizada na Sala Cláudio Carriconde (Centro de Artes e Letras, UFSM), em uma produção individual, expus imagens onde constavam códigos bidimensionais, QR co- des, que direcionavam o usuário interator aos registros fotográficos de uma das eta- pas da pesquisa também realizada através de intervenções urbanas na cidade de São Pedro do Sul, Rio Grande do Sul. A expe- riência de expor uma visualidade distinta do restante da mostra gerou certo interes- se, porém desconforto aos espectadores, pois os códigos se parecem muito uns com os outros e suas informações só serão co- nhecidas a partir da interação, no caso, os registros fotográficos dos espaços onde aconteceram as intervenções na cidade. Os códigos necessitam, inevitavelmente, que o usuário possua um aparelho compatível, smartphone, tablet ou similar, e que instale o aplicativo que faz a leitura do código a fim

de que tenha acesso ao conteúdo. No local exposto havia instruções a serem seguidas pelos usuários para que pudessem ser di- recionados ao ambiente virtual onde os registros fotográficos estavam disponíveis.

Figura 7. Registro fotográfico dos Códigos Bidimensionais que direcionam à intervenções em São Pedro do Sul, expostos na Mostra anual, Itinerários, do

Grupo de Pesquisa Arte e Design, 2014. Fonte: Fotografia da autora, 2014.

O caráter tecnológico que inclui usuá- rios e interage com os espectadores tam- bém possui um papel limitador, necessita que o interator tenha certo tempo, para poder realmente interagir com o trabalho, que possua ferramentas, no caso, apa- relhos compatíveis ao processo, para ter acesso ao que está sendo proposto como

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forma de interação e principalmente tenha interesse em desvendar o que os códigos bidimensionais têm a informar.

A tecnologia ainda é vista dando-se ên- fase a dificuldades de conservação, regis- tro, modos de exposição, valor de merca- do e obsolescência das mídias e suportes, como menciona Sandra Rey (2012), porém o processo de hibridação da arte e tecnolo- gia apresenta evoluções constantes, pode- mos perceber de maneira muito evidente que os artistas estão adentrando à tecno- logia sem receios e pré-julgamentos, pois torna-se cada vez mais claro que mesmo as artes primeiras como a pintura e o desenho podem ser recriadas a partir da tecnologia, sem que seja perdido seu potencial artísti- co. Não há nenhum intuito de que haja rup- turas; a tecnologia, como explica Sandra Rey (2012), busca apenas fornecer um su- porte e maiores possibilidades, assim a arte contemporânea passa a se aproximar ainda mais dos seus observadores a partir dos meios que a tecnologia dispõe. Mesmo que estes suportes ainda tenham certo distanciamento dos usuários interatores e espectadores, quando usados, prendem a atenção, revelando uma maneira diferente de se criar e se relacionar com a arte, prin- cipalmente do público jovem e infantil que

tem necessidade de relações tecnológicas em todos os âmbitos.

A gama de tecnologias utilizadas atu- almente como aliadas dos artistas e dos seus processos de criação torna-se cada vez maior, dispositivos e programas antes utilizados apenas em determinadas áreas permitem ao campo artístico novos meios de criar, a partir de seus resultados possibi- litam o início de novos trabalhos. Na maio- ria dos casos, as obras que se utilizam da tecnologia partem de imagens que existem ou não no mundo real, quando digitaliza- das, fotografadas ou codificadas a partir de algum tipo de varredura passam a existir em números, como é o caso do uso de ima- gens analógicas históricas que passam a fa- zer parte dos meios digitais através de sua numerização. Couchot (2003) explica que a partir do momento em que uma imagem é numerizada há a possibilidade de colocá-la em memória, duplicá-la, transmiti-la a par- tir de sua numerização através de qualquer meio, ela deixa de ter qualquer relação com a realidade, passando assim a fazer parte apenas do “mundo virtual”. A experiência realizada a partir da oficina ResgateStencil, que ao veicular fotografias antigas da cida- de em comparação com atuais, possibilitou inúmeras realocações em espaços, mídias,

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redes sociais e diversos modos de propaga- ção da imagem pelo fato de terem sido co- dificadas, favorecendo sua replicação sem perda de qualidade ou de originalidade.

Através da numerização as imagens po- dem sofrer os mais diferentes processos de modificação, o artista a partir de uma imagem base, passa a criar novas imagens, transformá-las, utilizando-se dos mais va- riados programas tecnológicos que permi- tem que estes processos híbridos possam acontecer. Estas imagens numerizadas per- mitem duplicação, mantendo-se idênticas sem que haja qualquer tipo de deteriora- ção e assim mesmo após os mais variados processos de modificação, permitem con- servarem-se originais.

[...] esses procedimentos utilizados pelos artistas da modernidade são dilatados, ampliados e qualificados com as novas tecnologias que permitem dar os mais variados tratamentos à imagem, como se esta fosse uma cenografia. Resultam, assim, imagens fictícias e/ou híbridas. (PLAZA; TAVARES, 1998, p. 196).

O processo de numerização, segundo Couchot (2003), permitiu à imagem a capa- cidade de interação tanto com quem a cria

quanto com quem a observa, e a arte pas- sou a explorar esta interatividade. A tecno- logia que numerizou as imagens deslocou o observador, que até então era vinculado ao status de receptor das obras, até o local de interator, ou seja, algumas obras de arte contemporânea que utilizam das tecnolo- gias passaram a estabelecer uma relação de interatividade com quem as observa. A atividade artística que antes necessitava apenas do artista para existir passou a sen- tir a necessidade de outros sujeitos, desta maneira a obra de arte interativa só acon- tece a partir do relacionamento e da troca com o outro.

Segundo Sandra Rey (2012), os proces- sos híbridos atuais que se baseiam na tec- nologia permitem não só construírem a imagem, mas também alterá-la conforme seus elementos a partir de dispositivos in- terativos. Podemos perceber que as obras de arte contemporânea expostas não es- tão acabadas, elas se constroem gradati- vamente a partir da interação com quem a observa, esta abertura acontece a partir da tecnologia e de suas capacidades de troca. A interação por meio dos códigos bidimen- sionais permite que seja feita uma relação entre o mundo real, em que o próprio códi- go e o sujeito habitam, com as informações

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presentes no ambiente virtual, que são do ambiente real, porém de uma maneira pró- pria virtual.

Estas relações entre os diferentes es- paços que habitamos, sejam eles reais ou virtuais, permitem que possamos nos revelar como seres híbridos, que transita- mos em ambientes diferentes no mesmo espaço temporal, sem que percamos nos- sos vínculos, reais ou virtuais. Passamos a deixar de lado as terminologias que sele- cionam e separam tempos e espaços, nos permitimos viver em um local híbrido, de conceitos e de terminologias, que buscam abarcar todas as experiências que vivemos cotidianamente.

Os processos de interatividade, que se tornam cada vez mais presentes no contex- to contemporâneo, dão abertura e liber- dade ao sujeito observador. Há uma rela- ção de aproximação e dependência entre ambos que Valente (2008) explica como uma hibridação interformativa, ou seja, é o processo híbrido que acontece a partir de obras produzidas em procedimentos colaborativos e cooperativos, nos quais os sujeitos interatores são tão importantes quanto o próprio artista, pois somente a partir deles e da sua capacidade e interes- se de interação é que a obra acontece, sem

seu papel ela apenas existe, sem conseguir instaurar-se como tal. Este tipo de hibri- dação interformativa faz alusão também à ação de autoria colaborativa, pois o fato de diferentes pessoas colaborarem com o processo de criação e de construção do projeto são também atos híbridos, que re- lacionam diferentes referenciais e sujeitos. Desta maneira este processo de rela- ção e hibridação interformativa não acon- tece somente no âmbito tecnológico e de cunho interativo, mas também no contex- to artístico contemporâneo, no qual existe uma relação de troca entre as obras e os observadores e também entre os próprios observadores e colaboradores dos proje- tos, é necessário que aconteça uma expe- riência e uma fruição, um momento de ir e vir entre o sujeito, a obra e as experiências artísticas que acontecem a partir destas relações. Hibridizar identidades, compar- tilhar a autoria e construir de maneira co- letiva vem ao encontro do que Silva (2000) define como hibridismo quando menciona a combinação de identidades culturais que resultam em grupos renovados, estes se reforçam a partir das somas, construindo novos e amadurecidos projetos.

Sandra Rey (2012) relaciona os proces- sos híbridos contemporâneos ao que ela

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menciona como modus operandi, explica que esta definição é na verdade um cruzamento onde os artistas devem proceder de maneira aberta, sabendo lidar com os dados que a cultura contemporânea dispõe. Podemos entender que nestes dados estão incluídos tam- bém os sujeitos interatores, os também autores, porém desconhecidos que farão parte das obras a partir de sua relação com as mesmas. O artista, assim como sua obra, passa a ser um sujeito híbrido que, com base nas construções coletivas proporcionadas por ele aos observadores e espectadores, reconstrói-se, utilizando-se deste repertório criado e construído, hibridiza-o aos repertórios de vida que embasam suas obras e projetos, assim cria sempre algo novo que é construído a partir do que foi hibridizado ao passado.

Tomando por base esta hibridação a partir do coletivo podemos perceber que a arte, dependente da interação, possui resultados imprevisíveis em cada ambiente exposto, a cada público com que se relaciona criará sempre novas consequências, tanto à própria obra quanto ao artista e aos observadores. A interatividade promove uma capacidade de renovação constante tendo em vista que não causarão as mesmas reflexões, não serão vistas pelas mesmas pessoas, não possuem um manual de como interpretá-la, mas sim possuem lacunas que dão liberdade para serem preenchidas.

Criar a partir da tecnologia, aliada à autoria compartilhada, revela a força que os pro- cessos híbridos possuem dentro do contexto artístico contemporâneo e pós-moderno, percebemos que os antigos ideais de pureza foram consumidos pelas alianças criadas pe- los desiguais. Na arte, hibridizar e colaborar passou a significar mais somas e trocas do que rupturas ou desqualificação, permitindo que haja influências e que os saberes sejam coletivos, não mais somente individualizados, assim adquirimos e dividimos conhecimen- to científico, tecnológico e habilidades interdisciplinares que irão construir em cada sujeito subjetividades individuais que só são permitidas aos que possuem a oportunidade deste tipo de vivência.

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Referências

ARANTES, Priscila. @rte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Senac, 2005. p. 185.

COUCHOT, Edmond. A Tecnologia na arte, da fotografia a realidade virtual. Tradução Sandra Rey. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2003. p. 319.

KINCELER, José Luiz; SILVA, Leonardo Lima da; PEDEMONTE, Francis Albrecht. ARTE COLABORATIVA: O COLETIVO

LAAVA COMO UMA PLATAFORMA DE DESEJOS COMPARTILHADOS. 2009. Disponível em: <https://ciclo2009.files.wor-

dpress.com/2009/11/jose-luiz-kinceler_arte-colaborativa-o-coletivo-laava-como-uma-plataforma-de-desejos- -compartilhados.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2014.

LADDAGA, Reinaldo. Estética da Emergência. São Paulo: Martins Fontes, 2012. p. 302.

NADOR, Mônica; RIVITTI, Thais. RJEILLE, Isabella. Mônica Nador. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2012. p. 64. PLAZA, Júlio. TAVARES, Mônica. Processos criativos com os meios eletrônicos: Poéticas digitais. São Paulo: Hucitec, 1998.

Projeto Paredes Pinturas Mônica Nador. Disponível em: <https://atelie1m2.wordpress.com/2012/07/13/mm/>.

Acesso em: 11 jun. 2014.

REY, Sandra. Operando por cruzamentos: processos híbridos na arte atual. Anais #11art 2012. Disponível em: <http:// medialab.ufg.br/art/anais/textos/SandraRey(2).pdf>. Acesso em: 12 jun. 2014.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Teoria cultural e educação: um vocabulário crítico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 127. VALENTE, Agnus. Útero portanto Cosmos: Hibridações de Meios, Sistemas e Poéticas de um Sky-Art Interativo. 2008. Tese de Doutorado em Artes Visuais. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes - ECA/USP. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27159/tde-14052009-154333/pt-br.php>. Acesso em: 10 jun. 2014.

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