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Hipóteses científicas a priori e hipóteses metafísicas

No documento A presença da metafísica na ciência (páginas 132-136)

PARTE II: Metafísica e ciência: o estado actual da questão

3. O debate naturalismo versus não-naturalismo

3.2. Naturalistas e não-naturalistas

3.2.10. Hipóteses científicas a priori e hipóteses metafísicas

Debrucemo-nos sobre dois casos célebres, o do positrão e o do neutrino. Quando, nos anos vinte, foram medidas as energias dos produtos do decaimento radioactivo , um electrão e um núcleo de recuo, os físicos descobriram que a energia parecia não estar a ser conservada. Ou seja, o princípio da conservação da energia, um dos grandes pilares teóricos da física, não era respeitado. Em face do problema, Niels Bohr sugeriu que, no caso em questão, se pusesse em causa esse princípio, o que abria caminho à modificação radical das bases teóricas da física. Mas havia a opção oposta que era, precisamente, a de salvaguardar o princípio de conservação da energia. Em 1930, Wolfgang Pauli avançou com a hipótese da existência inobservada de um terceiro produto do decaimento cuja energia não estava a ser medida. Em 1933, Enrico Fermi baptizou essa hipotética partícula com o nome ’neutrino’. Devido à confiança na lei da conservação da energia, os físicos estiveram sempre convencidos da sua existência, de tal modo que, quando foi descoberto em 1956 pela equipa de Fred Reines no reactor de Savanna River, nos Estados Unidos, ninguém se surpreendeu. O neutrino passou de ‘especulação’ do pensamento racional a um dado objectivo da ciência cuja existência foi concretizada experimentalmente. Quanto ao segundo caso, o do positrão, a anti-partícula do electrão, relembremos que a equação de Dirac de 1927 previa funções de onda que correspondiam a soluções de energia negativa, sem interpretação empírica. Essa previsão permaneceu especulativa até que, de maneira totalmente independente, Anderson descobriu o positrão, em 1933. Esta descoberta permitiu a interpretação de Blackett e Occhialini que daria um conteúdo empírico à equação de Dirac.

Como responder então à seguinte questão: ao fazer uso do raciocínio a priori e postulando a existência de inobserváveis, estavam Pauli e Dirac a pôr hipóteses científicas ou hipóteses metafísicas? Tanto o neutrino como o positrão não eram nem observáveis nem detectáveis na época em que foram concebidos. Se seguirmos um empirismo estrito, segundo o qual o observável se reduz ao ‘observável a olho nu’, então Pauli e Dirac estavam a fazer metafísica. Mas, mesmo incluindo o detectável no observável, então, ao postularem a existência de inobserváveis ainda não detectados, Pauli e Dirac estavam também a fazer metafísica. De acordo com a terminologia de Chakravartty, estavam a fazer metafísica credível, uma vez que, posteriormente, a existência de ambas as entidades seria confirmada pela ciência. Mas, se assim é, se Pauli e Dirac estavam a fazer metafísica, então mostrar que

a ciência está cravejada de metafísica não se afigura tarefa difícil. Como já sublinhámos, não se pode negar que a ciência tem revelado um interesse intenso por fenómenos que não são nem observáveis (como genes, partículas subatómicas, campos e enzimas) nem detectáveis (como a quinta dimensão ou o big bang).

Outra possível resposta é dizer que Pauli e Dirac estavam a pôr hipóteses científicas porque vieram efectivamente a ser corroboradas pela ciência, não à data em que foram formuladas, mas passado algum tempo (vinte e seis anos no caso do neutrino, apenas seis anos no caso do positrão). Segundo este ponto de vista, nem todos os inobserváveis podem ser considerados metafísicos: os inobserváveis que vierem a ser corroborados devem ser considerados científicos. Estaremos nós então na posse de um critério para distinguir entre hipóteses metafísicas e hipóteses científicas a priori? Poderemos afirmar que à especulação de poltrona que contém inobserváveis por princípio se pode chamar propriamente metafísica, enquanto as teorias e teses que contêm inobserváveis detectáveis ou em princípio detectáveis são hipóteses científicas?

Acontece que, se assim for, se levanta uma questão difícil: como decidir se um inobservável é ou não científico se, para isso, temos de nos situar algures no futuro, na época em que a sua existência poderá vir a ser corroborada? A existência do átomo não foi corroborada durante mais de vinte séculos. Afirmar, mais de vinte séculos depois, que, afinal de contas, essa existência foi corroborada e, portanto, tratava-se desde o início de uma hipótese científica não é tomar um ponto de vista anacrónico acerca da história do átomo? Na época em que Leucipo e Demócrito conceberam o átomo, a possibilidade de alguma vez poder vir a ser detectado era uma ideia que não ocorria a ninguém.

A verdade é que, se à matemática se dá sempre o benefício da dúvida, o mesmo não sucede com a filosofia e, ainda menos, com a metafísica: “Há partes da matemática que claramente não parecem estar a descrever nada de físico, mas não esqueçamos nunca o embaraço de Kant quanto à geometria não-euclidiana.”157 Ou seja, embora a matemática crie mundos ou ‘entidades matemáticas’ que parecem nada ter a ver com o mundo físico, não se pode excluir a possibilidade de que, no futuro, se venha a provar que estamos enganados. Quem sabe se esses mundos e ‘entidades’ que hoje são apenas matemáticos não se revelarão físicos

157 Kyle Strandford, Paul Humphreys, Katherine Hawley, James Ladyman, Don Ross, Protecting Rainforest

Realism: James Ladyman, Don Ross: Everything Must Go: Metaphysics Naturalized, Oxford: Oxford

amanhã? Mas Ladyman e Ross não apresentam a mesma abertura de espírito em relação às entidades metafísicas.

A nós, pelo contrário, parece-nos vantajoso alargar essa abertura de espírito até às entidades metafísicas. Infelizmente, para escamotear o facto de que alguma metafísica se tem tornado física, um dos truques utilizados é passar a não considerar como metafísica aquilo que o era no passado, pela razão de que, posteriormente, veio a receber tratamento empírico. Eis um exemplo retirado de um artigo de Uriah Kriegel:

É legítimo afirmar que, pela sua própria natureza, as disputas metafísicas dizem respeito a assuntos intratáveis empiricamente (isto é parte do que os torna metafísicos). Quando um problema passa a ser passível de resolução empírica, somos tentados (muito racionalmente) a dizer que esteve esse tempo todo classificado erradamente como metafísica.158

O que há de enganador nesta declaração? Concordamos que, pela sua natureza, uma disputa metafísica diz respeito a questões que não podem ser solucionadas empiricamente de modo conclusivo. Mas há que reconhecer que entidades metafísicas têm passado para o âmbito da ciência, à medida que esta expande o seu domínio. Não só muitos filósofos, como, por exemplo, Popper, estão de acordo connosco, mas também físicos. Escreve Bernard Pullman: “A metafísica de hoje pode ser a física de amanhã, sob reserva, evidentemente, que a deixemos evoluir. O átomo é, precisamente, um dos melhores exemplos de uma tal evolução.”159

Considerar que o atomismo foi classificado erradamente como uma teoria metafísica durante mais de vinte séculos, dado que acabou por ser tratado empiricamente, afigura-se-nos um ardil de última hora, proveniente da velha pretensão de separação rígida entre a ciência e a metafísica e da concepção incorrecta da metafísica como dizendo respeito apenas ao supra- sensível.

O atomismo surgiu num contexto filosófico, como mais uma etapa no longo cortejo da discussão das filosofias gregas acerca das substâncias primordiais, das archés, que se vinha

158 Uriah Kriegel, “The Epistemological Challenge of Revisionary Metaphysics”, Philosophers’ Imprint, Vol.

13, No 12, (Junho 2013), pp. 1-30, p. 8.

desenrolando desde os milésios. Propondo, não apenas uma, mas duas realidades fundamentais, os átomos e o vazio, a teoria atomista constituía-se, por isso, como uma resposta à teoria monista de Parménides. A existência do vazio permitia o movimento dos átomos. Mas, tal como Parménides acreditava no Ser perene e indestrutível, também o atomismo defendia que algo subsistia igual a si próprio através da mudança: os átomos. Assim, embora sendo os actores da mudança e da transformação, os átomos em si mesmos eram imutáveis. Por um lado, com os atomistas, o Uno de Parménides pulverizava-se em infinitas unidades mas, por outro, essas unidades conservavam muitas das características desse Uno: além de imutáveis, os átomos eram eternos, indivisíveis e indestrutíveis. Segundo Parménides, apenas o mundo do Uno, a realidade, podia ser conhecido; o mundo da multiplicidade podia apenas ser objecto de opinião.

Em ordem a salvar o mundo fenoménico da geração e corrupção, os atomistas conceberam um Ser, os átomos, que é, não uno como o Ser de Parménides, mas a um tempo um e múltiplos. E esse mundo da geração e da corrupção, embora não tão real como aquilo que o compunha, era composto por algo real, os átomos e, portanto, podia ser conhecido. Além disso, movimento e mudança tornavam-se possíveis. Tales e Anaximandro haviam tentado explicar a complexidade do visível através de algo igualmente visível, ainda que simples (a água, no caso de Tales, o fogo, no caso de Heraclito ou a terra no caso de Xenófanes). Para Parménides, como mais tarde para Platão, o real era invisível. Para os atomistas, o real também era invisível, mas era matéria invisível. O material último não podia ser nenhum dos materiais conhecidos, a água, o fogo, sementes ou grãos. O que tudo constituía deveria ser de uma natureza diferente de tudo quanto constituía, de molde a poder constituir tanta diversidade. Era, a um tempo, tudo (tudo constituía) e não era nada (não era especificamente nenhuma das coisas que constituía). As unidades últimas não podiam ser, pois, um observável. Se fossem um observável, então não eram a unidade última. O atomismo era, assim, muito mais do que uma teoria acerca da origem e da constituição da matéria, do seu poliformismo e das suas transformações: era uma teoria acerca da natureza cósmica fundamental. E era uma ‘meta-física’ do invisível.

Tendo em conta o que se acabou de dizer, concluímos que o conselho de Chakravartty aos empiristas – que não se oponham à metafísica tout court, mas apenas às teorias metafísicas acerca dos indetectáveis por princípio – não deve ser seguido. E concluímos ainda que a possibilidade de observação não se constitui como um bom critério para distinguir as hipóteses científicas a priori das hipóteses metafísicas. Não só as teorias científicas contêm

inobserváveis como é demasiado arriscado classificar os inobserváveis de uma vez por todas, pois podem mudar de estatuto: podem passar de indetectáveis para detectáveis, até mesmo no caso de serem considerados indetectáveis por princípio.

No documento A presença da metafísica na ciência (páginas 132-136)