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Metaphysica specialis e metaphysica generalis

No documento A presença da metafísica na ciência (páginas 57-59)

PARTE I: Metafísica e ciência: o debate histórico

3. Momentos-chave da relação metafísica-ciência

3.1. Aristóteles

3.1.2. Metaphysica specialis e metaphysica generalis

A ambiguidade de Aristóteles no que diz respeito à concepção de metafísica como investigação do ser em geral e como investigação do ser imóvel e separado viria a pesar sobre toda a história posterior da disciplina. Durante a Idade Média, a metafísica foi, em grande parte, um comentário à metafísica de Aristóteles. No séc. XVI, os teólogos da Reforma distinguiam duas ciências metafísicas: uma que lidava com Deus enquanto Este é acessível à razão humana; outra que era uma ciência universal do ser que explicava os princípios de todas as ciências especiais. Em 1613, Rudolphus Goclenius empregou pela primeira vez a palavra ‘ontologia’ para designar a ciência do ser (ontos) enquanto ser39. E, nesse mesmo século, Christian Wolff e A. G. Baumgarten, baseando-se na afirmação de Aristóteles de que a ‘primeira ciência’ tratava das coisas que não se movem e são separadas da matéria, fizeram uma distinção que teria grande influência sobre Kant. Por um lado, havia a metaphysica specialis, que dizia respeito às coisas que existem sem matéria, como a alma e o summum ens, Deus, e que se dividia em psicologia racional, cosmologia racional e teologia racional. Por outro lado, havia a metaphysica generalis, que dizia respeito ao ens commune, ao ser comum, às coisas que, existindo sem matéria, estão nela compreendidas (como os conceitos imateriais, por exemplo, o de causa).40

38 Frédéric Nef, Qu’est-ce que la Métaphysique?, Paris: Gallimard, 2004, pp. 241-2.

39 Rudolphus Goclenius, Lexicon philosophicum, quo tantam clave philosophiae fores aperiuntur, Frankfurt,

1613.

40 Christian Wolff, Philosophia prima, sive Ontologia, methodo Scientifica pertractata qua omnis humanae

Os termos ‘metafísica geral’ e ‘ontologia’ são hoje intermutáveis, uma vez que já não faz parte da metafísica o estudo dos transcendentais, o Verdadeiro, o Belo, o Bem, o Um (o primeiro pertence em parte à lógica, o segundo à estética, o terceiro à ética, o quarto à teologia). Hoje em dia, a metafísica é entendida como a metafísica geral, a ontologia: como o estudo das características mais gerais através das quais as coisas se ligam umas às outras e como o estudo, daquele inseparável, das nossas crenças ontológicas. Mas raramente se emprega o termo ‘metafísica geral’, porque tem como contraponto a metaphysica specialis, concepção de metafísica que entretanto caiu em desuso.

Os grandes problemas da metafísica, já desde Aristóteles, nunca foram os problemas da metaphysica specialis. Os grandes problemas têm sido os da ontologia geral: como se relacionam o uno e o múltiplo? E a geração e corrupção? O que é o tempo, o espaço, a matéria, o movimento, a causalidade? O que é uma propriedade, um indivíduo, uma substância? Deve ser dada prioridade à substância, às relações ou às qualidades? Como afirma o Professor Michael Esfeld:

A metafísica, no sentido aristotélico, não se ocupa com entidades que se supõe existirem para lá do mundo físico, mas com os traços fundamentais do próprio mundo físico. É por isso que o tratado conhecido por nós como Metafísica de Aristóteles foi colocado depois da sua Física. A metafísica, neste sentido, não pode ser feita sem levar em conta a ciência. De fato, desde o seu início nos pré-socráticos, a metafísica tem sido vinculada à ciência e, se pessoas como Platão, Aristóteles, Descartes, Hobbes, Leibniz, etc. definiram o paradigma do que a filosofia é, é evidente que existe uma continuidade entre a ciência e a metafísica. 41

A metafísica enquanto ontologia é o estudo de todos os seres e, portanto, sobretudo da realidade empírica, daqueles seres que nos são mais imediatamente acessíveis. Não é um conhecimento que passa ao lado do real, tendo por objecto abstracções para lá da realidade empírica. Diz respeito às características de toda a existência, natural e artificial, visando tornar a realidade inteligível na sua natureza mais profunda e até à sua mais remota raiz. É um conhecimento profundamente relacionado com outras formas de conhecimento e cujo impacto na ciência não pode ser subestimado, embora o seja amiúde. O filósofo e metafísico americano Paul Weiss expressa essa relação nas seguintes palavras:

41 Michael Esfeld, “Science and Metaphysics: the Case of Quantum Physics”, 2011.

É difícil de separar a exposição dos seus [da metafísica] métodos, declarações e resultados de uma descrição de outras aproximações ao conhecimento e à realidade, pois a sua justificação, em grande parte, reside no facto de encontrar um lugar para verdades básicas que as outras aproximações, infelizmente, negligenciam de modo inevitável.42

Mas mesmo a possibilidade da metafísica como ontologia geral pode ser questionada. Se a metafísica é investigação do ser enquanto ser, então a pergunta sobre o que é o ser equivale à pergunta sobre a possibilidade da metafísica. Ora, como conhecer seja o que for acerca do ser enquanto ser? O ser enquanto ser não pode ser apreendido pelos sentidos; os vários entes é que podem sê-lo. Ora, se não temos acesso sensível ao ser, como é a metafísica possível? Será possível investigar o ser enquanto ser, quando temos acesso sensível apenas aos entes particulares que efectivamente povoam as nossas vidas e que são estudados por disciplinas como a física e a biologia? Alguns metafísicos, como E. J. Lowe, ou Thuomas E. Takho, respondem que o acesso ao ser se faz precisamente através da especulação metafísica, através do raciocínio a priori (no sentido em que não é susceptível de ser submetido a nenhuma experiência de tipo científico e não no sentido kantiano de necessário), o que só a alguns deixa satisfeitos, como acontece sempre em filosofia.

Assim, ainda hoje, a metafísica retém muito da caracterização que dela fez Aristóteles ou de interpretações posteriores do que ele escreveu, sobretudo a ideia de que é uma investigação ‘especulativa’ acerca, não só do mundo dos fenómenos observáveis em geral mas em termos de uma realidade supra-sensível. Encara-se muitas vezes a metafísica como o estudo daquilo que não é objecto da física, do supra-sensível. Isto está na base da concepção de metafísica como o conjunto das teorias e teses que contêm inobserváveis, que adquirirá particular importância na filosofia das ciências e que abordaremos na Parte II deste trabalho.

No documento A presença da metafísica na ciência (páginas 57-59)