1 INTRODUÇÃO
1.2 PROBLEMA DE PESQUISA E ESCOLHAS
1.2.2 Hipóteses
Nas falas dos colonos, essa precariedade de condições aparece como uma estratégia da “ambiental” para “vencê-los pelo cansaço” e fazê- los desistirem de suas terras. Nesse sentido, pressupõe-se que a criação do Parque, em 1975, sem nenhuma interlocução com as comunidades atingidas, somada à gestão também autoritária e ineficiente por 40 anos, dificultou de forma qualitativamente específica a reprodução social dos moradores (o que não significa afirmar que mais intensamente) e criou uma resistência local às ações oficiais pela conservação, assim como ao potencial desenvolvimento de técnicas e atividades produtivas menos impactantes, de modo que não é possível entender as dificuldades ligadas à implantação da conservação do solo e da água na Vargem do Braço, tampouco fomentar um debate democrático e efetivo sobre tais problemas, na busca pela proteção do manancial de Pilões, sem considerar o processo histórico que gerou essa resistência. Como fator crucial de influência nas mudanças locais ao longo das últimas quatro décadas, a existência do Parque se soma, inescapavelmente, a outros fatores na explicação dos riscos de degradação dos recursos, da especulação imobiliária, do êxodo rural e da resistência a propostas de conversão ao cultivo orgânico. Não somente o senso-comum mas também discursos técnicos simplificam a questão, contribuindo para uma culpabilização da população local e, consequentemente, para a continuidade do impasse na gestão da UC, mesmo depois da recategorização (de Parque em APA, que passa a permitir a presença humana). Esse impasse prolonga a insegurança dos colonos, assim como a implantação de regras de uso dos recursos. A visão dos técnicos da FATMA e também do promotor entrevistados expõe o reconhecimento da incompetência daquela instituição e do poder público na gestão, assim como da responsabilidade do Estado ao não garantir a regularização fundiária. Contudo, em geral, a visão deles também reforça a ideia da presença humana como cerne do problema.9
Em sua relação historicamente construída com o meio, os moradores assimilaram elementos de uma agricultura “moderna” essencialmente química, fruto da chamada Revolução Verde, que facilitou-lhes imensamente o trabalho árduo (processo descrito minuciosamente nas falas) e que lhes possibilitou sentirem-se inseridos nos avanços da sociedade mais ampla. A maneira como as regras de conservação foram-lhes impostas “de cima para baixo”, persistindo ao longo dos anos numa concepção de sustentabilidade que os excluía (sustentabilidade “de acordo com os parâmetros científicos definidos pelas ciências biológicas, a despeito das dificuldades de definição e avaliação desta sustentabilidade” (MENDES, 2009, p. 14)), inclusive colocando-os numa situação na qual sua presença na área era considerada o cerne do problema, sendo pressionados pela FATMA, pela polícia ambiental e pelo MP, fez com que aumentasse a resistência à ideia da conservação e a propostas produtivas menos impactantes, com o fim do uso de agrotóxicos.
O desequilíbrio de poder político na elaboração dos discursos sobre sustentabilidade em nossa sociedade, por trás dos quais está a questão dos parâmetros técnico-científicos, que determinam se uma atividade é ou não sustentável, é uma das dimensões centrais de processos conflituosos de gestão de UCs. Por isso, a dimensão social da natureza coloca-se como central na análise de conflitos sociais envolvendo o meio ambiente, em que os grupos atingidos encontram-se em condições desiguais de defesa dos seus direitos e interesses. Parece-nos essencial para uma orientação de maior efetividade e legitimidade democrática das políticas ambientais – dentro dos limites impostos pelas condições políticas, sociais e econômicas – uma perspectiva “sensível ao papel da diversidade sociocultural e ao conflito entre distintos projetos de apropriação e significação do mundo material” (ACSELRALD, 2004, p. 14), que envolvam modos distintos de ver o mundo ou de “produzir” o espaço (LASCHEFSKI, 2011).
Nesse sentido, para refletir sobre a situação em questão, é necessário ultrapassar as fronteiras das “especificidades espaciais”
consideramos importante reconhecer como central a situação injusta a que são submetidos, de considerar a historicidade da criação do problema e tratá-lo na sua dimensão mais ampla: não como uma “teimosa” resistência a mudanças nos padrões de utilização dos recursos naturais por parte das pessoas do lugar, mas como uma complexa trama de relações, envolvendo contradições políticas, poder, controle social e estratégias de resistência.
(ACSELRAD, 2004) de um caso para alcançar as fronteiras sociais mais disseminadas das contradições que envolvem processos históricos e políticos mais amplos, buscando os sentidos da “questão ambiental”, da conservação do meio ambiente e do “desenvolvimento sustentável” – que estão na base das políticas de criação das unidades de conservação – dentro do movimento histórico de acumulação capitalista, cuja produção é intrinsecamente destrutiva e a distribuição do ônus dessa destruição é injusta. No Brasil, o nacional-desenvolvimentismo e o neodesenvolvimentismo estão fortemente comprometidos com a acumulação de capital e a espoliação de territórios e recursos naturais, induzidas pelo Estado que, ao mesmo tempo, cria as UCs, muitas vezes sobre territórios habitados por populações econômica e politicamente frágeis, ferindo seus direitos de realmente participarem dos processos que envolvem o uso e o futuro de seus territórios, de terem acesso claro a informações sobre seus direitos e sobre o funcionamento dos processos participativos e dos próprios trâmites da implantação e gestão das áreas protegidas.
Recolocar criticamente o problema dos conflitos sociais que envolvem o meio ambiente requer enfatizar a importância de se retomar, no debate sobre conflitos socioambientais, a relação central entre a questão ambiental e a totalidade das relações sociais, ou seja, a preservação inserida num contexto de crise estrutural do capital (MÉSZÁROS, 2002), no qual se intensifica a destruição ambiental e a acumulação por espoliação das riquezas coletivas (HARVEY, 2004) – principalmente em territórios habitados por grupos com pouco ou nenhum poder político e econômico. A partir da reavaliação do conceito de desenvolvimento sustentável à luz de uma rearticulação entre degradação ambiental e injustiça social, entre políticas para o meio ambiente e projeto desenvolvimentista, a disfuncionalidade do Estado emerge em toda sua importância para a discussão do direito de populações locais de participarem efetivamente nas decisões e na condução dos processos de desenvolvimento e de conservação ambiental que envolvem seus territórios.
Nas sociedades capitalistas, cabe ao Estado sob graus variados de intervenção, na afirmação de sua soberania e em nome do “interesse geral”, regular a apropriação dos recursos naturais respeitando a premissa geral de constituir as condições políticas que favoreçam o processo privado de acumulação, ou seja, o crescimento econômico ilimitado. As
condições de produção não podem ser produzidas de acordo com as leis de mercado, já que a regulação do mercado sobre o acesso das empresas a tais condições, quando existe, é seletiva, parcial e a princípio deficiente (O’CONNOR, 2002). O dilema central do Estado na regulação ambiental, mais bem materializado nas instituições ambientais, consiste essencialmente no fato de ter que administrar a contradição básica da apropriação/regulação dos recursos naturais. Por um lado, em suas diversas instâncias e setores, o Estado deve produzir as condições de apropriação dos recursos naturais para crescimento econômico, por outro, ao ter deslocado para si a gestão política dos conflitos socioambientais, deve impor restrições por meio da política de controle ambiental às suas próprias atribuições centrais e das quais depende seriamente sua manutenção econômica e política. Portanto, as políticas públicas de várias áreas devem operar em um contexto de mais ou menos continua tensão latente entre eliminar os efeitos degradantes da economia sobre o meio ambiente e a necessidade de sustentar as condições para a acumulação de capital, isto é, manter um clima favorável para os negócios (SCHRECKER, 1990, p. 170). Isto não que dizer que tais demandas ambientais tenham um caráter meramente subversivo e ficcional. Legislações e agências de controle ambiental foram criadas a partir dos anos 1950 não apenas em resposta a movimentos ambientais e à necessidade de legitimação, mas a problemas ambientais percebidos como ameaças reais à estabilidade política e econômica interna e externa. Antes disso, a proteção da população e do território (meio ambiente) contra forças destrutivas externas e depredações do ambiente é uma das mais importantes funções constitutivas do Estado (BLACKBURN, 1992). O problema, ou o dilema, que desafia o Estado é como conciliar institucional e legitimamente funções provedoras de uma economia ambientalmente destrutiva e funções de guardião do equilíbrio ecológico e da qualidade ambiental. Com isso, a noção de gestão ambiental se amplia, revelando, para além de medidas
técnico-administrativas, a sua dimensão essencialmente política e conflituosa. (BORINELLI, 2013).
Como uma nova política estranha e restritiva ao “funcionamento normal do sistema capitalista”, a política ambiental institucionalizou-se em diversos países, a partir de meados dos anos de 1960, tornando-se “crescentemente necessária à legitimação dos governos, por isso sua efetividade funcional, na maior parte do tempo, esteve mais próxima de uma debilidade institucional” (BORINELLI, 2013, p. 1).
Nesse sentido, a expropriação territorial por projetos de conservação que excluem a presença humana está associada ao processo mais amplo de compensação no âmbito de políticas de modernização ecológica10, cujos danos ambientais estão reservados aos grupos que estão “fora do poder”. Nossa primeira hipótese é de que a resistência dos colonos ao Parque tem o sentido de defesa de seu modo de vida e de seu trabalho na pequena agricultura, podendo ser compreendida enquanto resistência a uma apropriação do território que não comunga com os costumes do lugar: as ideias de conservação, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável representam uma nova maneira de se relacionar com a natureza, de dizê-la e de tratá-la que não faz sentido para os colonos porque supostamente não produziriam melhoria nas suas condições de trabalho e de vida, ou seja, pelo contrário, aparecem diretamente relacionadas à perda do direito sobre suas terras (mesmo que a desapropriação de fato não tenha acontecido, restrições de uso foram impostas e instalou-se uma incerteza significativa sobre o futuro).
A resistência, no caso da Vargem do Braço, não se dá, como em muitos outros casos, em oposição a consequências de projetos de um desenvolvimentismo hegemônico que tem atingido populações tradicionais e seus territórios (como por exemplo a construção de hidrelétricas ou a poluição das águas, devido ao aumento da fronteira para
10 A associação que se pode fazer entre a criação de UCs e a chamada “modernização ecológica” será desenvolvida, dentre outras passagens, no capítulo 3, tópico 3.3. Ela se dá a partir da incorporação das UCs às estratégias da “modernização ecológica”, noção que designa, segundo Acselrad (2010, p. 107), “o processo pelo qual as instituições políticas internalizam preocupações ecológicas no propósito de conciliar o crescimento econômico com a resolução dos problemas ambientais, dando-se ênfase à adaptação tecnológica, à celebração da economia de mercado, à crença na colaboração e no consenso (BLOWERS, 1997)”.
o uso indiscriminado de agrotóxicos, como parte de um processo que vem transformando o campo em “espaço de perigosas experiências químicas”, nas palavras de Henri Acselrad). Os colonos do lugar, ao contrário, em sua maioria defendem que não lhes é possível produzir sem o uso de insumos químicos, de onde se infere que não compartilham da racionalidade técnica que avalia os riscos de contaminação, tampouco compartilham dos valores da conservação do modo como são colocados pelas instâncias oficiais. O forte apoio da comunidade ao projeto de recategorização do PEST, que criou o Mosaico em 2009 (diminuindo as áreas de proteção integral, liderado por interesses empresariais), reforça essa hipótese da defesa do território e de seu modo de vida. Não houve, em nenhum momento, forte mobilização coletiva por indenização, o que implicaria na desapropriação.
No caso das unidades de conservação, a democratização que as leis do SNUC representam torna-se, muitas vezes, na prática, uma via de manipulação social por diversos mecanismos burocrático-institucionais, discursivos e simbólicos “oligarquizadores” (CARNEIRO, 2005) do campo da “questão ambiental”, que minam não somente as formas de luta e resistência locais, mas também a capacidade de resistência econômica diante da acentuação de condições já precárias de reprodução social, no contexto de um movimento histórico de desenvolvimento altamente acumulador de riquezas, cujos custos ambientais (de degradação e de conservação) recaem principalmente sobre grupos de pequenos produtores ou cujo modo de vida esteja ligado `a subsistência, que vivem mais diretamente dos recursos naturais, independente de serem menos ou mais “sustentáveis” em sua relação de intercâmbio com a natureza. Os territórios desses grupos geralmente são visados por terem tido preservados, ao longo do tempo, boa parte de suas riquezas naturais.
Diante dessas considerações, emerge a disfuncionalidade inerente ao Estado capitalista no tratamento da questão ambiental, a qual tem como recurso os discursos hegemônicos da conservação e do “desenvolvimento sustentável”, que servem ao cumprimento simbólico da proteção ambiental, ao mesmo tempo que podem justificar a ação repressiva sobre sujeitos e grupos política e economicamente “mais fracos”, frente à impossibilidade de tocar nas causas mais profundas da degradação ambiental. A partir dessa interpretação, a segunda hipótese desse trabalho é de que, no caso estudado, esses discursos, juntamente com um certo policiamento ambiental e outras ações ineficientes, sustentaram um “não- parque” por mais de três décadas, durante as quais o aumento e a complexidade dos problemas ambientais e do avanço da urbanização irregular ganhou proporções irremediáveis e envolveu interesses
econômicos e políticos detentores de considerável poder, pelos quais o Estado foi convocado a agir, aprovando a lei da “recategorização” em 2009. Movimentos ambientalistas, servidores da FATMA ou mesmo o Ministério Público foram revelados como partes fracas no conflito desatado pela aprovação dessa lei, em que a autoridade dos pareceres técnicos foi sobrepujada pelos interesses políticos. Com a “recategorização” do PEST, eclode a real disputa entre os defensores de uma conservação ambiental mais restritiva e fortes interesses econômicos, ficando os habitantes colonos sem acesso a um efetivo poder de interferir nas discussões e decisões sobre o seu território.