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4.6 Categorias multimidiáticas

4.6.2 Hipertexto como ferramenta de aprofundamento

O hipertexto volta a ser discutido nesta pesquisa, desta vez, essencialmente sob o ponto de vista do aprofundamento noticioso na web. Conforme já explanado, o recurso do hipertexto permite um ordenamento não linear de conteúdos baseado na preferência do usuário. Por ação direta do público, a leitura associativa admite o recorte e a mixagem temporais desprendidos de nexos cronológicos e históricos, auxiliados por bancos de dados.

Os nós e elos associativos da internet potencializam o hipertexto com o uso de links, capazes de formar grandes teias informativas em diferentes níveis de acesso. O sistema de dados hipermidiáticos institui variados percursos de leitura e distintas formas de compreensão dos fatos, numa quebra da distribuição linear de “um para muitos”. Este contexto desafia o webjornalismo a organizar roteiros capazes de manter a coerência e a coesão das notícias, inclusive com uso de plataformas distintas – multimidialidade.

O webjornalista, cada vez mais, tem visão alargada de como trabalhar com as mídias digitais. Ele sabe que agora não basta escrever sua reportagem, é imprescindível arrolar links de outras versões da mesma história, por exemplo, de outras fontes, ou de fontes originais, é preciso colocar formas de aprofundamento do tema ali mesmo, na sua matéria, pois quanto mais possibilidades oferecer, mais garantia se tem de que o leitor ficará satisfeito e voltará outras vezes (PRADO, 2011, p. 55).

104 O aprofundamento ao qual Prado faz menção pode ser obtido pelo entrelaçamento de dados “linkados” e indexados, de forma a construir conteúdos, ao mesmo tempo, independentes e complementados por materiais com publicação mais antiga, em um estímulo ao jornalismo de memória. Os blocos informativos dispostos em portais de notícias podem criar uma rede de dados hipermidiáticos capazes de detalhar e aprofundar os eventos sociais, construindo produtos aliados a velhos conceitos jornalísticos de qualidade, adequados à identidade digital.

A Cartilha de Redação Web do Governo Federal (BRASIL..., 2010) prevê a distribuição de informação – noticiosa ou referente a serviços oficiais e leis – em camadas, comparadas metaforicamente a uma cebola. O primeiro nível (ou camada da cebola) é a chamada Camada de Apresentação. Trata-se da primeira página (homepage) de um site ou portal, uma vitrine na qual estão os menus principais e os destaques do momento. Aqui, os textos são bastante concisos e relatam apenas os aspectos mais persuasivos da informação com o objetivo de conduzir o público ao segundo nível: a Camada Genérica.

Na Camada Genérica, o texto principal responde às questões básicas do assunto abordado, em consonância às questões jornalísticas (o que; quem; quando; onde; como; por que). Suas funções principais são contextualizar o tema abordado e estimular o internauta a conhecer mais sobre o assunto, a ser detalhado na camada seguinte. Novamente, a persuasão é utilizada para prender a atenção do visitante (BRASIL..., 2010).

A terceira camada, chamada de Camada de Detalhamento, tem por meta o aprofundamento dos dados com exposição de conteúdos expandidos. Neste nível informativo, é comum a presença de textos acompanhados por tabelas, gráficos e links para documentos complementares a fim de atender às necessidades de conhecimento do visitante. Ela é também conhecida como página de “Leia Mais” e pode ser aberta ou restrita. Neste último caso, reporta conteúdos especiais, privados e/ou confidenciais que só podem ser vistos por determinados usuários (BRASIL..., 2010).

A distribuição informativa no modelo de camadas é considerada, pela Cartilha de Redação Web, a base do conteúdo on-line. “Contudo, é importante ter noção de que quanto mais profunda é a camada onde está a informação, maior é o risco dela não ser encontrada pela navegação do cidadão. Por isso, tente criar poucas camadas em um sítio” (BRASIL..., 2010, p. 13).

105 A absorção do hipertexto pelo webjornalismo leva Canavilhas (2007b) a questionar a permanência da pirâmide invertida, na qual o jornalista organiza a notícia por graus decrescentes de importância, em um roteiro definido pelo profissional. Segundo o autor, a organização fixa e unilateral dessa técnica vai de encontro à liberdade proposta pela não linearidade alcançada com os links especialmente em gêneros distintos do padrão “Últimas Notícias”. “Usar a técnica da pirâmide invertida na web é cercear o webjornalismo de uma das suas potencialidades mais interessantes: a adopção de uma arquitectura noticiosa aberta e de livre navegação” (CANAVILHAS, 2007b, p. 30).

A notícia fechada dá lugar a uma rede interligada de textos e outros elementos multimídia organizados em camadas horizontais sucessivas, com maior quantidade e variedade de informações a cada nível de aprofundamento. A técnica, intitulada pirâmide deitada, oferece ao leitor a oportunidade de seguir apenas um eixo de leitura ou navegar livremente pela notícia na busca pelo aprofundamento de dados (CANAVILHAS, 2007b).

A pirâmide deitada apresenta-se em quatro níveis de leitura: 1) a Unidade Base (lead) responde ao essencial – o que, quando, quem e onde. Este texto pode ser uma notícia de última hora que pode ou não evoluir para um formato mais elaborado; 2) o Nível de Explicação complementa a informação essencial sobre o acontecimento ao responder ao porquê e ao como dos fatos; 3) o Nível de Contextualização oferece mais informações sobre cada questão básica, por meio de texto, vídeo, som ou infografia animada; e 4) o Nível de Exploração liga a notícia aos arquivos da publicação ou externos (CANAVILHAS, 2007b).

Viabilizada pelo espaço virtual ilimitado, a arquitetura da pirâmide deitada lança pistas positivas sobre maneiras de aprofundar a notícia mediante a reformulação de padrões profissionais aplicados ao ambiente web, e não simplesmente pela reprodução de métodos transportados do impresso, do rádio ou da televisão. Percorrer trajetos diferentes dos habituais pode ser atitude essencial na evolução e consolidação da web como novo meio de comunicação e do jornalismo digital como campo de atuação particular, sem perder de vista os fundamentos profissionais e o compromisso com a qualidade da informação.

O padrão da pirâmide deitada mostra-se como uma interessante alternativa de potencialização dos recursos digitais da web, não obstante esbarre na noção de aceleração de ritmos produtivos presente ao cotidiano das redações (a concretização de uma estrutura deste tipo demanda tempo e dedicação, por isso aproxima-se de gêneros jornalísticos diferenciados). Ainda assim, a sua prática não precisa ser encarada como um antagonismo à pirâmide invertida, já que os nós hipermidiáticos provam ser possível a formatação da leitura

106 não linear também no clássico modelo jornalístico, numa postura evolutiva, e não dissociativa, da organização noticiosa. Talvez seja este um dos motivos pelo qual diversos autores ainda defendam a manutenção da pirâmide invertida no jornalismo factual.