Da reprodução de conteúdo à produção qualificada e colaborativa, a evolução do webjornalismo desemboca em um conjunto de características e linguagens próprias que conferem profissionalismo à atividade. Pensar a notícia em tempos de produção multimídia requer estruturar artifícios textuais escritos, imagéticos e sonoros perante uma audiência fragmentada no ciberespaço, mediada por computador e bastante participativa.
78 Edo (2007) afirma que o jornalismo desenvolvido na web ainda não possui uma linguagem definitiva. Escrever para a internet requer uma revisão dos modos habituais de apresentação da informação, da estrutura textual, do estilo e das próprias características do público, numa adaptação da linguagem às possibilidades tecnológicas e sociais. De forma dinâmica, o jornalismo reconfigura a produção noticiosa influenciada pelo contexto, mas mantendo responsabilidades relacionadas à atualidade e à utilidade dos fatos comunicados e também à completa verificação dos dados.
O modelo narrativo passa a considerar aspectos como interatividade, personalização, documentação associativa, atualização contínua e articulação entre formatos, com forte presença do hiperlink. O autor sugere a divisão do conjunto noticioso em elementos menores e manejáveis com maior facilidade durante a navegação, de acordo com critérios jornalísticos. Esta estrutura promove o aprofundamento informativo em níveis que se iniciam com chamadas na homepage e continuam em camadas documentais posteriores, em uma expressão de leitura não linear.
O primeiro nível de informação aproxima-se da objetividade e atualidade das notícias quentes, com uso frequente do lead e da técnica da pirâmide invertida, porém adaptada para a fragmentação do ciberespaço articulado por links. No nível seguinte, a informação é aprofundada, aproximando-se de gêneros como a reportagem, a crônica ou a entrevista em profundidade – as três ainda pouco utilizadas cotidianamente pelo jornalismo na web, sendo mais comuns em trabalhos multimídia especiais.
É importante lembrar que esta estrutura precisa manter a coesão entre os níveis informativos. O relato deve manter seu sentido completo ainda que esteja desmembrado em camadas hipertextuais. Isso permite ao internauta a manutenção da coerência discursiva na passagem de um nível a outro, além de ativar o processo de comunicação iniciado na leitura do título e ampliado para o debate social, inclusive fora do ciberespaço.
Para Canavilhas (2007a), a linguagem do webjornalismo está condicionada por três características da rede: hipertextualidade, capacidade de fazer conexões por links; multimidialidade, união articulada de plataformas como texto, vídeo e áudio; e interatividade, entendida pela capacidade de o usuário interatuar com o conteúdo. O uso simultâneo dessas propriedades possibilita ao internauta realizar uma leitura pessoal da informação disponível, numa navegação por nós informativos. Esta capacidade de fragmentar conteúdos em zonas de interesse é chamada de personalização, que situa a web como um meio de comunicação de
79 massa e, ao mesmo tempo, pós-massivo, apto a promover uma fruição individual e de natureza privada.
As ferramentas potencializadas pela web 2.0 ampliaram as formas produtivas do jornalismo, criando uma espécie de gramática digital que reúne práticas de meios tradicionais e potencialidades desenvolvidas pelo novo suporte em uso, neste caso a WWW. De maneira geral, Palacios (2003) compreende a constituição de novos formatos midiáticos não como uma total ruptura em relação aos suportes anteriores, mas como um processo de continuidade e potencialização de novas características. Por exemplo, a televisão já manejava a multimidialidade ao reunir imagem, som e texto; a hipertextualidade pode ser encontrada no suporte de CD-ROM; a personalização está presente na segmentação da audiência dos meios de comunicação de massa tradicionais, mediante os cadernos especiais de jornais ou a programação especializada de emissoras de rádio e televisão.
Ao mesmo tempo, esse autor diz ser impossível negar o rompimento de determinados padrões na passagem de um meio a outro. Na web, a dissolução prática dos limites de espaço e tempo para disponibilização da notícia é fato inédito no jornalismo, até então. Graças aos bancos de dados digitais, a notícia pode ser armazenada de modo quase infinito, numa constituição de novos padrões de memória tanto do produtor quanto do usuário. São justamente as releituras de padrões aliadas às novas combinações de características potencializadas que geram novos efeitos comunicativos e originam novos paradigmas como a internet o fez.
De acordo com Canavilhas (2007a), a internet reúne e adapta códigos jornalísticos de meios de comunicação tradicionais nos campos linguístico, sonoro, icônico e estilístico. O código linguístico remete às palavras escrita e oral. A primeira, essência do impresso, continua presente aos textos da web, embora as técnicas de redação mudem de acordo com as características do meio – no caso da internet, o enlaçamento articulado pelo hipertexto pode reconfigurar a construção da narrativa, mas sem desprezar a palavra escrita. Já a segunda, marca do rádio, é reforçada na rede pelo uso de recursos sonoros como o MP3, cuja função rotineira é de complementação da informação escrita.
O código sonoro, configurado em música e efeitos sonoros, é novamente herança do radiojornalismo e está mais presente nas coberturas culturais. O código icônico é visual, representado pelas imagens. Na televisão, predomina a imagem em movimento, protagonista da percepção do público. Na web, ela representa um acréscimo informativo normalmente relacionado ao texto escrito. Já a fotografia expandiu seu uso com o impresso e, na internet,
80 assume papel complementar à notícia. Se por um lado perde o teor autônomo, por outro a fotografia ganha em quantidade graças ao espaço ilimitado do ambiente digital. Por fim, os gráficos e infográficos representam a informação visual numa analogia de fácil compreensão. Na web, esses mecanismos ganham força graças aos recursos técnicos de animação e hiperlink.
O quarto e último tipo de código é o estilístico. Está dividido em usabilidade, que diz respeito à organização dos elementos informativos disponíveis no ambiente gráfico de um site ou portal, e tipos de letra, fundos e cores, vinculados ao desenho aplicado aos webjornais. Em conjunto, esses códigos objetivam melhorar o grau de orientação e conforto do usuário durante a navegação.
Apesar da ainda visível predominância de recursos escritos, os elementos linguísticos, paralinguísticos e não linguísticos começam a assumir relevância equiparada na constituição da webnotícia. Parte-se para uma ideia de linguagem múltipla, na qual a informação unifica linguagens distintas e faz o usuário utilizar todo o seu repertório de maneira simultânea para formar algo distinto e plural que é unificador e multimídia (EDO, 2007). Nesta perspectiva ainda em evolução, a distinção entre imprensa escrita e audiovisual começa a perder importância, já que o contexto digital requer a conexão dos códigos peculiares às modalidades clássicas do jornalismo.
No que diz respeito à estrutura textual, a tradição ainda caminha lado a lado com a inovação. Canavilhas (2007a) identifica três modelos presentes no jornalismo produzido na web que exibem diferentes graus de influência relativos à produção jornalística massiva e aos recursos digitais: o texto linear com scrolling segue a formatação usual da imprensa escrita com apresentação do título, seguido pelo texto noticioso formatado com o lead e demais características da pirâmide invertida; estrutura “unilink”, na qual cada nó tem apenas um link e segue um percurso linear semelhante ao modelo anterior, porém sem o uso do scrolling; e estrutura “multilink”, em que a notícia apresenta diversos nós de informação e links organizados em camadas hipermidiáticas.
Neste último, a informação é destrinchada em níveis informativos, sendo o primeiro semelhante ao lead, com informações básicas sobre os fatos e uso pleno do código linguístico. Os nós seguintes podem oferecer links de aprofundamento, internos ou externos à publicação primária, conduzidos por uma lógica que garanta ao usuário a compreensão dos fatos essenciais independentemente do momento em que abandone a leitura. Aqui, é possível
81 remeter ao que o próprio Canavilhas (2007b) chama de pirâmide deitada, que será novamente discutida nesta dissertação em subcapítulo posterior.
As possibilidades trazidas pelos recursos da web convergem para uma releitura dos meios de comunicação tradicionais e seus modelos de produção da notícia, sendo a fragmentação informativa em níveis ou camadas hipertextuais uma percepção comum aos autores apresentados neste trabalho. Esta prática, no entanto, ainda não é regra entre os portais noticiosos com padrão de “Últimas”, muitas vezes limitados pelo número de funcionários, pela infraestrutura empresarial ou por princípios editoriais. A caminhada entre teoria e prática permanece em evolução, com experimentações que motivam a continuidade do processo.