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Hipertextualidade

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Capítulo III – O jornalismo no interior paulista

3. Potencialidades e recursos da internet

3.1 Hipertextualidade

Sem dúvida, uma das características mais intrínsecas do conteúdo digital, a hipertextualidade traz, em si, a possibilidade dos leitores trilharem rotas diferentes de consumo da informação jornalística. Como discorre Cavanilhas (2014, p. 5), ela remete à capacidade de se articular diferentes textos digitais entre si, por meio de hiperlinks.

a) Jornal da Cidade

Esta análise apontou que apenas 5 (2,5%) dos conteúdos publicados pelo Jornal da Cidade recorreram à hipertextualidade por meio de hiperlinks no decorrer do texto. Assim, 196 (97,5%) deles não apresentaram qualquer hiperlink. Dos cinco conteúdos que se valeram de hiperlink, 3 deles continham apenas um, enquanto dois deles continham dois links, como mostra o gráfico 25.

Ainda, além do principal conteúdo de cada publicação, pelo próprio layout do site, é possível também que o leitor tenha acesso a outras editorias, pelo topo do site, às últimas notícias publicadas, por um box à direita, além dos conteúdos publicitários.

GRÁFICO 25 - Hipertextualidade - Jornal da Cidade

b) Cruzeiro do Sul

No caso do Cruzeiro do Sul, do total de 193 conteúdos publicados, apenas 19 (9,8%) deles traziam hiperlinks em seu conteúdo, enquanto que 174 (90,2%) não traziam qualquer

hiperlink. Dentre eles, três conteúdos trazem três hiperlinks e um deles traz dez hiperlinks,

descrito no gráfico 26, abaixo.

Além disso, quando dentro da página de cada conteúdo, o leitor consegue ter acesso a diferentes hiperlinks, como os das editorias, no topo da página. Ainda, há um ícone com "Índice da Editoria", à direita, pelo qual o leitor consegue ler outros conteúdos da mesma editoria daquele conteúdo, e um banner para contato dos leitores, conforme mostra a Imagem 02, também abaixo.

GRÁFICO 26 - Hipertextualidade - Cruzeiro do Sul

c) Correio Popular

No caso do Correio.com, apenas 5 (2,9%) conteúdos continham algum hiperlink ao longo da narrativa jornalística, sendo que 170 (97,1%) não traziam qualquer hiperlink. Desses, destaque para um deles que trazia cinco hiperlinks e dois deles que traziam dois

hiperlinks.

Além disso, conforme o layout do site, é possível acessar outras editorias, que aparecem no topo da página, além do conteúdo publicitário. Ainda, ao final do conteúdo jornalístico, o leitor encontra tags relacionadas ao conteúdo principal com hiperlinks e a sugestão de oito conteúdos que aparecem como recomendados.

GRÁFICO 27 - Hipertextualidade - Correio Popular

3.2 Multimedialidade

O conceito é bastante complexo, mas está intimamente ligado à característica do jornalismo praticado para a Internet. Apesar dos diferentes significados e possibilidades de discussão da concepção do que pode ser entendido por multimedialidade, conforme também sinaliza Salaverría (2014, p. 26), consideramos aqui como a capacidade do jornal e do jornalista de cruzar, combinar e coordenar diferentes suportes e linguagens, como texto, imagem, som, vídeo, gráficos etc., todos suportados por plataformas digitais.

a) Jornal da Cidade

Ao avaliar os elementos multimidiáticos presentes nos conteúdos, encontramos que 122 deles, um pouco mais que a metade (60,7%), eram compostos apenas de textos, 51 (25,4%) continham textos e apenas uma imagem, 9 (4,5%) deles apresentavam textos e duas imagens, 3 (1,5%) deles, textos e um infográfico e os demais, 16 deles (8%), traziam outras combinações. Apesar do infográfico ser recorrente, presente em 8 conteúdos, apenas um deles era composto por vídeo.

GRÁFICO 28 - Multimedialidade - Jornal da Cidade

b) Cruzeiro do Sul

No caso do Cruzeiro do Sul, 92 dos conteúdos (47,4%) eram compostos por texto e uma imagem, enquanto que 78 (40,2%) deles eram apenas por texto, 11 (5,7%) por texto e 2 imagens, 3 por texto e 3 imagens (1,5%), 2 por texto, uma imagem e um infográfico, 1 por texto, 4 imagens e 3 vídeos e 7 por outras combinações (3,6%).

GRÁFICO 29 - Multimedialidade - Cruzeiro do Sul

c) Correio Popular

A quase totalidade (155) dos conteúdos do Correio.com é composta apenas de texto e uma imagem, formato que representa 89,1%. Quatro conteúdos eram compostos apenas por um vídeo (2,3%), 2 apenas por texto (1,1%), 2 por texto, uma imagem e um vídeo (1,1%) e 2 por texto e duas imagens (1,1%). Contabilizou-se, ainda, 1 conteúdo composto por apenas

uma imagem, 1 com cinco imagens, 1 com seis imagens, 1 com texto e três imagens, 1 com texto, três imagens e um vídeo, além de 4 (2,3%) com outras combinações.

GRÁFICO 30 - Multimedialidade - Correio Popular

3.3 Interatividade

Aspecto também muito característico da comunicação pela Internet, a interatividade pode ser mais um conceito central para se compreender o jornalismo que acontece em ambientes digitais. Apesar de uma ideia complexa e de diferentes abordagens, podendo remeter a inúmeros significados, implica em algum tipo de "transferência de poder do meio para os seus leitores" (ROST, 2014, p. 55). De certa forma, o jornal abre formas de participação, mas resguarda para si a figura do gatekeeper39. Isso significa que, na prática, interatividade não garante, necessariamente, um fluxo horizontal ou um nível efetivo de participação.

Além de se considerar diferentes tipos de interatividade, entende-se tal ideia a partir da "capacidade gradual em que um meio de comunicação tem para dar maior poder aos utilizadores, tanto na seleção de conteúdos ("interatividade seletiva") como em possibilidades de expressão e comunicação ("interatividade comunicativa")", conforme aponta Rost (2014, p. 55).

Do ponto de vista da interatividade comunicativa, há poucas estratégias que possam favorecê-la pelos sites dos jornais pesquisados. Apenas o Cruzeiro do Sul traz, após os conteúdos jornalísticos, campos para comentários da audiência. O Correio Popular traz apenas o contato do e-mail do repórter responsável pelo conteúdo e o Jornal da Cidade traz um ícone para envio de mensagem diretamente ao editor. Nesses casos, o próprio layout dos sites

39 O conceito foi proposto por Kurt Lewin, em um estudo de 1947. No caso dos meios de comunicação, diz

parece não estar configurados para favorecer possibilidades de comentários e interações públicas, o que certamente poderia favorecer possíveis discussões do assunto.

Entretanto, o Cruzeiro e o Jornal da Cidade trazem uma espécie de banner pelo qual o jornal incentiva o envio, por Whatsapp, de textos, fotos e vídeos, por parte do leitor. Trata-se de um canal de interatividade e participação, pelo qual a audiência consegue enviar sugestões de temas e assuntos para pautas, sinalizar problemas vividos em seu bairro, além de reclamações e relatos.

Até mesmo o hipertexto, tido por Rost (2014, p. 57) como "principal ferramenta para tecer possibilidades interativas de seleção", e que se enquadraria no tipo de "interatividade seletiva", também é pouco explorado, conforme quantificamos na categoria "hipertextualidade", apresentada neste capítulo.

Além disso, interações com outros conteúdos publicados são incentivadas. É o caso dos boxes que aparecem ao lado direito do texto principal, apontando as notícias mais compartilhadas pelo Facebook, conteúdos publicados recentemente ou mesmo em outras editorias.

3.4 Memória

Conceitualmente diferente de lembrança, recordação ou história, a Memória nos modos de fazer jornalismo é tida como a possibilidade de uma continuidade com relação a um suporte anterior. Como recupera Palácios (2003, p. 26), os jornais impressos, assim como o rádio e a TV, sempre mantiveram arquivos de suas edições passadas, inclusive como ferramenta de consulta para jornalistas, durante a produção noticiosa. Entretanto, no contexto do jornalismo contemporâneo, com atuação das tecnologias digitais, das redes, dos algoritmos, das bases de dados, as possibilidades de acesso à Memória, para a construção do conteúdo jornalístico e como fonte de pesquisa para a sociedade.

E é claro que, numa outra ponta, essas facilidades e possibilidades de acesso digital à Memória também tangenciam o leitor, em sua prática de consumo da informação e do conteúdo jornalístico. Ou seja, ele também pode "recorrer ao passado arquivado para, fácil e rapidamente, situar e contextualizar a atualidade que lhe é apresentada através do fluxo midiático" (PALÁCIOS, 2014, p. 96). De certa forma, a Memória também favorece a interatividade e a participação do leitor na construção de uma narrativa jornalística própria e personalizada segundo seus interesses.

No caso dos três jornais estudados, além da Memória que se apresenta em boa parte dos conteúdos jornalísticos, seja na própria narrativa ou por meio de hiperlinks ao longo do

texto, também é possível acessá-la pela Home do site, em campos de busca que aparecem bem no topo, no "header" do portal. Nos casos do Correio e do Jornal da Cidade, o motor de busca se vale de tecnologia do buscador Google para encontrar conteúdos publicados pelo próprio jornal, de acordo com palavras-chave digitadas no campo de busca. Na verdade, esse campo se mantém presente tanto no topo da Home, como no topo das notícias em si.

Além disso, também nos três casos estudados, há ícones de acesso ao Acervo do jornal, ambiente em que o leitor consegue acessar as edições impressas, buscadas por datas. Apesar de um serviço pago ou disponível apenas para assinantes, configura-se como importante recurso de Memória ao leitor.

Na parte inferior aos conteúdos jornalísticos principais publicados, há ícones que remetem a outros conteúdos também. No caso do Correio Popular, há tags com hiperlinks que permitem buscas de notícias já publicadas a respeito daquela palavra-chave.

Já nos casos do Correio Popular e Jornal da Cidade, há ainda um box com as últimas notícias publicadas naquela editoria ou no próprio site. O Correio Popular também traz recomendações de conteúdos relacionados ao final da notícia principal, também se configurando como mais uma possibilidade de acesso à Memória.

3.5 Instantaneidade

Por suas próprias características, por ter a "novidade" e a "atualidade" como importantes pilares entre os valores-notícia e até mesmo pelo interesse histórico dos veículos em serem os primeiros a publicar sobre cada assunto, a instantaneidade e a velocidade sempre fizeram parte dos modos de produção do jornalismo.

Mas também é claro que este aspecto vem se ressignificando à medida em que as tecnologias recriam processos e possibilidades. Como fala Bradshaw (2014, p. 111-112), o que no século XIX poderia levar semanas ou meses para ser noticiado, hoje pode se dar em minutos. Ou seja, a instantaneidade, hoje, pode se dar em publicar, mas também em distribuir e consumir.

Agora, sem necessidade de processos de impressão, novas formas de distribuição e consumo de conteúdos surgem e, por consequência, passam a atuar nas formas de produção das notícias. Entretanto, ao analisar estes três jornais, pudemos perceber o quanto ainda estamos nesta fase de transição, neste processo de digitalização.

No caso do Jornal da Cidade, algo que fica bastante evidente é como o principal produto desta empresa midiática ainda é o jornal impresso e como isso se reflete em toda lógica de produção, conforme também veremos mais adiante.

Pela própria seção "Últimas Notícias"40, é possível perceber uma lógica de atualização de conteúdos que tem um pico pela manhã, geralmente a partir das 7h, depois outro pico por volta de 13h e 15h. Ou seja, do ponto de vista de produção e da publicação, parece que a instantaneidade ainda segue a lógica do jornal impresso.

Ainda, fora desses períodos de pico de publicação, há uma tendência de publicação a cada hora, o que, aparentemente, seria uma preocupação em manter um ritmo de consumo junto à audiência.

Os outros jornais, em maior ou menor proporção, também seguem esse raciocínio. No caso do Correio Popular, é possível perceber que as publicações no site acontecem mais no período da tarde, após o almoço, e seguem até o final da noite. No caso do Cruzeiro do Sul, o índice de publicações segue mais uniforme durante o dia, mas com o pico de atualizações no início da manhã, por volta de 6h30.

Nesse sentido, a instantaneidade do consumo é prejudicada uma vez que a lógica de trabalho e a chamada "cultura do impresso", uma referência à cultura de trabalho e processos pautados pelo modo de funcionamento do jornal impresso, que tem deadline no fim do dia e hora de ir para a gráfica, ainda parece muito enraizada, mesmo nestes três jornais que, apesar de nascerem como veículos impressos, já engendraram inúmeros esforços rumo à digitalização de seus processos de produção, cultura organizacional e produtos.

3.6 Personalização

Outra característica também bastante particular do ciberjornalismo, a personalização pode se configurar pelo ato de "deixar o utilizador selecionar os temas mais relevantes para a criação de uma página com base em preferências pessoais", conforme aponta Lorenz (2014, p. 140). Ou seja, implica em customização de conteúdo e segmentação.

Nas versões online dos três jornais estudados, não foi possível observar qualquer tipo de possibilidade de personalização de conteúdo editorial. A publicidade, publicada em formato de banners, foi o único conteúdo em que se observou uma forma de personalização, uma vez que o veículo se vale de redes de publicidade, as chamadas Advertising network, em inglês, que conseguem personalizar o tipo de publicidade a ser exibido, conforme o perfil de navegação do leitor, como também trataremos mais adiante.

Além disso, uma outra possibilidade de personalização são os hiperlinks, que trazem o potencial para que o próprio leitor possa criar uma linha própria de consumo noticioso, conforme seu interesse, mas que ainda é totalmente subutilizado pelo casos estudados.

3.7 Ubiquidade

No caso do jornalismo, a ubiquidade pode se referir não somente à capacidade de qualquer pessoa conseguir acessar a determinado conteúdo de qualquer lugar, mas também ao potencial de todos, ao se conectarem em rede, participarem e produzirem seus próprios conteúdos (PAVLIK, 2014, p. 160). E isto tem sido possível graças a uma série de artefatos e tecnologias, principalmente dos smartphones. É o chamado status always on, uma alusão à uma possibilidade de conexão permanente, o tempo todo.

Os três jornais analisados possuem versões mobile de seus sites, isto é, é possível acessá-los de forma integral pelo navegador do smartphone. Todos eles reproduzem as mesmas funções e layouts das versões impressas ou do Desktop, e também são abertos para acesso, sem necessidade de assinatura.

Conforme mostram as figuras abaixo, o Correio e o Cruzeiro do Sul disponibilizam uma versão de aplicativo mobile para sistemas operacionais Android e iOS. Com estes apps, pelo próprio celular, assinantes conseguem ter acesso a versões digitais das últimas edições impressas. No caso do Jornal da Cidade, o aplicativo reproduz um layout parecido com a versão para Desktop, com acesso aberto aos conteúdos publicados no site.

Apesar da ausência de recursos tecnológicos mais avançados, como seria o caso de conteúdos exibidos de acordo com a geolocalização ou mesmo mecanismos que favorecessem a interatividade e a participação no envio de conteúdos como imagens e vídeos, as versões

mobile dos sites e os aplicativos contribuem para garantir um acesso ubíquo ao conteúdo do

IMAGEM 04 - Aplicativos mobile dos jornais

4. Conteúdo publicitário

Os espaços publicitários, no período estudado, estavam sempre preenchidos por

banners de publicidade oriundos de redes globais que operam como adnetwork e apresentam

o conteúdo publicitário conforme o perfil de navegação do internauta. Uma das principais empresas que fornecem tecnologia para este fim é o Google, com seu serviço de Google Ads. Esses aspectos também serão abordados e discutidos no próximo Capítulo.

Se por um lado isto denota o não aproveitamento ou a subutilização dos espaços publicitários das plataformas online dos veículos, em detrimento de seus anunciantes locais, por outro, pode representar um desinteresse ou desvalorização, por parte dos próprios anunciantes, pelos anúncios no digital, conforme também relatou José Carlos Fineis, editor do Jornal Cruzeiro do Sul, em entrevista ao autor, e como veremos também no próximo capítulo.

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