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AS HISTÓRIAS DE CADA UMA

4.3 A HISTÓRIA DE SOFIA

A personagem menina estudiosa-que tem poucas recordações da infância

Sofia iniciou seu relato trazendo poucas recordações sobre sua infância. Sente como se este período estivesse apagado de sua memória, mas especialmente lembra-se que sempre foi muito estudiosa, desde pequena muito responsável. A Sofia-menina estudiosa posteriormente se concretizará na personagem profissional-docente, que é a base de sua identidade.

(3:1) “Da minha infância? Lembro muito pouco da minha infância, acho que é... dos irmãos que eu tenho, quer dizer, somos quatro, sou a mais velha... sou a que menos lembra [...] tenho uma memória péssima da minha infância, parece que apaguei mesmo, não sei o que aconteceu [...] coisas boas e coisas ruins, que fizeram apagar. O que eu lembro da minha infância, brincava muito, eu sempre fui estudiosa [...] desde o grupo escolar, sempre fui muito responsável; [...] eu lembro de viagens, que eu ia na casa dos meus avós em Jundiaí, de alguns lugares que a gente ficou em praia; assim na infância, só. Não tem o que falar [...]”.

(1:1) “Sempre fui muito estudiosa, mesmo antes do curso de Psicologia, então eu aproveitei muito o curso, e foi muito bom, aprendi muita coisa através do estágio”.

(1:4) “[...] eu sempre gostei muito de estudar, eu sempre tive como primeira opção o estudo. Então sempre largava as coisas em função do estudo e é quase assim até hoje [risos]”.

Mas essa personagem foi sendo construída inicialmente na relação com pais-professores, daí seu contato freqüente com a escola: “Minha mãe era professora, meu pai também. Então eu nasci dentro da escola, isso é uma parte também que eu me lembro bem da minha infância”. Mas foi especialmente a identificação com a figura paterna que fornecerá os elementos para a construção de sua identidade. O pai funcionou como o outro significante, na perspectiva de Berger e Luckmann (1991). Para os autores, a formação do “eu” deve ser compreendida em relação com o contínuo desenvolvimento orgânico e com o processo social, no qual os ambientes natural e humano são mediatizados pelos outros significativos (aqueles que são significativos para a formação do “eu”). Ao definir seu pai, apresenta um homem distante, autoritário, mas com uma vida de sucesso profissional. Já sua mãe é retratada como uma mãe-profissional frustrada

por não conseguir construir uma identidade profissional, sendo a maternidade apontada como um fardo.

(3:4) “Meu pai, ah, meu pai é uma pessoa muito inteligente, ele não era de dar a atenção que a minha mãe dava para os filhos, trabalhava bastante também, e era assim... muito na dele. Uma pessoa muito autoritária, muito agressiva. Agora, dos [quatro] irmãos acho que eu sou a que me dou melhor com ele, que gosto mais dele, porque tenho uma ligação mais forte com ele”.

(3:3) “[...] Mas lembro, naquela época, ela [a mãe] teve que se afastar do trabalho e ela era muito frustrada por isso; e ela era uma pessoa muito guerreira, muito guerreira, mas frustrada, porque ela era aquela pessoa dinâmica, e tal, daí acabou se dedicando inteiramente para a família. É supermãezona, de proteger [...] sou eu e minha irmã; e eu

parece que fui mais ou menos a projeção dela, do que ela gostaria de ter sido; e a minha irmã foi o que a sociedade espera de uma mulher: em casa tudo certinho, que seja bem

sucedida financeiramente e foi tudo assim, casou com véu e grinalda, e eu fui tudo ao contrário. E eu muito independente, muito feminista, inclusive de participar de encontros feministas. E a minha mãe muito feminista, também, então foi um pouco de projeção dela, o que ela gostaria de ser é o que sou; ela não gostaria que eu casasse, quando falei que

estava grávida, para ela, foi um choque, ela não aceitava porque não era isso que ela queria para mim; ter filho é uma coisa... uma coisa que para ela era ruim, porque ocupou tudo na vida dela”.

Ao se definir feminista, Sofia revela a construção de uma imagem feminina fragilizada por questões como a menstruação e a maternidade. O que se nota desde a adolescência:

(3:1) “Lembro de quando eu fiquei menstruada, acho que foi um marco importante, eu lembro que eu não gostei, eu já sabia o que era, mas eu chorei porque eu senti assim... que era uma coisa que ia me tirar essa liberdade de brincar mais, eu achei que ia ficar uma coisa mais contida, então fiquei meio triste, foi uma coisa que marcou assim. Fiquei triste, não gostei quando veio, achei uma coisa estranha [...]”.

Durante a adolescência Sofia namorou por um longo período, e se esse namoro tivesse se concretizado no casamento poderia ter sido uma mudança de identidade para esposa, dona de casa, mãe, condição desejada por muitas garotas, mas não para a Sofia de hoje que, ao falar do passado, manifesta uma personagem que não queria ter vivido. Assim, ao olhar para esse passado, faz uma espécie de “exame de consciência” (Symanski, 2002a): “Então uma coisa

também que não faria outra vez, fiquei muito presa e... então foi uma coisa que me amarrou um pouco”.

Sobre o período do ginásio, Sofia destaca os métodos de ensino de sua escola – é a Sofia- professora de Educação quem fala. Já o colegial, não parece tão marcante.

(3:2) “[...]era uma escola bem progressista, era um... um sistema de ensino que tinha em vários lugares do Estado e ele fechou acho que em 79, porque foi considerado um colégio... a ditadura fechou o colégio, porque achava que era subversivo [...] era um ensino muito global, porque tinha a parte de artes, música, de educação, artes industriais, aprendia um pouco de cada coisa, contabilidade, aprendia coisas do dia-a-dia [...]”.

De menina estudiosa para estudante de psicologia

Sofia conta que desde garota ouviu falar da profissão de psicologia e se identificou com ela. Não se lembra de ter pensado em outro curso e, também, de nunca ter tido contato anterior com profissionais ou instituições ligadas à profissão: “[...] sempre quis, desde os 14 anos, fazer psicologia. O que ouvi achei bonito, sempre fui voltada à área de... sempre tive mais facilidade com a área de humanas. Só tive uma escolha, que foi a psicologia mesmo”. Apesar de contar com o apoio dos pais para pagar a faculdade, começou a trabalhar durante esse período, ministrando aulas para o 1º e 2º grau.

Depois da graduação, teve experiência nas três áreas da psicologia: clínica (particular e numa instituição para menores abandonados), educacional (pré-escola e faculdade particular) e psicologia do trabalho (em uma empresa de ônibus). Motivada pelo seu grupo social, acabou optando pela área educacional.

“(1:4) Sempre gostei de dar aula também, minha família é de professores então, acho que me despertou para a docência. Meu pai, mãe e (de quatro irmãos comigo), três [irmãos] são professores universitários e então... desde... a minha infância eu sempre convivi dentro da escola, sempre com essa questão da educação mesmo, do ensino [...]”.

O mestrado foi um marco importante para a vida de Sofia, um período de descobertas e de concretização de um desejo que já vinha acalentando – ser professora-pesquisadora. Antes mesmo de terminar o mestrado prestou concurso no departamento em que se encontra até hoje.

(1:1-2) “[...] no 2º ano (de formada) entrei no mestrado [...] na verdade eu aprendi a psicologia no mestrado, foi onde aprendi mesmo sobre a psicologia. Daí é que eu descobri que eu queria seguir a carreira docente mesmo, a carreira universitária... na pesquisa e tudo, então, no mestrado que foi a grande descoberta minha da ciência, da psicologia”.

A personagem Sofia-“moleca” se transforma na Sofia-professora rigorosa e colega de trabalho competitiva

Sofia entrou muito jovem para a universidade. Era a mais nova do departamento, tanto que a Sofia-de-hoje olha para a Sofia-de-ontem e a julga meio “moleca”: “uma louca para a época”, como diz. A universidade mostrou um mundo novo e possibilitou acesso a bibliotecas, estudar e, principalmente, liberdade para trabalhar.

(2:1) “Para mim era uma coisa nova e eu era muito imatura naquela época, era a mais nova no departamento, e... Tiveram situações muito engraçadas, eu vinha de bicicleta, vinha de mobilete, trazia meu cachorro para ficar na minha sala, era outro esquema, então, hoje, eu vejo que era louca para a época”.

A passagem da Sofia-“moleca” para a Sofia-profissional foi abrupta e com muitas dificuldades. De certa forma, a identidade da Sofia se dividiu. Em tal situação, para Habermas (1983, p. 78),

“A pessoa é confrontada com exigências que estão em contradição com expectativas surgidas ao mesmo tempo e igualmente legítimas ou também com as estruturas de expectativa experimentadas e assumidas no passado. Tais conflitos podem se constituir em uma carga tão forte para a personalidade que essa se encontra diante da alternativa de se quebrar ou iniciar uma nova vida”.

O início de uma nova vida pode significar coisas bastante diversas, mas para que Sofia pudesse fazer frente às exigências de um novo papel, ela teve de incorporar sua identidade de papel. Para Habermas (1983), a pessoa de posse da identidade de papel orienta-se no sentido da autoridade, dos papéis fixos e da manutenção da ordem social e deve ser capaz de entender e satisfazer expectativas de comportamento reflexivo (papéis, normas) ou deve ser capaz de desviar-se delas.

Além disso, foi especialmente nos primeiros anos, que Sofia enfrentou algumas situações de assédio moral. Para Heloani (2004), a questão do assédio moral não é essencialmente individual. Ela se perpetua dentro dessa nova lógica pós-fordista, onde a hipercompetitividade, entre outros fenômenos, é fruto de um processo cada vez mais intenso de globalização. Os agressores, segundo Lubit (apud Heloani, 2004), por não tolerarem o sucesso de subordinados que possam distinguir-se deles, afastam seus melhores funcionários, especialmente se forem pessoas mais jovens ou mais qualificadas. A vítima teme fazer denúncias formais com medo do “revide” pela demissão ou rebaixamento do cargo, além de essas denúncias tornarem pública a humilhação pela qual passou. Assim, medo (de caráter mais objetivo) e vergonha (mais subjetiva) se unem, acobertando a covardia dos ataques.

(2:1) “Na época eu tinha uma “chefa” extremamente autoritária, era uma coisa que eu não esperava; sofri bastante no começo, tinha idéias super-inovadoras; há quinze anos atrás, eu trouxe o Gaiarsa para cá, ele estava no auge [...] eu me lembro que eu era superdinâmica, inovadora, e minha chefe, o que ela podia ela cortava, mas não era só comigo, então foi muito difícil os primeiros anos, foi muito difícil para eu me adaptar, para eu amadurecer [...], mas eu acho que era uma questão mesmo de relação de poder, foi difícil para superar; tive cenas muito ruins de embate com ela; se fosse outra pessoa sairia da universidade. Talvez ela me sentisse como uma ameaça, e era ridículo, porque ela já era doutora; então eu me lembro que eu queria publicar e eu ia ingenuamente (falar com) ela: ‘Olha, eu queria publicar...’. Ela falava: ‘Não, isso não vale a pena você mandar’, [...] e eu seguia [...] demorou, porque eu tinha medo de ser mandada embora, eu não entendia a estrutura, eu não ia ser mandada embora se eu denunciasse o que ela fazia comigo, pelo contrário, eu ia ser respeitada, mas eu tinha muito medo, e ela deformava as informações [...]”.

Também na relação com os alunos a Sofia-“moleca” sentia-se testada o tempo todo. Com o tempo foi adquirindo segurança, tanto teoricamente quanto da prática docente, e se aceitando como uma pessoa mais rigorosa. Revela-se a Sofia-professora rigorosa, personagem incorporada

para dar sustentação ao papel de docente, já que a personagem “moleca” não condizia com esse novo papel.

(2:1) “[...] eles [os alunos] me testavam no começo, eu era nova, eles me testavam o tempo todo e era um embate, demorou também alguns anos para eu ser respeitada, [...] para eu ter mais segurança, para eu assumir também o meu jeito, [...] que não adiantava eu querer ser diferente, se eu tenho esse jeito mais rigoroso, tenho que [...] me aceitar dessa forma; e também [...] que eu tinha que lutar pelas coisas que eu acreditava, meus princípios eram outros [...]”.

Ter ou não ter filhos? Eis a questão

Sofia tinha, nessa época, um novo relacionamento, mas não moravam juntos. Ele vivia e trabalhava na capital e ela vivia e trabalhava no interior. Quase todos os finais de semana ela ia para a capital, quando então namoravam e passeavam muito. Ela gostava que fosse assim, sentia- se independente. Para Sofia, ter filhos não estava nos seus planos, e essa questão estava bem resolvida, pois se sentia muito realizada no trabalho, já tinha feito o mestrado e o doutorado, ou seja, a personagem profissional estava plenamente incorporada à sua identidade. Além disso, o filho de certa forma colocaria limites a essa personagem. Mas sempre havia alguma interrogação.

(1:6) “[...] eu pari com 40 anos, então no momento que eu não esperava, não estava nos meus planos ter filhos, porque eu era muito realizada com meu trabalho, com minha vida profissional; era uma pessoa que vivia viajando, então para mim era tranqüilo assim... quer dizer, eu ficava naquele... ‘será que é bom, será que não é’, mas [...] eu pensei tanto, que eu não tive [...]”.

De repente se viu grávida. E agora? Como vai ser? O companheiro em São Paulo, ela morando no interior. Foi uma bomba que caiu sobre sua cabeça. Novamente sua identidade se viu cindida. Mas, pouco a pouco, a gravidez passou a ser aceita a partir da percepção dos movimentos fetais, ou seja, na convivência com o objeto concreto (o bebê).

(1:6) “[...] quando eu engravidei foi para mim uma surpresa; e daí mudou muito, mudou a direção da minha vida, mudou uma série de coisas [...]”.