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O TRABALHO E A UNIVERSIDADE NO CONTEXTO ATUAL

Entre as mudanças significativas na sociedade nestas três últimas décadas destaca-se o processo denominado reestruturação produtiva, que, segundo Neves (2000), impõe mudanças nos processos produtivos e organizacionais determinando novas demandas para a mão-de-obra, visando a atender exigências de integração e flexibilidade e também de qualificação profissional.

A globalização da economia, outro fenômeno característico do processo de reestruturação capitalista, é um processo crescente de intensificação, em escala mundial, das relações econômicas, sociais, políticas e culturais, impulsionadas tanto pela ampliação dos mercados para as grandes corporações transnacionais como pelo acirramento da concorrência em nível mundial (Segnini, 1998).

Interessa destacar nesta discussão os impactos que esses processos têm provocado nos indivíduos e as repercussões psíquicas provocadas pelo trabalho sem sentido. Segundo Heloani (2004), nesta lógica pós-moderna ou pós-fordista, que legitima a reestruturação produtiva em grande amplitude, onde os salários são cada vez mais baixos e a educação surge como “salvadora” e principal ferramenta da atualização, o trabalho torna-se cada vez mais precário e seletivo. Mediante uma ideologia neoliberal, o Estado vem retirando e diminuindo benefícios e direitos do trabalhador. Surge, então, novas relações de trabalho, como trabalho por tempo determinado e várias formas de terceirização, que geram o subemprego e o trabalho informal. Nesse contexto, busca-se um paradoxo: “a necessidade da cooperação em equipe e a competição pela aquisição e manutenção de um posto de trabalho” (Heloani, 2004, p. 3). Para o autor, a hipercompetitividade é uma forma de violência e torna-se uma resposta a um sistema desumano e não pode, como muitos queriam crer, ser considerada um mero mecanismo individual.

Para Heloani e Capitão (2003), o capital instaura na contemporaneidade a desumanidade das relações humanas, que se desqualificam quase que totalmente. O capital hoje não tem nome, expressa-se por fundos, deixando os trabalhadores em um mar de incertezas e retirando-lhes a identificação com sua prática diária e com a empresa para a qual trabalham. Dessa maneira, continuam os autores, as exigências de qualificação colocam a necessidade de um trabalhador com maiores habilidades, ágil, que saiba lidar com uma nova representação de mundo, e assim o mundo do trabalho torna-se um complexo monstruoso. Tal fato poderia ajudar o homem em sua qualidade de vida, mas, patrocinado pelos que mantêm o controle do capital e movimentam a

escolha das prioridades, avassala-o em todos os aspectos. Assim pressionadas as pessoas sentem- se impotentes e desvalorizadas, levando as pouco resistentes a degenerar-se rapidamente. A qualidade de vida do trabalhador, especialmente os que vivem no Terceiro Mundo, vem se degradando dia após dia. Doenças como as Lesões por Esforços Repetitivos (LER) ou os Distúrbios Osteomusculares (Dort), que até então eram inexistentes ou restritas a certos nichos empresariais, tornaram-se comuns, impossibilitando milhares de trabalhadores, em especial as mulheres trabalhadoras, das mais variadas atividades, com maior incidência entre os dezoito e trinta e cinco anos.

Os autores se perguntam: o que no trabalho pode ser apontado como fonte específica de nocividade para a saúde mental? A resposta está na própria luta pela sobrevivência, que leva a uma jornada excessiva de trabalho e nas condições de trabalho que repercutem diretamente na fisiologia do corpo. Ainda, segundo Heloani e Capitão (2003), o rompimento de vínculos de relações fundamentais para a manutenção e fortalecimento da subjetividade humana pode desencadear o assédio moral, discussão nova de um fenômeno velho, tão velho quanto o trabalho e o próprio homem. O assédio moral pode ser compreendido como “a exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante sua jornada de trabalho [...]” (Heloani & Capitão, 2003, p. 106).

Heloani (2004) coloca que a maioria das pesquisas aponta as mulheres como as maiores vítimas do assédio moral e também são elas que mais procuram ajuda médica ou psicológica e, não raro, verbalizam suas queixas, pedindo ajuda em seu próprio grupo de trabalho. Isso porque esse tipo de agressão é paulatina, quase invisível e leva a um processo depressivo em que a pessoa não encontra força e ânimo para reagir. Para os homens, tornar pública sua humilhação associa-se a admitir sua impotência e degradação diante dos fatos. Essa aparente passividade fere a identidade masculina e, dentro de nossa cultura machista e preconceituosa, é vista como atributo feminino, o que piora o quadro depressivo da vítima, rebaixando ainda mais sua auto- estima.

Também são as mulheres as mais atingidas pela deteriorização das condições de trabalho, no contexto da reestruturação produtiva, pois, no seu caso, as novas formas de exclusão se sobrepõem aos antigos mecanismos de exclusão de gênero (Neves, 2000). Essas novas formas de exclusão revelam especificidades no uso da força de trabalho feminino no contexto de

acumulação flexível, que podem ser exemplificadas nos seguintes itens (Neves, 2000; Segnini, 1998):

1. Utilização das mulheres em cargos tradicionalmente masculinos visando a redução de custos;

2. As tarefas realizadas pelas mulheres são repetitivas e sem responsabilidade;

3. As relações de poder no trabalho em tempo parcial, contratos por tempo determinado e trabalhos em domicílios reproduzem os antigos papéis considerados femininos (mãe, esposa, dona de casa), utilizando-se da qualificação informal adquirida pelas mulheres no trabalho doméstico, sem nenhuma forma real de valorização do seu trabalho. O trabalho em tempo parcial, por exemplo, é apropriado pelas mulheres como conveniente pela possibilidade de conciliá-lo com as atividades no âmbito privado e pela organização do trabalho, como elemento minimizador de conflitos, maximizador de eficiência, mas que fragiliza socialmente as mulheres nas relações de trabalho;

4. Para uma mesma função, as mulheres são mais escolarizadas que os homens, mas nem por isso são mais bem remuneradas;

5. As mulheres são submetidas a condições de trabalho precárias e inseguras marcadas por baixos salários, pela realização de várias tarefas simultâneas e flexíveis, ocasionando uma intensificação do ritmo do trabalho e perda de direitos legais.

Resultados semelhantes são apontados por Hirata (2002):

“O que realmente está em jogo – as relações de poder e autoridade entre homens e mulheres – parece, aqui, desvendar o discurso dominante sobre as tarefas femininas, discursos às vezes incoerentes como os que atribuem os trabalhos limpos e leves ora às mulheres (execução na eletrônica), ora aos homens (equipamentos informatizados), como os que ora proíbem, ora autorizam as mulheres ao trabalho noturno” (Hirata, 2002, p. 218).

A autora aponta que, além da incoerência, o discurso dominante não reconhece a qualificação feminina nem a importância do trabalho doméstico das mulheres em sua origem. Apesar disso, certas ocupações, como secretárias, vendedoras de supermercado, entre outras,

possuem características, como a simultaneidade de tarefas heterogêneas, a capacidade de atenção e de supervisão, entre outras, obtidas na esfera doméstica.

“Dessa cena familiar, o discurso dos empreendedores detém apenas o aspecto concreto da atividade doméstica, em nome do qual ele confere as tarefas manuais às mulheres, mas não as designa para os postos que exigem raciocínio e cálculos abstratos, para os postos de operação e para os postos técnicos das indústrias de processo contínuo” (Hirata, 2002, p. 219).

Exemplo interessante sobre a condição de vida e de trabalho das mulheres japonesas é apontado por Heloani (2003). O papel social das mulheres japonesas é, em sua grande maioria, ainda fortemente ligado à casa e aos filhos, ou seja, as funções esperadas continuam sendo gerenciar a educação dos filhos, a alimentação, a limpeza e a economia doméstica. Quando trabalham fora de casa, em período integral, não têm filhos. Mas Heloani (2003) nos mostra que o Japão começa a mudar. Ao lado dos “casamentos arranjados”, especialmente nas grandes organizações, a mulher japonesa, principalmente a jovem com vida profissional, já é proprietária de sua residência (metade delas) e 10% da população japonesa vive solitariamente. Heloani (2003) assinala que:

“Esse neo-individualismo é a antítese do comunitarismo e, com o aumento do número de celibatários, a média de filhos por mulher no populoso Japão não chega a 1,4 (último censo) – um dos níveis mais baixos do mundo e inferior à taxa necessária para manter a população” (Heloani, 2003, p. 172).

Heloani (2003) mostra que, quando as mulheres japonesas engravidam, elas espontaneamente se demitem, e quando voltam ao antigo emprego, já com os filhos crescidos, se submetem às funções e salários que recebiam quando da sua entrada na empresa. Será que a mulher japonesa tem negado a maternidade por ela representar uma dificuldade de se inserir e se manter no mercado de trabalho? Será que a clássica função de “rainha do lar” já não se sustenta mais?

Ao analisar mais especificamente a universidade no contexto das transformações da sociedade capitalista, Nunes (1995) coloca que ela está sendo convocada para suprir a base intelectual necessária ao novo patamar atingido pelo desenvolvimento das forças produtivas. O autor, ao analisar o Dossiê Universidade-Empresa publicado pela Revista USP, pôde identificar

três paradigmas que caracterizam a relação universidade-empresa, a saber: 1) universidade prestadora de serviços, 2) universidade pública e 3) modelo de cooperação. Resumidamente, o primeiro modelo é o regido pela lógica do mercado, o segundo reconhece o direito do cidadão ao acesso à cultura e o terceiro paradigma prega que, longe das empresas, o ensino e a pesquisa nas áreas de tecnologia e de administração de empresas seriam capengas, defasados e, em certa medida, inúteis. Segundo o autor, todos esses paradigmas têm questões ainda sem resposta. No caso do modelo de universidade pública, esta deveria exibir as formas concretas pelas quais o direito do cidadão à cultura é contemplado para que não se transforme em um direito abstrato em nome do qual são consumidos recursos públicos. No entanto, tanto o modelo de prestadora de serviços como as propostas de cooperação colocam a universidade frente a sérios questionamentos.

“Como saber que os interesses da Fiesp, da Febraban, por exemplo, são menos corporativos e coincidem mais com as aspirações nacionais do que os interesses da CUT, das Adusp, dos grupos de homossexuais, etc.? Como ter certeza que os recursos trazidos pelo mercado não acabariam por determinar o que pesquisar e, o que é pior, o que não pesquisar?” (Nunes, 1995, p. 74).

A partir da década de 90 toda a economia foi atrelada ao novo modelo predominantemente financeiro. Concordamos com Boito (2004) quando afirma que, nesta nova situação, a ciência e a pesquisa, além de supérfluas, concorrem, na medida em que exigem investimentos do Estado, com a determinação dos sucessivos governos neoliberais de carrear suas finanças para remunerar o capital financeiro. Neste novo modelo, a universidade privada é funcional e a educação, a saúde e a cultura hoje não são apenas mercadorias, mas verdadeiros reservatórios para a acumulação de capital de uma nova burguesia de serviços.

Nesse sentido, os vários projetos de lei ou medidas provisórias que vêm sendo discutidos pela reforma universitária, entre elas o Sinaes, que rege a avaliação da Universidade, o Prouni e, especialmente, a Lei de Inovação Tecnológica, que regulamenta o uso de recursos públicos para atender a interesses privados, impulsionam as universidades a buscar recursos na iniciativa privada para suprir seus orçamentos deteriorados nesses longos anos. Em que se transformará a universidade nesse contexto? O que cabe, então, ao Estado?

A universidade, sustentada pela reforma universitária, transformou-se em uma empresa regida pelo capital financeiro nacional e internacional, seus principais agentes – os pesquisadores –, em empresários e seu principal produto – a pesquisa –, em valor de troca. Desse modo, a lógica empresarial, alimentada pelo modelo neoliberal, impulsiona a produtividade e a globalização da economia sustenta as qualificações e competências exigidas pelo mercado acadêmico. A produtividade acadêmica, medida pelo número de publicações em artigos e livros nacionais e internacionais, coloca o pesquisador, em especial a mulher-mãe-pesquisadora, frente ao desafio de produzir mais e mais com uma jornada excessiva de trabalho que, muitas vezes, se estende para o âmbito privado, o que concorre com seu papel social de mãe. Além disso, acirra a hipercompetitividade que desqualifica as relações humanas e coloca o colega como um inimigo em potencial, com o qual não deve se envolver e sempre se prevenir quanto a possíveis “puxadas de tapete”. Assim, o ambiente de trabalho torna-se hostil, especialmente para aqueles mais vulneráveis que podem ser assediados moralmente e desqualificados profissionalmente.

Em tal contexto, cabe muito bem analisar os efeitos do poder nas relações de trabalho do ambiente universitário. Para tanto, Foucault (1984), em especial na obra Microfísica do poder, auxiliará a entender a questão do biopoder e do disciplinamento. No entanto, cabe ressaltar que para o próprio autor seu objetivo não foi analisar o fenômeno do poder nem elaborar os fundamentos de tal análise. “Meu objetivo, ao contrário, foi criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos” (Dreyfus & Rabinow, 1995, p. 231). Isso porque tanto o sujeito se encontra em relações de produção e significação quanto em relações de poder. Nesse sentido, não se trata de poder em si, mas dos efeitos do poder sobre os sujeitos, portanto, para este trabalho, não se trata de analisar o poder do homem sobre a mulher ou o poder da organização sobre o indivíduo, mas como tudo isso remete o sujeito ao envolvimento com os objetivos e a filosofia da organização. Heloani (1997) coloca esta questão do envolvimento da seguinte forma:

“Se, por um lado, as organizações exigem uma racionalidade quase cartesiana de quem as administra, por outro impõem uma fé quase religiosa por parte dos seus funcionários. Um comportamento típico de seita, de abnegação e identificação total, em que a criatura (trabalhador) se confunde com o criador (empresa), em que o sujeito se mescla com o objeto, a organização e o indivíduo tentam adquirir uma mesma identidade, tentando igualar dois sujeitos intrínseca e historicamente desiguais” (Heloani, 1997, p. 149).

Para o autor, as empresas tornaram-se esquizofrênicas, pois mantêm o discurso da importância de “jogar no mesmo time” mas ao mesmo tempo, na prática, mostram que o que vale mesmo é o “salve-se quem puder”. É o que denomina de dupla mensagem que faz parte de uma lógica inversa e perversa – a lógica do capital e da sedução. Quanto mais o trabalhador se envolve afetivamente com a empresa, mais medo acaba tendo da perda: do emprego, do trabalho, dos colegas e amigos – perda afetiva. E quanto maior o medo maior a dedicação e maior, às vezes, a sensação de exploração.

Para Foucault (1984), o poder não pode ser entendido no campo da repressão, ele não só reprime, recalca, exclui, mas se mostra forte por produzir efeitos positivos no nível do desejo e do saber. Resta desvendar os mecanismos que penetram nos corpos, nos gestos, no comportamento, ou seja, a lógica das estratégias que se opõem umas às outras. O poder, em seu exercício, passa por canais mais sutis e é muito mais ambíguo que os aparelhos do Estado, porque cada um de nós é titular de um certo poder e, por isso, veicula o poder. Nesse sentido, o indivíduo com as suas características, sua identidade, fixado a si mesmo é produto de uma relação de poder que se exerce sobre o seu corpo, multiplicidade, movimento, desejos e forças.

Por isso, propõe não tomar o poder como fenômeno de dominação maciça e homogênea de um indivíduo sobre os outros, mas analisá-lo como algo que circula, como algo que funciona em cadeia, em rede, a partir de suas técnicas e táticas de dominação. Nas suas malhas, os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer a sua ação, nunca estão inertes ou consentidos do poder, são sempre centros de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu. Esse mecanismo do poder apóia-se nos corpos e nos seus atos, extrai deles tempo e trabalho. Sobre essa questão Heloani (1997) aponta um dos problemas fundamentais do próximo século:

“O crescimento da produtividade não está sendo obtido pelo crescimento da produção, mas pela redução da mão-de-obra. Aumenta-se o ritmo de trabalho para aumentar a produção (mais-valia relativa) e, quando a demanda decresce, demite-se os ‘colaboradores’” (Heloani, 1997, p. 149).

O poder, segundo Foucault (1984), se exerce continuamente por meio da vigilância para propiciar simultaneamente o crescimento das forças dominadas e o aumento da força e eficácia

de quem as domina. O exercício do poder se dá dentro dos limites do direito de soberania e de um mecanismo de disciplina que veicula não um sistema de direito, mas um discurso que será a regra “natural” ou a norma que definirá um código que não será o da lei, mas o da normalização. A disciplina é a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório, exerce seu controle não sobre o resultado, mas sobre seu desenvolvimento, implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos e um registro contínuo de forma a ter como alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. As técnicas do poder se utilizam não só do olhar, que tudo vê sem ser visto, mas da interiorização de “um olhar que vigia e que cada um, sentindo- se pesar sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um exercerá esta vigilância sobre e contra a si mesmo” (Foucault, 1984, p. 218).

3.3 GÊNERO, TRABALHO E MATERNIDADE: AS TRANSFORMAÇÕES NAS