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História dos Centros de Atendimento da SBPSP

No documento CENTRO CLÍNICO E DE PESQUISA (páginas 34-42)

CAPÍTULO 2 O CCP COMO SINTOMA DA CRISE DA PSICANÁLISE

2.3. História dos Centros de Atendimento da SBPSP

A história dos Ambulatórios e dos Centros de Atendimento da SBPSP está ligada diretamente, por um lado, à formação de novos analistas e, por outro, à difusão da psicanálise enquanto prática terapêutica. Penso que podemos traçar um paralelo entre estas duas histórias.

Tudo começa por volta de 1964/1965, quando é instalado o Ambulatório concebido pela Professora Virgínia Leone Bicudo, então diretora do Instituto da SBPSP.

No início, o Ambulatório responsabilizava-se pelo encaminhamento, aos candidatos, dos pacientes para supervisão oficial. Os candidatos entregavam à Sociedade o que recebiam como pagamento, e esta lhes forneciam supervisão. O candidato não pagava diretamente ao supervisor.

Cecil Rezze, em entrevista ao Jornal de Psicanálise (Vannuchi e Herrmann, 1996, p.130/1), conta que:

“(....) havia um problema específico, que de certa maneira continua a existir hoje, o do custo da formação. Naquela época nós tínhamos uma outra queixa, relativa à supervisão oficial. O paciente que iríamos atender como caso de supervisão não podia ser de nossa clínica, era indicado pelo Instituto. Nesse momento deixávamos de pagar pelo curso, mas tínhamos de destinar ao Instituto metade dos honorários recebidos daquele paciente.”

O Ambulatório funcionou por mais de dez anos sem ser reconhecido como integrante do organograma da SBPSP. Segundo levantamento feito por Lanzoni e Nóbrega (1999), só em 1975 aparece uma referência ao Ambulatório Clínico no regulamento do Instituto, como tendo o objetivo de permitir a pacientes com poucos recursos econômicos

o acesso ao tratamento. Não se menciona a intenção de fornecer pacientes a candidatos.

Ainda segundo os mesmos autores, no início dos anos 70, com a saída de Dona Virgínia da diretoria do Instituto, o Ambulatório é reestruturado, ficando sob responsabilidade do Secretário do Instituto. A triagem de pacientes começa a ser feita pelos candidatos. Estes criam uma Associação, o Centro de Estudos Luis Vizzoni, que passa a se incumbir de organizar o Ambulatório, ainda vinculado ao Secretário do Instituto.

Na reforma dos estatutos e regulamentos da Sociedade, em 1984, o Ambulatório não é mais contemplado, perdendo o vínculo oficial com a Sociedade, com o Instituto e com a Associação dos Candidatos, criando-se assim uma situação sui generis. Ele deixa de existir juridicamente, embora continue funcionando.

Mesmo nessa condição de informalidade, o Ambulatório, que muda de nome para Serviço de Atendimento, acaba por ser fechado, em 1986. Lanzoni e Nóbrega informam que ele simplesmente pára de funcionar. A partir de pesquisas e entrevistas, os autores propõem como hipótese mais provável, que os próprios candidatos tenham se desinteressado dele. No entanto, há registros oficiais de sua reabertura em setembro de 1987, por solicitação dos candidatos, tendo sido acompanhado pelo Secretário do Instituto durante cinco anos.

A partir dessa data, seu funcionamento passa a ser coordenado pelos próprios candidatos, que se organizam para tanto.

Em 1997, o Serviço de Atendimento (SAT) volta a ser oficialmente reconhecido, integrando a Comissão de Comunidade e Cultura da SBPSP, mas continua sob responsabilidade exclusiva dos candidatos.

Por essa época, ainda segundo Lanzoni e Nóbrega, o número de participantes do SAT havia crescido significativamente. Em contrapartida,

diminuíra a demanda de pacientes. Dessa forma, era difícil prover pacientes a serem atendidos quatro vezes por semana, para as supervisões oficiais. Eram os primeiros sintomas da crise da psicanálise que começava a se instalar, mas ainda não era nomeada.

Essa situação estimula o aparecimento de uma proposta de pesquisa, para melhor estudar o fenômeno.

No início de 2000, a diretoria do SAT, sob coordenação de Maria Rosa Maris Sales, realiza uma pesquisa visando levantar dados do período de 1998 até aquela data. Utilizou-se para tanto um questionário: enviaram- se 78 deles pelo correio, dos quais foram respondidos 62.

O objetivo do questionário era obter as seguintes informações: se os encaminhamentos chegavam aos consultórios, se os pacientes iniciavam a análise, tempo de duração e freqüência semanal de sessões. Cabe ressaltar que, naquele momento, muitas experiências tinham sido tentadas e testadas na prática, em relação à recepção e triagem de pacientes.

Alguns dados relevantes das respostas:

• O total de encaminhamentos no período estudado foi de 171. • Destes, 105 (61%) entraram em contato com o analista, e 91 compareceram à primeira entrevista.

• Dos 71 (42%) encaminhados que iniciaram a análise, 37 (22%) permaneceram;

• Dos que se mantiveram em análise, 21 realizavam até duas sessões por semana e 16, entre três e quatro.

• Em média, foram encaminhados 2,8 pacientes a cada membro analista do SAT, dos quais 1,2 iniciaram a análise e 0,6 permaneceram.

Após anos de discussão e experimentação, as triagens eram mais bem feitas e uma percentagem maior de pacientes (61%) procurava os analistas indicados. Ainda assim, os dados mostram que só mantinham o

tratamento aproximadamente 22% dos que o iniciavam; destes, 9,5% com a freqüência semanal de três ou quatro sessões.

Essa pesquisa não chegou a ser mais bem utilizada, pois, em 2000, com a eleição da nova Diretoria da SBPSP, o SAT começa a ser desativado e substituído pelo Centro Clínico e de Pesquisa, ligado ao recém-criado Setor III.

Foi difícil viver o processo na época, não só pelo caráter definitivo do fechamento, mas, sobretudo, porque a experiência acumulada pelo SAT não pôde ser aproveitada. Em um artigo publicado na revista IDE em dezembro de 2002, o grupo assim se manifesta:

“(...) Encerramos nossas atividades, após mais de um ano de elaboração lenta e sofrida do anúncio do nosso fechamento, numa reunião com 70% dos participantes, na qual brindamos ao trabalho realizado e homenageamos colegas antigos, num clima de orgulho e dever cumprido.” (Integrantes do SAT, 2002, p.152/3).

O SAT pertencia à história da Sociedade de Psicanálise, era um serviço composto e dirigido principalmente por candidatos e cumpria diversas funções além da formação:

“(...) Inicialmente, o objetivo principal deste Serviço era o provimento de pacientes a serem atendidos quatro vezes por semana, para os candidatos em formação. Observamos que cumpria outras funções, como atender ao interesse de diversificação da clientela dos consultórios, oferecer um espaço de convivência aos candidatos, o que favorecia o desenvolvimento de uma consciência institucional; ainda, se constituiu numa alternativa de inserção na instituição para candidatos novos.” (Integrantes do SAT, 2002, p.152).

Já o CCP – embora isto não fosse muito claro para quem, como eu, estava vivendo o processo – surge em outro momento histórico, de crise

nos consultórios em geral. A Sociedade toma para si a organização do Centro como uma forma de responder institucionalmente a essa crise.

O fato de a experiência do SAT não ter sido aproveitada acarretou uma série de conseqüências desagradáveis para o funcionamento inicial do Centro. Certos temas, como processos de triagem, diagnóstico de pacientes, número de sessões semanais, que haviam sido exaustivamente discutidos pelos integrantes do Serviço, voltaram a aparecer, tratados como se não houvesse experiências anteriores pertinentes e conhecimento acumulado a respeito deles.

A criação do Centro é feita a partir da determinação da nova diretoria e sua fundamentação teórica está baseada em vários documentos referentes à criação de Centros semelhantes em países latino-americanos e europeus. A necessidade e importância de sua criação naquele momento são atribuídas à constatação, como mostrado nesses documentos, de que as Sociedades de Psicanálise estavam vivendo um processo de fechamento e declínio. Matteo (1992), em texto elaborado para um encontro do Centro de Atendimento da Sociedade do Uruguai, afirma que, após dificuldades iniciais de aceitação, a psicanálise viveu, no Uruguai, um período de grande desenvolvimento e popularização, mas, naquele momento, estava em declínio, fechada em si mesma, restrita à psicanálise de formação. A situação era a mesma em São Paulo, naquele momento.

No final dos anos 90, diminuiu a procura por análise, a ponto de chamar a atenção da IPA, que passou a pressionar os filiados para se abrirem para a sociedade como um todo, deixando de ser somente um local de transmissão da psicanálise, encerrado em si mesmo. Isso seria condição para a sobrevivência da psicanálise como terapia.

O exame dos documentos mencionados acima mostra que a preocupação com os rumos do ensino e da divulgação da psicanálise começou há alguns anos. Quando se reduziu o padrão de procura, os

analistas tiveram de pensar no que estavam oferecendo aos pacientes, e isso fez aumentar o interesse por pesquisa, divulgação e assistência. A necessidade de ter uma fonte de encaminhamento de pessoas interessadas em fazer psicanálise torna-se premente. O fato é que, a partir dessas constatações, a diretoria da SBPSP eleita em 2000 cria um novo setor, denominado Setor III. Este se voltaria para atividades englobando contactos com instituições comunitárias, como Universidades, e uma clínica dirigida ao atendimento de uma suposta população de baixa renda, para a qual a análise comum estaria fora de alcance, pelo alto custo. Serviria também ao interesse dos candidatos, de terem pacientes quatro vezes por semana para completar a formação com as supervisões oficiais.

Diversas Sociedades de Psicanálise já possuíam, há muito, Centros de atendimento. Apenas na América Latina, Sociedades como as do Uruguai, do Peru e da Argentina dispunham de Centros funcionando havia mais de dez anos.

Em 1999, como foi mencionado na Introdução, realizou-se em Montevidéu o Primeiro Encontro de Diretores dos Centros de Difusão da América Latina, patrocinado pelo Comitê de Psicanálise e Sociedade da Associação Psicanalítica Internacional, por meio de seus representantes na América Latina. Do Encontro participaram a Sociedade Psicanalítica do Uruguai, a Sociedade Peruana, a Associação Psicanalítica de Córdoba, a Associação Chilena, a Sociedade de Mendonza e a SBPSP que, na época, não tinha Centro de Atendimento oficial, mas um Serviço de Atendimento, gerido pelos próprios candidatos (SAT).

Em outubro de 2000, um segundo encontro foi realizado no Rio de Janeiro, organizado pelas Sociedades de lá. No mesmo ano, conforme já foi dito, fora criado o Centro oficial da SBPSP, com o nome de Centro Clínico e de Pesquisa, incluindo entre seus propósitos a pesquisa. De 2000

a 2002, o Centro vai sendo organizado, mas o atendimento dos pacientes continua sob responsabilidade do SAT.

Desde sua criação, o CCP integra o organograma da SBPSP,

diretamente vinculado à Diretoria de Cultura e Comunidade. Tem por finalidade o atendimento clínico de pacientes que procuram a Sociedade, configurando-se como Centro de Atendimento à comunidade. Uma de suas funções fundamentais é proporcionar pacientes para os analistas em formação.

O Centro agora ocupa a antiga sede da SBPSP, onde uma Assistente Social, que tem a função de secretária, encarrega-se de atender os telefonemas de quem procura o serviço, para agendar a data da inscrição. Esta deve ser feita pessoalmente, pois o paciente precisa preencher uma ficha, assinar um termo de compromisso e pagar uma taxa.

O paciente era informado de que seria procurado por um analista para uma entrevista de triagem. Nesta, o triagista preenche um protocolo constando de quatro partes, sendo a primeira uma entrevista livre; a segunda, dados de anamnese clássica; a terceira, aspectos psicodinâmicos específicos e hipótese diagnóstica com base no CID-10; a quarta e última, a ser preenchida no decorrer do tratamento, tratava da evolução do paciente.

Ao final dessa entrevista, o cliente era informado de que deveria aguardar uma reunião clínica, em que se determinaria qual analista o atenderia; este iria procurá-lo. A partir daí, a relação entre paciente e analista não tinha mais a interferência da instituição. A espera pelo encaminhamento podia durar de uma semana a mais de um mês. Os casos eram triados nos grupos. Os protocolos dos pacientes eram distribuídos pela secretária, dependendo das possibilidades desses grupos de discuti- los. Cada coordenador determinava a quantidade de casos para discussão na reunião mensal, baseado em consenso da equipe. Nessas reuniões

clínicas, as triagens eram debatidas e, caso se considerasse que se tratava de um paciente para análise, um analista se dispunha a recebê-lo. Caso contrário, ele poderia ser encaminhado pelo triagista para algum recurso da comunidade. Aliás, este tinha a liberdade de fazer tal encaminhamento mesmo sem passar pela reunião, se constatasse que a indicação adequada ao paciente não era a análise. O triagista não podia atender em análise o paciente que triava. Não se estabelecia valor mínimo para as sessões, sendo este um ponto a ser tratado entre analista e paciente.

Nas reuniões mensais, o grupo discutia, além dos casos para encaminhamento, as normas de funcionamento do Centro. Por exemplo, a regra de que o triagista não deveria atender os pacientes que triava foi uma das mais contestadas. A obrigatoriedade de preenchimento do protocolo também. O tempo decorrido entre a triagem e o atendimento era um tema que preocupava os analistas, assim como a precariedade financeira e emocional dos pacientes que procuravam o Centro.

A fim de contribuir para a formação dos candidatos, alguns analistas-didatas se ofereceram para supervisionar os atendimentos cobrando preços acessíveis, proporcionais ao que os pacientes pagavam.

Perdiam-se muitos pacientes na longa espera entre a triagem e o encaminhamento. Mesmo depois que o próprio triagista passou a poder atender o paciente, a desistência não diminuiu muito. Em minha experiência, só uma pequena minoria permanecia em análise por mais de seis meses.

Após dois anos, em agosto de 2004, é feita uma Jornada para avaliar o funcionamento do CCP. Nesta, representantes dos diversos grupos se expressam por escrito, e os Diretores do Setor III e do Centro se manifestam por discursos.

A organização inicial, com variações próprias de cada grupo, vai se manter até o início de 2005, quando nova Diretoria da SBPSP é eleita, introduzindo modificações:

1. O nome muda para Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP).

No documento CENTRO CLÍNICO E DE PESQUISA (páginas 34-42)

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