4 SAPATÃO, ENTENDIDA, LÉSBICA
4.3 HISTÓRIAS DA VELHA GUARDA: BOFES E CASA DE DRINKS
As entrevistas com as interlocutoras da velha guarda foram longas e marcadas pelo mergulho na memória, muitas vezes, percurso refeito durante a entrevista em diálogo com o Veio. A presença do Veio abria os arquivos individuais e coletivos da Turma das Quintas e eu
38 O filme Amanda e Monick conta a história de duas travestis femininas em Barra de São Miguel, cidade com
seis mil habitantes, no cariri Paraibano. Tem roteiro e direção de André Costa Pinto (2008) e realização do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Medonho Produções. Contou com o apoio da Prefeitura Municipal de Barra de São Miguel, do departamento de Arte Mídia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) (PALAVRAS..., 2011).
embarcava junto, rumo à aventura no Bairro das Quintas e do Bom Pastor39, pelos meados de 1960 a 1980. Elas frequentavam bares, Casas de Drinks ou Boates. Espaços de lazer destinados aos homens e vetados para a maioria das mulheres.
As casas de drinks ou boates eram locais de prostituição onde as garotas de programa trabalhavam. Estas casas eram muito freqüentadas por lésbicas. Algumas iam durante o dia para beber, conversar e/ou namorar com prostitutas. Houve relato de namoro com a dona da boate. Os relatos demonstraram muita intimidade das interlocutoras mais velhas com esse ambiente e seus freqüentadores/as. Verde Escuro lembrou-se de uma boate, cuja dona ela foi casada: “Era boate grande ali em... Barra de Nazaré, ela tinha boates grandes, a boate dela era boa, tinha muita mulher, tinha 21 mulher de programa”.
Os fatos relatados por elas estavam localizados em um passado, na época da juventude, envolvendo a lembrança e a memória. Tomo emprestado o conceito de experiência de Jorge Larrosa (1994) para pensar os conteúdos afetivos que compõem a memória e a dimensão contingencial. Lembramos e significamos como importante aquilo que foi marcante, que está constituído pelo afeto, pois a memória tem seus componentes afetivos. Para Jorge Larrosa (1994, p. 68), a experiência de si e os relatos são enunciados como aquilo que “[...] nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”. Logo, a recordação implica imaginação e composição na tessitura de um sentido que expressa o que se vive.
A habilidade narrativa, sugerida pelo autor, para transmitir experiências, não faltou nas interlocutoras da velha-guarda: eloquência, minúcias, riqueza de detalhes. Escutei e registrei as narrativas de memória a partir das temporalidades imbricadas, sabendo das possibilidades de mutação e de reinvenção dos sentidos ali contidas.
Interessou-me a forma como elas significaram uma fase de suas vidas, como lésbicas masculinas e como compartilharam essas recordações entre si. Em certos momentos, percebi que existia uma idealização de “um tempo bom que não volta mais”. Nesse sentido, o cuidado foi para não reificar as memórias narradas como totalidades homogêneas, compreendendo a multiplicidade de sentidos que permearam aquela época, com outros sujeitos: prostitutas, clientes, donas de bar, policiais, namoradas fitinhas, moradores das ruas, entre outros.
Aconteceu que na entrevista coletiva, com duas ou três participantes, incluindo o Veio, instituiu-se um espaço de escuta e as narrativas promoveram a visibilidade histórica para lésbicas com mais de 50 anos.
39 O Bar Internacional, localizado no bairro das Quintas, era um ponto de encontro da turma, descendo chegava
O aspecto geracional deve ser considerado como um marcador social importante para esse grupo, considerando que existe um espaço de até 50 anos entre as interlocutoras. Algumas entrevistadas foram adolescentes na década de 1960, começando suas experiências afetivas e sexuais com mulheres. A velha guarda, como se referiam as mais jovens, foi uma das redes de relações com que interagi no campo, com faixa etária mais alta, que se agrupavam em turma na juventude. A partir da interlocução com o Veio, acessei a parte bofe da turma. Fui apresentada a várias interlocutoras com mais de 50 e até 70 anos que fizeram parte dessa turma, que aqui chamo de Turma das Quintas. Algumas apenas avistei, sendo citada como a ex-mulher de uma delas, geralmente, fitinha. Também as via nas festas, pois a faixa etária acima de 55 anos representava um percentual significativo nas festas.
Ao se transportar para o Nordeste brasileiro na década de 1960, em momento de efervescência do movimento regionalista, baseado no patriarcalismo de Gilberto Freyre (2000), o apelo era legitimar a noção de nordestino associada ao cabra macho e à manutenção do código binário de gênero, com concepção androcêntrica.
No campo da sexualidade e das homossexualidades, ocorreram mudanças de significados e práticas, no intervalo histórico de 50 anos, fazendo surgir cenários com variáveis muito distintas. A repercussão de Stonewall, manifestação ocorrida em um bar em Nova Iorque contra a intolerância a lésbicas, gays, travestis e transexuais, já no final da década de 1960 (28 de junho de 1969), chegou mais tardiamente no Nordeste do Brasil, a despeito da repercussão para os direitos de LGBT em países industrializados, sobretudo América do Norte. No Brasil, os movimentos LGBT começaram a acontecer uma década depois, especialmente, na região Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro) e na Bahia, seguindo por outros estados do país, a exemplo da Paraíba, que fundou o Grupo de homossexuais “Nós Também”. Mas, toda essa movimentação ganhou expressão nas ruas na década de 1990 (RIBEIRO, 2011), com a realização das Paradas de Orgulho LGBT.
Assim, quais os conteúdos normativos que regulavam a sexualidade e quais os códigos vivenciados pela juventude daquela época? Quais eram os costumes e mentalidades sobre a iniciação sexual para as mulheres? Como eram vistas adolescentes masculinizadas que frequentavam Casa de Drinks (cabaré), namoravam com prostitutas e andavam em grupo? Eram visíveis?
Lembro o Veio contando que quando a turma das Quintas descia a rua em direção ao bar, as mães mandavam as crianças entrarem em casa. As estranhas estavam passando na rua. Elas desciam brincando, rindo, na expectativa da farra na Casa de Drinks, durante o dia. Chegavam ao meio do dia, sentavam e tomavam muita cerveja com tira-gostos. As meninas
da casa desfrutavam da companhia delas, acompanhavam a farra. As bofes estabeleciam relações variadas com estas. Com algumas, a relação era de amizade; com outras, deitavam, às vezes, se apaixonavam, namoravam e casavam. Contavam com a cumplicidade dos donos e donas de casas de drinks e bares. À noite, era a hora dos clientes, dos homens heterossexuais que pagavam programas com as prostitutas. O espaço era frequentado por lésbicas masculinas bofes; lésbicas fitinhas não faziam parte da turma, eram as namoradas.
À noite, elas gostavam de “pernoitar”, categoria êmica para fazer farra, em algum boteco ou bar, “gostavam de dançar, beber, pernoitar...”. Frequentavam um bar com radiola de ficha, que lhes permitia escolher a música, comprar a ficha e fazer o aparelho tocar. Começavam no Bar de Raimunda40, que era uma mulher mais velha que as acolhia. Quando a cerveja acabava, seguiam para a boate de Sr. Cícero e continuavam bebendo. A boate na penumbra, quando um dos homens que frequentavam o espaço tentava dançar com uma delas, Seu Cícero acendia a luz para chamar a atenção do público e dizia em alto e bom som: “Olhe meninos, estas meninas só gostam delas mesmas', alertando para a boa convivência entre os dois distintos públicos. Elas gargalhavam me contando esta história e acrescentando que sabiam que davam lucro a Seu Cícero porque “bebiam de grade de cerveja” e comiam tira- gosto. “A cerveja era bem geladinha, que ele guardava pra gente, e o tira gosto era tripinha assada e goiamum” (URUCUM).
Elas contaram que, certa vez, foram para um Cabaré no sábado de manhã. O freezer estava “entupido” de cerveja gelada. “Feche o freezer pra gente, feche o cabaré”. Levaram bife assado como tira-gosto e pernoitaram por lá, retornando para as suas casas no domingo pela manhã. Nesse dia, o cabaré não abriu, elas desligaram o medidor de luz e ficaram no escuro para evitar a insistência dos clientes.
Danielli Bezerra (2012) estudou prostitutas entendidas em cabarés da zona central da cidade de Natal, nos anos de 2007 e 2008. Segundo a autora, as prostitutas entendidas se autodefinem assim porque têm relações sexuais com homens e com mulheres. Os homens são clientes, com os quais estabelecem relação de trabalho, e com mulheres têm relações sexuais e de afeto. A autora identificou que algumas também estabelecem relações afetivas com homens fora do cabaré, todavia, se identificaram como entendidas. A pesquisa de Danielli Bezerra (2012) demonstra que a presença de prostitutas que têm relações com mulheres persiste em cabarés da cidade de Natal.
Ana Maria Brandão (2010) aponta a proximidade entre lésbicas e prostitutas em outros contextos, assim como a associação discursiva entre lésbicas e prostitutas, como arquétipos de
mulheres que rompem com as normas destinadas a produzir mulheres respeitáveis. A autora buscou registros históricos sobre a presença de prostitutas em grupos de lésbicas na classe trabalhadora inglesa, como uma forma de garantir a independência econômica fora de casamentos heterossexuais.
Conheci lésbicas que frequentaram as Casas de Drink e namoraram com prostitutas ou donas de boate; algumas viveram juntas com mulheres que eram ou tinham sido prostitutas. Para elas, não havia incômodo porque era um trabalho, “levava como uma profissão”, “ela trabalhava a noite e eu ficava em casa”. Sobre o relacionamento com prostitutas, Verde Escuro relata: “[...] É [...] Porque ela dizia que era menina de programa, né? Ela fazia o programa, não se apaixonou, e até porque ela nunca teve passado com homem, nunca ela se apaixonou por homem nenhum. Ela era mais velha do que eu, teve várias mulheres [...]”.
As Quintas e o Bom Pastor eram bairros de referência para elas, algumas moravam lá, outras passeavam e namoravam com meninas de lá. “Meu primeiro caso foi uma menina da rua, lá das Quintas, com 15 anos, foi meu primeiro amor”. O lema da turma era: “bolia com uma, bolia com todas; mexia com uma, mexia com todas” (CORAL). Elas falaram da reação do grupo às investidas de homens homofóbicos, quando compartilhavam espaços de lazer com homens e eram incomodadas.
Naquela época, já existiam espaços de sociabilidade LGBTs como os bares para entendidos que elas também frequentavam. “Era um point, um barzinho misto, que dava muito entendido; gays e lésbicas. Mas, tinha careta também. Mas, os caretas que ia pra lá pra perturbar, a gente botava pra descer, botava pra correr.”
Porém, a maioria dos relatos é sobre a diversão nos bares e boates para homens em Casas de Drink ou em casa de alguma mulher mais velha. Era uma época em que era incomum que mulheres “de família” frequentassem bares e boates, sobretudo, em região de boemia e prostituição. Logo, a presença delas era uma subversão às normas de gênero e de controle da sexualidade das mulheres daquele contexto. A transgressão se estendia da performance masculina da turma ao fato de se relacionarem com mulheres, sendo assim denominadas, de forma agressiva, como “sapatões” além do fato de frequentarem cabarés.
Elas tinham muita história para contar41, peraltices, molecagens, “aprontações”, flertes, namoros e resistência. A ideia de turma está relacionada à noção de comunidade, presente em estudos com mulheres lésbicas (WEEK, 2010), onde um grupo de pessoas com
41 Histórias que não poderia dar conta nessa pesquisa, pois têm um recorte histórico importante com outras(os)
atores sociais que compartilharam daquele momento, com suas visões sobre os fatos. Como já foi dito, trago o dado relacionado ao recorte geracional da pesquisa, sobretudo, para situar as experiências (LARROSA, 1998) de descoberta da atração por mulheres e as formas de sociabilidade nessa geração.
marcadores sociais de subalternidade compartilham de códigos e frequentam espaços específicos de convivência.
Nessa fase, percebe-se uma mudança no discurso das interlocutoras sobre o “gostar ingênuo e sem malícias” da época da meninice na escola, na rua, com as primas. Com a turma, elas referiram “gostar de farra, festa, bebida e mulher”, buscando concretizar os desejos com erotismo. Elas afirmaram que davam muito trabalho aos pais na adolescência porque queriam sair, passear e pernoitar: “Adolescente, eu dava muito trabalho, andava em cima de caminhão de tijolo, pegando carona com mais três colegas minhas.” (Urucum). Nesse momento, aquele jeito masculino da infância, as brincadeiras de menino, o encantamento pela professora ou pela prima, o desejo de estar perto de meninas e beijá-las se somavam na concretização do desejo por mulheres através de práticas sexuais.
Algumas falaram com certo pesar que preferiam a farra a estudar e que não gostavam de estudar, por isto não continuaram os estudos. “Oportunidade eu tive de estudar, mas eu não quis, quis ir na ilusão do mundo de querer conhecer o mundo [...] pra ir pras farra. Eu estudava, pai me deu estudo, aí eu não quis, parei de estudar pra [...] namorar” (VERDE ESCURO). Entre tantos casos e histórias vividas pela turma, contaram que foram denunciadas pelo Comissário de Menor e detidas no Juizado de Menores, o que culminou com a punição do pai de Verde Escuro que lhe deu uma grande surra.
[...] eu ia fazer 17 anos, a gente ficava numa casa lá, da mãe de [...], nera? Aí, tinha um [...] como era o nome daquele Doutor? Ele viu que a gente era de menor e tinha mulher de maior, ele achava que elas tava nos seduzindo, aí chamou a polícia, a gente foi tudo pro Juizado de Menor. Eu fiquei detida, ficou eu e outra, porque a gente era de menor. Aí... eles ligaram, papai foi me buscar, quando papai chegou lá, o delegado tinha servido o exército com meu pai. Ah, foi uma onda. Papai: ‘Vamo pra casa'. Eu fiquei [pausa] desconfiada [risos]. Com medo de apanhar porque eu apanhava, ele batia. Nesse dia [...] levei uma surra [ênfase] que ele me deu de cinto, mas no mesmo dia eu caí fora, de noite mesmo eu fui [...] Pra Rocas de novo.
Era comum que os pais punissem os filhos e filhas com castigos físicos, surras, tapas, beliscões, reclusões e que filhas e filhos aceitassem esta forma de educação. Isso não significou que o castigo tivesse o efeito corretivo, almejado pelo pai, e Verde Escuro fugiu na mesma noite para encontrar a mulher amada, que de fato, era mais velha que ela. Pensando em sua liberdade e em evitar problemas com o pai, Verde Escuro começou a trabalhar no ano seguinte, quando fez 18 anos, saiu da casa dos pais e foi morar com a namorada.
Foi aí quando eu conheci a turma... aí, me entrosei, eu ia fazer 17 anos e ela 27, [...] a gente ficou um tempão, mais de três anos a gente ficou junta, aí foi
a continuidade. Moramos juntas, fui trabalhar, comecei a trabalhar numa fábrica e ela também, a gente moramos juntas aí depois não deu certo, ela foi pro canto dela eu fui pro meu (VERDE ESCURO).
Foi comum entre as interlocutoras, ainda adolescentes ou jovens, naquela época, se envolverem com mulheres mais velhas, com diferença de dez anos ou mais. Algumas se relacionaram com mulheres mais velhas, e com posição de poder na Casa de Drinks, por ser a proprietária. A relação de uma mulher mais nova com uma mais velha foi descrita por Verde Escuro como um lugar de aprendizagem, alguém que ensinava coisas da vida e sobre o sexo.
Tudo, tudo, qualquer coisa de sexo, ela me ensinou tudo bonitinho, apesar de que eu já tinha tido o primeiro caso que não passou isso pra mim, foi só o básico mesmo. Eu não tinha adquirido experiência nenhuma. Mas, a experiência mesmo de sexo, eu agradeço a ela, ela foi minha professora. [...] pra mim ela foi uma grande mulher, me ensinou muita coisa boa. Nunca me incentivou, era braba, viu? Bebia, mas ela num queria [...] ela num deixava eu beber todo final de semana. Ela fumava, mas ela não queria que eu fumasse todo dia. Ela [pausa] me poupava muito. Ela tinha muito cuidado comigo, ela... no momento que ela conheceu mamãe, minha família, mamãe também gostou muito dela, foi uma das mulheres que mamãe mais gostou, foi ela.
Esta concepção também foi encontrada em outros discursos, alguém que cuida, que ensina, que protege. Sobre a sua primeira mulher com quem casou, Urucum disse: “Foi uma pessoa marcante, que me ajudou na descoberta. Uma pessoa de um espírito muito positivo. Eu gosto das pessoas assim, que seja perseverante, nunca diga: ‘ah, talvez, eu num vou conseguir', isto no meu dicionário não existe, eu sou perseverante!”.
Também havia o ciúme: “Ela era braba, ciumenta demais... a turma todinha sabia. O ciúme dela era grande, eu não podia olhar pra ninguém” (VERDE ESCURO). Entretanto, o ciúme muitas vezes foi justificado com o próprio comportamento delas, pelas interlocutoras:
[...] eu errei assim no sentido de [...] interior, antigamente, não tinha esse negócio de boate. Pra mim, boate de entendidas foi novidade. Cheguei aqui nesse relacionamento e conheci uma colega e ela disse: ‘Você já foi numa boate de entendida?', eu disse: ‘rapaz, eu nunca fui, não', ‘você num quer ir não?'. Eu fui, então, fugi, menti. Eu comecei a conhecer coisas diferentes, pessoas no interior não tinha essa de se assumir [...] Tinha uma história de um bar que era mulher de contar com os dedos, eu comecei a me aventurar e trair. Comecei a beber, que eu num bebia com ela, comecei a tirar onda mesmo, achar que o mundo era meu, que eu num tinha que dar satisfação a ninguém, a questão da consideração. Então, você com 18 anos assumir uma mulher mais velha [...] ela era mais velha do que eu dez anos. Foi, mas eu errei porque eu traí, foi quando ela descobriu, ela não admitiu traição, sofri pra caramba, comi o pão que o diabo amassou. Eu gostava dela, a questão da convivência, a família [...] você tem que começar tudo de novo, foi um abalo grande pra mim, num faço isso com mais ninguém. Pedi pra ela desculpar,
mas ela não voltou atrás, não. Aí [...] comprei um terreno, fiz uma casa, continuei minha vida (URUCUM).
O depoimento sincero e reflexivo de Urucum demonstra a compreensão que ela tem da sua experiência de jovem na vivência da lesbianidade e na descoberta da possibilidade de sair do armário. Durante a entrevista, a atual parceira de Urucum ligou várias vezes, ela não atendeu. Disse-me que, provavelmente, haviam dito a sua parceira que ela já estava por perto42, “porque viram a moto por aí alguém já radiou” [risos]. Após algumas tentativas, ela disse: “vou desligar aqui porque eu tenho o poder de decisão, pode continuar [...]”. E assim prossegui, com certa expectativa, de que poderíamos ser surpreendidas pela sua parceira. Fiz questão de deixar a porta aberta da sala em que estávamos para diminuir aquele risco no campo.
Algumas interlocutoras afirmaram o trabalho como uma necessidade para garantir a autonomia: “trabalhar para morar com a mulher amada”. Estas jovens, quando se descobriam, no sentido de iniciar um relacionamento afetivo-sexual com uma mulher, se deparavam com a necessidade de começar a trabalhar, sair da casa dos pais e “assumir a mulher amada numa casa”. O trabalho adquiriu o significado da autonomia pessoal para poder garantir a independência e não sofrer discriminação da família, conquistada com a independência financeira que garantia o lugar de provedora da sua vida junto com a outra, para construir seu próprio lar com outra mulher. Esse aspecto do trabalho como autonomia na sexualidade também foi relatado entre as interlocutoras mais jovens da pesquisa.
Eventualmente, as amigas da turma discutiam por causa de ciúme, quando uma namorava com a fitinha que a outra estava namorando, “às vezes, a gente ficava namorando com a mulher da outra, aí [...] uma ficava com ciúme da outra, terminava no cacete. Mas, se dava bem, não era nada grave, não.” Como mulheres masculinas que eram, não namoravam entre si. Assim, Verde Escuro falou: “As masculinas nunca se interessavam pelas masculinas, mais pelas femininas, como sempre. Assim, no caso eu e o Veio, tem nada a ver de atração. Por fora mesmo. Igual um homem que é homem num atraí com outro, né?” A referência dela é a performance que desempenham, “por fora mesmo”, a posição de bofe que pode se esvair