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4 SAPATÃO, ENTENDIDA, LÉSBICA

4.4 TRANSFOMAÇOES ACONTECEM, O ESTILO PERMANECE

Entre as interlocutoras de faixas etárias diferentes, foi possível perceber diferenças significativas na forma de estabelecer as relações entre mulheres, na descoberta da sexualidade e da atração por mulheres. Trago uma nuance geracional enunciada pelas mais velhas, a Turma da Velha Guarda. O anúncio da mudança em algumas interlocutoras da velha Guarda é relativo às performances de gênero da lésbica bofe com a tendência a suavizar a masculinidade de alguma forma ao longo da vida, tornando-a menos tradicional, inspirada por modelos igualitários do feminismo e da convivência no GAMI. O Veio disse:

Aí, eu digo, esse negócio não tá tão certo, não. Não é por aí. Então, hoje eu já sei fazer as coisas, um dia desses... eu tava lá na casa de uma amiga, fazendo o feijão, eu disse: ‘mas, interessante eu tive uma rama de mulher, nunca cheguei num fogão pra fazer um feijão, hoje eu faço café, faço feijão pra vocês, varro a casa, arrumo as roupas tudinho, que nem vocês e vocês tudo aí, numa boa, interessante como a vida é [...] e vocês não são nada meu, apenas companheiras, colegas'.

A mudança é voltada mais para as atitudes, os comportamentos no tocante a forma de estabelecer o relacionamento com a fitinha do que relacionada ao estilo - vestimenta, postura corporal, desejo. Sinalizaram mudanças na forma de significar o masculino e o feminino, revendo comportamentos que foram identificados como “machistas”: aqueles que subordinavam a mulher fitinha através de percepções como: ‘mulher só pra cozinhar', ‘homem trai; mulher nem pensar'. Seria a aproximação da masculinidade feminista, sugerida por Jack Halberstam (2008), em que os elementos da virilidade devem ser subtraídos da

performance masculina? Em conversas com as interlocutoras da velha guarda, pude perceber que as mudanças são, especialmente, do comportamento relacionado às relações de gênero.

[...] as minhas companheiras... tinham casos que eram masculinas como eu, assim estilo masculina como eu. Elas se sentia o cara também, no ato. Muitos anos, a gente dizia ‘ah, eu sou o cara', ‘aqui só vai conversar os meninos, os caras, e ali as meninas'. Era um costume como o meu. [...] Púrpura tem o meu costume, ela usa roupas masculinas, ela só usa roupas masculinas como eu, sapatos masculinos como eu, observe ela, você vê. Então, era desse grupo. [...] E trazia aquela espécie de machista, mulher só pra cozinhar... Machista, vamos dizer, na época, machista, que eu digo no modo de ser, de vestir. E eu me adaptei a isso [...] (CORAL).

Conversas com as interlocutoras, diálogos entre elas, exemplos relatados, fui apreendendo que existe um movimento de revisão crítica, por parte de algumas, sobre os comportamentos estabelecidos com as parceiras, no tocante ao trabalho doméstico, por exemplo, inserido na socialização feminina e ausente da masculina. As brincadeiras de infância de meninas masculinas – que insistiam em se socializar como meninos - foram associadas ao comportamento pouco afeito às tarefas domésticas.

No discurso de Coral, chama atenção a referência a ter trazido uma ‘espécie de machista', como algo externo a si mesma, uma referência à imitação da paródia (BUTLER, 2008). Pois, se não é homem, mas exerce um tipo de masculinidade, logo traz um tipo de machista. Esta construção foi ampliada quando revelou que “quando eu deitava com a minha mulher, minha companheira, era uma mulher igual a mim”, desfazendo a lógica da ativa e passiva do par bofe fitinha, conforme será analisado posteriormente.

As interlocutoras da velha guarda fizeram referência à turma e aos códigos compartilhados entre elas, códigos rígidos de masculinidade, mais próximos da masculinidade nordestina hegemônica. Coral se refere à turma: “[...] tem meninas que anda masculina, depois tá feminina [...] no meu, caso se eu fosse mudar: ‘é... tá virando fresco é?'entendeu? Isso também já incomoda. Se eu tentasse sair do ritmo eu era criticada”.

A ‘crítica' sugere a coerção da turma sobre ela para seguir os códigos compartilhados por elas e manter a performance masculinizada, mais do que isso, manter um padrão de masculinidade hegemônica e tradicional. Assim, entre reproduzir e romper com os códigos hegemônicos, elas vivenciam a descoberta de novas possibilidades, expressa pelas mudanças ou adaptações nas performances masculinas.

Na mudança, a surpresa de que seja possível fazer diferente e continuar com o estilo masculino:

Então, também eu digo assim, será que o costume, o dia a dia, o tempo passando, e eu sei como é esse estilo, esse estilo nunca vou mudar. Passou o tempo demais e eu me acostumei nisso, até hoje ainda continuo, só hoje é que eu tô sentindo as reações (CORAL).

Algumas coisas, consideradas femininas, foram introduzidas no repertório de performances de gênero, como fazer as sobrancelhas e pintar o cabelo; assim como o uso de roupas unissex, sem que elas atribuam mudanças na forma como se percebem: mulheres masculinas que gostam de mulheres. Numa das entrevistas, encontrei uma mulher bofe, pintando o cabelo.

Ela entrou na sala, justificando que antes precisava retirar a tinta do cabelo. Voltou de cabelos molhados, trajava um calção esportivo preto com listas brancas e camisa vermelha solta, com as mangas retiradas sem fazer acabamento, sem passar um pesponto. Estava sem sutiã e a cava grande deixava aparecer a lateral de seus seios de relance, sem qualquer inquietação de sua parte. Cabelo curto ainda molhado, sandália havaiana, tamanho 35 ou 34. Havia pintado o cabelo de castanho escuro para esconder os brancos (Caderno de Campo, 2013).

Esse fato foi comentado pelo Veio como indício de mudança na turma da velha guarda, apontando certa vaidade, também comum em homens mais velhos nos atuais códigos de gênero. Sobre fazer as sobrancelhas, perguntei a Coral porque ela tinha começado a fazer as sobrancelhas e ela me falou de “uma conversa dela com o outro eu dela no espelho”:

Queria fazer a sobrancelha, então, aí, eu via que naquele estilo meu que eu tinha pra masculinidade, as pessoas me olhavam muito, como até hoje me olham ainda, mas eu já botei uma sobrancelha, eu acho que já deu um pouco de feminino, vamos dizer assim, um toque. Me confundiam muito [...] Muitas coisas que eu não fazia, hoje eu já estou fazendo, já tô botando umas blusinhas assim [...] não assim que chegue muito [...] que quando eu visto que dá certo pra mim, eu visto (CORAL).

A “conversa com o outro eu na frente do espelho” remete ao diálogo interno sobre identidade de gênero que a ocupa a partir do contato com o GAMI. Fazer as sobrancelhas parece resultado de uma negociação interna entre responder ao seu estilo, que não pode chegar muito perto do feminino, e minimizar as abjeções, representando também a subversão aos códigos da turma. É se atualizar em relação aos códigos acessados por homens na contemporaneidade, que cada vez mais são submetidos aos ditames do culto ao corpo e à incorporação de padrões de estética hegemônicos (SARDENBERG, 2000).

A mudança acontece na convivência com mulheres mais jovens, um intervalo de tempo que configura uma, duas, três gerações. Este aspecto é também um sinal de mudança cultural que aconteceu no país entre os meados dos anos 1960 e a contemporaneidade, como a possibilidade de lésbicas estarem fora do armário, convivendo com sua família. Para interlocutoras mais jovens, existiu a possibilidade de conversar com alguém sobre o que sentiam, uma mulher da família que é lésbica ou bissexual, como a tia e a mãe. Foi o que Cobre disse:

Ainda tinha minhas dúvidas... Conversava muito nessa época de indecisão com minha tia. Aí, depois que você fala, acho que num tem mais nada que você decidir não, você é e pronto!' Ela sempre foi muito direta, eu meio que me surpreendi quando ela falou que sabia.

Esta possibilidade não se configurou para as mais velhas que enfrentaram muitos preconceitos da família. Urucum relatou a reação negativa da sua mãe e irmãs quando souberam que ela estava namorando uma moça. Fuga, surra, fuga, agressões, mudança de cidade e estado. Foi obrigada a deixar a cidade onde morava. Certa vez, fugiu para namorar em outra cidade e quando voltou:

Quando cheguei, levei uns cacetes, que apanhava mesmo, num tinha essa boquinha, não. Chequei lá com a cara mais cínica, mãe já sabia que eu tinha fugido, levei uma pisa boa, de corda. Era peia, depois dava um banho de água de sal. Eu apanhava quieta, calada. Ela num era brinquedo não... Foi quando mamãe decidiu eu vir pra Natal. Minha mãe trouxe eu obrigada, eu com 17 anos, ela me obrigou a vim pra aqui pra Natal. [...] eu vim embora, chorando na rodoviária, não queria almoçar, não queria nada, eu com a mala [...] naquela época tinha umas mala azul de compensado [...] (URUCUM).

Foram descritas reações de não aceitação, autoritárias, com emprego de castigo físico ou a pressão psicológica através da rejeição, da cobrança, do controle sobre sua locomoção. Esta resistência da família, na época em que iniciaram a vida sexual com mulheres, tendeu a ser diluída através do tempo, quando as interlocutoras conquistaram a sua independência econômica e passaram a ter uma vida autônoma na sua própria casa e com a sua família.

Todavia, a aceitação não se deu de forma espontânea, sendo acionada a resistência da interlocutora que se impôs na afirmação do seu desejo por mulheres. Urucum lembrou que sua mãe foi buscá-la de volta, quando ela foi morar com a sua primeira mulher: “Com três dias, minha mãe chegou, fez uma vergonha aqui em Natal, na frente do povo. Eu tomei o punho assim, tomei uma decisão e fiquei com ela, a gente ficamos junto nove anos”. Algumas

interlocutoras enfrentaram o diálogo aberto com a família, sobretudo com a mãe, para fazer entender a sua sexualidade. Verde Escuro relatou:

Mamãe ficou só me cobrando, que eu devia gosta de homem, que num sei o quê [...] Aí, eu fui e disse: ‘Mãe, vamo sentar aqui e vamo conversar. Tânia minha irmã, casou, a outra casou também, Carla casou, agora eu não. Eu não vou casar, eu não vou gostar de homem. Por que eu vou satisfazer a senhora e a mim não? Como é que eu ia gostar de homem, se eu gostava mulher? Se eu não sentia nada? Não tinha atração por homem.

Assim como Amarelo Ouro, Verde Escuro buscou o diálogo aberto e direto, conseguindo fazer com que a mãe iniciasse um processo de compreensão. Para algumas, o comportamento de rejeição da família não se diluiu com o tempo, guardando um registro de mágoa ou tristeza na interlocutora.

Sobre a questão geracional, o GAMI possibilita a convivência entre mulheres de várias gerações de forma fluida. As jovens que frequentam a escolinha de futebol convivem com as adultas e mais velhas nas festas, na sede do GAMI, nas ações de mobilização, no lazer.

Entre elas, não identifiquei comportamentos de desvalorização da velhice, comuns numa cultura que valoriza a juventude e discrimina a velhice. Nas festas, elas se agrupam por idade, as adolescentes e jovens permanecem em grupo e exercitam suas formas próprias de sedução, paquera, namoro, geralmente, circulando. As mais velhas também se agrupam nas festas, geralmente, sentadas em mesas. Tomam cerveja, dançam, paqueram e namoram assim como as jovens. Não percebi namoros e relações entre extremos geracionais

A distinção geracional não é percebida na rede de relação formada em torno do GAMI, todavia, é apontada fora, estabelecendo julgamento severo com uma mulher na terceira idade com performance bofe. Algumas interlocutoras da Turma das Quintas sentem esta discriminação e Coral conta:

É por causa da idade, sabe? ‘Velha'! chama logo de velha. ‘Ah, se coloque no seu lugar'. Tem homens que diz na cara da gente: ‘vocês são assim, porque ainda não sentiram isso aqui', sabe? Choca, mas a gente tem que saber sair, porque se a gente for bater aí, arriscado até a gente sofrer uma... Não só comigo, mas com muitas companheiras da minha fase, sofre isso. [...] eu já escutei também, tem coisa que eu escuto, chega me suspende, sabe? A discriminação externa e a abjeção a lésbicas velhas e bofes são sentidas pelas interlocutoras. A lesbofobia com a intolerância a lésbicas velhas. Todavia, no âmbito de suas subjetividades, elas namoram e têm vida sexual ativa, ao contrário do que seria, tradicionalmente, esperado encontrar na vida afetiva sexual de mulheres dessa faixa etária. O

estudo de Andrea Alves (2010) sobre envelhecimento, trajetórias e homossexualidade feminina aponta a mesma realidade em mulheres com mais de 60 anos.