A formação do Poder Judiciário brasileiro sofreu influências norte- americanas e européias. Assim define José de Albuquerque Rocha:
Examinando-se os fatores que condicionaram a formação do direito e Judiciário brasileiros, certificamo-nos de que estamos vinculados ao modelo europeu (romano-canônico), vínculos que se manifestam, de um lado, nas fontes formais do direito, onde a lei foi e continua sendo a fonte do direito por excelência (daí a doutrina da superioridade do legislador) e, de outro lado, no tradicional papel do juiz de subordinação à lei, ou seja, historicamente, mero aplicador das normas editadas pelo Estado através do Legislativo, de onde resulta a doutrina do papel secundário do juiz em face do legislador [...]. Entre nós prevalece a idéia de que a atitude do juiz em relação ao direito, que, basicamente, se identifica com a lei de origem estatal, é de dependência, o que vai explicar o caráter burocrático da organização judiciária, a qualidade de servidor público do juiz e seu pouco ou nenhum poder criativo302
.
Quando o liberalismo atinge o Brasil, ainda em sua fase imperial, encontra um território cuja estrutura político-administrativa era patrimonialista e
conservadora303 o que impedia o impacto que teve na Europa, nos juízes que foram
lançados à atividade de dizer a lei, tão-somente304.
No Brasil, todo o impacto que o liberalismo pôde ter disse respeito à eliminação dos vínculos coloniais com Portugal305.
A época imperial do Brasil pode ser dividida em fases. Na fase das capitanias hereditárias, o Poder Judiciário brasileiro estava nas mãos dos “juízes ordinários, almotacés, vereadores e outros funcionários, todos nomeados pelo donatário...”306. O donatário das terras era o legitimado para verificar as decisões, em
grau de recurso, exceto nas causas cíveis de valor superior a cem mil réis, nas quais o recurso de apelação seria apreciado pelo Tribunal da Corte.
Na fase das Governadorias-Gerais vigiam as Ordenações Filipinas. Neste período, a justiça de primeira instância era representada pelos ouvidores gerais, corregedores, ouvidores de comarca, provedores, juízes de fora, juízes ordinários, juízes de vintena, juízes de órfãos, almotacés, alcaides e vereadores. A segunda instância era representada pelos Tribunais de Relação instalados no Rio de Janeiro e na Bahia; as causas de valor superior a um conto e duzentos mil réis davam direito à parte recorrer ao Desembargo do Paço de Lisboa307.
O direito material aplicado era aquele vigente em Portugal na época, tipicamente individualista. O direito do povo nativo, essencialmente comunitário e igualitarista, foi ignorado308.
Quando D. João VI se muda para o Brasil, trazendo com ele a família real, inaugura-se uma nova fase, eis que o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido
303 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 119.
304 Isso, é claro, sob o manto do positivismo vigente à época. “Do positivismo jurídico resultou a atitude aparentemente descomprometida do jurista em relação ao objeto e limites de seu trabalho, tornando-o infenso à problematização, alheando-se...”. ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 150. 305 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação
de uma justiça cidadã no Brasil, p. 120.
306 ALMEIDA, José Maurício Pinto de. O Poder Judiciário brasileiro e sua organização, em especial a p. 11.
307 Nesta época o território brasileiro era dividido em doze partes doadas pelo Imperador a quem ele escolhesse através das Cartas de Doação. Sobre o histórico do Poder Judiciário no Brasil ver ALMEIDA, José Maurício Pinto de. O Poder Judiciário brasileiro e sua organização, em especial as p. 11-16.
308 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 121.
ao de Portugal e Algarves. Há um aumento considerável da população e dos conflitos, por isso, necessário foi aumentar o número de pessoas envolvidas na administração da justiça309. Nessa fase foram criados outros dois Tribunais de
Relação, o de Maranhão e o de Pernambuco; foram ainda instalados o Supremo Conselho Militar e de Justiça, o Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens, a Intendência Geral de Polícia e os Juizados Privativos. Por sua vez, o Tribunal de Relação do Rio de Janeiro foi transformado em Superior Tribunal de Justiça.
Como os juízes eram essencialmente portugueses, alguns brasileiros, mas que tinhas estreitas ligações com Portugal – seja pela exigência de status econômico e social, seja pela exigência de formação na Faculdade de Lisboa – a fidelidade à Coroa era bastante evidente. Por isso, e pela escassez de juízes na época próxima à Independência310, os liberais que cuidavam das reformas
entenderam por bem descentralizar o sistema judicial, e criaram na Carta de 1824, a Justiça de Paz e o sistema de jurados311.
Com a Constituição imperial, o Poder Judiciário ganhou relativa independência, eis que havia um controle sobre ele, exercido pelo Imperador312.
Além disso, apesar de garantir a vitaliciedade dos juízes, lhes negava a inamovibilidade e não previa a irredutibilidade de vencimentos. Em 1841 foi aprovada lei que modificou profundamente o sistema judicial. Ao que interessa para o presente trabalho, necessário saber que o liberalismo que vinha regendo o sistema
309 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 122.
310 “À medida que se avizinhava a independência, muitos juízes abandonaram o país, mas a maioria aparentemente transferiu sua lealdade ao antigo rei a seu filho. Estimava-se, em 1808, que 45% dos magistrados atuando no Brasil eram estrangeiros. Em 1928 a imprensa noticiava abertamente que o suborno aos juízes era a maior praga das províncias do Brasil.” ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 129.
311 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 130.
312 Veja-se o que dizia a respeito dos juízes: “Art. 154. O Imperador poderá suspendê-los por queixas contra eles feitas, precedendo audiência dos mesmos Juízes, informação necessária, e ouvido o Conselho de Estado. Os papéis, que lhes são concernentes, serão remetidos à Relação do respectivo Distrito, para proceder na forma da Lei.” NOGUEIRA, Octaciano. Constituições Brasileiras: 1824, Brasília: Senado Federal e Ministério da Ciência e Tecnologia, Centro de Estudos Estratégicos, 1999.
(notadamente com o sistema de jurados)313 sofreu um duro golpe eis que, com a
reforma, os juízes passaram a ser, essencialmente, nomeados pelo Imperador, e o Superior Tribunal de Justiça criado não tinha qualquer atribuição política, não podendo analisar a constitucionalidade dos atos dos outros poderes314. Os
magistrados não interpretavam as leis, julgavam de acordo com o seu texto e estavam confinados aos casos envolvendo particulares, já que, à época, havia o contencioso administrativo para os casos envolvendo os indivíduos e a Administração. Neste sentido, referindo-se inclusive a período posterior ao imperial:
O direito liberal clássico, que evidentemente não concebia a intervenção do Estado na esfera dos particulares, refletiu-se na jurisdição, espelhando a figura de um juiz inerte, que deixava a sorte do processo unicamente às partes, sem nele poder interferir nem mesmo para determinar de ofício uma prova, quando tinha consciência de que a “verdade” dos fatos estava sendo “construída” pela astúcia ou em virtude de maior habilidade de uma das partes315.
E, em outro texto:
No Estado liberal o juiz é inerte, por força mesmo dos ensinamentos de Montesquieu, onde ficava o juiz proibido de interpretar a lei. Com o Estado social o juiz para a ter mais liberdade e maior participação no processo, em relação à justiça do mesmo, a produção de provas316.
Com a promulgação da Constituição de 1891, o Poder Judiciário foi transformado em poder soberano; foi criada a justiça federal, que funcionaria concomitantemente com a estadual, e o Supremo Tribunal Federal317. Aos juízes foi
313 “O sistema de jurado foi a culminação lógica do princípio da participação popular aplicada à magistratura, personificando os ideais de autonomia judicial e localismo [...]. Tal sistema, em verdade, constituiu um ataque frontal à elite judicial. Eram os juízes de fato ou dos fatos, podendo ser analfabetos, que julgavam, sem que um juiz profissional pudesse modificar suas decisões.” (ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 130)
314 ABREU, Pedro Manoel. Acesso à justiça e juizados especiais: o desafio histórico da consolidação de uma justiça cidadã no Brasil, p. 131.
315 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do processo de conhecimento, p. 54.
316 MARINONI, Luiz Guilherme. Novas linhas do processo civil, p. 101.
317 “Art. 55. O Poder Judiciário da União terá por órgão um Supremo Tribunal Federal, com sede na Capital da República, e tantos juízes e tribunais federais, distribuídos pelo país, quantos o Congresso criar.” (BALEEIRO, Aliomar. Constituições brasileiras: 1891, p. 92)
garantida a vitaliciedade e a irredutibilidade de vencimentos318. Esse texto
constitucional previu a possibilidade de controle de constitucionalidade exercido mediante um caso concreto, com decisão válida entre as partes do processo319.
A Constituição de 1934 não trouxe modificações essenciais capazes de alterar o âmago do Poder Judiciário no Brasil. Todavia, fez inovações, criando a Justiça Militar320 e a Justiça Eleitoral321. No texto constitucional de 1937 estavam
previstas as garantias de vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos e manteve o Supremo Tribunal, sob a denominação Supremo Tribunal Federal. Em relação à atividade judicial, os textos de 1946, 1967 e 1969 não trazem mudanças. É no texto constitucional de 1988 que se percebe uma mudança drástica que deveria ser sentida e participada pelos Juízes. Provavelmente pelo momento histórico no qual se insere a promulgação da Constituição de 1988, os direitos e garantias ali expressos são motivos para uma verdadeira revolução no modo em que se percebe a justiça. Neste sentido:
Com o Estado social intensifica-se a participação do Estado na vida das pessoas e, conseqüentemente, a participação do juiz no processo, que não deve mais apenas estar preocupado com o cumprimento das “regras do jogo” cabendo-lhe agora zelar por um “processo justo”, capaz de permitir: I) a justa aplicação das normas de direito material; II) a adequada verificação dos fatos e a participação das partes em um contraditório real e não somente formal; e III) a efetividade da tutela dos direitos, com um maior zelo pela ordem no processo, com a repressão do litigante de má-fé, e com a determinação, a requerimento da parte, da tutela antecipatória, e da concessão, de ofício, da tutela cautelar322.
318 “Art. 57. Os juízes federais são vitalícios e perderão o cargo unicamente por sentença judicial. Parágrafo primeiro. Os seus vencimentos serão determinados por lei e não poderão ser diminuídos.” BALEEIRO, Aliomar. Constituições brasileiras: 1891, p. 92.
319 “Art. 59, § 1º. Das sentenças das justiças dos Estados em última instância haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: [...] b) quando se contestar a validade de leis ou de atos dos governos dos Estados em face da Constituição, ou das leis federais, e a decisão do tribunal do Estado considerar válidos esses atos, ou essas leis impugnadas.” BALEEIRO, Aliomar. Constituições brasileiras: 1891, p.93.
320 “Art. 84. Os militares e as pessoas que lhes são assemelhadas terão foro especial nos delitos militares. Este foro poderá ser estendido aos civis, nos casos expressos em lei, para a repressão de crimes contra a segurança externa do País, ou contra as instituições militares.” POLETTI, Ronaldo. Constituições brasileiras: 1934, p. 147.
321 “Art. 82. A Justiça Eleitoral terá por órgãos: o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, na Capital da República; um Tribunal Regional na capital de cada Estado, na do Território do Acre e no Distrito Federal; e juízes singulares nas sedes e com as atribuições que a lei designar, além das juntas especiais admitidas no art. 83, § 3º.” POLETTI, Ronaldo. Constituições brasileiras: 1934, p.147. 322 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do processo de conhecimento,
É certo que muitos dos direitos ali arrolados eram repetições dos textos constitucionais anteriores. Contudo, some-se a um texto profícuo em reconhecer direitos, uma sociedade ansiosa por desfazer as amarras com o autoritarismo até então vigente, e se tem a receita perfeita para a reivindicação por garantias de que os direitos ali expressos seriam respeitados.