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Histórico do Setor de Alimentos no Brasil

4. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS: PARTE 1

4.1.2. Histórico do Setor de Alimentos no Brasil

sil, segundo informações da Assoc

ós a independência, em 1822, é que começaram a surgir plantas indust

s (1963-1998) a indústria de alimentação não parou

0, constata-se uma mudança na estrutura do setor, que gradua

A industrialização de alimentos no Bra

iação Brasileira das Indústrias da Alimentação – ABIA – tem seus primeiros registros no século XVI com o ciclo do açúcar (ABIA, 1999). Neste período a concentração da produção se situava basicamente no Rio de Janeiro e na região Nordeste do país.

Somente ap

riais, envolvendo a extração de óleo comestível do carroço do algodão e, posteriormente, do beneficiamento e moagem de cereais, laticínios e bebidas (principalmente alcoólicas). De acordo com a Associação, provém de 1907 o primeiro levantamento industrial realizado em terras brasileiras. Naquela época, contabilizaram-se 87 estabelecimentos produtores de massas alimentícias, 199 de açúcar, 4 de massas de tomate e 1 de amido de milho, dentre os quais, com exceção da produção açucareira, já se verificava uma concentração industrial na região Sudeste do país (ABIA, 1999)

Nos últimos trinta e cinco ano

de crescer – sua produção industrial aumentou em média 4% ao ano, ampliando em três vezes e meia o tamanho do setor (ABIA, 1999). Em publicação recente, Sato (1997a) constata que entre os períodos de 1949 e 1972, embora se reflita uma queda na participação relativa do setor no total da produção da indústria de transformação – decorrente do incentivo à industrialização pelos programas de substituição de importações – em números absolutos, o crescimento foi significativo.

O bom desempenho dos setor, entre outros fatores, é atribuído basicamente a estes três: a taxa de crescimento da população, ao aumento da renda e o processo de urbanização (ABIA, 1999).

Ainda na década de 7

lmente, eleva a participação de produtos mais elaborados, como leite pasteurizado, conservas de pescados, frutas e legumes e condimentos, na

composição da pauta da produção do setor em detrimento de produtos tradicionais (Sato, 1997a). Belik (1995) acrescenta que a partir deste período, dois fatores são responsáveis pela transformação da dinâmica da indústria de alimentação: (i) a emergência de uma política de exportação de produtos agrícolas semi-processados e manufaturados e (ii) a consolidação de um padrão de consumo interno tipicamente urbano. Alguns dados apresentados pelo autor ilustram esse processo: no período, o Brasil elevou a participação de produtos processados, como carnes processadas, óleo e farelo de soja, suco de laranja na exportação, abandonando a posição de exportador de produtos primários, como o café46. Além disso, constatou-se ao longo desses anos a predominância do consumo de alimentos industrializados, independentemente da classe de renda (Belik, 1995).

A expansão das empresas agroindustriais nos anos 70 resultou em sua conso

0, elevou o país a um do

consumo e produção (Wilkinson, 1995).

lidação nos anos 80 – a indústria passou de abatedora, produtora de açúcar e beneficiadora, para uma indústria com maior elaboração tecnológica (Wilkinson, 1995, Belik, 1995; ABIA, 1999). Nesse período, internamente, a tendência de aumento na participação de produtos com maior valor agregado se manteve, embora o período tenha sido marcado pela recessão interna, favorecendo produtos com menor exigência de renda para a compra, aqueles com baixa elasticidade-renda. Ao longo da chamada “década perdida”, o setor acompanhou o crescimento vegetativo da população, 1,9% ao ano, taxa bem menor que nos anos anteriores, porém acima da média da indústria de transformação que, por sua vez, teve uma variação negativa em torno de 2% no período (ABIA, 1999; Carmo, 1996).

No âmbito internacional, a conjuntura favorável dos anos 7

s líderes do comércio mundial, especialmente nas commodities que, embora viessem mostrando sua força, no final dos anos 80, ofuscavam o descompasso da indústria nacional de alimentos com a evolução dos padrões internacionais de

46 Wilkinson (1995) destaca que a modernização do setor nos anos 70 se deve “à conjuntura de crescimento econômico e fortes sinergias em nível agrícola (...): a transferência da riqueza gerada pela cafeicultura para outros setores agroindustriais e o aproveitamento da infra-estrutura do complexo tritícola do Sul” (p. 33). Para o autor, “a solidez dessa estrutura explica a capacidade de resistir ao ambiente adverso dos anos 80” (p. 33).

Nos primeiros anos da década de 90, a indústria de alimentos viu seu faturamento líquido decrescer a taxas nunca imaginadas. A redução de 12,6%, em termos

ualidade e produtividade agravam a preocupação com o

econômica, depois do Plano Real, abriu espaço para que as empresas nacion

reais, menor taxa histórica do setor, alertou os produtores. A indústria alimentícia, embora seja considerada por muitos como estratégica no crescimento econômico, já que acompanha o aumento da população, estando resguardada de oscilações bruscas, não está completamente alheia à instabilidade econômica (ABIA, 1999, Carmo, 1996). Diante disso, a crença na necessidade de modernização do setor começa a ser definida47.

O processo de abertura para o mercado internacional e a necessidade de adaptação aos novos padrões de q

s ganhos em eficiência e melhoria da competitividade, reforçando a criação de programas de reestruturação das empresas do setor produtor de alimentos (Sato, 1997a; ABIA, 1999). Esse processo de ajuste não foi exclusivo do setor; pelo contrário, reflete um movimento generalizado de toda a indústria de transformação em remodelar não somente seu plano produtivo como também o financeiro. Como resultado, após alguns anos de recessão, em 1993 o crescimento industrial volta a deixar sua marca (Sato, 1997a). Ainda nesse período, constata-se aumento significativo das exportações do setor – 71% entre 1990 a 1996 – indicando que a conquista de mercados externos se infiltrou como estratégia alternativa para o destino da produção, incentivando os investimentos no setor (ABIA, 1999).

Finalmente, esse processo de reestruturação do setor também ocorreu sob a forma de aumento na concentração industrial no setor, cujo objetivo, neste momento, foi o de aumentar a escala de operação, visando a ganhos de produtividade e redução de custos fixos.

Atualmente, a indústria alimentícia continua em processo de mudança. A estabilização

ais aumentassem seus esforços em capacitação para a competitividade. Por outro lado, a melhoria do ambiente interno com o controle da inflação, elevando a

47 Até então, pode-se afirmar que o pouco investimento existente em modernização da estrutura produtiva atingia, predominantemente, a produção voltada para a exportação (ABIA, 1999).

renda real dos consumidores, contribuiu para a entrada de diversas empresas no país. Esses fatos combinados com uma redução da margem líquida média do setor (Sato, 1997a) e com a institucionalização do Mercosul, acirrando ainda mais a concorrência (Vieira, 1997), incentivaram um intenso processo de reorganização, que resultou, entre outros aspectos, num grande número de fusões e aquisições entre as empresas deste setor.

Dados do BNDES (1999) indicam que o setor alimentício, bebidas e fumo lideram a classificação de fusões e aquisições entre os anos de 1992 e 1998, respondendo por 13% do total efetivado. O Gráfico 8 ilustra a evolução ao longo desses anos.

Gráfico 8 – Evolução do Número de Fusões/aquisições no Setor de Alimento no Brasil

0 10 20 30 40 50

1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999

Fonte: BNDES (1999).

Alguns fatores são apontados para justificar essa predominância: os imentos nos países desenvolvidos estão quase estagnados, com uma p

mercados de al

opulação com baixo crescimento e o consumo de alimentos próximo da saturação; o setor de distribuição, muito consolidado nos mercados desenvolvidos, pressiona os produtores a reduzir suas margens, o que incentiva a busca de mercados menos concorrenciais; os custos crescentes em propaganda, distribuição e qualidade inviabilizam empreendimentos de pequeno porte e incentivam as

economias de escala48; alto potencial do mercado brasileiro e também do Mercosul (BNDES, 1999; Saes e Nunes, 1999; Vieira, 1997).

O ano 2000 inicia com a indústria de alimentos crescendo 8,1% em janeiro, quando comparado ao mesmo período do ano anterior. As estimativas indicam que, para esse ano, as taxas de crescimento e o faturamento total do setor aumentem 4,5% com relação ao ano de 1999, cujo faturamento foi de US$ 74,6 bilhões com uma taxa de 3,5% de crescimento. Além disso, especialistas esperam um aumento de 15% nos investimentos realizados no setor, que em 1990 registraram US$ 2 bilhões contra os US$ 15,3 bilhões do ano passado. A mesma expectativa é válida para a continuidade do movimento de desfragmentação do setor, que deve superar o número de fusões e aquisições registrados em 1999. A queda do patamar de juros, a melhoria do poder aquisitivo e o maior volume de crédito na economia são fatores que, segundo os analistas, favorecem a viabilidade dessas previsões (Capozoli, 2000a; Capozoli, 2000b).

Como conclusão dessa breve retrospectiva histórica, destaca-se que “a desregulamentação, abertura comercial e formação do Mercosul (...) ensejaram alterações no ambiente competitivo, que intensificaram concorrência, de um lado, e abriram um leque de novas oportunidades de negócio, de outro” (Farina, Azevedo e Saes, 1997, p. 230). Dessa forma, é plausível afirmar que a indústria alimentícia,

“está passando por uma verdadeira revolução (...) um salto qualitativo em relação aos primeiros beneficiamentos e transformações por que passaram os produtos agrícolas, implicando hoje em maior elaboração, acrescida de outros processamentos onde se sofistica e diferencia o produto” (Carmo, 1996, p. 213). Nas seções seguintes, a tendência atual de adaptação do setor de alimentos será acrescida de maiores detalhes.

48 Nos estados Unidos já se vê o resultado desse processo de concentração no setor, com um menor número de empresas de maior porte e escala de produção respondendo por índices cada vez maiores de participação nas vendas. Em 1955, as 50 maiores empresas possuíam 36% dos ativos do setor, em 1995 esse valor alcançou 85%. O número total de empresas processadoras de alimentos caiu de 42 mil em 1950 para 16 mil em 1995 (Chaddad, Lazzarini e Neves, 1999).