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4 ANÁLISE DOS RESULTADOS

4.2 Análise das entrevistas

4.2.1 Histórico dos entrevistados e classificações

Antes de iniciar a análise do processo de resiliência dos estudantes participantes da pesquisa, torna- se necessário apresentar e analisar o background dos entrevistados. Busca-se entender como e por que o discente ingressou no curso de Ciências Contábeis, analisando, para isso, o histórico escolar e familiar do indivíduo. Para a construção do background dos participantes foram utilizados o primeiro e segundo macrocontextos do roteiro de entrevista, além da primeira atividade requisitada no início do terceiro macrocontexto, conforme apresentado no APÊNDICE B. De acordo com as explicações apresentadas no capítulo 3, a entrevista semiestruturada contava com duas atividades realizadas no terceiro macrocontexto que possuíram o objetivo principal de coletar informações por meio de diferentes perspectivas, permitindo a triangulação dos fatos e, assim, uma melhor compreensão do fenômeno estudado (Arksey & Knight, 1999) e, ainda, trazer dinamismo para as entrevistas que apresentaram duração média de mais de uma hora. As análises realizadas para cada um dos entrevistados, as quais estão apresentadas do subtópico 4.2.1.1 ao subtópico 4.2.1.25, mostram-se essenciais para o processo de imersão na realidade dos participantes, condição necessária nas pesquisas de cunho fenomenológico, trazendo maior clareza para o fenômeno investigado (Smith, Flower, & Larkin, 2009).

4.2.1.1 Histórico e classificação da entrevistada E1

A entrevistada E1 nasceu na cidade de São Paulo, mas sempre morou em Osasco, região metropolitana da capital paulista, com seus pais. Quando realizou a entrevista, a discente, que tinha 22 anos, contou ser a filha mais nova de três. Suas respostas ao questionário aplicado na primeira etapa da pesquisa indicam que a participante estava solteira, quando participou do estudo, e se autodeclarava branca. Não possuía filhos nem outros dependentes.

E1 declarou ter cursado todo o ensino fundamental e médio em uma escola filantrópica vinculada a uma instituição financeira (benefício concedido aos filhos dos colaboradores). Seu pai trabalhou toda a vida nessa empresa e, bem depois de finalizar o ensino médio, cursou graduação em Administração. A mãe de E1, por sua vez, trabalhou na maior parte do tempo como escrivã e, também, cursou administração bem depois de finalizar o ensino médio. De acordo com a entrevistada, não houve pressão de seus pais para que a discente precisasse trabalhar antes de ingressar no ensino superior.

Apesar da proximidade entre a formação de seus pais e a área de Ciências Contábeis, E1 considera que foi a atuação de seu pai no banco o que a influenciou na escolha da carreira, conforme explica a discente:

Os dois fizeram Administração. E o meu pai, ele foi mais... ele exercia mais influência sobre mim, porque eu via ele trabalhando no banco, ele ia todo arrumado; e todo fim de ano tinha a festa do banco, não é, e aí podia levar a família; e eu achava super legal, não é, eu falava: Nossa, eu quero. E aí eu acho que isso acabou me influenciando bastante, até o que eu faço hoje, não é? (Entrevistada E1) E1 finalizou o ensino médio em 2013, mas não conseguiu ingressar em uma instituição pública, que era o seu sonho, na primeira tentativa. Apesar de ter sido aprovada no curso de Engenharia em uma IES privada de São Paulo quando finalizou o terceiro ano, preferiu realizar um ano de cursinho para tentar a FUVEST novamente.

O curso de Ciências Contábeis na FEA/USP, portanto, foi o primeiro curso superior a que ela teve acesso, ingressando em 2015, no turno matutino. Porém, Contabilidade não foi a sua primeira opção no vestibular da FUVEST. A primeira opção foi Ciências Econômicas diurno, a segunda foi Administração diurno e a terceira, Ciências Contábeis diurno. Apesar de Contábeis não ter sido a sua primeira opção no processo seletivo, E1 disse não ter ficado triste com o resultado. Em suas palavras:

Olha, sendo sincera, minha vontade era entrar na USP. Tanto que, para mim, assim... é que o meu ano de Cursinho, eu acho que para todo mundo, não é? É um ano bem tenso; então, assim, a única coisa que a gente pensa é passar no Vestibular, assim. Tanto que, eu lembro, quando eu vi que eu passei, que saiu a lista, eu falei, assim: Nossa, passei. Parecia, que, pronto, assim, a minha missão na Terra está cumprida, sabe? Já passei na USP. Era isso. E aí depois que eu fui pensar: Ai, meu Deus, agora eu tenho que estudar, não é? (Entrevistada E1)

Durante a graduação, a entrevistada estagiou e estudou concomitantemente durante 3 semestres, inclusive trabalhava quando participou da entrevista. Quando realizou a entrevista, E1 pretendia se formar com um semestre a mais do que o período normal, pois realizou intercâmbio para a Suíça, o que atrasou a realização de algumas disciplinas. Seu objetivo inicial, contudo, era se formar em quatro anos exatos, o que gerava uma pressão por um bom desempenho na discente, conforme explica:

Até que, no início, a minha ideia era me formar em quatro anos, não é? Depois que eu voltei do intercâmbio, eu vi: “Ah, não. Tudo bem, eu vou ficar mais um semestre”. Mas, no início, eu queria muito me formar nos quatro anos; então, acho que isso me gerava um stress, também. (Entrevistada E1)

A Figura 13 apresenta o posicionamento da entrevistada E1 no modelo teórico desenvolvido pela tese, tendo em vista o seu resultado para a primeira (nível de stress e adversidade) e a segunda etapa (nível de satisfação e comprometimento com a carreira contábil) do questionário aplicado na primeira parte da pesquisa. O primeiro gráfico, construído com base na metodologia bruta, apresentado na Figura 13, indica que E1 estaria classificada como “Indo Bem”. Já pela metodologia padronizada, E1 estaria classificada como burnout precoce (muito próxima da fronteira com o grupo Resiliente). Por fim, a Figura 13 apresenta, ainda, um terceiro gráfico obtido no momento da entrevista, durante a primeira atividade vinculada ao terceiro macrocontexto (vide roteiro apresentado no APÊNDICE B), conforme explicações apresentadas no subtópico 3.2.3. Como é possível notar, a autodeclaração da discente E1 indica que ela estaria no grupo “Indo Bem”, próximo da fronteira com o grupo Resiliente.

Figura 13: Classificações da entrevistada E1

Conforme evidenciado na Tabela 18, na primeira parte do questionário, E1 atribuiu nota sete para a terceira assertiva “Eu tive dificuldade para conciliar minha vida pessoal com a vida acadêmica” e nota seis para a primeira “Eu tive dificuldade para acompanhar as disciplinas por causa da minha rotina fora do ambiente acadêmico”, segunda “Eu tive dificuldade para me identificar com os

professores que ministraram disciplinas durante o curso” e quarta “Eu tive dificuldade para me adaptar ao ambiente acadêmico” assertivas.

Pela entrevista realizada com E1 foi possível perceber que a discente apresenta autocobrança elevada, principalmente para manter um bom padrão de notas. O processo de adaptação ao ambiente universitário, com professores utilizando diferentes metodologias, foi ainda mais desafiador para a discente, conforme demonstra a passagem:

Então, como... como o que eu até falei, no início, eu me preocupava muito com a nota, sabe; com a média, e tudo mais. Então, isso, eu acho que a maior parte do

stress está nisso; porque, hoje em dia, já não está tanto assim. Mas eu... eu me

preocupava muito, porque eu não sabia qual seria o nível de exigência dos professores... a cada semestre muda o professor; então, eu não sabia muito bem. Mas eu me preocupava mais com isso mesmo, manter boas notas; e eu tinha muito pavor de pegar Reaval, sabe; eu ficava: “Ai, meu Deus, se eu pegar Reaval, eu vou reprovar”. (Entrevistada E1)

Já para a segunda parte do questionário da pesquisa, utilizada para mensurar a satisfação e o comprometimento dos participantes com a carreira na área contábil ao final do curso, E1 atribuiu notas que variaram de quatro a dez. Para a sétima assertiva “Eu penso que a profissão contábil é importante para a sociedade”, por exemplo, a entrevistada atribuiu a nota máxima. Já para a quarta assertiva “Eu tenho planos para me desenvolver na carreira contábil”, a discente atribuiu nota quatro, o que pode ser preocupante, visto que indica que E1 tem uma baixa pretensão de se desenvolver na área na qual está se formando.

4.2.1.2 Histórico e classificação do entrevistado E2

O entrevistado E2, que quando realizou a entrevista tinha 30 anos, declarou-se pardo e disse ter um irmão mais velho. Nasceu e cresceu em São Paulo, na região de Interlagos. Por volta dos 18 anos, seus pais se separaram e E2 continuou morando com a mãe até se casar, aos 22 anos. Apesar dos pais de E2 não terem ensino superior, eles sempre o incentivaram a estudar. E2 realizou todo o ensino fundamental e médio em escola pública e, após esses ciclos educacionais, ingressou no curso de Administração de Empresas em uma instituição de ensino privada de São Paulo com bolsa de 100% do PROUNI. Concluiu o ensino superior em quatro anos, trabalhando e estudando ao mesmo tempo desde o início da graduação.

Realizou um estágio, em 2007, na área tributária, experiência que o aproximou da área de Contabilidade. Após finalizar o curso de Administração de Empresa, aos 22 anos, iniciou o curso

de Ciências Contábeis em uma segunda instituição privada localizada na cidade de São Paulo. Recém-casado, E2 relatou problemas para se organizar financeiramente, sendo obrigado a trancar o curso ao final do primeiro semestre com dificuldade para pagar as mensalidades, conforme explica o discente:

Bem nessa época, eu casei, tinha 22, para 23 anos. Eu casei, e ingressei no Curso de Ciências Contábeis, da Universidade I [nome fictício]. Só que foi um período meio... bem conturbado assim, porque eu não consegui me organizar financeiramente, estava pagando dívida de casamento, e tudo mais; fiz um semestre, e tranquei; e, tipo, foi a decepção, não é? Fiquei amargurado, triste, e tal; porque eu queria estudar realmente, e não tinha condições financeiras.

Para não desistir da segunda formação na área contábil, iniciou o cursinho preparatório para o vestibular da FUVEST da Escola Politécnica da USP (Poli/USP), com o intuito de ingressar na FEA/USP. No primeiro ano do cursinho, em 2012, estudava apenas aos sábados, pois já trabalhava em tempo integral e tinha dificuldade de chegar no campus da USP no Butantã. Não conseguiu aprovação na FUVEST nessa primeira tentativa e, em 2013, realizou novamente o cursinho, porém estudava durante a semana no período noturno. Nessa segunda tentativa obteve sucesso e iniciou o curso de Ciências Contábeis no primeiro semestre de 2014. Nas palavras do entrevistado:

Então, eu ingressei num Cursinho, chama Cursinho da Poli, que era o que ficava aqui na Poli mesmo, mas depois saiu e ficou independente, não é? Eles são um Cursinho mais social, e tal. Aí eu fiz 2012 e 2013, o Cursinho da Poli; fiz o primeiro ano só de sábado, eu trabalhava já, não é? Tempo integral; é, e estudava de sábado. E depois, em 2013, eu... como eu não passei, em 2012, passei só na primeira fase; na segunda, não. Eu resolvi intensificar, não é? Falar: “Não, vamos todo dia, que... eu acho que vai”. Aí, em 2013, eu fiz à noite, prestei o Vestibular, passei, eu estou aí. (Entrevistado E2)

E2 passou toda a graduação trabalhando e estudando concomitantemente. Chegou a mudar de emprego três vezes durante o curso (até o momento de realização da entrevista) e se divorciou da esposa no decorrer da graduação em Ciências Contábeis, o que foi um momento delicado para o discente, que chegou a procurar ajuda profissional, conforme explica o entrevistado:

Foi importante, no momento que eu estive casado, eu tive muito suporte, ali, na fase do divórcio, foi complicado. Eu tive... aí, sim, eu tive que buscar apoio profissional, porque estava tendo crise de pânico. (Entrevistado E2)

A Figura 14 apresenta o posicionamento do entrevistado E2 de acordo com as categorias desenvolvidas pelo modelo teórico da tese (vide tópico 2.4). A partir dos resultados obtidos para a primeira e segunda partes do instrumento aplicado pela pesquisa, é possível constatar que, pela

metodologia bruta, o entrevistado E2 se posiciona no quadrante referente aos discentes que estão indo bem. Já pela metodologia padronizada, o discente foi classificado como resiliente (na fronteira com o quadrante indo bem). Por fim, a autoclassificação realizada pelo discente durante o terceiro macrocontexto da entrevista também mostra um posicionamento como resiliente, porém distante da classificação indo bem.

Conforme evidenciado na Tabela 18, para as assertivas utilizadas para mensurar o nível de stress e adversidade vivenciados pelos discentes ao longo do curso, as quais foram apresentadas na primeira parte do questionário da pesquisa, o entrevistado E2 atribuiu nota oito para a primeira “Eu tive dificuldade para acompanhar as disciplinas por causa da minha rotina fora do ambiente acadêmico” e nota sete para a terceira “Eu tive dificuldade para conciliar minha vida pessoal com a vida acadêmica” bem como para a sétima “Eu tive dificuldade para acompanhar o curso em função do deslocamento diário até a universidade” assertivas.

Figura 14: Classificações do entrevistado E2

Já para as sentenças utilizadas para mensurar a satisfação e comprometimento dos participantes do estudo em relação à carreira contábil, apresentadas na segunda parte do instrumento, E2 atribuiu notas que variaram de 7 a 9, sendo as menores notas vinculadas à segunda “Eu estou seguro em

relação ao conhecimento que adquiri ao longo do curso para atuar na área contábil” e quarta “Eu tenho planos para me desenvolver na carreira contábil” assertivas.

4.2.1.3 Histórico e classificação do entrevistado E3

O entrevistado E3, autodeclarado pardo e que tinha 29 anos quando participou da pesquisa, nasceu e cresceu em São Paulo, sendo o primeiro filho de três. Quando concedeu a entrevista, E3 morava com os pais, no bairro Jaguaré, próximo à USP. Estudou em colégio particular, com bolsa de estudos, pois sempre teve bom desempenho acadêmico, conforme destaca o discente:

...eu tinha assim... eu sempre tive bolsa nos colégios, porque eu era um bom aluno. Então, no ensino médio, por exemplo, eu nem pagava o colégio. Estudei sempre em colégio bom... e depois, foi natural estudar numa universidade pública. (Entrevistado E3)

Os pais de E3 não tiveram oportunidades de estudo, de acordo com o entrevistado. Seu pai é filho de empregada doméstica e possui seis irmãos. Sua mãe ficou órfã na adolescência e cresceu em um orfanato, chegando a cursar Educação Física após ter filhos. Apesar disso, a família de E3 apresentava uma boa condição financeira e sempre incentivou que os filhos estudassem, tanto que os dois irmãos de E3 também estudaram em escola particular, sem bolsa. Apesar de ter ensino superior, a mãe de E3 não exercia a profissão, quando E3 realizou a entrevista, seu pai era sócio em uma empresa que realiza eventos audiovisuais.

Durante o ensino médio, E3 realizou o curso técnico em Mecânica no SENAI, que era gratuito, no período da tarde. Ao final do terceiro ano, em 2008, objetivando complementar a formação técnica em Mecânica, prestou a FUVEST para o curso de Engenharia Aeronáutica, mas não conseguiu passar para a segunda fase do processo seletivo. No ano seguinte, realizou cursinho em uma instituição particular, também como bolsista, e conseguiu ingressar em Engenharia na Poli/USP. Quando questionado se o curso técnico influenciou a sua escolha para o ensino superior, E3 respondeu:

Então, influenciou; porque, inicialmente, eu queria fazer Engenharia Mecânica, para dar meio que continuidade... mas só para dar continuidade... em relação ao Curso Técnico, não é? Que, na verdade, eu não gostava de Engenharia Mecânica, não é? De mecânica; eu queria fazer Engenharia Civil, mais porque eu queria construir coisas grandes, e poder falar, poder fazer a diferença, do tipo: “aquela ponte, eu participei. Aquela estrada, eu participei”. Eu queria... contribuir com isso no mundo, assim, sei lá, fazer a minha parte. (Entrevistado E3)

Na época em que ingressou na USP, a Poli apresentava uma entrada unificada para engenharia e, após o ciclo básico, o discente escolhia a especialidade, sendo as vagas distribuídas com base no desempenho obtido até então. Após cursar as disciplinas básicas, E3 teve maior interesse pela área de Engenharia Química, que, de acordo com E3, era a carreira mais disputada na Poli/USP na época, mas não conseguiu ingressar na primeira opção, ficando em Engenharia Civil. Apesar de se mostrar frustrado por não conseguir ingressar em sua primeira opção, o discente mostrou gostar bastante da atuação na área de Engenharia Civil.

Durante a sua primeira graduação, E3 realizou dois anos e meio de estágio em duas empresas de setores distintos. Na primeira, trabalhava em uma organização de pequeno porte da área de Real

Estate, com atividades voltadas para o planejamento financeiro, sendo esse o primeiro contato que

o entrevistado teve com temas da área de Contabilidade. Posteriormente, ingressou no segundo estágio, dessa vez em uma empresa de grande porte responsável por trabalhos na área de engenharia de solos, mais voltada, portanto, para a área de Engenharia Civil. E3 demonstrou ter gostado das duas experiências profissionais que teve durante o curso de Engenharia, mas destaca a importância da segunda, pois tratava diretamente com assuntos da área que estava se formando. Em suas palavras:

É, então. Eu fiz estágio em duas empresas diferentes, foram 02 anos e meio de estágio que eu fiz, até terminar a Poli; e foi em duas empresas, também, de setores diferentes; eu fiz numa empresa que era de planejamento financeiro, então era bastante coisa bem parecida com as matérias da FEA, mas tinha bastante Matemática Financeira; e aprendi bastante de Economia, Matemática Financeira, sobre Área de Real Estate, que eu trabalhava com empreendimentos imobiliários, era bem Real Estate mesmo. Foi, foi interessante, eu gostei bastante de ver essa parte; porém, eu pensei assim: “Pô, eu estou fazendo Engenharia, eu tenho que fazer... trabalhar com Engenharia”; essa empresa, ela era bem pequenininha, e eu não tinha possibilidade de ser efetivado; desde o início, eles já tinham me falado isso, não é? Que só tinham cinco pessoas na empresa. E aí eu fui para uma empresa grande de engenharia, que era uma empresa que fazia projetos; era uma empresa, era a maior empresa de projetos na área, não é? Trabalhava com projeto de estrada. E aí eu trabalhava numa área chamada Geotecnia, que é uma área - só para entender -, uma área que faz toda a parte de Engenharia de Solos; então, fazia fundações, contenções, túneis, aterros. Isso é uma área de Engenharia Civil; é, eu trabalhava na maior empresa do setor. (Entrevistado E3)

Quando terminou a graduação, em 2015, o mercado passava por um período de recessão, e E3 não conseguiu ser efetivado na empresa que estava estagiando, o que lhe gerou uma forte desmotivação. Os planos de E3 para o desenvolvimento na carreira como engenheiro civil consistiam em ficar um ano atuando no mercado e posteriormente realizar um mestrado na área. Contudo, prevendo que

não conseguiria se inserir profissionalmente, optou por realizar uma segunda graduação, dessa vez na área de negócios. De acordo com o entrevistado, a escolha pelo curso de Ciências Contábeis não se deu pela atuação em si, mas pelo fato de o curso ter um período de quatro anos e de possibilitar um contato com múltiplas áreas do conhecimento, como Direito, Administração e Economia.

Na Figura 15 está evidenciado o posicionamento de E3 no gráfico do modelo teórico elaborado pela pesquisa, apresentado no subitem 2.4, considerando as respostas dadas pelo entrevistado para o questionário aplicado na primeira etapa da pesquisa para as assertivas relacionadas ao stress e adversidade vivenciados durante o curso de Ciências Contábeis, assim como a atual satisfação e comprometimento com a carreira na área.

Figura 15: Classificações do entrevistado E3

Conforme discutido anteriormente, com base nas informações coletadas pelo questionário da pesquisa, foram construídos os índices ISA (eixo X) e ISC (eixo Y) e, ainda, calculadas duas metodologias, a bruta e a padronizada. Todas essas informações estão apresentadas na Figura 15, que apresenta, ainda, a autodeclaração dada pelo discente, durante a primeira atividade realizada ao longo da entrevista semiestruturada.

Como é possível notar, nas três metodologias apresentadas (bruta, padronizada e na autodeclaração), E3 está posicionado no quadrante referente ao grupo indo bem. Esses resultados indicam que o stress e adversidade vivenciados pelo discente ao longo do curso não foram elevados, ao passo que a sua satisfação e comprometimento com a área contábil estão elevadas. Contudo, é importante destacar que, pela metodologia padronizada, que considera o posicionamento do discente no grupo em que ele está inserido, E3 encontra-se próximo do quadrante referente ao grupo com problema vocacional. Esse resultado, em específico, sinaliza um possível problema de identificação com a carreira na área contábil.

Ao longo da entrevista foi possível notar que E3, apesar de ter gostado da formação na área contábil ainda se vê predominantemente como Engenheiro. Quando questionado sobre como se definiria, caso alguém perguntasse qual a sua atuação, o entrevistado pondera:

Uhn. Nossa. Ah, é muito difícil. Acho que eu tenho que falar Contador, porque é... porque eu estudo muito mais Contabilidade agora, do que Engenharia; mas, no