2 CONSTRUÇÃO SOCIAL DO MEDO E “CLASSES PERIGOSAS”
2.1 Historicidade do mito das “classes perigosas” no Rio de Janeiro
A busca pelo entendimento do contexto histórico em volta do surgimento do mito das “classes perigosas”, concomitantemente com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (abordado ao longo desse estudo), torna-se fundamental, pois a mídia possui destaque na reprodução/conservação dos fatos, de modo que, dependendo de sua abordagem, garante maior controle nas práticas hegemônicas exercido pelas classes dominantes. Isto é, a construção e manutenção de uma memória histórica são primordiais no que se refere à disputa pela hegemonia. Tendo em vista que, segundo Coimbra (2001):
Ao produzir real, fantasias, verdades através de falas autorizadas, os mass media produzem também uma certa história, uma certa memória, esquecimentos, lembranças. A esta “história oficial”, também chamada de
“ótica dos vencedores” opõe-se um outro real com outras verdades, outras histórias e memória produzidas por práticas sociais não hegemônicas: as práticas dos que ficaram conhecidos como os “vencidos”. Essa “história marginal” é forjada pelos diferentes grupos e movimentos sociais nas suas lutas, no seu cotidiano, nas suas resistências e teimosia – muitas vezes subterrâneas e invisíveis – em produzir outras maneiras de ser, de viver, outras sensibilidades e percepções, outras formas de existir. Estas, por vezes, são abertamente desqualificadas ou simplesmente ignoradas pelas visões dominantes. (COIMBRA, 2001, p. 51).
Na teoria social de Marx o materialismo histórico possui papel imprescindível, pois este ressalta a importância dos processos históricos como algo contínuo na formação social dos homens. Ou seja, a história enquanto ciência representa um guia de estudo primordial em relação ao método marxista, ao ser interpretada através de seus aspectos políticos e ideológicos. Assim, podemos relacioná-lo a questão da criminalização da pobreza, que não surgiu no século XXI, porém, devido ao desenvolvimento dos meios de comunicação, ganhou proporções maiores.
A matéria de que fala Marx é a matéria social, isto é, as relações sociais entendidas como relações de produção, ou seja, como o modo pelo qual os homens produzem e reproduzem suas condições materiais de existência e o modo como pensam e interpretam essas relações. A matéria do materialismo histórico-dialético são os homens produzindo, em condições determinadas, seu modo de se reproduzirem como homens e de organizarem suas vidas como homens. Assim sendo, a reflexão não é impossível. Basta que percebamos que o sujeito da história, seu agente, embora não seja o Espírito, é sujeito: são as classes sociais em luta.
(CHAUÍ, 2008, p.55).
De acordo com a descrição feita por Chalhoub (1996), a expressão “classes perigosas” surgiu na primeira metade do século XIX. Este cita o exemplo da escritora inglesa Mary Carpenter, que, em seu estudo da década de 1840 sobre criminalidade e “infância culpada”14 utiliza a expressão para caracterizar um grupo social formado à margem da sociedade civil.
... Para Mary Carpenter, as classes perigosas eram constituídas pelas pessoas que já houvessem passado pela prisão, ou as que, mesmo não tendo sido presas, haviam optado por obter o seu sustento e o de sua família através da prática de furtos e não do trabalho. Em suma, à expressão é utilizada aqui de forma bastante restrita, referindo-se apenas aos indivíduos que já haviam abertamente escolhido como estratégia de sobrevivência que os colocava à margem da lei. (CHALHOUB, 1996, p. 20).
Desde o final do século XIX, já se encontravam presentes nas elites brasileiras concepções que caracterizavam as classes pobres pelo princípio da periculosidade, pois se temia o que determinados indivíduos pudessem vir a fazer.
Segundo essa ideia, dependendo de uma determinada natureza (pobre, negro, semialfabetizado, morador de periferia, etc.) a pessoa se apresenta como um criminoso em potencial.
Para justificativa de tal pensamento, foram apresentadas algumas teorias que embasaram “cientificamente” a periculosidade das classes pobres, como as teorias racistas, o eugenismo, a teoria da degenerescência e o movimento higienista.
O mito de “classes perigosas” no Brasil está intrinsecamente relacionado ao longo período de escravidão, uma herança de mais de três séculos, considerada à época como fato natural, justificado por uma ciência racionalista que se fortaleceu na Europa em meados do século XIX, em especial do negro, por intermédio de teorias racistas. Fato primordial para tornar tal conceito como um dos eixos de um importante debate parlamentar ocorrido na Câmara dos Deputados do Império do Brasil nos meses que se seguiram à lei de abolição da escravidão, em maio de 1888. Os parlamentares mostraram preocupação com as consequências da abolição para a organização do trabalho, e trouxeram para pauta na ocasião, a discussão de um projeto de lei sobre a repressão à ociosidade. A comissão parlamentar encarregada de tal função buscou os fundamentos teóricos para formulação do projeto de lei em autores europeus.
14 Termo utilizado no século XIX que equivale aos nossos “meninos de rua”.
Na verdade, o conceito de classe perigosa dava o fundamento teórico para o grande debate pós-abolição. A relação trabalho/ociosidade/criminalidade enriquecia o debate parlamentar por uma lei de repressão à ociosidade.
Estavam presentes nesse debate os mesmos fundamentos teóricos da estratégia de atuação da polícia para as primeiras décadas do século XX. A preocupação primordial de garantir que, com a abolição da escravidão, os negros continuassem sujeitos ao trabalho, criou a estratégia da suspeição generalizada, com os afro-brasileiros vistos como suspeitos preferenciais.
(MALAGUTI BATISTA, 2003, p.38).
Nesse contexto já estamos muito distantes da definição de “classes perigosas” proposta por Mary Carpenter. Fica a dúvida se os deputados ao utilizarem a fórmula “classes pobres e viciosas”, consideravam as palavras “pobres”
e “viciosas” como sinônimas, e assim, todos os pobres seriam viciosos. Caso o contrário, existiria a possibilidade de termos “bons” pobres (honestos e trabalhadores) e pobres viciosos (membros potenciais das classes perigosas).
Caio Prado Jr. (2001) aponta a preocupação com a ociosidade daqueles que eram considerados “vadios” desde o período colonial e como esse pensamento perdurou até a República.
Nas cidades, os vadios são os mais perigosos e nocivos, pois não encontram, como no campo, a larga hospitalidade que lá se pratica, nem chefes sertanejos prontos a engajarem sua belicosidade. No Rio de Janeiro era perigoso transitar só e desarmado em lugares ermos, até em pleno dia.
O primeiro intendente de polícia da cidade tomará medidas enérgicas contra tais elementos. Mas o mal se perpetuará, e só na República, ninguém o ignora, serão os famosos “capoeiras”, sucessores dos vadios da colônia, eliminados da capital. (PRADO JR., 2001, p. 284).
Com isso, concordamos com Chalhoub (1996) quando o mesmo afirma que para os deputados a principal virtude do bom cidadão é o gosto pelo trabalho, e este resulta no hábito da poupança que se reverte em conforto para o cidadão. Assim, o indivíduo que não consegue acumular, que vive na pobreza, torna-se suspeito de não ser um bom trabalhador. Como o maior vício considerado na época era o não-trabalho, a ociosidade, entendia-se que aos pobres faltava a virtude social mais essencial para condição de cidadão, logo, dada a expressão “classes pobres e viciosas”, percebemos que as palavras “pobres” e “viciosas” eram sinônimas para os parlamentares.
Posteriormente, num período curto, mas já na época da República, temos o exemplo do Código Penal de 1890. Pelo artigo 399º do Código Penal de 1890
sofreria pena de “de prisão cellular por quinze a trinta dias” aquele que “deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de ocupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes”. Vagamente amplo, neste artigo poderiam incidir quaisquer populações que não possuíssem trabalho legal ou aqueles que morassem em cortiços, por exemplo. Sabemos, claramente, que não se depende apenas de escolhas individuais a formalidade do trabalho ou a habitação que se ocupa, desta forma, considera-se a noção de que a pobreza de um indivíduo era fato suficiente para torná-lo um malfeitor em potencial.
Ou seja, a República deu continuidade às mesmas questões que preocupavam as classes abastadas no Império, cabe ressaltar que para Florestan Fernandes (1987):
... a Primeira República preservou as condições que permitiam, sob o Império, a coexistência de “duas Nações”, a que se incorporava à ordem civil (a rala minoria, que realmente constituía uma “nação de mais iguais”), e a que estava dela excluída, de modo parcial ou total (a grande maioria, de quatro quintos ou mais, que constituía a “nação real”). (FERNANDES, 1987 p. 206).
Desta maneira, foram elaboradas as estratégias de ação da polícia nas grandes cidades brasileiras. A polícia – instituição legal encarregada de fazer cumprir as leis – atuava a partir do pressuposto da suspeição generalizada, onde todos os cidadãos eram suspeitos, em especial os mais pobres. A utilização de métodos coercitivos de repressão, legitimados pelo Estado, teve como justificava a preocupação com a possível vadiagem e ociosidade, pois, com o fim da escravidão e das práticas tradicionais (da relação senhor x escravo), era necessário garantir que os negros libertos se sujeitassem a trabalhar nos novos padrões de produção capitalista que se desenvolviam na época.
No Brasil a difusão do medo do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado das massas empobrecidas. O ordenamento introduzido pela escravidão e a implantação da República (fenômenos quase concomitantes) não romperam jamais aquele ordenamento. Nem do ponto de vista sócio-econômico, nem do cultural. Daí as consecutivas ondas de medo da rebelião negra, da descida dos morros. Elas são necessárias para a implantação de políticas de lei e ordem. (MALAGUTI BATISTA, 2003, p. 21).
Além da divisão étnica da pobreza, no início do século XX aprofundou-se a divisão territorial da pobreza, com as reformas urbanas, responsáveis pelo aumento da exclusão da população pobre, que, considerada perigosa, foi literalmente jogada nas periferias ou então nos morros. Espaços onde, segundo o discurso hegemônico, vicejam a violência, o banditismo e a criminalidade. Ou seja, tais reformas urbanas, como a elaborada no Rio de Janeiro pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX, tinham como objetivo criar espaços que teriam o poder de disciplinar política, higiênica e moralmente as “classes perigosas” e a pobreza, que, em sua natureza, é vista como um iminente perigo social.
Contudo, cabe ressaltar que a composição urbana da cidade do Rio de Janeiro já vinha se articulando, através dessa divisão territorial, pautada na composição étnica, desde o período escravocrata. Nesse sentido, Campos (2010) nos traz uma analogia interessante ao comparar os espaços do quilombo e da favela ao considerar ambos como locais de resistência a ordem vigente.
Assim, esse mesmo autor, resgata a questão do espaço estigmatizado, e demonstra que o quilombo marcava uma forma de resistência ao regime escravocrata, legitimado pela ordem imperial, enquanto a favela, desde sua origem até os dias de hoje, é encarada como um espaço de resistência dos moradores no âmbito da defesa pela permanência em seu local de moradia.
A cidade do Rio de Janeiro aprofundava ainda mais a separação entre “nós” e
“eles”, abordada no capítulo anterior, por isso torna-se primordial compreendermos a importância do quilombo e da favela na construção de uma identidade espacial.
Ainda mais ao consideramos tal cidade, que vive uma constante crise de habitação desde a chegada da Família Real ao Brasil no ano de 1808.
Sendo assim, vemos que estrutura urbanística do Rio de Janeiro é influenciada diretamente pelas questões sociais latentes no período imperial, assim como após a abolição, e, posteriormente, na transição para a República, se manteve o caráter excludente nessa composição. A abolição não garantiu aos negros o acesso às terras, pelo contrário, aprofundaram-se as restrições, o que, nesse período, legitimava a intervenção policial e o uso legal da violência por parte do Estado, já se tornava evidente que a inviolabilidade do lar era seletiva, tal como os dias atuais.
No final do século XIX e início do século XX, estava claro que o projeto de cidade pensado para o Rio de Janeiro, não considerava os negros como parte da
composição urbana, pois ao negar tal fato, os governantes buscavam uma aproximação étnica e cultural da Europa. Logo, concordamos com Campos (2010), ao afirmar que: “A construção da nação não se fez homogênea; porém, o “Outro”, não de forma clara, continuou muito diferente, não somente na cor, mas em todas as atividades, consideradas quase sempre como inferiores.” (CAMPOS, 2010, p. 50).
Com isso, cabe considerarmos o contexto histórico que resultou nas reformas urbanas na cidade do Rio de Janeiro. A questão relacionada à urbanização esteve centrada ao longo do Império e durante os primeiros anos na República Velha, na forma de habitação popular e o combate aos cortiços15 possuía destaque.
Segundo Campos (2010), ao pensarmos sobre a expansão urbana no Rio de Janeiro, não podemos afirmar a contribuição direta da proliferação dos cortiços para tal desenvolvimento, tendo em vista que estes se encontravam concentrados na região central da cidade. Entretanto, seus desdobramentos, analisados a seguir, demonstram relação com o surgimento das primeiras favelas.
A preocupação das classes dominantes com o crescimento dos cortiços na cidade do Rio de Janeiro teve seu início a partir das décadas de 1850 e 1860, fato relacionado ao aumento do fluxo de imigrantes portugueses e ao crescimento do número de escravos alforriados. Outro fator determinante foi que nesse período, tornava-se cada vez mais comum que os escravos cativos conseguissem autorização de seus senhores para viverem “sobre si”. Essa permissão era algo mais comum entre os escravos da Corte que adquiriam maior autonomia – o que facilitava as jornadas extras de trabalho com o objetivo de juntar dinheiro suficiente para comprar a alforria - e levavam uma vida praticamente igual em relação à população livre da cidade. Para os senhores a vantagem estava no fato de desobrigá-los das despesas com o sustento dos escravos.
Os cortiços se mantiveram no centro das discussões sobre urbanização por tanto tempo devido a dois motivos que eram enfatizados nos discursos da época:
primeiro pelas denúncias que apontavam tais espaços como epicentros mais comuns das propagações de epidemias, e segundo, pelo fato de serem focos potenciais de agitações populares, tendo em vista que eram residências de um
15 Habitações coletivas, precárias tanto em seu sentido estrutural quanto no social, pois eram locais de condições de higiene e saneamento mínimas e serviam de abrigo para as classes mais pobres, fato que ampliava o preconceito das classes dominantes em relação a esses espaços. Ficou amplamente reconhecido na literatura nacional pelo romance de Aluísio de Azevedo.
número elevado de trabalhadores, imigrantes em sua maioria, que viviam no limite da subsistência.
Em meados de 1866, já havia, por parte do Estado, pautada pela “ideologia da higiene”, uma iniciativa sobre a proibição para construção de novos cortiços, assim como a reconstrução dos já existentes, medida esta que entrou em vigor no ano de 1873.
Com a proliferação descontrolada dos cortiços a discussão referente à insalubridade oriunda dos mesmos teve início, pois era considerada questão crucial para o combate aos focos de epidemias, principalmente em ruas estreitas e proximidades de portos, que eram rotas comerciais. Ou seja, as classes pobres não eram caracterizadas como perigosas apenas pela ameaça à manutenção da ordem pública, mas também pelo contágio de doenças, como febre amarela e cólera, responsáveis por epidemias nesse período que elevaram consideravelmente as taxas de mortalidade.
A questão da salubridade pública culminou na criação da Junta Central de Higiene, órgão do governo imperial responsável pelo controle e regulamentação das condições de higiene das referidas habitações coletivas. Nessa mesma linha, no ano de 1886, o Conselho Superior de Saúde Pública apoiava as iniciativas anteriores, e recomendava a remoção dos moradores desse tipo de habitação, o que seria posto em prática anos mais tarde, conforme abordaremos mais adiante.
O combate em relação ao contágio não se dava apenas as doenças, pois os
“vícios” dos adultos se expostos às crianças continuariam reproduzindo as classes perigosas. Logo, de imediato reprimiam os supostos hábitos de não-trabalho dos adultos e ao longo prazo era necessário cuidar da educação dos menores.
O aumento do número de cortiços não foi contido mesmo com o desenvolvimento dos meios de transportes, como por exemplo, o início da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1861, pois só que possuía remuneração estável poderia dar-se ao luxo de morar em locais mais afastados. Assim, para a maioria da população a localização central era condição primordial para a própria sobrevivência.
A necessidade de morar na área central vai além de não ter gastos com transportes, devido ao fato de que para muitos trabalhadores morar em tal região significava maiores chances na procura diária por trabalho, em condições adversas, ainda mais pela crescente concorrência de força de trabalho imigrante. Grande parte
da população ativa era constituída de vendedores ambulantes e de prestadores dos mais variados serviços, o trabalho não existia enquanto local, mas só aparecia através das demandas geradas pela aglomeração de pessoas e de atividades econômicas.
Embora os ataques fossem voltados para a população pobre, o Estado também era responsabilizado pelas condições higiênicas dos cortiços. Uma das medidas adotadas para a questão foi o incentivo fiscal que o Estado proporcionava para as empresas, através de isenções de impostos, que se dispusessem a construir habitações populares para seus trabalhadores.16 Assim, ocorreu o surgimento das vilas operárias, que substituíam os cortiços, considerados responsáveis pelas epidemias e baixa produtividade dos operários. Fato que se apresentou como uma solução encontrada para que as empresas tivessem um controle ainda maior, em todos os aspectos, sobre a vida de seus operários.
Desta forma, controlar a área central da cidade era de fundamental importância para aliviar as tensões oriundas dos conflitos entre as classes sociais.
Diversos projetos foram executados para modificação dessa área, como a abertura de inúmeras e espaçosas ruas. O desenvolvimento dos transportes de cargas pelas ferrovias contrapunha-se a toda uma estrutura portuária colonial. Essa dificuldade para o transporte de cargas aumentava os custos da circulação de mercadorias e contribuía para o congestionamento das ruas centrais.
Todavia, cabe ressaltar um importante fato ocorrido no final do século XIX (mais precisamente no dia 26 de janeiro de 1893), no Rio de Janeiro, que se tornou um marco da história de combate aos cortiços, que foi a demolição do Cabeça de Porco,17 um dos maiores cortiços cariocas do período, localizado no centro da cidade. Medida adotada durante o governo do prefeito Barata Ribeiro, baseada no movimento higienista que tinha o objetivo de executar uma operação de “limpeza” na cidade a fim de aproximá-la dos moldes europeus. A demolição foi acompanhada de perto pelas autoridades locais, que assumiram pessoalmente o comando das operações, tais como: o prefeito Barata Ribeiro, o chefe de polícia da Capital
16 Tal medida foi concretizada em 30/10/1875, quando, através do Decreto 268, foram concedidos a Américo de Castro isenção de Décima Urbana e os direitos de desapropriação da Lei de 1845 para a construção de casas operárias em substituição aos cortiços. Posteriormente, o Decreto Legislativo 3.151, de 9/12/1982, isentava de impostos aduaneiros e concedia outros benefícios alfandegários às firmas que construíssem casas populares higiênicas.
17 Sua entrada principal era localizada na Rua Barão de São Félix, nº 154, e possuía como característica um grande portal, em arcada, ornamentado com a figura de uma cabeça de porco.
Federal, médicos ligados a Inspetoria Geral de Higiene, oficiais do exército, intendentes (equivalentes aos atuais vereadores), entre outros. Além da cobertura de alguns jornais locais que divergiam nas informações em relação ao número de habitantes, variando nas estimativas entre quatrocentos a dois mil moradores.
Como podemos observar, a operação de demolição contou com um forte aparelho repressivo, pois assim como os outros cortiços, o Cabeça de Porco era considerado um “valhacouto de desordeiros” (CHALHOUB, 1996, p. 16). A situação dos cortiços era ponto central para manutenção do controle social, assim, as questões sociais referentes à habitação não eram resolvidas através de políticas sociais, e sim através da coerção por parte do Estado, representada pela polícia.
Justificativa para o fato do destino dos moradores despejados ter sido ignorado,
Justificativa para o fato do destino dos moradores despejados ter sido ignorado,