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Luiz Carlos de Souza Junior

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Academic year: 2022

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Faculdade de Serviço Social

Luiz Carlos de Souza Junior

O papel da mídia na (re) construção do mito das classes perigosas:

contribuições para uma perspectiva contra hegemônica de análise

Rio de Janeiro 2013

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O papel da mídia na (re) construção do mito das classes perigosas:

contribuições para uma perspectiva contra hegemônica de análise

Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Trabalho e Política Social.

Orientadora: Profª. Dra. Silene de Moraes Freire

Rio de Janeiro 2013  

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CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CCSA

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação, desde que citada a fonte.

___________________________ _________________________

Assinatura Data S729 Souza Junior, Luiz Carlos de.

O papel da mídia na (re)construção do mito das classes perigosas : contribuições para uma perspectiva contra hegemônica de análise/ Luiz Carlos de Souza Junior. – 2013.

100 f.

Orientador: Silene de Moraes Freire.

Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do

Rio de Janeiro, Faculdade de Serviço Social

1. Pobreza – Aspectos sociais – Teses. 2. Exclusão social – Teses. I. Freire, Silene de Moraes. II.

Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Serviço Social. III. Título.

CDU 339.12

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O papel da mídia na (re) construção do mito das classes perigosas:

contribuições para uma perspectiva contra hegemônica de análise

Dissertação apresentada, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Trabalho e Política Social.

Aprovada em: 26 de agosto de 2013.

Banca Examinadora:

__________________________________________

Profª. Dra. Silene de Moraes Freire (Orientadora) Faculdade de Serviço Social – UERJ

__________________________________________

Profª. Dra. Vania Morales Sierra Faculdade de Serviço Social - UERJ

__________________________________________

Profª. Dra. Mariana Setúbal Nassar de Carvalho Fundação Oswaldo Cruz

Rio de Janeiro 2013

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À Ana Carolina Brandão Vazquez: amiga e companheira.

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À minha família, em especial, minha mãe, Mariza Vieira de Souza, pelo carinho, apoio e confiança.

À Ana Carolina Brandão Vazquez, pelo incentivo, amizade, dedicação, amor, companheirismo e inúmeros debates sobre o tema, imprescindíveis para construção deste estudo.

Aos amigos, pelos momentos de escuta, troca de ideias e encorajamento.

Aos professores Kleber Mendonça e Valeria Forti, que tiveram grande contribuição para o presente estudo através das disciplinas ministradas.

Às professoras Vania Sierra e Mariana Setúbal, pelo interesse e disponibilidade de participarem da banca examinadora.

À orientadora, professora Silene Freire, pela amizade e significativa contribuição para minha formação política e acadêmica, desde o período de graduação.

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa de estudos, fundamental para o desenvolvimento dessa dissertação.

Ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro pelo acolhimento e estrutura fornecidos ao longo desse período.

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SOUZA JUNIOR, Luiz Carlos de. O papel da mídia na (re) construção do mito das classes perigosas: contribuições para uma perspectiva contra hegemônica de análise. 100 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Serviço Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

“Classes perigosas” é um conceito elaborado pela elite nacional em fins do século XIX, na tentativa de definir, assim, a massa pobre, oriunda, especialmente, do regime de escravidão que durou três séculos. Nossa proposta de estudo busca compreender a utilização atual desse conceito, propagado pelos aparelhos midiáticos, que resulta num processo de criminalização da pobreza e aviltamento crescente dos direitos humanos da parcela populacional que se encontra nessas condições. Como ponto vista teórico partimos da concepção de hegemonia em Gramsci, e a partir disso refletimos acerca de outro pensamento fundamental deste autor que trata sobre aparelhos privados de hegemonia, para, desta forma, compreendermos a importância do desenvolvimento dos meios de comunicação na construção dos processos hegemônicos que sustentam a ideologia da classe dominante. Indo além, buscaremos traçar um breve resgate histórico sobre o mito das “classes perigosas” no Rio de Janeiro e levantar um debate sobre a construção social do medo e sentimento de insegurança pública, o que legitima a atuação dos aparelhos coercitivos do Estado. Dito isto, pretendemos relacionar a questão apontada com o debate sobre os atuais mecanismos de controle social, explicitados e analisados, em seu discurso, através da exposição de notícias publicas em jornais de grande circulação em novembro de 2010.

Palavras-chave: Mídia. Criminalização da pobreza. Classes perigosas. Medo.

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SOUZA JUNIOR, Luiz Carlos de. Media’s role on the (re) construction of the dangerous classes myth: contributions to a counter-hegemonic perspective of analysis. 100 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Serviço Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

The concept of “Dangerous classes” was elaborated by national elite in the end of the XIX century, in an attempt to define, thus, the poor mass, originated, specially, from the slavery regime, which lasted over three centuries. Our study proposal intends to comprehend the current usage of this concept disseminated by media devices, what results in a process of criminalization of the poverty and the growing degradation of the human rights of the population portion under these conditions. As a theoretical point of view, we start from Grasmsci’s concept of Hegemony, and then, from that, we reflect upon another fundamental thought of this author who talks about private devices of hegemony, to thus understand the importance of the development of the media in the construction of hegemonic processes that maintain the ideology of the dominant class. Farther, we will trace a brief historical review about the myth of the “dangerous classes” in Rio de Janeiro, and begin a debate about the social construction of the fear and the feeling of public insecurity, which legitimizes the action of coercive apparatus of the State. That being said, we intend to link the question mentioned to the current debate on the mechanisms of social control, explained and analyzed, in his speech, through the exposing of public news in major newspapers in November 2010.

Keywords: Media. Criminalization of poverty. Dangerous classes. Fear.

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SOUZA JUNIOR, Luiz Carlos de. El rol de la midia em la (re) construcción del mito de las clases peligrosas: contribuciones a la perspectiva contra hegemónica del análisis. 100 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Serviço Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

"Clases peligrosas" es un concepto desarrollado por la elite nacional a finales del siglo XIX, en un intento de definir, la parte mas pobre de la sociedad, oriundos en mayoria del sistema de esclavitud que duró tres siglos. La propuesta de estudio presentada acá, busca entender el uso actual de este concepto, propagada por el aparato de medios de comunicación, lo que se traduce en un proceso de criminalización de la pobreza y la desvalorización para con los derechos humanos de la población que se encuentra bajo estas condiciones. Como punto de vista teórico, basamonos en la perspectiva del concepto de hegemonía de Gramsci y partindo de eso reflexionamos a cerca de otro pensamiento básico de este autor que se ocupa de los dispositivos privados de hegemonía, para de esa manera compreendermos, la importancia del desarrollo de los medios de comunicación en la construcción de los procesos hegemónicos que son la base de la ideología de la clase dominante. En el futuro, vamos a tratar de trazar una breve reseña histórica sobre el mito de las "clases peligrosas" en Rio de Janeiro y elevar el debate sobre la construcción social del miedo y la sensación de inseguridad pública, que legitima el papel del aparato coercitivo del Estado. Dicho esto, tenemos la intención de relacionar el problema señalado en el debate actual sobre los mecanismos de control social, descrito y analizado, en su discurso, mediante la exposición de la noticia pública en los principales periódicos en noviembre de 2010.

Palabras clave: Medios de comunicación. La criminalización de la pobreza. Las clases peligrosas. El miedo

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1 A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NOS PROCESSOS HEGEMÔNICOS

RELACIONADOS À CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA...15

1.1 Sobre o pensamento do filósofo italiano Antonio Gramsci... 16

1.2 Mídia e o mito das classes perigosas... 25

1.3 Alienação na sociedade contemporânea... 38

2 CONSTRUÇÃO SOCIAL DO MEDO E “CLASSES PERIGOSAS”... 46

2.1 Historicidade do mito das “classes perigosas” no Rio de Janeiro.... 47

2.2 Medo e insegurança pública no cenário urbano... 63

3 CRIME, CONTROLE SOCIAL E SUJEIÇÃO CRIMINAL... 69

3.1 Controle social como resposta ao crime... 70

3.2 O discurso da mídia impressa sobre violência urbana... 78

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 91

REFERÊNCIAS... 95  

               

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INTRODUÇÃO

A presente proposta de pesquisa, apresentada para obtenção do título de Mestre em Serviço Social, pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, objetiva discutir o papel da mídia1 na construção e manutenção dos processos hegemônicos contemporâneos, analisando o significado da difusão das informações divulgadas por determinados canais midiáticos nas relações sociais inerentes a sociedade capitalista, destacando a realidade brasileira atual. O estudo tem como recorte principal a (re)criação e divulgação do mito das chamadas “classes perigosas”, reproduzido no atual contexto nacional, tendo em vista que ao relacionar as classes subalternas a esse estigma, surge como resultado a criminalização da pobreza e o consequente aviltamento dos direitos humanos para essa população.

Cabe ressaltar que nosso estudo parte da concepção de que a ‘questão social’ é oriunda das relações conflituosas entre classes, que resulta na desigualdade social e na falta de garantia e acesso aos direitos de cidadania, tais como: educação, saúde, habitação, lazer, entre outros. Portanto, torna-se claro que a criminalização da pobreza representa uma das faces da ‘questão social’, compreendida aqui como algo que expressa “uma arena de lutas políticas e culturais na disputa entre projetos societários, informados por distintos interesses de classe na condução das políticas econômicas e sociais, que trazem o selo das particularidades históricas nacionais.” (IAMAMOTO, 2008, p. 156 – grifos da autora).

Diante de tal fenômeno faz-se necessário abordarmos algumas questões acerca da concepção de violência e da propagação do medo assim como a instauração crescente de uma necessidade de controle populacional, para manutenção de um determinado status quo, responsável pela garantia de segurança para os “cidadãos de bem”.

Com isso poderemos compreender como tal ideologia é propagada, e não por acaso, pois o mito das “classes perigosas” é um fator crucial para manutenção da       

1Conforme descrito por Marilena Chauí (op. cit. p. 35): “Em latim, “meio” se diz médium e, no plural,

“meios” se diz media. Os primeiros teóricos dos meios de comunicação empregaram a palavra latina media. Como eram teóricos de língua inglesa, diziam mass media, isto é os meios de massa. A pronúncia, em inglês, do latim media é “mídia”. Quando os teóricos de língua inglesa dizem “the media”, estão dizendo: “os meios”. Por apropriação da terminologia desses teóricos no Brasil, a palavra “mídia” passou a ser empregada como se fosse uma palavra feminina no singular – “a mídia”.”  

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ordem vigente e legitimação de práticas de poder abusivas e de tortura, efetuadas justamente pelos sujeitos responsáveis por “servir e proteger”. Ou seja, nos referimos aqui sobre como ocorre uma mescla entre consenso e coerção. Logo, os aparelhos midiáticos são utilizados como instrumentos que ocultam o afastamento do Estado no âmbito das “questões sociais”, o que representa no outro lado da equação, o avanço de práticas coercitivas, personificadas através das instituições de segurança pública.

Dessa maneira, Benevides (1983) aponta questões que salientam como a construção desse senso comum legitima as práticas de tortura, principalmente no caso de presos oriundos das classes populares. A autora destaca que para alguns policiais a tortura é vista como uma prática inerente ao seu processo de trabalho, e com isso eles utilizam desse “método” para obter as confissões não apenas de crimes inicialmente investigados, mas de outros que possam aumentar a produtividade dos policiais nas resoluções dos inquéritos (tendo em vista que estes também estão inseridos na lógica produtivista do capital).

Para autora, essas práticas abusivas do uso do poder policial suscitam uma dúvida sobre a relação entre a violência cometida pela polícia ou pelos bandidos, sendo que uma passa a aumentar em detrimento da outra. Com isso, as práticas de tortura se “justificam”, pois o uso excessivo do poder coercitivo do Estado (cada vez mais ausente de seus deveres relacionados ao âmbito social), além da clara punição e realização de justiça com as próprias mãos, acaba servindo de exemplo para resultar numa eventual diminuição do crime, o que claramente não acontece.

Por conseguinte, analisarmos como a mídia aborda este processo de violência institucional, cometida pelo Estado, nos permite perceber como a dominação vai além do aspecto coercitivo, pois, para tais práticas de tortura permanecerem presentes no cotidiano policial em pleno século XXI, faz-se necessário a construção de uma base consensual de legitimação. Ou seja, no âmbito do senso comum, essa forma “velada” do suplício, quando direcionada às classes mais pobres, entra na esfera da normalidade.

Com base nestas reflexões iniciais construímos nossa hipótese e objetivos de pesquisa. Temos como hipótese que a análise dos processos hegemônicos, construídos com a contribuição dos aparelhos midiáticos, auxilia significativamente na compreensão dos rumos da “questão social” e sua relação não casual com a criminalização da pobreza oriunda do aprofundamento do mito das “classes

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perigosas”. Buscamos destacar a importância do mito de “classes perigosas”, enquanto um dos conceitos-chave na leitura histórica das relações entre o Estado e a população que vive em situação de pobreza, sobretudo num momento em que se vivencia uma influência cada vez maior da mídia na construção de um consenso em torno das políticas segregadoras contemporâneas.

Tais questões ressaltam a importância da compreensão crítica dos fundamentos éticos da vida social e do Serviço Social, tendo em vista sua função pedagógica que busca a garantia dos direitos de cidadania e a emancipação das classes subalternas, atuando diretamente nas relações conflituosas entre as classes que resultam na ‘questão social’. Porém, cabe ressaltar que a formação profissional não é o único referencial onde se adquire um dado conhecimento capaz de fundamentar as escolhas éticas, pois segundo Barroco (2009):

... Somam-se a ela – ou a ela se contrapõem – as visões de mundo incorporadas socialmente pela educação formal e informal, pelos meios de comunicação, pelas religiões, pelo senso comum. É o conjunto de tais manifestações culturais e conhecimentos que forma os hábitos e costumes que a educação formal pode consolidar ou não. (BARROCO, 2009, p. 176)

Faz-se necessário destacar que possuímos como objeto de investigação o papel da mídia na (re)construção do mito das classes perigosas no Rio de Janeiro a partir da primeira década do século XXI. Temos como pressuposto que essa compreensão ajuda a aprofundar os nexos da criminalização da pobreza que ocorre neste contexto e consequentemente dá visibilidade aos desafios impostos ao projeto ético-político do Serviço Social neste cenário. Deste modo, nossa hipótese se ancora nesta possibilidade, é ela que dá sentido aos nossos objetivos.

Assim sendo, objetivamos com nossa investigação:

¾ Contribuir para desvelar papel da mídia na (re) construção do mito das classes perigosas no Rio de Janeiro no final da primeira década do século XXI;

¾ Aprofundar os nexos da criminalização da pobreza que ocorre neste contexto;

¾ Resgatar o conceito de hegemonia em Gramsci tendo como suporte principal as reflexões sobre o contexto atual;

¾ Evidenciar o desenvolvimento dos meios de comunicação e sua influência nas relações sociais contemporâneas;

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¾ Oferecer um arcabouço analítico capaz de facilitar a compreensão do papel na mídia na construção do consenso que orienta o senso comum das políticas sociais clientelistas e/ou coercitivas por parte do Estado, focalizadas em critérios como situação de risco, vulnerabilidade social, dentre outros.

Sobre o aspecto metodológico, concordamos com Minayo (1994), ao afirmar que a cientificidade em relação ao objeto inerente às Ciências Sociais não deve representar normas e modelos a serem seguidos, tendo em vista as questões subjetivas que envolvem o tema abordado no nosso estudo, resultado de uma construção determinada por um contexto sócio histórico de tamanha complexidade.

Nas palavras da autora:

O objeto das Ciências Sociais é histórico. Isto significa que as sociedades humanas existem num determinado espaço cuja formação social e configuração são específicas. Vivem o presente marcado pelo passado e projetado para o futuro, num embate constante entre o que está dado e o que está sendo construído. Portanto, a provisoriedade, o dinamismo e a especificidade são características fundamentais de qualquer questão social.

Por isso, também, as crises têm reflexo tanto no desenvolvimento como na decadência das teorias sociais. (MINAYO, 1994, p. 13).

Assim sendo, as atividades realizadas sobre a qual pretendemos nos pautar para comprovação empírica de tal estudo se deu, sobretudo através de um levantamento bibliográfico, além da utilização de jornais como fontes de pesquisa, os jornais utilizados foram o Extra e O Globo, escolhidos pelo fato de serem considerados meios de grande circulação. O levantamento dos dados foi utilizado de maneira qualitativa, primeiro por não buscarmos a objetividade das ciências naturais, presente na análise quantitativa, segundo, por consideramos, que através dessa metodologia, poderemos nos aprofundar nos significados presentes no discurso jornalístico referente ao mito das “classes perigosas”. Ou seja, trata-se de um objeto social, analisado aqui, numa perspectiva simbólica, que busca considerar as relações sociais presentes nessa questão, indo além de variáveis numéricas.

Foram analisadas, mais especificamente, notícias divulgadas pela mídia impressa de grande circulação no período referente ao final do ano de 2010, entre os dias 22/11/2010 e 29/11/2010, marcado pela grande repercussão acerca do chamado processo de pacificação na cidade do Rio de Janeiro. Processo esse iniciado no ano de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, durante a gestão do primeiro mandato do Governador Sérgio Cabral Filho. Cabe lembrar que, para além da

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segurança pública, a pacificação, que resulta na ocupação das áreas determinadas através da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora, faz parte de um projeto de reformulação urbana no Rio de Janeiro.

Assim, foram selecionadas notícias ligadas à violência urbana no Rio de Janeiro para confirmação da hipótese referente ao papel da mídia na propagação do mito das “classes perigosas”, compreendendo esse potencial através de uma análise discursiva. A bibliografia elegida é considerada base teórica fundamental para a compreensão das notícias selecionadas através dos conceitos apreendidos sobre o tema.

Participamos também de grupos de estudos e apresentamos trabalho sobre o tema nos “III e IV Seminário Internacional Direitos Humanos, Violência e Pobreza: a situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje” (realizados respectivamente nos anos de 2010 e 2012), além do “XIII Encontro Nacional De Pesquisadores em Serviço Social” (realizado em 2012), o que nos permitiu ampliar as bases de interlocução sobre esse debate.

Dito isto, podemos resumir que o processo de pesquisa foi divido nas seguintes etapas: pesquisa bibliográfica, coleta e sistematização de dados (notícias de jornais de grande circulação), análise e produção da dissertação contendo os resultados finais da pesquisa.

Cabe ressaltar que a escolha do tema não é exclusiva2 e muito menos fortuita, temos nos dedicado ao mesmo desde nossa monografia de conclusão de curso inspirada nas ações desenvolvidas como bolsista do Programa de Estudos de América Latina e Caribe (PROEALC/UERJ) no ano de 2007. A partir de então atentamos para a importância de avançarmos na direção de conhecermos de maneira mais profunda os nexos explicitados e consequentemente ampliarmos os horizontes de nossa investigação frente às expressões da “questão social" e as formas de enfrentamento da mesma que vem sendo construídas e efetivadas consensualmente, sobretudo no Rio de Janeiro.

Desta forma, para melhor compreensão da presente dissertação, optamos por construir sua estrutura em três capítulos. No primeiro capítulo buscaremos um debate sobre a concepção de hegemonia em Gramsci, assim como a influência na       

2 Segundo levantamento realizado pela Profa. Silene de Moraes Freire, coordenadora do Programa de Estudos de América Latina e Caribe da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, já existem mais de quinhentos e trinta títulos, que possuem a mídia como tema específico abordado, publicados.  

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mídia na construção dos estereótipos relacionados ao estigma da criminalização da pobreza e também as atuais formas de alienação presentes nesse processo.

Utilizaremos a mídia impressa como objeto de análise para que assim possamos aprofundar o eixo central do nosso estudo.

No segundo capítulo pretendemos explicitar um resgate da historicidade brasileira no período referente ao final do século XIX e início do século XX, para compreendermos como a questão da criminalização da pobreza não é nova e muito menos exclusiva do nosso atual contexto, e sim que faz parte de um processo histórico socialmente construído num país que ainda possui as marcas herdadas pelo longo período de escravidão. Nessa parte também serão levantadas questões sobre a construção social do medo e como este foi utilizado para justificar aqueles que deveriam ser considerados perigosos.

No terceiro e último capítulo suscitaremos questões sobre a concepção de crime, suas respectivas transformações além dos fatores relacionados às estratégias de controle social e sujeição criminal, que se destinam aos sujeitos considerados suspeitos em potencial. Entendemos esse debate como fundamental para compreensão dos rumos do enfrentamento da “questão social” em nosso país. Por fim, buscaremos a comprovação de nossa hipótese através da relação entre as exposições teóricas e a exposição do levantamento/análise das notícias veiculadas pela mídia impressa, selecionadas ao longo do processo de pesquisa, sobre a questão da violência urbana no Rio de Janeiro.

Temos clareza que o término de uma dissertação não é o fim do debate, e sim um começo de recomeços. Desta forma, optamos por mesclar a fundamentação teórica dos conceitos abordados, com o tema específico relacionado à mídia, portanto, nossa escolha sobre a construção da estrutura, em três capítulos, se justifica pela interlocução entre as questões apresentadas.

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1 A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NOS PROCESSOS HEGEMÔNICOS RELACIONADOS À CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA

Pane no sistema alguém me desconfigurou Aonde estão meus olhos de robô?

Eu não sabia, eu não tinha percebido Eu sempre achei que era vivo Parafuso e fluído em lugar de articulação Até achava que aqui batia um coração Nada é orgânico é tudo programado E eu achando que tinha me libertado Mais lá vem eles novamente e eu sei o que vou fazer:

Reinstalar o sistema Pense, fale, compre, beba Leia, vote não se esqueça Use, seja, ouça, diga Tenha, more gaste e viva Não senhor, Sim senhor Não senhor, Sim senhor3

Como arcabouços teóricos para as questões apresentadas até aqui serão debatidas as categorias teóricas do pensamento do filósofo italiano Antônio Gramsci, tendo em vista sua enorme contribuição para as ciências sociais com o desenvolvimento do conceito de hegemonia e sua ampliação da definição de Estado.

As questões postas pelo pensamento de Gramsci são fundamentais para entendermos a estrutura social da sociedade em que vivemos (numa perspectiva gramsciniana de Estado ampliado), pois a disputa pela hegemonia no âmbito da sociedade civil, questão que será abordada ao longo desse trabalho, nos permite estabelecer um parâmetro sobre o posicionamento dos aparelhos privados de hegemonia, em especial a mídia, sobre esse fato. Desta forma, será abordada a questão da alienação produzida pelo sistema capitalista, porém, não somente no âmbito dos meios de produção e gestão da força de trabalho, mas expandindo-a para as instâncias moral e cultural.

Dito isto, o pensamento de Gramsci se apresenta como imperioso para compreensão do objeto em questão, pois acreditamos que não se trata de um fato isolado, ao considerarmos que devem ser analisadas as diversas variáveis que       

3 Letra da música Admirável Chip Novo, lançada em 2003, pela cantora brasileira Pitty, no álbum, com o mesmo título, Admirável Chip Novo. 

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resultam no consenso sobre o mito abordado anteriormente. Assim, buscaremos abordar o tema através da complexidade de sua totalidade, estabelecendo uma relação entre a dinâmica e as modalidades da organização social que compõem a estrutura social da sociedade em destaque.

1.1 Sobre o pensamento do filósofo italiano Antonio Gramsci

Para justificarmos a importância do pensamento de Antonio Gramsci para o estudo que abordaremos, antes devemos destacar sua influência como marxista, e como característica forte dessa corrente, parte seu raciocínio através da concepção de totalidade. Marx, assim como Hegel, analisa a sociedade através de uma ideia de totalidade, que para ele seria um momento de articulação entre as estruturas sociais4 que objetivamente forma de maneira hierarquizada um todo, porém mantendo suas características subjetivas. Desta forma, percebemos que as relações dinâmicas entre tais estruturas demonstram certo tipo de autonomia entre elas, e com isso nem todas possuem necessariamente o mesmo peso nessa interação.

Para Gramsci, a estratificação social que compunha a sociedade se apresentava de maneira cada vez mais complexa. Com isso, ele foi o primeiro a ressaltar a ampliação do Estado capitalista, além de mostrar outra abordagem sobre o que conhecemos sobre “sociedade civil”. Assim, para compreendermos tais questões, que são novas determinações sobre a totalidade social não basta apenas uma análise dos meios de produção. Pois, entendemos que questão da totalidade não se apresenta de maneira fechada e definitiva, por se tratar de relações entre estruturas sociais que estão em constante movimento.

Segundo Coutinho (2008), tal ampliação do Estado capitalista se dá pelo fato de que o poder estatal não se limita aos âmbitos dos aparelhos repressivos e coercitivos, e sim, passa a ser difundido pelo conjunto denominado por Gramsci

      

4 Conforme apontado por Coutinho (2008), tais estruturas sociais possuem sua gênese na divisão social do trabalho, o que determina a estruturação da sociedade em classes sociais. Com isso consideramos também, a chamada “infra-estrutura”, caracterizada por Marx como o momento de articulação entre o processo de dominação do homem sobre a natureza e o relacionamento dos homens entre si, ou seja, as relações de produção.

 

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como “sociedade civil”. Assim, é examinada a superestrutura e dividida em duas esferas: “sociedade civil” e “sociedade política”.

Desta forma vemos a diferença da concepção sobre “sociedade civil” para Marx e Engels, e, para Gramsci. Para os primeiros, a “sociedade civil” faz parte da chamada base material, ou “infra-estrutura”, que seria o conjunto das relações econômicas presentes na sociedade capitalista. Já para Gramsci, ela faz parte da superestrutura, e seria composta por um conjunto de instituições responsáveis pela manutenção do consenso, através da difusão da ideologia dominante para os diferentes grupos sociais.

Nas palavras de Carnoy (1986):

Para Marx e Gramsci, a sociedade civil é o fator chave na compreensão do desenvolvimento capitalista, mas para Marx a sociedade civil é estrutura (relações na produção). Para Gramsci, ao contrário, ela é superestrutura, que representa o fator ativo e positivo no desenvolvimento histórico; é o complexo das relações ideológicas e culturais, a vida espiritual e intelectual, e a expressão política dessas relações torna-se o centro da análise, e não a estrutura. (CARNOY, 1986, p.93).

Coutinho (2008) resume a concepção de Estado, em sentido amplo, para Gramsci da seguinte maneira: Estado = “sociedade política” (ditadura/coerção) +

“sociedade civil” (hegemonia/consenso). Essa nova reformulação também propôs novas teorias de revoluções. Nas sociedades consideradas “orientais”, ou seja, sociedades que não desenvolveram uma sociedade civil autônoma, e que são pautadas através dos aparelhos coercitivos, é necessário uma “guerra de movimento”, que é um choque frontal com o Estado. Já nas sociedades consideradas “ocidentais”, que são marcadas pelo desenvolvimento da sociedade civil, que amplia o Estado, é necessário uma “guerra de posição”, ou seja, uma conquista progressiva dos espaços através da sociedade civil, e da conquista da hegemonia.

Tal compreensão nos permite superar uma visão dicotômica entre Estado e sociedade civil, pois, conforme afirma Neves (2005), a segunda representa um locus privilegiado na consolidação de uma nova pedagogia da hegemonia no sistema neoliberal. Sobre a realidade brasileira, a autora destaca que:

A história da hegemonia burguesa no Brasil, porém, não se restringe à sua atuação na aparelhagem estatal. Ela se amplia por meio da construção, na sociedade civil, de uma diversificada rede de organismos de obtenção de

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consentimento ativo e/ou passivo do conjunto da sociedade, comprometidos, em níveis diversos, com diferentes projetos societários, e também da atração de outros sujeitos políticos coletivos e de seus aparelhos a esses projetos. Ao longo desse período histórico, tais aparelhos privados de hegemonia, culturais e políticos, ao mesmo tempo em que disputavam a hegemonia na sociedade em seu conjunto, representavam, concomitantemente, interesses das várias frações da classe apropriadora na disputa pela condução do projeto de desenvolvimento. (NEVES, 2005, pp. 87-88).

Com isso, podemos perceber que a disputa pela hegemonia é fundamental para que exista possibilidade de uma revolução social, pois uma classe deve ser dirigente antes de dominante. Porém, antes de aprofundarmos a questão sobre hegemonia, cabe ressaltarmos o processo de construção de um consenso e o papel dos intelectuais, como faremos a seguir.

Gramsci considera que o homem, pelo simples fato de ser homem, ou seja, de ter, portanto uma linguagem, de participar do senso comum, de aderir a uma religião, ainda que na forma mais simples e popular, é filósofo. Pois, em todo homem está presente uma consciência imposta pelo ambiente em que ele vive, e para a qual, portanto, concorrem influências diversas e contraditórias. Para ele:

... todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais (assim, o fato de que alguém possa, em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão do paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates). Formam-se assim, historicamente categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas sobretudo com o grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante.(GRAMSCI, 2000, pp. 18-19).

Contudo, cabe ressaltar que essa consciência imposta pelo ambiente de vida do indivíduo, não se apresenta como mais do que o resultado de uma relação social, até mesmo pelo fato em que esta é, em si, uma relação social. Apresentada como resultado de um processo social, a consciência aparece de maneira subordinada, espontânea, não criticamente unificada e não consciente do que é.

Para Gramsci, é diante de tais questões que o problema se coloca, pois este considera a necessidade de elaboração de uma própria concepção de mundo consciente e criticamente, tornando o sujeito capaz de escolher a própria esfera de atividade, de participar ativamente na produção da história do mundo, de ser guia de si mesmo e não mais aceitar passivamente do exterior a marca da própria personalidade. Para ele:

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... Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise.

(GRAMSCI, 1999, p.94).

Assim sendo, em seu argumento a força verdadeira do sistema não reside apenas na violência da classe dominante ou no poder coercitivo do seu aparelho de Estado, mas na aceitação por parte dos dominados de uma concepção de mundo que pertence aos dominadores. Isso ocorre por que:

A filosofia da classe dominante atravessa todo um tecido de vulgarizações complexas para aparecer como ‘senso comum’: isto é, a filosofia das massas, que aceitam a moral, os costumes e o comportamento institucionalizado da sociedade em que vivem. Portanto, o problema para Gramsci é compreender como a classe dominante procurou conquistar o consentimento das classes subalternas desse modo; e assim entender como as últimas procederam para derrubar a ordem antiga e produzir uma nova ordem de liberdade universal. (FIORI, 1970, p.238).

O que Gramsci quer destacar é o processo de construção do consenso, elemento fundamental da hegemonia. No caso analisado neste estudo, o que chamamos de senso comum que se evidencia nas políticas sociais repressoras conta com um conjunto de elementos que constroem o consentimento da necessidade de radicalização da segregação que observamos na atual conjuntura.

Melhor dizendo, constroem sentidos que legitimam um sistema ainda mais perverso.

Logo, tal processo de formação crítica, ou seja, de intervenção ativa e consciente no processo da história do mundo não é o resultado de uma reflexão pura e exclusivamente pessoal. E sim, um resultado de um processo social de formação político-ideológica.

Nesse sentido, Gramsci destaca o papel fundamental do chamado intelectual orgânico na construção de um processo hegemônico, pois sendo originário de uma classe se apresenta como responsável em dar uma consciência crítica e homogênea para a classe social da qual se vinculou.

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Todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político... (GRAMSCI, 2000, p. 15).

Considera-se o conceito de hegemonia como a capacidade de unificar através de ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classes. Ou seja, tal concepção remete ao esclarecimento das relações entre infraestrutura e superestrutura, sendo à forma como as classes sociais se relacionam e exercem as suas funções no interior do bloco histórico.5

Ao falar sobre hegemonia tratamos de reconhecer as constantes movimentações sociais e políticas no âmbito de uma sociedade onde a classe dominante sofre oposição das forças emergentes, dominadas, num processo de luta por um encaminhamento de uma nova ordem social. Tendo em vista que a hegemonia não é algo estático, mas sim, atravessada pela luta de classes. Tal argumento demonstra a necessidade de falarmos também de crise de hegemonia, que se caracteriza pelo enfraquecimento da direção política da classe no poder, ou pelo enfraquecimento do seu poder de direção política e perda de consenso. O que ressalta a importância dos instrumentos utilizados pela classe dominante para sua manutenção hegemônica.

Sendo assim, uma classe é tida como: hegemônica, dirigente e dominante, até o momento em que (através de sua ação política, ideológica, cultural) consegue manter articulado um grupo de forças heterogêneas, impedindo que o contraste existente entre tais forças exploda, provocando assim uma crise na ideologia dominante, que leve à recusa de tal ideologia, fato que irá coincidir com a crise política das forças no poder.

Com isso, as classes sociais dominadas ou subalternas, para Gramsci, participam de uma concepção do mundo que lhes é imposta pelas classes dominantes. Ressaltando que a ideologia das classes dominantes corresponde à função histórica delas, e não aos interesses e à função histórica (ainda inconsciente) das classes subalternas.

      

5 Sobre o conceito de “bloco histórico”, Simionatto (2004) ressalta que, apesar de ter sido criado pelo teórico francês Georges Sorel, é ampliado por Gramsci, que o utiliza através da articulação entre infraestrutura e superestrutura. Nesse sentido, Gramsci inclui os componentes dos intelectuais, partido e Estado ao conceito citado.  

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Conforme ressalta Simionatto (2004), Gramsci aborda a questão da hegemonia como “direção intelectual e moral”, afirma que tal direção deve exerce-se no campo das ideias e da cultura, manifestando a capacidade de conquistar o consenso e de formar uma base social, pois não existe direção política sem consenso. Logo, a subalternidade de outros grupos sociais não se refere apenas à submissão à força, mas também as ideias.

Mas como tal ideologia das classes ou da classe dominante chega às classes subalternas? Gramsci descreve alguns canais, através dos quais a classe dominante constrói a própria influência ideal, a própria capacidade de plasmar as consciências de toda a coletividade, a própria hegemonia. Tais canais fazem parte de uma rede articulada de instituições culturais, denominadas “aparelhos privados de hegemonia”. Dentre esses canais destacam-se: a escola, a religião, serviço militar e o desenvolvimento dos meios de comunicação, jornais locais, pequenos episódios de cultura local, surgimento do cinema falado e difusão do rádio.

A finalidade desses “aparelhos privados de hegemonia” é conquistar a subalternidade nos âmbitos social, político e cultural, envolvendo as classes exploradas num modelo de subordinação passiva, através de um complexo de ideologias formadas historicamente.

Sobre o papel da escola, Gramsci aborda a divisão feita pelo modelo italiano, onde se tem a escola profissional para os que irão trabalhar em posições subalternas e o ginásio-colégio para os quadros dirigentes da sociedade. Modelo que não apresenta tanta diferença aos atuais cursos profissionalizantes existentes no Brasil.

A religião ganha destaque pela sua capacidade de imprimir sua concepção de mundo para grandes massas e o serviço militar por imprimir sua mentalidade disciplinadora.

Gramsci destacou sua atenção para o desenvolvimento dos meios de comunicação, citados acima, pois compreendia a importância que tal fato poderia assumir, e de fato o fez. O presente estudo irá aprofundar a questão desse desenvolvimento e sua relevância na sociedade brasileira. O tipo de jornalismo que pretendemos destacar aqui é o mesmo que Gramsci denomina em seus Cadernos do Cárcere como “integral”:

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... isto é, o jornalismo que não somente pretende satisfazer todas as necessidades (de uma certa categoria) de seu público, mas pretende também criar e desenvolver estas necessidades e, consequentemente, em certo sentido, gerar seu público e ampliar progressivamente sua área.

(GRAMSCI, 2000, p. 197).

Desta forma, torna-se claro que a luta pela hegemonia nas sociedades atuais, instauradas numa conjuntura neoliberal, não se trava apenas no nível das instâncias econômica e política, mas também na esfera cultural. Conforme Simionatto (2004):

“A elevação cultural das massas assume importância decisiva neste processo, para que elas possam libertar-se da pressão ideológica das velhas classes dirigentes e elevar-se à condição destas últimas.” (SIMIONATTO, 2004, p. 50)

Logo, estamos tratando sobre um fator decisivo no processo de disputa pela hegemonia, na conquista do consenso e da direção político ideológica por parte das classes subalternas. Tendo em vista que não é suficiente apenas lutar pela extinção da apropriação privada dos meios de produção, mas também pela extinção da apropriação elitista da cultura e do saber. Seguindo este raciocínio, cabe ressaltar que segundo Gruppi (1978):

Trata-se, portanto, de elaborar uma concepção nova, que parta do senso comum, não para se manter presa ao senso comum, mas para criticá-lo, depurá-lo, unificá-lo e elevá-lo àquilo que Gramsci chama de bom senso, que é para ele a visão crítica do mundo. Deve-se observar que, quando se fala da concepção cultural mais elevada como “bom senso”, é que se tem uma visão não aristocrática da cultura. É que se está orientado por uma profunda preocupação com o vínculo entre a cultura e as grandes massas (e o modo de sentir dessas massas). (GRUPPI, 1978, p. 69).

A argumentação teórica exposta é fundamental para analisarmos o tema proposto, tendo em vista a singularidade histórica brasileira, que para além do longo período marcado pelo regime escravocrata, passou por um processo denominado como “Revolução Passiva”. Para Coutinho (1988), o conceito gramsciniano de

“Revolução Passiva”, ao contrário de uma revolução popular, realizada a partir “de baixo”, jacobina, implica sempre a presença de dois momentos: o da “restauração”, considerando que é uma reação à possibilidade de uma efetiva e radical transformação “de baixo para cima”. E o de “renovação”, considerando que muitas das demandas populares são assimiladas e postas em prática pelas velhas camadas. Porém, o aspecto restaurador, não anula o fato de que também ocorrem modificações efetivas.

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O autor também destaca duas causas-efeitos da “Revolução Passiva”

indicados por Gramsci: por um lado, o fortalecimento do Estado em detrimento da sociedade civil, ou, mais concretamente, o predomínio das formas ditatoriais da supremacia em detrimento das formas hegemônicas; e por outro, a prática do transformismo como modalidade de desenvolvimento histórico que implica a exclusão das massas populares.

De acordo com o pensamento de Gramsci, é de fundamental importância para o conceito de “Revolução Passiva” que não um grupo social seja dirigente de outros grupos, mas que um Estado seja o “dirigente” do grupo que, ele sim, deveria ser o dirigente. O que aprofunda o fato de que um Estado substitui os grupos sociais locais na função de dirigir uma luta de “renovação”.

Ou seja, o Estado detém o papel de substituir as classes sociais em sua função de protagonistas do processo de transformação e o de assumir a tarefa de

“dirigir” politicamente as próprias classes economicamente dominantes. Sendo um dos casos em que esses grupos têm a função de “domínio” e não de “direção”:

ditaduras sem hegemonia.

Conforme aponta Coutinho (1988), “ditadura sem hegemonia” não significa que o Estado protagonista de uma “Revolução Passiva” possa prescindir de um mínimo de consenso, senão, ele teria de utilizar sempre, e apenas a coerção, o que, em longo prazo, tornaria impossível o seu funcionamento. Assim, Gramsci indicou a forma de obtenção desse consenso mínimo no caso de processos de transição “pelo alto”. Trata-se de “transformismo”, ou seja, a cooptação ou assimilação pelo bloco de poder das frações rivais das próprias classes dominantes ou até mesmo de setores das classes subalternas, estabelecendo uma relação orgânica entre

“transformismo” e “Revolução Passiva”.

Segundo Coutinho (1988), o Brasil experimentou um processo de modernização capitalista sem por isso ser obrigado a realizar uma “revolução democrático-burguesa” ou de “libertação nacional” segundo o modelo jacobino. Ou seja, por um lado, gradualmente e “pelo alto”, a grande propriedade latifundiária transformou-se em empresa capitalista agrária, e, por outro, com a internacionalização do mercado interno, a participação do capital estrangeiro contribuiu para reforçar a conversão do Brasil em país industrial moderno, com uma alta taxa de urbanização e uma complexa estrutura social.

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Ambos os processos citados anteriormente foram incrementados pela ação do Estado ao invés de ser o resultado de movimentos populares. Caracterizam a ideia de transformação “pelo alto”, explicitada anteriormente. Assim, a transformação capitalista teve lugar graças ao acordo entre frações de classes economicamente dominantes, à exclusão das forças populares, e à utilização permanente dos aparelhos repressivos e intervenção econômica do Estado.

Nas principais transformações “pelo alto” que tiveram lugar no Brasil, vê-se a presença dos dois momentos presentes no conceito de “Revolução Passiva”

(“restauração” e “renovação”), apontados por Gramsci: como reações a movimentos populares, reais ou potenciais, as classes dominantes empenharam-se em

“restaurações”, que, em última instância, produziram importantes modificações na composição das classes e prepararam o caminho para novas transformações reais.

No Brasil, o Estado que desempenha a função de protagonista das

“revoluções passivas”, substituindo as classes sociais em sua função e assumindo a tarefa de “dirigir” politicamente as próprias classes economicamente dominantes, como citado acima.

As transformações sociais foram sempre o resultado do deslocamento da função hegemônica entre as classes dominantes, que, em seu conjunto, jamais desempenharam, até agora, uma efetiva função hegemônica em face das massas populares. Delegando a função de “direção” política ao Estado, ao qual coube a tarefa de “controlar”, e, quando necessário, de reprimir as classes subalternas.

Dessa maneira, Neves (2005) afirma que, no projeto de sociabilidade burguesa no Brasil. o Estado tomou para si o papel de educador, que, através de seus instrumentos legais e ideológicos, reformula suas práticas de obtenção de consentimento sobre a população.

Coutinho (1988) descreve dois tipos de transformismo que podem ser apontados na história brasileira, o “molecular” que se manifestou como incorporação ao bloco de poder de políticos de oposição, processo que teve lugar desde a época do Império até o recente período ditatorial. Desempenhando um papel decisivo em nossa vida cultural, através da assimilação pelo Estado de um grande número de intelectuais que representavam, real ou potencialmente, os valores das classes subalternas. O outro tipo de transformismo foram as tentativas de assimilação de inteiros grupos ou classes de oposição, tendo como exemplo o “populismo”.

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Dito isto, torna-se imperioso ressaltarmos a utilização da mídia como um dos aparelhos privados de hegemonia, principalmente no que tange à questão da violência urbana e construção do mito das “classes perigosas”. Pois, ao compreendermos como a concepção de hegemonia é fundamental para a manutenção e reprodução dessa ideologia, poderemos analisar o discurso presente nas notícias selecionadas através de uma perspectiva contra hegemônica, tendo em vista que ao propormos tal debate, buscamos resgatar elementos teóricos capazes de atravessar o véu do senso comum, além de assentarmos nossa postura crítica em relação ao tema abordado.

1.2 Mídia e o mito das “classes perigosas”

Para as classes dominantes é fundamental o aumento proposital da obscuridade na propagação das informações, pois é uma condição vantajosa, para que a população se sinta tanto mais informada quanto menos puder raciocinar, assim, convencida de que as decisões políticas estão com especialistas, dos quais podemos acreditar e confiar, que lidam com os problemas que se apresentam de forma incompreensível para os leigos. Isso faz parte de uma construção ideológica, que, para Chauí (2008), passa a ter um papel de comando sobre a prática dos homens, torna-os submetidos aos especialistas citados.

Logo, como observa Chauí (2007), o jornalismo está cada vez mais rápido, barato, inexato, partidarista, mesclando informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não-investigativo, opinativo ou assertivo e detentor da credibilidade e da plausibilidade, ou seja, se tornou protagonista da destruição da opinião pública.

Sendo assim, tem-se o fato de que o maior malefício trazido à cultura pelos meios de comunicação de massa tem sido a banalização cultural e a redução da realidade à mera condição de espetáculo. Porém, não um espetáculo que se refira ao acontecimento e sim à encenação do acontecimento, ao seu simulacro.6 Sobre essa afirmação, devemos ressaltar que:

A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte.

Ela é produto dessa sociedade, mas também ajuda a produzi-la, tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de       

6 Ver CHAUÍ, Marilena. Simulacro e poder – Uma análise da mídia. Ed. Fundação Perseu Abramo.

São Paulo. SP. 1ª reimpressão 2007.  

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organização e de vida, quanto porque está ligada à transformação destas.

Assim, a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade, não é um espelho amorfo. (SANTOS, 2006, p.65).

Entretenimento e lazer, necessidades vitais dos seres humanos. Logo, Chauí (2007), resgata o pensamento de Marx, que demonstra como tal necessidade é inserida numa lógica produtivista, para que a força de trabalho aumente sua produtividade graças ao descanso, ou então como mostram estudiosos marxistas, para que o controle social e a dominação se perpetuem por meio da alienação.

Assim, o entretenimento se apresenta como uma dimensão da cultura tomada em seu sentido amplo e antropológico, tendo em vista que é a maneira como a sociedade inventa seus momentos de distração, lazer e repouso. Sendo distinguido da cultura quando esta é entendida como trabalho criador e expressivo das obras de pensamento e de arte.

Por este prisma, um dos traços principais que tornam a cultura distante do entretenimento é o fato de que em uma sociedade de classes - marcada pela exploração, dominação e exclusão social - a cultura é um direito do cidadão, direito de acesso aos bens e obras culturais, direito de fazer cultura e de participar das decisões sobre a política cultural.

Porém, com a imagem da cultura de massa, os meios de comunicação negam tais traços da cultura. Tendo em vista que, sob ação dos mass media, as obras de pensamento e de arte correm vários riscos, apontados por Chauí (2007), como:

• De expressivas, tornarem-se reprodutivas e repetitivas;

• De trabalho da criação, tornarem-se eventos para consumo;

• De experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo consumo;

• De duradoura, tornarem-se parte do mercado da moda, passageiro, efêmero, sem passado e sem futuro;

• De formas de conhecimento que desvendam a realidade e constituem relações com verdadeiro, tornarem-se dissimulação ilusão falsificadora, publicidade e propaganda.

Indo além, a chamada cultura de massa se apropria de obras culturais para consumi-las, devorá-las, nulificá-las em simulacros. Assim, tendo o simulacro posto como entretenimento, os meios de comunicação de massa transformam tudo em

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entretenimento, como por exemplo: guerras, genocídios, greves, festas, cerimônias religiosas, tragédias políticas, catástrofes naturais e das cidades, entre outros.

A indústria cultural vende, em seu sentido literal, cultura. Faz isso separando os bens culturais por seu suposto valor de mercado, sendo assim, há obras “caras” e

“raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por ela, e, em contrapartida, há as “baratas” e “comuns”, destinada à massa. Sendo introduzida à divisão social entre a elite “culta” e massa “inculta”

Seguindo este raciocínio, é criada a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como consumidor em supermercado. Ou seja, tudo depende apenas do quanto você possa pagar.

A indústria cultural seleciona antecipadamente o que cada grupo social pode e deve ouvir, ver ou ler. E para vender em grande escala é necessário massificar. E tal indústria massifica banalizando a expressão artística e intelectual, pois, em lugar de difundir e divulgar a cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e do conhecimento.

A expressão comunicação de massa foi criada para se referir aos objetos tecnológicos capazes de transmitir a mesma informação para um vasto público ou para a massa. No início tal expressão fazia referência ao rádio e ao cinema, tendo em vista que a impressa pressupunha pessoas alfabetizadas, o que não era requerido por estes em seu começo. Posteriormente, estendeu-se para impressa a publicidade ou propaganda, a fotografia, a televisão e, atualmente, a internet.

Todos esses meios de propagação das informações para as massas vendem desejos, tais como: sucesso, prosperidade, segurança, juventude eterna, beleza, atração sexual e felicidade. Ou seja, não se vende mercadorias em si, e sim atitudes, opiniões, posições críticas. Tudo isso de acordo com o poder aquisitivo de cada público específico.

Até mesmo em noticiários, as notícias são moldadas e transmitidas considerando o horário em que cada tipo de público os assiste. Lembrando que as tragédias sempre televisionam melhor e que isso não é coincidência.

Muitos noticiários apresentam a desinformação como seu principal resultado, pois as notícias são propagadas de maneira a impedir que o ouvinte e o espectador

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possam localizá-las no espaço e no tempo. Resultando em atopia7 onde as diferenças próprias do espaço percebido (perto, longe, alto, baixo, grande, pequeno) são apagadas, apresentando ou aparelho de rádio e a tela de televisão como único espaço real; e também em acronia,8 onde os acontecimentos são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros.

Outro marco fundamental para o desenvolvimento dos meios de comunicação foi o desenvolvimento da informática, que em sentido antropológico leva ao limite as concepções citadas acima de atopia e acronia. Devido ao fato de que com a propagação da internet o universo permanece online24 horas, sem obstáculos de distância e diferenças geográficas, sociais e políticas, nem de distinção entre o dia e a noite, ontem, hoje e amanhã. Potencializando de maneira nunca antes vista o poder do capital sobre o espaço, o tempo, o corpo e a psique humanos.

Cabe considerar que, do ponto de vista econômico, os meios de comunicação são empresas privadas, mesmo quando, como é o caso do Brasil, rádio e televisão são concessões estatais, porque estas são feitas as empresas privadas, logo, a indústria cultural é regida pelos imperativos do capital. Sendo este, o real proprietário dos meios de comunicação.

Assim, verificamos que os meios de comunicação irão corresponder ideologicamente aos interesses do capital, sob a forma anônima e impessoal do discurso do conhecimento, e sua eficácia social, política e cultural sendo fundamentada através da crença na racionalidade técnico-científica. Realizam o poder ideológico-político do capital através da produção de simulacros.

Segundo Santos (2006), nesse modelo de sociedade, o papel da cultura, principalmente através dos meios de comunicação de massa, é fundamental tendo em vista a sua capacidade de homogeneizar uma visão de mundo, que supostamente ultrapassa a barreira que divide as classes sociais, amacia os conflitos e, como vimos anteriormente, difunde maneiras comuns de comportamento, estilos de vida, modo de organização da vida cotidiana, formas de sofrer, pensar, amar, entre outros.

      

7 Ausência de referência espacial.

 

8 Ausência de referência temporal.

 

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Dito isto, torna-se imperioso ressaltar a questão do espetáculo9 nas sociedades modernas. O espetáculo pode se apresentar ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação, sendo o setor onde se concentra todo olhar e toda consciência. Pois, este não é apenas um conjunto de imagens, e sim uma relação social entre pessoas, mediada por imagens. E sim, uma visão de mundo que se objetivou.

O espetáculo se apresenta em diversas formas particulares como: informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimento, entre outros. E sob todas elas constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade, na medida em que inverte o real, torna-se efetivamente um produto.

Numa sociedade que se baseia na indústria moderna o espetáculo é sua principal produção, pois domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Sendo nada mais do que a economia desenvolvendo-se por si mesma, como reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores.

A partir do momento em que o mundo real se transforma em simples imagens, essas imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. A todo o momento e em todos os lugares somos rodeados por imagens, em casa, no trabalho, nas ruas. Assim, tal impacto visual corresponde à abstração da sociedade atual.

Tamanha modernização não deixa de lado o sentido arcaico do sistema capitalista. Sua aparência fetichista nas relações espetaculares resulta na ocultação de relação entre homens e entre classes, criando a sensação de que uma segunda natureza domina, com leis fatais, o meio em que vivemos. Ou seja, se apresenta como a conservação da inconsciência na mudança prática das condições de existência.

Para Chistopher Lasch (1982 apud CHAUÍ, op. cit., p.8), os mass media tornaram as categorias da verdade e da falsidade irrelevantes, substituindo-as pelas noções de credibilidade ou plausibilidade e confiabilidade, assim, para que algo seja aceito como real, basta que seja apresentado como crível ou plausível, ou então       

9 Ver DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997. Em seu livro, Debord aborda a questão do espetáculo como algo intrínseco às sociedades modernas, pautadas no sistema capitalista, de certa forma, um produto. Ou seja, faz uma crítica ao modelo citado, assim, aprofunda a discussão sob o aspecto econômico, ao considerar seu viés ideológico e cultural, que resulta no espetáculo (por vezes representado em imagens), dotado de reflexão simbólica e presente nas relações sociais, que projetam uma visão de mundo padronizada, em sua maioria, voltada para o consumo.  

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divulgado por alguém confiável. Questão também abordada por Coimbra (2001) quando afirma que:

Os mass media não apenas produzem o real, mas nos indicam com que prioridade ou urgência devemos considerar esse real: quais fatos devemos ignorar, a que outros devemos estar atentos, sobre o que é necessário ter opinião e discutir quais, em suma, são os assuntos importantes para as nossas vidas. (COIMBRA, 2001, p. 40).

Tendo abordado algumas concepções a respeito do desenvolvimento dos meios de comunicação e seu papel na ocultação de questões primordiais presentes nas relações sociais, além da propagação dos ideais das classes dominantes, cabe relacioná-las ao quadro brasileiro no que diz respeito à questão da violência.10

Sobre a definição do fenômeno da violência, Barreira e Batista (2011) nos trazem questionamentos sobre o uso cotidiano do termo e quais ações podem se configurar no mesmo. Para os autores isso faz parte de uma escolha e seleção presente em toda sociedade, que determina quais os atos humanos são considerados inaceitáveis, e, portanto, que devem ser caracterizados como violentos. Em sua maioria, são definições relacionadas ao uso da força, direta ou indiretamente, em situações de confrontos entre indivíduos e/ou grupos. Tal construção social e histórica vai ao encontro com a discussão que propomos, tendo em vista que consideramos a influência da mídia nesse paradigma.

Na sociedade brasileira, a questão da violência é cada vez mais banalizada, tendo como principal exemplo a cidade do Rio de Janeiro, palco de um imenso contraste social onde as belas paisagens naturais e os bairros nobres se mesclam às favelas. Palco onde crimes bárbaros são recorrentes e que dificilmente sensibilizam a população, exceto quando a mídia volta o seu olhar e os divulga de acordo com seus interesses.

O termo violência está diretamente relacionado aos Direitos Humanos e com a garantia dos mesmos. Mas será que realmente tais direitos conseguem se efetivar iguais numa sociedade de desiguais? A sociedade brasileira, em alguns momentos, parece “esquecer” de seu passado colonial para culpabilizar indivíduos isoladamente, deixando de lado todo contexto histórico responsável pela atual divisão de classes do país.

      

10 Termo que em sua definição consiste em ato que causa dano físico, patrimonial, psíquico, moral ou político à pessoa ou à sociedade, pelo qual o sujeito é tratado como coisa ou objeto. Sendo a

brutalidade que transgride o humano dos humanos e que, usando abusivamente de força viola a subjetividade (pessoal, individual, social), reduzindo-a a condição de coisa. 

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Vivemos num ambiente constante de propagação do medo, tendo em vista que por sua natureza, todos os homens estão sujeitos ao medo. Desta forma, podemos enfatizar o contexto histórico do advento da sociedade moderna, pois a partir desse período, os homens foram além dos medos relacionados a Deus, ao diabo e a própria natureza (característica das sociedades medievais de forte caráter religioso), e, dessa maneira, adquiriram o medo dos outros homens. Assim, a própria concepção de medo sofreu uma transformação, visto que, de teológico-político tornou-se sociopolítico.

Desse modo, nasceram os direitos do homem e do cidadão, tendo em vista que as teorias políticas modernas pensam o direito como garantia jurídica, social e política contra o medo de que os sujeitos sociais têm dos outros sujeitos sociais.

Então, qual a solução para superação do medo entre os homens?

Considerando o caso da modernidade, é levantada a ideia de que tal solução seria instituir uma instância separada deles e superior a eles, à qual se possa conferir o direito do exercício, da coerção e da vingança impessoais, cuja consecução depende da clara definição dos direitos e deveres dos homens enquanto indivíduos vivendo em sociedade, mas também da clara definição de a quem cabe o direito de exercer tais funções explicitadas, assim, tornando inseparáveis os direitos dos homens enquanto indivíduos dos seus direitos enquanto cidadãos, fato que legitima ao Estado o direito ao “uso legal da violência”.

Ora, perante o Estado de Direito todos são livres e iguais, sendo assim, as desigualdades sociais, econômicas, culturais e as injustiças políticas não se apresentam como desigualdades nem injustiças.

Chauí (2007) aborda a questão que na sociedade brasileira podemos falar em uma divisão social do medo,11 ou seja, as diferentes classes sociais possuem medos diferentes. E de fato a mídia se utiliza dessas diferenças para definir suas análises a serem apresentadas para os diversos segmentos da população. Destaca dentre os procedimentos de exclusão que negam à questão da violência no Brasil a separação entre “nós”, brasileiros de bem e “eles”, infratores, geralmente oriundos de classes pobres, exceto nos casos de crimes envolvendo colarinhos brancos.

      

11 Marilena Chauí em seu livro “Simulacro e poder – Uma análise da mídia” aponta para os diferentes tipos de medo das classes sociais considerando que a classe dirigente teme perder o poder e seus privilégios; a classe dominante teme perder riquezas e que a classe trabalhadora teme o

desemprego, as questões relacionadas à violência cotidiana e a queda na marginalidade e na miséria absoluta, entre outros. Ou seja, as classes sociais mais baixas possuem medos que dizem respeito à perda de seus direitos enquanto humanos.  

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